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ainda não pensei

Sombras e Notificações

O dia seguinte à visita na Elysium começou com um silêncio atípico no quarto de Park Jimin. Geralmente, ele acordaria e passaria os primeiros quarenta minutos analisando as métricas do vídeo postado na noite anterior, mas hoje, a luz que entrava pelas cortinas de veludo parecia menos interessante do que a memória da voz de Jeon Jungkook.

Ele se espreguiçou, sentindo o corpo leve, e tateou a mesa de cabeceira em busca do celular. O aparelho estava quente, uma prova de que as notificações não haviam dado trégua.

— Jesus, Maria e José... — murmurou Jimin, a voz rouca, ao ver que o grupo "Manicômio" tinha mais de quinhentas mensagens acumuladas desde as três da manhã.

Ele desbloqueou a tela e começou a ler, sentindo um sorriso brotar nos lábios.

Jin: *Gente, eu ainda não superei o Jimin tentando explicar o que é Serasa pro Jungkook. A cara do JK foi impagável. Ele parecia estar processando uma equação quântica.*

Yoongi: *O pior não foi isso. O pior foi o Jungkook tentando usar "aestetic" no final. Eu quase cuspi meu whisky. O Jimin tem esse efeito nas pessoas, ele derrete o cérebro de quem tem mais de trinta anos.*

Jin: *Ele não tem trinta anos, Yoongi! Ele só é... vintage. Um Alfa vintage e perigoso que pode mandar a gente pra vala se a gente continuar rindo.*

Jimin: *Bom dia para quem já acordou sendo o centro das atenções. Primeiro: ele não é vintage, ele é clássico. Segundo: eu estou em surto. O aura daquele homem é um evento. Eu me senti uma subcelebridade de reality show perto dele.*

Yoongi: *Você É uma celebridade, Jimin. O Jungkook que vive em uma caverna de luxo. Mas e aí? Ele te mandou mensagem no Kakao?*

Jimin pausou a digitação. Ele abriu a aba de conversas principais. Nada. Apenas mensagens de marcas de luxo, seu agente e alguns contatos de trabalho.

Jimin: *Nada. O deserto do Saara no meu chat. Acho que ele esqueceu que eu existo assim que eu saí pela porta.*

Jin: *Duvido. O Namjoon me disse que o Jungkook ficou encarando o lugar onde você sentou por uns cinco minutos depois que você saiu. O homem está em choque térmico, Jimin. Você deu um nó na cabeça do mafioso.*

Jimin riu, jogando o celular de lado e levantando-se para começar sua rotina de skincare. Enquanto aplicava o sérum caríssimo com movimentos circulares e precisos, ele se olhou no espelho. A máscara de modelo estava lá, mas o brilho nos olhos era diferente. Ele pensou em Jungkook. O Alfa não usava redes sociais, não buscava validação e não se importava com ângulos. Era um contraste absurdo com o mundo de Jimin, onde tudo era calculado.

— Ele é muito "low profile", chega a ser um crime — disse Jimin para o seu reflexo. — Mas o "shape" daquele homem... Deus tem seus favoritos.

O resto da manhã foi preenchido por uma reunião via Zoom com seu agente e uma equipe de marketing de Paris. Jimin era um profissional impecável. Sua fala era mansa, seu vocabulário era rico e ele demonstrava um conhecimento profundo sobre tendências de mercado.

— Acredito que a estética minimalista para a próxima campanha da Dior na Coreia precisa de um toque mais orgânico — explicou Jimin, ajustando a câmera para que a luz valorizasse seu perfil. — O público jovem está cansado de perfeição plástica. Eles querem algo que pareça real, mesmo que seja minuciosamente planejado.

— Concordamos plenamente, Jimin — respondeu o executivo francês. — Sua visão é sempre muito à frente.

Assim que a chamada encerrou, Jimin desabou na cadeira e soltou um suspiro longo.

— Mona, eu não aguento mais falar "orgânico" e "minimalista" — resmungou ele, pegando o celular novamente.

Foi então que ele viu. Uma notificação nova no Kakaotalk. Um número não salvo, com uma foto de perfil que era apenas um fundo preto.

"Espero que tenha descansado. O café da manhã na cobertura de Gangnam é tão bom quanto dizem os críticos?"

Jimin sentiu um frio na barriga que não sentia desde seu primeiro desfile internacional.

Jimin: *Sr. Jeon? Como conseguiu meu número? (Não que eu esteja reclamando, mas o mistério é real).*

A resposta veio quase instantaneamente. Jungkook não jogava jogos de espera.

Jungkook: *Eu comando a Noctis, Jimin. Conseguir um número de telefone é a tarefa mais simples do meu dia. E por favor, dispense o "Sr. Jeon". Ontem à noite você me chamou apenas de Jungkook.*

Jimin mordeu o lábio inferior, os dedos voando pela tela.

Jimin: *A audácia dele... Gostei. E sim, o café aqui é ótimo, mas falta companhia. E como o senhor — digo, você — sabe onde eu moro?*

Jungkook: *Eu sei tudo o que preciso saber sobre as pessoas que me interessam. Você me interessa, Park Jimin.*

Jimin: *Gente, o emocionado? Brincadeira. Fico lisonjeado. Mas cuidado, Jungkook, meu tribunal pode ser bem rigoroso com quem tenta entrar na minha vida assim, sem pedir licença.*

Jungkook: *Eu não peço licença, Jimin. Eu ocupo o espaço. Mas, por você, estou disposto a aprender as regras desse seu "tribunal".*

Jimin bloqueou o celular e deu um gritinho abafado no travesseiro. Ele precisava contar isso no grupo imediatamente.

Jimin: *GENTE! O HOMEM MANDOU MENSAGEM! Ele disse que eu interesso a ele. Eu tô passando mal, a pressão caiu aqui.*

Yoongi: *Lá vem. O Jimin vai começar com o "fanfic" na vida real. Cuidado, Jimin, o Jungkook não é um desses idols que você sai pra jantar. Ele é o puro suco do perigo.*

Jin: *Deixa o menino, Yoongi! Se o Jimin virar a rainha da máfia, a gente vai ter entrada VIP em todos os cassinos clandestinos da Ásia. Jimin, joga o seu charme. Faz ele usar uma gíria nova hoje.*

Jimin: *Pode deixar. Vou fazer ele falar "serviu" até o final da semana.*

***

Três dias se passaram. A comunicação entre Jimin e Jungkook tornou-se uma constante estranha e fascinante. Jungkook era direto, seco e muitas vezes não entendia as referências de Jimin, o que gerava diálogos cômicos.

Jungkook: *O que significa "entregou tudo"? Entregou o quê? Eu não pedi nenhum relatório.*

Jimin: *Socorro, Jungkook! É uma gíria. Significa que alguém fez algo muito bem. Tipo, você entregou tudo naquela foto que o Namjoon postou de costas treinando. (Sim, eu vi).*

Jungkook: *Eu não vejo sentido em falar assim, mas se você diz... E pare de olhar fotos minhas no perfil dos outros. Se quiser me ver, eu busco você.*

E ele buscou.

Naquela sexta-feira à noite, um sedan preto blindado parou em frente ao prédio de Jimin. Não era um carro de luxo chamativo; era discreto, potente e exalava uma autoridade silenciosa. Kim Jisung, o segurança de confiança, estava ao volante.

— Boa noite, Sr. Park — disse Jisung, abrindo a porta traseira com uma reverência. — O Sr. Jeon o aguarda no restaurante.

— Boa noite, Jisung. Pode me chamar de Jimin, por favor. O "Sr. Park" me faz sentir que eu tenho cinquenta anos e uma conta no LinkedIn — Jimin sorriu, entrando no carro.

Jisung deu um meio sorriso, algo raro para o segurança sério.

— Entendido, Jimin.

O trajeto foi silencioso, mas a mente de Jimin estava a mil por hora. Ele estava usando um terno de corte impecável da Saint Laurent, sem camisa por baixo, apenas um colar de pérolas negras que descansava em seu peito. Ele sabia que estava "servindo" um visual matador.

O restaurante ficava no topo de um dos prédios de Jungkook. Não havia outros clientes. As luzes de Seul brilhavam através das paredes de vidro, criando um cenário que parecia um filme de espionagem. Jungkook estava em pé perto da mesa, vestindo uma camisa social preta com os primeiros botões abertos, revelando o início das tatuagens que subiam pelo pescoço.

— Você está atrasado cinco minutos — disse Jungkook, mas não havia raiva em sua voz, apenas uma observação.

— Um ícone nunca chega atrasado, as pessoas é que chegam cedo demais — rebateu Jimin, aproximando-se com a confiança de quem desfila em Paris. — Você está muito bonito, Jungkook. O "look" está bem "clean girl", ou melhor, "clean alfa".

Jungkook franziu o cenho, puxando a cadeira para Jimin se sentar.

— "Clean alfa"? Jimin, às vezes eu sinto que você fala uma língua que ainda não foi codificada pela inteligência militar.

Jimin soltou uma risada melodiosa, sentando-se.

— É apenas o jeito que a gente se comunica hoje em dia. Você é muito "old school". Mas não se preocupe, eu vou te atualizar.

O jantar foi uma experiência sensorial. A comida era divina, mas a tensão entre os dois era o prato principal. Jungkook observava cada movimento de Jimin — a forma como ele segurava a taça de vinho, como seus lábios brilhavam sob a luz baixa, a maneira como ele inclinava a cabeça quando ria.

— Por que você faz isso? — perguntou Jungkook, de repente, interrompendo um relato de Jimin sobre um evento de moda desastroso.

— Faço o quê? — Jimin piscou, confuso.

— Vive essa vida dupla. Aqui, comigo, você é espontâneo, fala essas coisas estranhas e parece... real. Mas eu vi suas entrevistas. Você é outra pessoa.

Jimin suspirou, deixando a taça sobre a mesa. A máscara caiu por um segundo.

— O mundo não quer o Jimin que fala gírias e reclama de inchaço matinal, Jungkook. Eles querem o sonho. Eles querem o ômega perfeito que nunca erra o tom de voz. Ser um influenciador desse nível é como ser um ator em uma peça que nunca termina.

Jungkook estendeu a mão sobre a mesa, cobrindo a mão de Jimin com a sua. A pele do Alfa era quente e áspera, um contraste reconfortante com a delicadeza de Jimin.

— Uma peça exaustiva — comentou Jungkook. — Na máfia, a gente não usa máscaras de perfeição. Usamos máscaras de medo. Mas, no fundo, é a mesma coisa. Estamos sempre protegendo algo.

— O que você protege, Jungkook? — perguntou Jimin em um sussurro.

— Minha família. Meus homens. E agora... — Ele apertou levemente a mão de Jimin. — Estou começando a achar que quero proteger você também. Do seu "tribunal" e de qualquer outra coisa.

Jimin sentiu o coração falhar uma batida. Ele abriu a boca para fazer uma piada, para descontrair com alguma gíria, mas as palavras não vieram. O momento era real demais.

— Isso foi muito "husband material" da sua parte — Jimin finalmente disse, a voz suave.

Jungkook soltou um suspiro curto, quase uma risada.

— Eu não sei o que é isso, mas vou assumir que é um elogio.

— É o maior dos elogios — garantiu Jimin.

Enquanto terminavam o vinho, o celular de Jimin vibrou no colo. Ele deu uma olhada rápida. Era uma mensagem de Jugwoon, o irmão de Jungkook, no grupo secreto que eles haviam criado sem o Alfa saber.

Jugwoon: *Jimin, socorro! O Jisung me pegou olhando pra ele de novo e agora ele tá sendo extra profissional comigo. Eu vou coringar! Me ajuda a dar um "glow up" na minha coragem.*

Jimin sorriu para a tela, mas logo sentiu o olhar inquisidor de Jungkook sobre si.

— O que foi? Algum problema no "manicômio"? — perguntou o Alfa, lembrando-se do nome do grupo que Jimin mencionara antes.

— Nada demais. Só o seu irmão sendo um fofo e sofrendo por amor. O "pobi" está em frangalhos pelo Jisung.

Jungkook endureceu os ombros imediatamente. A aura de proteção fraternal se acendeu.

— O quê? O Jisung é um soldado. O Jugwoon é...

— O Jugwoon é um ômega com sentimentos, Jungkook. Não seja um "red flag" agora — Jimin o repreendeu, apontando o dedo de leve. — Eles combinam. O Jisung é todo sério e o Jugwoon é um raio de sol. É a estética "grumpy x sunshine" perfeitamente executada.

Jungkook esfregou a têmpora, visivelmente confuso com os termos, mas entendendo a gravidade da situação.

— Eu vou ter uma conversa com o Jisung.

— Não! Se você fizer isso, vai estragar o "slow burn"! — Jimin quase gritou, fazendo Jungkook pular levemente na cadeira. — Deixa acontecer naturalmente. É mais excitante.

Jungkook olhou para Jimin como se ele fosse uma criatura de outro planeta.

— "Slow burn", "red flag", "grumpy"... Jimin, eu sinto que preciso de um dicionário para jantar com você.

— Você precisa de mim, Jungkook. É diferente — Jimin piscou, recuperando sua aura atrevida.

O jantar terminou e eles foram para a varanda observar a cidade. O vento frio de Seul bagunçava os cabelos loiros de Jimin, e Jungkook, sem dizer uma palavra, tirou o paletó e o colocou sobre os ombros do ômega.

— Obrigado — disse Jimin, aconchegando-se no tecido que cheirava exatamente como o Alfa.

— Jimin — Jungkook chamou, sua voz voltando ao tom barítono e sério. — Eu sei que o seu mundo é feito de imagens e o meu de sombras. Mas eu gostaria que você considerasse... fazer parte das minhas sombras de vez em quando. Sem câmeras. Sem seguidores.

Jimin olhou para o homem ao seu lado. Ele viu a cicatriz discreta perto do olho de Jungkook, viu a força em suas mãos e a vulnerabilidade rara em seu olhar.

— Eu adoraria — respondeu Jimin. — Mas tem uma condição.

Jungkook arqueou a sobrancelha.

— Qual?

— Você vai ter que me deixar gravar um TikTok com você. Só um. Sem mostrar seu rosto, prometo. Só a sua mão ou a sua silhueta.

Jungkook soltou uma risada verdadeira, um som raro que aqueceu o peito de Jimin.

— Você é impossível, Park Jimin.

— Eu sou um "it boy", Jungkook. É o meu dever ser impossível.

Naquela noite, antes de dormir, Jimin não postou nada sobre o jantar. Ele não tirou foto do prato, nem do vinho, nem da vista. Pela primeira vez em anos, ele guardou o melhor momento do seu dia apenas para si.

Mas, claro, ele não resistiu ao grupo.

Jimin: *Gente, o date foi um 10/10. Ele me deu o paletó, falou que quer me proteger e eu quase chamei ele de "daddy" sem querer. O soco que o amor deu na minha cara foi forte.*

Yoongi: *Obrigado pela informação, Jimin. Agora eu vou lavar meus olhos com água sanitária.*

Jin: *Ignora o Yoongi, ele tá amargo porque o Taehyung e o Hoseok estão em uma missão e ele tá carente. Conta tudo! Teve beijo? Teve promessa de casamento de máfia?*

Jimin: *Ainda não. Mas o "slow burn" está delicioso. O Jungkook é o puro suco do mistério, mas eu sinto que ele já caiu no meu "gaslight, gatekeep, girlboss". Ele é meu, ele só não sabe ainda.*

Longe dali, em seu escritório escuro, Jeon Jungkook olhava para a tela do celular. Ele pesquisava no Google, com uma expressão de extrema concentração, o significado de "husband material".

Ao encontrar a definição, um sorriso de canto apareceu em seu rosto.

— Atrevido — murmurou Jungkook para o silêncio da sala. — Muito atrevido, Park Jimin.

A guerra entre as máfias poderia estar fervendo lá fora, e o tribunal da internet poderia ser implacável, mas ali, naquele espaço entre as gírias modernas e o silêncio do poder, algo novo e incontrolável estava nascendo. E nenhum dos dois estava pronto para dar o "log out".