ainda não pensei
O Despertar do Caos e o Glossário do Crime
A luz da manhã de sábado em Seul parecia ter um filtro de saturação extra para Park Jimin. Ele estava jogado em seu sofá de design italiano, vestindo um robe de seda que custava mais do que um carro popular, enquanto encarava o teto. O cheiro de Jungkook — aquele mix de tabaco caro, madeira e algo puramente alfa — ainda parecia impregnado em sua pele, mesmo após o banho.
O silêncio de sua cobertura foi interrompido pelo som estridente de notificações em massa. O grupo "Manicômio" estava em chamas.
— Ai, lá vem a tropa do desespero — murmurou Jimin, rindo sozinho e desbloqueando o celular.
Jin: *GENTE, EU TÔ NO CHÃO! O Namjoon chegou em casa ontem com uma cara de quem viu um fantasma. Ele disse que o Jungkook passou a madrugada lendo sobre "comportamento geracional" no tablet. JIMIN, O QUE VOCÊ FEZ COM O HOMEM?*
Yoongi: *O apocalipse começou. O JK pediu pro Hoseok explicar o que é "gaslighting" hoje cedo durante o treino de tiro. O Hoseok quase deu um tiro no próprio pé de susto.*
Jimin: *Gente, eu tô passando mal! KKKKKKK. Eu só disse que ele era "husband material". O divo deve ter entrado em colapso tentando decifrar. O soco de cultura que eu tô dando na Noctis é de milhões.*
Jin: *Mona, você é um perigo público. Se o Jungkook começar a falar igual a gente, a Máfia rival vai achar que ele foi substituído por um clone da Geração Z. Imagina ele chegando pro Kang Hyugseok e falando: "Sua energia tá muito negativa, mona, melhore".*
Yoongi: *Eu pagaria pra ver isso. Mas sério, Jimin, baixa a bola. O Jungkook é emocionado mas é perigoso. Ontem o Taehyung disse que o clima na sede tá tenso. A máfia rival tá se movimentando.*
Jimin: *Eu sei, Yoongi. Eu sinto o peso quando tô com ele, mas o off dele é muito fofo. Ele tentando ser moderno é o meu império romano.*
Jimin bloqueou o celular. Ele precisava se arrumar. Tinha um ensaio fotográfico para uma marca de joias, mas sua mente estava em como Jungkook reagiria se ele mandasse um "bom dia, vida" com um emoji de coração de fogo.
Enquanto isso, na sede da Máfia Noctis, o clima era o oposto do luxo ensolarado de Jimin. Jeon Jungkook estava sentado na cabeceira da mesa de carvalho da sala de reuniões. Namjoon, Taehyung e Hoseok o observavam com cautela.
— O carregamento do porto de Incheon foi desviado — disse Jungkook, sua voz um barítono frio que cortava o ar como uma lâmina. — Kang Hyugseok está testando minha paciência. Ele acha que, por eu estar... distraído, ele pode avançar no meu território.
— Ele está sendo ousado, senhor — comentou Namjoon, ajustando os óculos. — Mas já localizamos o galpão. O Hoseok pode liderar a equipe de recuperação hoje à noite.
Jungkook assentiu, mas seus olhos pareciam distantes. Ele tamborilou os dedos tatuados na mesa.
— Namjoon — chamou o líder, fazendo o braço direito congelar. — O que exatamente significa quando alguém diz que eu "servi"?
O silêncio que se seguiu foi sepulcral. Taehyung cobriu a boca com a mão para não rir, enquanto Hoseok olhou para o teto, fingindo interesse em uma infiltração inexistente. Namjoon limpou a garganta.
— É... é uma gíria, Jungkook. Significa que você fez algo muito bem. Que você foi impecável.
— Entendi — murmurou Jungkook, voltando ao tom sério. — Pois bem. Quero que a recuperação desse carregamento seja impecável. Quero que a gente "sirva" uma derrota humilhante para o Kang. É assim que se usa?
Hoseok não aguentou e soltou uma risadinha abafada.
— Quase isso, chefe. Quase isso.
A reunião foi encerrada, mas Jungkook chamou Taehyung em particular.
— Como está o Jugwoon? — perguntou o Alfa Lúpus, sua expressão suavizando levemente ao mencionar o irmão.
— Ele está bem, Jungkook. Mas... você sabe. Ele se sente sufocado com tanta segurança. E o Jisung está sendo, bem, o Jisung. Um muro de gelo.
Jungkook suspirou.
— O Jimin me disse que o Jugwoon tem sentimentos por ele. Eu não sei o que fazer com essa informação. Na minha época, a gente só... declarava o interesse. Agora parece que existe todo um roteiro de "slow burn" que eu não entendo.
— Deixa o garoto, Jungkook — Taehyung sorriu, colocando a mão no ombro do amigo. — E deixa o Jimin te ensinar. Você parece mais vivo desde que ele apareceu. Mesmo que você agora fale coisas que ninguém entende.
***
À noite, após o ensaio fotográfico, Jimin decidiu fazer algo arriscado. Ele sabia que Jungkook estaria ocupado — o Alfa tinha sido vago sobre seus planos para a noite —, então ele resolveu ir até a mansão Jeon. Ele tinha a senha do portão lateral, cortesia de Jugwoon, que estava desesperado por uma "consultoria de imagem e amor".
Ao chegar, Jimin encontrou Jugwoon no jardim, olhando para a lua com uma expressão melancólica. Jisung estava parado a cinco metros de distância, as mãos cruzadas atrás das costas, como uma estátua.
— O soco de tristeza que esse jardim exala tá me dando gatilho — anunciou Jimin, caminhando em direção ao ômega mais novo.
Jugwoon deu um pulo, mas sorriu ao ver o modelo.
— Jimin! O que você está fazendo aqui? O meu irmão não está.
— Eu sei, ele está por aí fazendo coisas de mafioso — Jimin deu de ombros, olhando para Jisung e piscando. O segurança apenas inclinou a cabeça, mantendo a face neutra. — Eu vim ver você. O seu grupo de mensagens estava muito parado, achei que você tinha ido de arrasta pra cima por causa desse alfa de gelo aí.
Jugwoon corou violentamente.
— Jimin, fala baixo!
— Falar baixo pra quê, mona? A vida é curta, o mundo tá acabando em fogo e você aí, perdendo tempo com esse "slow burn" de centavos — Jimin sentou-se ao lado de Jugwoon no banco de pedra. — Jisung, vem cá.
O segurança hesitou, olhou ao redor e se aproximou.
— Sim, Sr. Park?
— Primeiro: é Jimin. Segundo: você não cansa de ser esse muro? O Jugwoon tá aqui servindo beleza, carisma e um perfume que custa o meu cachê da Vogue, e você aí, parado igual um NPC de videogame.
Jisung piscou, claramente confuso com o termo "NPC".
— Eu tenho um dever a cumprir, Jimin. A segurança do Sr. Jugwoon é minha prioridade.
— Pois sua prioridade devia ser dar um beijo nele e acabar com esse sofrimento — Jimin se levantou, ajeitando a jaqueta. — Enfim, vim trazer uns mimos pro Jugwoon. Trouxe aquelas máscaras faciais de ouro que eu te prometi. Vamos entrar, quero fofocar e fugir desse clima de enterro.
Enquanto os dois ômegas entravam na mansão, Jisung ficou para trás, processando as palavras de Jimin. Ele olhou para as próprias mãos, sentindo o peso do dever lutar contra algo muito mais forte que crescia em seu peito toda vez que Jugwoon sorria.
Dentro da mansão, Jimin e Jugwoon se jogaram no tapete felpudo do quarto do mais novo.
— Jimin, o Jungkook vai me matar se souber que você está me incentivando a... você sabe — disse Jugwoon, enquanto aplicava a máscara dourada.
— O Jungkook não mata ninguém que eu protejo, querido. Eu tenho ele na palma da minha mão — Jimin disse, embora sentisse um frio na barriga ao lembrar que Jungkook era, tecnicamente, um assassino profissional. — Mas me conta, como tá o clima na "Noctis"? O Yoongi disse que a máfia rival tá atacando.
— Está tenso — Jugwoon suspirou. — O Kang Hyugseok é um monstro. Ele não tem honra. O Jungkook está tentando resolver sem iniciar uma guerra total, mas eu sinto que o soco vai ser grande.
Jimin ficou em silêncio por um momento. Ele vivia em um mundo de luzes, mas o perigo de Jungkook era muito real.
— Ele vai ficar bem — afirmou Jimin, mais para si mesmo do que para Jugwoon. — Ele é o puro suco do poder, não vai cair por causa de um vilão de quinta categoria.
De repente, o som de carros chegando em alta velocidade ecoou pelo pátio da mansão. Jimin e Jugwoon se entreolharam.
— Ele voltou — disse Jugwoon.
Jimin desceu as escadas correndo, esquecendo-se da máscara facial que ainda estava em seu rosto. Quando chegou ao hall de entrada, a porta se abriu com estrondo.
Jungkook entrou primeiro. Ele estava impecável, exceto por um pequeno corte no lábio e os nós dos dedos manchados de sangue. Atrás dele, Namjoon e Hoseok pareciam exaustos.
O olhar de Jungkook varreu o ambiente até encontrar Jimin. Ele parou, os olhos escuros analisando a figura loira com uma máscara de ouro no rosto e um pijama de seda.
— Jimin? O que faz aqui a esta hora? — a voz de Jungkook estava carregada de cansaço, mas havia um brilho de alívio ao ver o ômega.
— Eu vim fazer um "skincare" de emergência no seu irmão, mas pelo visto quem precisa de cuidados é você — Jimin caminhou até ele, sem medo das manchas de sangue. — Você está horrível, Jungkook. O "look" de hoje é "sobrevivente de um desastre", e eu não gostei.
Jungkook soltou uma risada rouca, sentindo a tensão dos ombros diminuir.
— Nós recuperamos o carregamento. O Kang não vai nos incomodar por um tempo.
— Que bom, porque eu não aceito namorar um alfa que perde pra vilão capenga — Jimin pegou um lenço de seda do bolso e começou a limpar o corte no lábio de Jungkook. — Isso aqui vai ficar inchado. O mico, Jungkook. Logo no seu rosto de milhões.
— "Mico"? — Jungkook repetiu, deixando Jimin cuidar dele. — É algo ruim?
— É o auge da humilhação, mas eu te perdoo porque você serviu justiça — Jimin sorriu, seus olhos brilhando.
Namjoon e Hoseok passaram por eles, trocando olhares divertidos.
— A gente vai pro escritório — anunciou Namjoon. — Avisem se o "tribunal do Twitter" decidir a sentença do Jungkook.
Jungkook ignorou os amigos e segurou a cintura de Jimin, puxando-o para mais perto. O cheiro de pólvora ainda estava nele, mas Jimin não se importou.
— Eu senti sua falta hoje — confessou o Alfa, sua voz baixa apenas para Jimin ouvir. — No meio da confusão, eu só conseguia pensar que precisava voltar para ver se você tinha postado mais alguma daquelas fotos que me deixam... confuso.
— Ah, então o senhor é meu seguidor secreto? — Jimin brincou, os braços em volta do pescoço de Jungkook. — Que "stalker" de luxo eu arrumei.
— Eu não sou "stalker", Jimin. Eu sou um observador atento — Jungkook corrigiu, aproximando o rosto do dele. — E eu decidi uma coisa hoje.
— O quê?
— Eu não me importo com as suas gírias, ou com o fato de você viver em um celular. Se você estiver comigo quando as luzes se apagarem, o resto é apenas ruído.
Jimin sentiu o coração derreter.
— Isso foi muito "endgame" de você, Jungkook.
— "Endgame"? — Jungkook suspirou, encostando a testa na de Jimin. — Mais uma para o dicionário?
— Essa é a mais importante — Jimin sussurrou, antes de selar seus lábios nos de Jungkook. — Significa que, no final, é você e eu. Sem filtros.
O beijo foi lento, profundo e cheio de uma promessa que nenhuma rede social poderia capturar. Ali, no hall da mansão da máfia mais perigosa da Coreia, Park Jimin percebeu que, embora amasse seus milhões de seguidores, o único "like" que realmente importava era o pulsar do coração de Jeon Jungkook contra o seu.
Mais tarde, após Jungkook tomar banho e Jimin cuidar de seus ferimentos (com direito a muitos comentários sobre como a pele do Alfa precisava de hidratação), Jimin abriu o grupo "Manicômio".
Jimin: *Gente, atualizações. O Jungkook voltou da guerra, tá todo marcado, mas continua sendo o dono da minha vida. O soco de amor foi dado com sucesso. E ele tá aprendendo! Ele não sabe o que é "endgame", mas ele tá agindo como um.*
Jin: *AMÉM! A primeira-dama da Noctis é oficial! Eu já vou separar meu terno pra posse. Namjoon que se prepare, eu vou querer um cargo de consultor de luxo nessa máfia.*
Yoongi: *O Jimin é o único ômega que vê um mafioso sangrando e reclama do "skincare" dele. Vocês são doentes. Eu amo isso.*
Jimin olhou para Jungkook, que estava deitado ao seu lado na cama imensa, tentando entender como funcionava o "feed" do Instagram que Jimin insistia em mostrar.
— Então, se eu apertar esse coração duas vezes, eu estou dizendo que gosto da foto? — perguntou Jungkook, concentrado.
— Isso, Jungkook. Você está dando um "like".
Jungkook olhou para uma foto de Jimin de costas, olhando para o mar. Ele apertou a tela duas vezes com o polegar.
— Pronto. Mas eu prefiro o original.
Jimin sorriu e encostou a cabeça no ombro do Alfa. O mundo lá fora podia ser um caos de pixels e poder, mas ali, entre os lençóis de fios egípcios e o silêncio da noite, tudo estava perfeitamente "on fleek".