Alem das paginas
O Beijo da Lâmina e a Dança do Veneno
A atmosfera na mansão Cassandro havia mudado de uma tensão elétrica para um estado de vigilância absoluta. Após o episódio do motel e o confronto na praça, Sofia sentia o peso de quatro sombras constantes sobre seus ombros. Davi, seu marido, havia reforçado a segurança da propriedade, mas o verdadeiro perigo — ou prazer, dependendo do ponto de vista dela — não vinha de homens armados nos portões, mas dos três intrusos literários que agora ocupavam seus corredores como deuses exilados.
Sofia estava no jardim de inverno, cercada por orquídeas raras e o cheiro de terra molhada. Ela segurava um livro, mas seus olhos não seguiam as letras. Ela sentia a presença de Asher antes mesmo de ouvi-lo. O loiro de olhos hipnotizantes tinha uma habilidade perturbadora de se mover sem emitir som, uma característica que ela lembrava bem de seu livro: o assassino silencioso que nunca deixava rastros.
— Você está lendo sobre nós de novo? — A voz de Asher surgiu logo atrás de seu ouvido, fria e carregada de um sarcasmo cortante.
Sofia fechou o livro com um estalo seco e virou-se lentamente, sustentando o olhar dele.
— Estou tentando entender a lógica de vocês. No livro, você é calculista, Asher. Aqui, você parece apenas... irritado.
Ele se aproximou, encurralando-a contra a poltrona de vime. Seus olhos loiros, quase translúcidos, brilhavam com uma intensidade perigosa.
— É difícil manter o cálculo quando a variável principal se esforça tanto para ser destruída. Você brinca com o Davi, brinca com o Dante, e agora acha que pode me usar como distração?
— Eu não uso ninguém, Asher. Eu apenas permito que vocês mostrem quem realmente são — ela respondeu, a voz suave, mas carregada de desafio.
Antes que ele pudesse responder, Cole entrou no ambiente. Ele carregava uma garrafa de uísque e dois copos, o maxilar definido travado em uma expressão de puro descontentamento.
— O marido italiano está no escritório gritando ao telefone — Cole anunciou, servindo-se de uma dose generosa. — Parece que a pequena escapada da Sofia com o "amiguinho" da faculdade chegou aos ouvidos de uma família rival. Estão rindo da cara do Davi.
Sofia sentiu uma pontada de satisfação. Era exatamente o que ela queria: o caos. Se ela não podia ter paz, nenhum deles teria.
— Que pena — ela disse, levantando-se e caminhando em direção a Cole. — Talvez se vocês passassem menos tempo me vigiando e mais tempo cuidando dos negócios, ninguém estaria rindo.
Cole segurou o braço dela com firmeza quando ela tentou passar por ele. O toque era quente, possessivo, e seus olhos escuros pareciam querer devorá-la.
— Você adora o perigo, não é, Sofia? — Cole murmurou, aproximando o rosto do dela. — Adora ver o sangue subir à nossa cabeça. Mas tome cuidado. Homens como nós não sabem onde termina a proteção e onde começa a punição.
— E qual seria a minha punição, Cole? — ela provocou, inclinando a cabeça. — Outro quarto trancado? Ou você vai finalmente admitir que não sabe o que fazer comigo?
— Eu sei exatamente o que fazer com você — ele sibilou, mas foi interrompido pelo som de passos pesados.
Davi e Dante entraram no jardim de inverno quase ao mesmo tempo. A diferença de altura entre eles e a semelhança na aura de comando criavam uma imagem surreal. Davi parecia exausto, mas seus olhos brilhavam com a fúria fria que o tornava o chefe da máfia mais respeitado da Itália.
— Dante me contou sobre o que ele viu na praça em detalhes — Davi disse, sua voz ecoando pelas paredes de vidro. — Sofia, você não é apenas minha esposa. Você é a imagem da minha autoridade. Se você se rebaixa a sair com civis insignificantes, você me insulta.
— Eu não me rebaixo, Davi — ela retrucou, soltando-se de Cole e caminhando para o centro do grupo. — Eu apenas lembro a vocês que eu existo fora destas paredes. Vocês quatro estão tão ocupados tentando descobrir como Dante, Asher e Cole saíram de um livro que esqueceram que eu não sou uma propriedade que vocês podem dividir.
Dante deu um passo à frente, sua presença intimidante fazendo o ar parecer mais denso.
— Nós não estamos dividindo você, Sofia. Estamos decidindo quem vai te manter viva primeiro. Você acha que aquele motel foi uma brincadeira? Eu vi dois carros pretos te seguindo antes de eu entrar. Se não fôssemos nós, você estaria em um porão agora, sendo usada como moeda de troca contra o Davi.
Sofia sentiu um frio na espinha, mas não deixou transparecer.
— Então por que não me deixam ir? Se sou um fardo tão grande, abram os portões.
— Porque nenhum de nós consegue — Asher interveio, sua frieza habitual dando lugar a uma honestidade brutal. — Há algo nesta realidade, ou em você, que nos prende. É como se a nossa existência aqui dependesse da sua atenção.
Davi olhou para Asher com desconfiança. A aliança entre ele e os personagens de ficção era frágil, baseada apenas no objetivo comum de controlar Sofia.
— Eu não me importo com teorias literárias — Davi rosnou. — Eu me importo com o fato de que minha esposa está agindo como uma rebelde sem causa. A partir de hoje, você não sai desta casa sem que pelo menos dois de nós estejam com você.
Sofia soltou uma risada sarcástica.
— Dois? Por que não os quatro? Podemos fazer um desfile pela cidade. "A Mafiosa e seus Quatro Cães de Guarda".
— Não nos chame de cães, Sofia — Cole disse, a voz perigosamente baixa. — Cães mordem para proteger. Nós matamos por prazer.
A discussão foi interrompida pelo toque do celular de Davi. Ele atendeu, ouviu por alguns segundos e sua expressão mudou para algo muito mais sombrio.
— Entendo. Preparem os carros — ele desligou e olhou para os outros três homens. — Temos um problema. O "rapaz comum" com quem a Sofia estava na praça? Ele não era comum. Era um infiltrado dos Valenti.
O silêncio que se seguiu foi mortal. Sofia sentiu o sangue fugir do rosto. O rapaz da faculdade... ela o conhecia há anos, ou pelo menos achava que conhecia.
— Você o trouxe diretamente para a nossa porta, Sofia — Dante disse, sua voz agora destituída de qualquer calor. — Sua necessidade de nos provocar colocou a localização desta casa no mapa dos seus inimigos.
— Eu... eu não sabia — ela sussurrou, a confiança vacilando pela primeira vez.
Davi caminhou até ela e segurou seu queixo, forçando-a a olhar para ele.
— Agora você entende? O mundo em que eu vivo não perdoa erros bobos. E o mundo de onde esses três vieram é ainda pior. Você queria testar nossos limites? Parabéns. Você conseguiu.
— O que vocês vão fazer? — ela perguntou, a voz trêmula.
— Nós vamos limpar a sua bagunça — Asher respondeu, verificando uma faca escondida em sua bota. — Mas quando voltarmos, Sofia, a brincadeira acaba. Você vai aprender o que significa pertencer a homens como nós.
Os quatro saíram, deixando Sofia sozinha no jardim de inverno. Pela primeira vez em semanas, ela sentiu o peso real da situação. Ela não estava apenas lidando com homens ciumentos; ela estava no epicentro de uma guerra onde a ficção e a realidade se chocavam com violência.
Horas se passaram. Sofia vagava pela mansão, sentindo as paredes se fecharem ao seu redor. Ela tentou ligar para Davi, mas ele não atendia. Tentou encontrar alguma pista nos livros onde Dante, Asher e Cole haviam sido criados, procurando por uma fraqueza, um padrão, qualquer coisa que lhe desse o controle de volta.
Perto da meia-noite, o som de carros subindo a rampa da garagem ecoou. Sofia correu para o hall de entrada.
A porta se abriu e os quatro entraram. Eles estavam impecáveis, como sempre, mas o cheiro de pólvora e metal os acompanhava. Dante tinha um pequeno corte no supercílio, e as mãos de Davi estavam manchadas de algo que não era vinho.
— Está resolvido? — ela perguntou, parando no topo da escada.
Davi olhou para ela, a expressão ilegível.
— O infiltrado não vai mais te incomodar. Nem a família dele.
Asher subiu os degraus lentamente, parando um degrau abaixo de Sofia, o que ainda o deixava mais alto que ela.
— Você nos deve uma, Sofia — ele murmurou, o olhar fixo nos lábios dela. — E nós decidimos como você vai pagar.
— Decidiram? — ela arqueou a sobrancelha, tentando recuperar sua fachada de confiança. — Desde quando vocês tomam decisões em conjunto?
— Desde que percebemos que você é esperta demais para um homem só controlar — Cole disse, surgindo atrás de Asher. — Davi tem a lei deste mundo. Dante tem a força. Asher tem a estratégia. E eu... eu tenho a paciência para quebrar você.
Davi subiu por último, ficando ao lado de sua esposa. Ele colocou a mão possessivamente em sua cintura.
— Eles ficam, Sofia. Não apenas como hóspedes, mas como parte da sua segurança permanente. Se você quer brincar com fogo, eu vou garantir que você tenha as quatro chamas mais intensas ao seu redor o tempo todo.
Sofia olhou para cada um deles. O marido que ela amava e temia, e os três homens que eram a personificação de seus desejos mais sombrios e proibidos. A tensão sexual e o perigo eram quase sufocantes.
— Vocês acham que isso vai me impedir? — ela sussurrou, um sorriso desafiador voltando a seus lábios. — Vocês apenas quadruplicaram a minha diversão.
Dante soltou um riso rouco e segurou a mão dela, beijando os nós de seus dedos enquanto seus olhos nunca deixavam os dela.
— Você é uma criatura fascinante, Sofia Silva. No meu livro, mulheres como você acabam destruindo impérios.
— Talvez seja esse o meu plano — ela respondeu.
Davi apertou a cintura dela, puxando-a para mais perto.
— Se você destruir o meu império, eu construirei outro sobre as cinzas, apenas para ter onde te trancar.
— Tentem — ela desafiou novamente, sentindo o coração disparar.
Naquela noite, a mansão Cassandro não era mais uma casa. Era uma arena. Sofia sabia que a partir de agora, cada passo seria vigiado por oito olhos atentos. Cada provocação teria uma consequência imediata. O ciúme entre eles era uma arma carregada, pronta para disparar ao menor sinal de favoritismo.
Enquanto subia para o quarto, seguida pelas sombras daqueles quatro homens monumentais, Sofia percebeu que a linha entre quem era o caçador e quem era a caça havia se tornado irremediavelmente borrada. Ela os queria ali, e eles não conseguiam ir embora.
O mistério de como eles haviam aparecido ainda pairava no ar, mas enquanto a resposta não vinha, a dança de poder continuaria. E Sofia, com sua inteligência e magnetismo, era a única que sabia a música.
Ao entrar em seu quarto, ela se virou para eles antes de fechar a porta.
— Boa noite, senhores. Tentem não se matar nos corredores. Eu ainda não decidi qual de vocês é o meu favorito hoje.
Ela fechou a porta e encostou-se nela, ouvindo o silêncio pesado do outro lado. Ela sabia que eles não se moveriam por um longo tempo. Eles ficariam ali, guardando seu sono, cada um imaginando uma maneira de ser o único a possuí-la.
O jogo não estava apenas começando; ele havia se tornado mortal. E para Sofia, não havia nada mais excitante do que caminhar no fio da navalha entre quatro abismos. Ela sorriu para a escuridão do quarto, sentindo o poder de sua própria influência. O caos era sua casa, e aqueles quatro homens eram seus servos mais perigosos.
Lá fora, a lua iluminava a propriedade, mas dentro daquelas paredes, o sol nunca nasceria para a liberdade de Sofia. E, no fundo de sua alma complexa, era exatamente assim que ela queria que fosse. A possessividade deles era o seu oxigênio, e ela estava pronta para sufocar em cada grama desse amor distorcido e absoluto.