Alem das paginas
O Labirinto de Espelhos e Sombras
O silêncio na mansão Cassandro após a saída dos homens era uma mentira bem contada. Sofia caminhava pelo corredor de mármore, o som de seus saltos ecoando como batidas de um coração acelerado. Ela sabia que, embora Davi e os outros tivessem saído para "limpar a bagunça", a verdadeira tempestade estava apenas começando a se formar dentro daquelas paredes.
Ela entrou na biblioteca, o único lugar onde o cheiro de papel antigo e couro parecia oferecer algum conforto contra o aroma persistente de pólvora e uísque que os homens exalavam. Sofia buscou o livro de Dante. Suas mãos tremiam levemente ao tocar a capa dura. Como era possível que as palavras de um autor desconhecido tivessem ganhado carne, osso e uma obsessão tão palpável?
— Procurando respostas em páginas que já não podem nos conter? — A voz de Asher surgiu das sombras de uma estante lateral.
Sofia deu um sobressalto, fechando o livro com força. Ela não o tinha ouvido chegar. Asher estava encostado em uma poltrona, uma sombra loira e letal. Ele não tinha saído com Davi?
— Achei que você estivesse com meu marido — ela disse, tentando recuperar a compostura e a voz firme que era sua marca registrada.
— Davi e Dante são brutamontes eficientes. Cole gosta de ver o medo nos olhos dos outros. Eu? — Asher deu um passo à frente, a luz do luar filtrada pelas janelas altas iluminando seus olhos hipnotizantes. — Eu prefiro garantir que o prêmio permaneça onde deve estar. Alguém tinha que ficar para garantir que você não decidisse ter outra "crise de liberdade".
— Você fala como se eu fosse um objeto, Asher.
— Você é muito mais que um objeto, Sofia. Você é o ponto de ancoragem. — Ele se aproximou, o espaço entre eles diminuindo até que ela pudesse sentir o frio que parecia emanar de sua pele. — Já parou para pensar que nós só existimos aqui porque você nos leu com tanta intensidade? Você nos desejou para fora do papel. E agora que estamos aqui, você não sabe como lidar com a fome que criou.
Sofia inclinou o queixo, desafiando a frieza dele.
— Eu lido muito bem com a fome. É a coleira de vocês que me incomoda.
Asher soltou um riso seco, sem humor, e estendeu a mão, tocando uma mecha do cabelo castanho dela.
— A coleira é necessária quando o animal gosta de correr em direção ao abismo. Aquele rapaz dos Valenti... você quase nos entregou em uma bandeja de prata.
— Eu não sabia quem ele era! — ela protestou, embora a culpa começasse a arder em seu peito.
— No nosso mundo, a ignorância é uma sentença de morte. — Ele deslizou a mão para a nuca dela, os dedos frios pressionando a pele sensível. — Se fosse no meu livro, eu já teria te punido de formas que você nem consegue imaginar. Mas aqui... aqui eu tenho que competir com um marido mafioso e dois outros loucos.
O som de carros chegando interrompeu o momento. O portão principal foi aberto e, minutos depois, o rugido dos motores cessou. Davi, Dante e Cole entraram na biblioteca como uma frente fria. Davi estava com o paletó jogado sobre o ombro, a camisa branca aberta no colarinho, revelando a tensão em seu pescoço.
Dante tinha sangue nos nós dos dedos. Cole parecia estranhamente satisfeito, limpando uma pequena mancha no canto da boca.
— Asher — Davi disse, sua voz um rosnado de comando —, eu disse para ficar de olho nela, não para tentar seduzi-la enquanto eu faço o trabalho sujo.
— Eu estava apenas explicando a ela as consequências de suas escolhas — Asher respondeu, soltando Sofia lentamente, mas mantendo o olhar fixo nela.
Davi caminhou até Sofia e a puxou para seus braços com uma possessividade que quase a fez perder o fôlego. Ele cheirava a fumaça e a um perfume caro e amadeirado.
— Você está bem? — ele perguntou, embora seus olhos estivessem examinando o ambiente em busca de qualquer sinal de que os outros tivessem passado dos limites.
— Estou, Davi. Mas estou cansada de ser tratada como se fosse feita de vidro.
— Vidro quebra, Sofia — Dante interveio, aproximando-se e parando do outro lado dela. — Você é mais como um diamante. Valiosa, dura, mas capaz de cortar quem tenta segurá-la demais. E, por Deus, como você gosta de cortar.
— O que aconteceu com o rapaz? — Sofia perguntou, a voz baixa.
Cole deu um passo à frente, um sorriso sombrio brincando em seus lábios.
— Vamos apenas dizer que ele não vai mais precisar se preocupar com faculdade, ou com a família Valenti, ou com respirar. Ele foi um aviso. Um aviso enviado com a assinatura de Davi, mas com a técnica que eu e Dante trouxemos de casa.
Sofia sentiu um calafrio. O mundo real de Davi já era perigoso, mas com a adição daqueles três, a violência havia se tornado algo artístico, quase coreografado.
— Vocês são monstros — ela sussurrou.
— Somos os seus monstros, Sofia — Davi corrigiu, segurando seu rosto com as duas mãos. — Você nos criou, ou nos aceitou, ou nos casou. Agora, você vive com as consequências.
Davi a conduziu para cima, em direção ao quarto principal, mas os outros três não se dispersaram. Eles seguiram como uma guarda de honra sombria. No corredor, Sofia parou e virou-se para os quatro.
— Eu quero saber a verdade — ela exigiu. — Como vocês estão aqui? Não pode ser apenas porque eu li os livros. Tem algo errado. O homem de cinza... as páginas que aparecem...
— Estamos investigando — Dante disse, cruzando os braços sobre o peito largo. — Parece que a barreira entre as histórias e a realidade está se desfazendo. Ou alguém está rasgando-a de propósito.
— E enquanto não descobrimos — Cole acrescentou —, você é o nosso único ponto em comum. Você é o que nos mantém nesta realidade. Se algo acontecer com você, talvez nós simplesmente deixemos de existir. Ou talvez fiquemos presos aqui para sempre, sem rumo.
— Então vocês não me protegem por amor — Sofia provocou, seus olhos brilhando com uma nova ideia —, protegem por sobrevivência.
Asher deu um passo à frente, seu olhar loiro cortando o ar.
— No começo, talvez. Mas agora? — Ele olhou para Davi, depois para os outros. — Agora, eu mataria qualquer um que tentasse te tirar de mim, mesmo que isso significasse a minha própria extinção.
A tensão sexual no corredor era tão espessa que Sofia quase podia tocá-la. Davi sentiu a mudança no ar. Ele sabia que não podia lutar contra os três ao mesmo tempo, e sabia que Sofia alimentava aquela chama.
— Para o quarto. Todos nós — Davi ordenou.
Sofia arqueou a sobrancelha.
— Todos nós, Davi?
— Você queria testar limites, não queria? — Davi abriu a porta do quarto principal, um santuário de luxo e sombras. — Você queria ver até onde o nosso ciúme nos levaria. Pois bem, Sofia. Esta noite, você não terá que escolher. Mas você terá que aguentar o peso de quatro homens que não sabem o que é compartilhar.
Eles entraram. Cole fechou a porta e trancou-a. O som da fechadura girando pareceu um veredito final.
Sofia sentou-se na beira da cama imensa, observando-os. Davi, seu marido, o homem que lhe dera um nome e uma vida de rainha na máfia. Dante, a imagem cuspida de seus sonhos literários, intenso e protetor. Asher, o gênio frio e sarcástico que via através de todas as suas mentiras. E Cole, o elemento caótico, sombrio e obsessivo.
— Vocês vão brigar? — ela perguntou, sua voz misturando medo e uma excitação proibida.
— Não — Dante respondeu, retirando a camisa e revelando um corpo marcado por cicatrizes que não deveriam existir em um mundo normal. — Nós vamos marcar você. De uma forma que, da próxima vez que você pensar em fugir ou em provocar um estranho, você sinta cada um de nós na sua pele.
A noite que se seguiu foi uma descida ao abismo que Sofia tanto provocara. Não havia espaço para delicadeza quando quatro egos daquele tamanho colidiam. Davi reivindicava sua posição com beijos possessivos e ordens sussurradas. Dante a segurava com uma força que prometia proteção eterna, mas também uma prisão sem grades. Asher usava suas palavras e toques calculados para desarmar qualquer resistência que ela ainda tivesse, enquanto Cole... Cole era a sombra que a envolvia, lembrando-a de que o perigo era a coisa mais viciante que ela já provara.
Sofia era o centro de um furacão de mãos, lábios e promessas sombrias. Ela sentia o poder que exercia sobre eles, mas também a vulnerabilidade de ser o objeto de tamanha obsessão coletiva. Eles não eram apenas homens; eram forças da natureza, mitos que ela trouxera para a vida, e agora ela era a única que podia domá-los — ou ser destruída por eles.
Horas depois, quando a primeira luz do amanhecer começou a riscar o céu da Itália, o quarto estava mergulhado em um silêncio exausto. Sofia estava deitada, coberta por lençóis de seda, cercada pelos quatro. Davi dormia com uma mão sobre o ventre dela, como se estivesse guardando um tesouro. Dante estava sentado na poltrona próxima à cama, vigiando a porta mesmo no cansaço. Asher e Cole estavam em lados opostos da cama, como sentinelas.
Sofia olhou para o teto, o coração ainda batendo forte. Ela tinha o que queria. O controle, a atenção, o perigo. Mas, ao olhar para a mesa de cabeceira, ela viu algo que a fez gelar.
Uma nova página de papel amarelado estava ali, caída como se tivesse acabado de se materializar.
Ela esticou o braço com cuidado para não acordar Davi e pegou o papel.
"A Rainha acredita que domou seus monstros, mas esquece que monstros só obedecem enquanto a fome é saciada. O Autor observa. O próximo capítulo exige um sacrifício. Quem entre os quatro será o primeiro a cair para que a história continue?"
Sofia sentiu uma lágrima solitária escorrer por seu rosto. Ela olhou para os homens ao seu redor. Ela os amava? Ou ela apenas amava a ideia de ser amada por eles? A realidade e a ficção estavam se fundindo de uma forma que ela não podia mais controlar.
Ela amassou o papel e o escondeu sob o travesseiro. A provocação acabou. Agora, a luta era para manter todos eles vivos, em um mundo que claramente não os queria ali.
— Sofia? — A voz de Davi soou rouca, ele estava acordando. — O que foi?
— Nada, Davi — ela sussurrou, aninhando-se nele. — Só estava pensando que, de todos os livros que já li, nenhum me preparou para o que vem a seguir.
— Não importa o que vem a seguir — Davi disse, fechando os olhos novamente e puxando-a para mais perto. — Nós somos os donos desta história agora.
Sofia queria acreditar nele. Mas, no fundo, ela sabia que enquanto houvesse um autor e uma página em branco, nenhum deles estava realmente seguro. E a maior provocação de todas ainda estava por vir: descobrir quem estava escrevendo suas vidas e por quê.
Lá fora, um carro preto estacionou a alguns metros da entrada da mansão. O homem de cinza saiu, olhou para a janela do quarto de Sofia e sorriu. Ele abriu seu caderno e escreveu uma única frase:
"O ciúme é um veneno que mata lentamente, mas a verdade... a verdade é a lâmina que corta de uma só vez."
Ele fechou o caderno e desapareceu na neblina matinal, deixando para trás o cheiro de tinta fresca e o presságio de um fim que nenhum deles esperava.