Alem das paginas
O Despertar das Cinzas e o Juramento de Sangue
O silêncio na ala médica da mansão Cassandro era tão espesso que parecia palpável, uma névoa de antisséptico e culpa que sufocava os quatro homens presentes. Sofia estava deitada em uma cama de hospital de última geração, cercada por monitores que bipavam suavemente, marcando o ritmo frágil de uma vida que eles quase permitiram que se apagasse. Sua pele, outrora o tom de oliva radiante que Davi tanto adorava beijar, agora era de um pálido translúcido, marcada por hematomas em vários estágios de cura e as cicatrizes frescas que Lucas infligira.
Davi não saía do lado dela. Ele permanecia sentado em uma poltrona de couro, as mãos entrelaçadas sob o queixo, os olhos fixos no rosto imóvel de sua esposa. Ele não usava mais os ternos impecáveis de seda italiana; sua camisa estava amassada, as mangas dobradas, revelando as tatuagens de sua linhagem mafiosa que pareciam pulsar com sua fúria contida.
— Os médicos dizem que o coma é induzido — disse Asher, sua voz soando estranhamente oca no ambiente estéril. Ele estava encostado na parede oposta, os braços cruzados, os olhos loiros fixos no chão. — O corpo dela entrou em colapso. É a forma que a mente encontrou de não processar o que aconteceu naquelas últimas semanas.
— Ela vai acordar — afirmou Dante, a voz carregada de uma certeza que beirava a insanidade. Ele estava de pé ao pé da cama, como uma estátua de mármore sombrio. — Ela é mais forte do que qualquer um de nós. Ela sobreviveu a nós, não sobreviveu? Sobreviveu ao nosso ciúme e às nossas regras. Ela vai voltar.
Cole, que estivera andando de um lado para o outro como um predador enjaulado, parou subitamente. Seus punhos estavam cerrados, os nós dos dedos ainda esfolados do que ele fizera com os guardas de Lucas.
— E quando ela voltar? — perguntou Cole, olhando para Davi. — O que seremos para ela? Os homens que a amam ou os homens que a deixaram ser levada? Nós a trancamos, Davi. Nós a deixamos vulnerável para que aquele lixo a encontrasse.
Davi levantou o olhar. Não havia mais a frieza estratégica de um Capo, apenas a dor bruta de um homem que perdera sua bússola.
— Nós seremos o que ela precisar que sejamos — respondeu Davi, a voz rouca. — Se ela quiser que nos ajoelhemos e peçamos perdão todos os dias, faremos isso. Se ela quiser que queimemos o mundo para que ela se sinta segura, o mundo arderá. Mas, primeiro, ela precisa abrir os olhos.
Os dias se transformaram em uma semana de agonia. A mansão Cassandro, antes um lugar de luxo e poder, transformara-se em um forte de luto. O submundo italiano sussurrava sobre a queda da Rainha, mas ninguém ousava se aproximar. A fúria combinada de Davi e dos três "fantasmas" literários era um aviso que até o mais corajoso dos inimigos respeitava.
Na oitava noite, o milagre aconteceu.
Sofia sentiu o peso antes de sentir a dor. Era como se estivesse subindo de um oceano profundo e escuro, onde a água era feita de memórias que ela tentava desesperadamente esquecer. O cheiro de sândalo e tabaco caro — o cheiro de Davi — foi a primeira coisa que atingiu seus sentidos.
Seus dedos tremeram sobre o lençol de seda.
— Sofia? — A voz de Davi foi um sussurro quebrado ao lado de seu ouvido.
Ela abriu os olhos lentamente. A luz era forte demais, as cores borradas, mas ela reconheceu a silhueta dele. Ela tentou falar, mas sua garganta parecia cheia de areia.
— Água... — ela conseguiu expelir, um som que mal parecia humano.
Imediatamente, houve um movimento frenético ao seu redor. Davi ajudou-a com o copo, suas mãos grandes tremendo enquanto sustentavam a nuca dela. Dante apareceu do outro lado, sua expressão normalmente gélida derretendo-se em um alívio puro. Asher e Cole estavam na porta, paralisados, como se tivessem medo de que qualquer movimento brusco a fizesse desaparecer novamente.
— Você está em casa, pequena — murmurou Dante, pegando a mão livre dela e levando-a aos lábios. — Você está segura.
Sofia olhou para eles. Por um momento, o pânico brilhou em seus olhos castanhos. As memórias do porão, do toque de Lucas, da dor incessante, voltaram como uma enxurrada. Ela tentou se afastar, soltando um gemido abafado de terror.
— Não... não me toquem... — ela arquejou, as lágrimas começando a transbordar.
— Sofia, sou eu — disse Davi, a voz embargada, recuando imediatamente para dar espaço a ela. — É o Davi. Estão todos aqui. Ninguém vai te machucar de novo. Eu juro pela minha vida, eu juro por tudo o que é sagrado.
Ela olhou para as mãos deles. Elas estavam limpas agora, mas ela sabia que estavam manchadas com o sangue daqueles que a feriram. Ela olhou para Cole, que tinha os olhos marejados, algo que ela nunca pensou ver no homem sombrio e sarcástico dos livros.
— Ele... ele está morto? — perguntou ela, a voz ganhando uma força frágil.
— Ele está sofrendo — respondeu Cole, um brilho de satisfação cruel cruzando seu rosto por um segundo antes de ser substituído por preocupação. — Ele nunca mais verá o sol, Sofia. Nós garantimos isso.
Sofia fechou os olhos e soltou um suspiro longo e trêmulo. O silêncio voltou ao quarto, mas desta vez era um silêncio de reconstrução.
— Eu quero ficar sozinha — disse ela após alguns minutos.
Davi sentiu como se tivesse levado um tiro no peito.
— Sofia, por favor...
— Só por um momento — ela o interrompeu, olhando-o com uma lucidez que o assustou. — Eu preciso... eu preciso sentir que meu corpo é meu de novo.
Eles obedeceram. Um por um, os quatro homens mais perigosos que ela conhecia saíram do quarto, deixando-a com seus pensamentos e suas cicatrizes.
Do lado de fora, no corredor, a tensão não diminuiu.
— Ela não é a mesma — disse Asher, passando a mão pelos cabelos loiros. — A centelha... a provocação... sumiu.
— Nós a quebramos — Cole sibilou, socando a parede de mármore. — Nossa possessividade a deixou vulnerável. Nós achamos que estávamos protegendo-a ao trancá-la, mas apenas facilitamos o trabalho de Lucas.
Davi não disse nada. Ele caminhou até a janela que dava para o vasto jardim. Ele sabia que o caminho para a recuperação de Sofia seria longo. Ela não era mais a menina de 19 anos que brincava com o perigo; ela era uma mulher que conhecera o verdadeiro rosto do mal.
Nas semanas seguintes, a mansão transformou-se em um santuário. Sofia começou a andar novamente, embora seus passos fossem hesitantes. Ela não provocava mais. Ela não fugia. Ela passava horas na biblioteca, o mesmo lugar onde Asher a encontrara tantas vezes, mas agora ela não lia romances. Ela apenas olhava para o vazio.
Davi, Dante, Asher e Cole tornaram-se suas sombras silenciosas. Eles não impunham mais regras. Eles não discutiam sobre quem passaria mais tempo com ela. Havia um pacto tácito entre os quatro: a prioridade era a alma de Sofia.
Uma noite, eles estavam todos na sala de estar. Sofia estava sentada perto da lareira, enrolada em um cobertor de lã. Davi lia alguns documentos, Dante limpava uma arma, Cole observava a chuva e Asher folheava um livro. Era uma cena de domesticidade bizarra, dada a natureza dos envolvidos.
— Por que vocês ainda estão aqui? — perguntou Sofia de repente, sua voz cortando o silêncio.
Dante parou de mover o pano sobre o metal da pistola. Davi levantou o olhar dos papéis.
— Como assim, Sofia? — perguntou Davi.
— Dante, Asher, Cole... vocês são personagens de livros — disse ela, olhando para os três. — Vocês deveriam pertencer às páginas, a mundos onde o herói sempre salva a mocinha a tempo. E você, Davi... você é um homem que preza o poder acima de tudo. Eu não sou mais a mulher elegante e magnética que vocês queriam. Eu estou... estragada.
O barulho do livro de Asher fechando-se foi como um trovão. Ele se levantou e caminhou até ela, ajoelhando-se aos seus pés.
— Você acha que nossa obsessão por você era baseada em um vestido bonito ou em uma provocação inteligente? — perguntou Asher, segurando o olhar dela com uma intensidade feroz. — No meu livro, Sofia, eu sou um homem que não sente nada. Mas aqui, neste mundo real e cruel, você é a única coisa que me faz sentir que eu não sou apenas tinta e papel.
— Eu não te salvo porque é o meu papel — disse Dante, aproximando-se também. — Eu te salvo porque sem você, este mundo não tem cor. Eu prefiro viver em um inferno com você do que em um paraíso literário sem a sua presença.
Cole ajoelhou-se do outro lado, pegando a mão dela com uma delicadeza que contrastava com sua natureza sombria.
— Você diz que está estragada, Sofia. Mas para nós, você é uma sobrevivente. E se você acha que vamos embora agora, quando você mais precisa de nós, então você não nos conhece tão bem quanto pensa.
Davi levantou-se de sua poltrona e caminhou até o grupo. Ele colocou a mão no ombro de Dante e a outra no de Cole, um gesto de união que teria sido impensável meses atrás.
— Eu cometi o maior erro da minha vida ao tentar te controlar através do medo — disse Davi, a voz cheia de uma autoridade renovada, mas desta vez, uma autoridade baseada no amor. — Eu achei que era o protetor, mas fui o carcereiro. Esses homens... eles podem ter vindo de livros, mas o que eles sentem por você é mais real do que qualquer coisa que eu já vi. Nós não vamos a lugar nenhum, Sofia.
Sofia olhou para os quatro. Eles eram monstros, sim. Eram assassinos, possessivos e perigosos. Mas eram os seus monstros.
— Lucas disse que vocês tinham me esquecido — sussurrou ela.
— Lucas vai passar a eternidade aprendendo o quanto ele estava errado — rosnou Cole.
Sofia sentiu, pela primeira vez em muito tempo, uma pequena chama de sua antiga força começar a arder no peito. Não era a mesma chama de antes — era mais sombria, mais temperada pela dor —, mas era vida.
— Eu quero aprender a atirar — disse ela, olhando para Davi e depois para Dante. — Eu quero aprender a lutar. Eu quero que, da próxima vez que alguém tentar me levar, eu não precise esperar por ninguém.
Um sorriso lento e perigoso surgiu no rosto de Davi.
— Nós vamos te ensinar tudo o que sabemos — prometeu ele.
— Você será a arma mais letal que este mundo já viu — acrescentou Asher, um brilho de orgulho voltando aos seus olhos.
Naquela noite, o pacto foi selado não com palavras, mas com um juramento silencioso de sangue e devoção. Sofia Silva não seria mais a presa. Com quatro dos homens mais perigosos da ficção e da realidade ao seu lado, ela se tornaria a predadora.
A convivência continuava caótica, cheia de tensões e ciúmes, mas agora havia um propósito comum. Eles ainda tentavam descobrir por que Dante, Asher e Cole haviam aparecido, mas a resposta parecia menos importante do que o presente.
Meses depois, durante um novo baile da máfia, Sofia entrou no salão. Ela não usava mais cores suaves. Estava vestida de preto absoluto, um vestido que abraçava suas curvas e revelava, sutilmente, a cicatriz em seu ombro como se fosse uma joia de guerra.
Ao seu lado, Davi caminhava com a autoridade de um rei. Atrás deles, como sombras letais, Dante, Asher e Cole observavam a multidão. O silêncio que se seguiu à entrada deles foi de puro terror reverencial.
Sofia parou no meio do salão e olhou para um grupo de mafiosos que costumavam sussurrar sobre sua fraqueza. Ela sorriu — um sorriso que não chegava aos olhos, mas que prometia destruição.
— Algum problema, cavalheiros? — perguntou ela, a voz suave e afiada como uma navalha.
Ninguém respondeu.
Davi inclinou-se e sussurrou em seu ouvido:
— Você está pronta para mostrar a eles quem manda nesta cidade?
— Eu estou pronta para mostrar a eles que os monstros do livro não são nada comparados à mulher que sobreviveu a eles — respondeu Sofia.
A música começou, mas ninguém dançava. Todos observavam a Rainha e seus quatro guardiões. O mistério de sua origem continuava, mas uma coisa era certa: Sofia Silva havia testado os limites do inferno e voltado para governá-lo. E enquanto Davi, Dante, Asher e Cole estivessem ao seu lado, o mundo inteiro teria que aprender a se ajoelhar.
A provocação estava de volta, mas agora, ela tinha dentes. E Sofia estava ansiosa para usá-los.