Alem das paginas
O Eco do Silêncio e a Dança das Sombras
A mansão Cassandro, outrora um campo de batalha de testosterona, ciúmes e desejo, havia se tornado um mausoléu de mármore e arrependimento. O ar, que antes vibrava com as provocações magnéticas de Sofia, agora estava estagnado, carregado com o cheiro metálico de sangue seco e o aroma amargo de uísque barato. Haviam se passado três meses. Noventa dias desde que a porta daquele quarto fora encontrada aberta, a janela estilhaçada e o rastro de Sofia Silva desaparecido na névoa da noite italiana.
Davi estava sentado em seu escritório, a mesma vidraça onde antes observava o mundo com a confiança de um imperador. Agora, seus ombros estavam curvados. Seus olhos, sempre tão observadores e determinados, estavam injetados de sangue. Ele não dormia mais do que duas horas por noite. A culpa era uma lâmina cega que o cortava lentamente. Ele a trancara. Ele a humilhara por causa de um beijo do passado. Ele a deixara vulnerável enquanto planejava sua vingança mesquinha contra Lucas.
— Nada. — A voz de Dante veio do canto escuro da sala. O "marido literário" idêntico aos sonhos de Sofia parecia uma sombra de si mesmo. O corpo forte e definido estava mais magro, a expressão séria agora era de uma frieza cadavérica. — Reviramos cada galpão dos Valenti. Torturamos cada informante dos Shincler. Ninguém sabe onde ela está.
— Ela não desapareceu no ar, Dante — rosnou Asher, surgindo na porta. O loiro sarcástico perdera todo o seu humor. Seus olhos hipnotizantes, que antes devoravam Sofia com luxúria, agora refletiam apenas um vazio gélido. — Alguém a levou. E nós deixamos acontecer porque estávamos ocupados demais medindo o tamanho dos nossos egos.
Cole entrou logo atrás, chutando uma poltrona de couro com uma violência súbita. O som ecoou como um tiro.
— A família do Lucas — Cole sibilou, seu maxilar definido travado. — Nós deveríamos ter matado todos eles quando tivemos chance. Davi, você disse que ele tinha entendido o aviso! Você disse que ele tinha ido embora!
— Ele foi! — Davi levantou-se, batendo as mãos na mesa, as veias do pescoço saltadas. — Meus homens o viram cruzar a fronteira!
— Claramente não viram o suficiente — rebateu Asher, aproximando-se da mesa com um mapa marcado em vermelho. — A família dele não é apenas civil, Davi. Eles têm conexões antigas com o submundo que você subestimou. Eles não queriam dinheiro. Eles queriam o que nós mais valorizávamos. E nós entregamos a Sofia para eles em uma bandeja quando a deixamos sozinha e fragilizada.
O silêncio que se seguiu foi torturante. Cada um deles carregava o peso de uma falha catastrófica. Dante sentia a falta do calor da pele dela; Asher sentia falta da inteligência desafiadora; Cole sentia falta da resistência que o excitava. E Davi... Davi sentia falta da sua alma.
Enquanto isso, a quilômetros de distância, no porão úmido e fétido de uma propriedade rural esquecida pelo tempo, a realidade de Sofia Silva era um pesadelo sem fim.
O cheiro ali era de mofo, urina e desespero. Sofia estava acorrentada pelos pulsos a uma viga de ferro no teto. Seus pés mal tocavam o chão frio de cimento. O vestido de gala que ela usava na noite do baile agora era apenas trapos imundos, rasgados e manchados de fluidos que ela tentava esquecer.
A porta de ferro no topo da escada rangeu. O som, que antes seria um sinal de esperança, agora fazia seu estômago revirar em puro pavor.
— Acordada, minha rainha? — A voz de Lucas não era mais doce. Era estridente, carregada de uma loucura que ele escondera sob a máscara de bom moço.
Ele desceu as escadas lentamente, seguido por dois de seus primos. A família de Lucas não era composta por mafiosos elegantes como Davi; eram açougueiros de almas, homens que sentiam prazer na degradação.
— Por favor... — A voz de Sofia era apenas um sussurro rouco. Suas cordas vocais estavam feridas de tanto gritar nos primeiros meses. — Mate-me logo.
— Ah, não. — Lucas parou na frente dela, segurando seu queixo com uma mão suja, forçando-a a olhar para ele. Seus olhos, que ela um dia achou gentis, agora eram poços de sadismo. — Você achou que podia me trocar por aqueles monstros? Você achou que eu era fraco? Eles te marcaram, Sofia. Eu apenas estou limpando as marcações deles... uma por uma.
Ele sinalizou para os primos. Um deles segurava um ferro de marcar gado, aquecido até ficar rubro. O outro segurava uma faca de caça.
— Eles diziam que você era o tesouro deles — Lucas sussurrou, aproximando-se do ouvido dela enquanto sua mão livre subia pela coxa ferida de Sofia. — Mas onde eles estão agora? Onde está o seu marido italiano? Onde estão os seus personagens de livros? Eles te esqueceram, Sofia. Você é minha agora. De toda a minha família.
O que se seguiu foi uma sinfonia de horror que se repetia há meses. A dor física era insuportável — a queimadura do ferro, os cortes superficiais feitos apenas para fazê-la sangrar —, mas o estupro era o que destruía o que restava de sua humanidade. Eles a usavam como um objeto, um receptáculo para o ódio que sentiam pelos Cassandro. Cada um deles se revezava, zombando da sua elegância perdida, rindo enquanto ela implorava por misericórdia.
— Diga meu nome — Lucas rosnava enquanto a possuía com brutalidade, suas mãos apertando o pescoço dela até que ela visse pontos pretos. — Não diga o nome dele. Diga o meu!
Sofia não dizia nada. Ela fechava os olhos e tentava se transportar para os livros que costumava ler. Ela imaginava Dante a carregando para longe; imaginava Asher traçando um plano de fuga; imaginava Cole destruindo seus captores; imaginava Davi a abraçando e pedindo perdão. Mas a dor sempre a trazia de volta. A realidade era fria, úmida e cheia de homens que cheiravam a suor e maldade.
De volta à mansão, a tensão entre os quatro homens atingiu o ponto de ruptura. Cole estava destruindo o bar da sala de estar, garrafas de cristal voando contra a parede.
— Nós estamos aqui sentados como covardes! — gritou Cole. — Eu sinto que ela está morrendo! Eu sinto isso no meu peito!
— Todos nós sentimos, Cole! — Dante avançou sobre ele, segurando-o pela camisa. — Você acha que é o único que está enlouquecendo? Eu vejo o rosto dela toda vez que fecho os olhos! Eu vejo ela me pedindo ajuda e eu não consigo alcançá-la!
— Parem! Os dois! — Asher gritou, jogando um tablet sobre a mesa. — Eu encontrei.
Davi, Dante e Cole cercaram a mesa instantaneamente.
— O que você encontrou? — perguntou Davi, sua voz tremendo de expectativa.
— Um padrão de pagamentos — explicou Asher, os dedos voando pela tela. — A família do Lucas recebeu grandes quantias de uma conta fantasma nos últimos meses. Eles compraram uma propriedade rural no norte, perto das montanhas. Está em nome de um tio falecido. É um lugar isolado, protegido por florestas densas.
— É lá — disse Davi, a voz agora fria como o gelo ártico. O modo "capo" havia retornado, mas com uma fúria que nenhum deles jamais vira. — Preparem as armas. Não quero prisioneiros. Quero que cada membro daquela família sofra dez vezes o que Sofia possa ter sofrido.
— Se eles a tocaram... — Cole começou, sua voz falhando.
— Se eles a tocaram — interrompeu Dante, seus olhos escuros brilhando com uma promessa de destruição bíblica —, eu vou arrancar a pele deles enquanto ainda estiverem respirando.
A viagem até o norte foi um borrão de velocidade e silêncio sepulcral. No carro, os quatro homens, que antes disputavam a atenção de Sofia, agora eram uma unidade perfeita de morte. Não havia mais ciúme. Havia apenas uma necessidade visceral de resgate e vingança.
Eles chegaram à propriedade na hora mais escura da madrugada. A casa era uma construção velha de pedra, cercada por homens armados que pareciam mais mercenários do que camponeses.
— Dante e Cole, pelo flanco leste — ordenou Davi pelo rádio. — Asher, você cuida dos atiradores no telhado. Eu vou pela frente.
O ataque foi rápido e devastador. Não houve negociação. A máfia de Davi e a ferocidade desumana dos três personagens literários varreram a propriedade como uma praga. Dante movia-se como um espectro, suas facas encontrando gargantas antes que os inimigos pudessem gritar. Cole usava sua força bruta para atravessar portas e ossos. Asher era a precisão, cada tiro de seu rifle silenciado derrubando um obstáculo.
Davi explodiu a porta principal. Ele encontrou o pai de Lucas na sala e, sem hesitar, descarregou sua arma no homem.
— Onde ela está? — Davi rosnava para cada sobrevivente que encontrava, sua bota esmagando gargantas.
Eles encontraram a entrada do porão nos fundos da cozinha. Dante foi o primeiro a descer, sua lanterna cortando a escuridão úmida. O cheiro o atingiu primeiro — o cheiro de sangue e podridão.
— Sofia... — o sussurro de Dante foi um lamento quebrado.
Quando a luz da lanterna atingiu o corpo suspenso de Sofia, o tempo pareceu parar para os quatro homens que entravam no porão.
Ela estava quase irreconhecível. O rosto, antes radiante e magnético, estava inchado e roxo. Seus braços estavam cobertos de marcas de queimaduras e cortes. Suas pernas estavam manchadas de sangue seco. Seus olhos estavam abertos, mas fixos no vazio, como se sua alma tivesse partido há muito tempo para se proteger.
— Não... por Deus, não... — Davi caiu de joelhos antes mesmo de chegar perto dela. O grande mafioso italiano soluçava como uma criança, a visão de sua esposa naquele estado destruindo o que restava de seu coração.
Asher e Cole ficaram paralisados, a fúria que os trouxera ali sendo substituída por um horror paralisante. Dante, no entanto, moveu-se. Ele alcançou Sofia, segurando seu corpo frágil enquanto usava uma faca para cortar as correntes.
— Eu te peguei, pequena — sussurrou Dante, sua voz embargada. — Eu te peguei. Você está segura agora.
Sofia não reagiu. Ela pesava quase nada em seus braços.
— Onde ele está? — A voz de Cole era um sussurro de morte pura. — Onde está o Lucas?
Como se fosse invocado pelo ódio, Lucas emergiu de um quarto escondido no fundo do porão, segurando uma pistola. Ele estava tremendo, o rosto pálido.
— Fiquem para trás! — gritou Lucas. — Ela é minha! Eu a consertei! Ela não quer mais vocês!
A reação foi instantânea. Antes que Lucas pudesse puxar o gatilho, Asher disparou no ombro dele, fazendo a arma voar. Cole avançou como um animal faminto, agarrando Lucas pelo pescoço e jogando-o contra a parede de pedra com tanta força que o som de ossos quebrando foi ouvido por todos.
Davi levantou-se lentamente. Ele caminhou até Lucas, que estava caído no chão, gemendo. Davi olhou para Sofia nos braços de Dante — ela parecia uma boneca de porcelana estilhaçada — e depois olhou para o homem que fizera aquilo.
— Dante, leve-a para o carro — ordenou Davi, sua voz sem qualquer emoção. — Asher, ajude-o. Chamem a equipe médica privada. Agora!
Dante e Asher saíram rapidamente, protegendo o corpo de Sofia como se ela fosse o objeto mais precioso do universo.
No porão, restaram apenas Davi, Cole e Lucas.
— Você acha que a morte é o fim para você, Lucas? — perguntou Davi, pegando uma das ferramentas de tortura que estavam sobre uma mesa próxima. — Você passou meses destruindo a mulher que eu amo. Eu vou passar o resto da sua vida, que será longa e dolorosa, garantindo que você se arrependa de cada respiração que deu.
Cole pegou um galão de gasolina que estava em um canto.
— Vamos queimar este lugar — disse Cole, seus olhos escuros brilhando com uma loucura vingativa. — Mas ele vai ficar aqui para ver. E nós vamos voltar todos os dias para garantir que as feridas dele nunca fechem.
Do lado de fora, no banco de trás do SUV, Sofia finalmente piscou. Ela sentiu o calor do casaco de Dante ao seu redor e o toque suave da mão de Asher em sua testa.
— Davi? — ela sussurrou, a voz quase inexistente.
— Ele está vindo, Sofia — respondeu Asher, as lágrimas escorrendo abertamente por seu rosto loiro. — Ele nunca mais vai te deixar. Nenhum de nós vai.
Sofia fechou os olhos. Pela primeira vez em meses, ela não sentiu o cheiro de mofo ou o toque de mãos odiadas. Ela sentiu o perfume amadeirado de Dante e a presença protetora de Asher.
— Vocês demoraram — ela murmurou antes de perder a consciência.
Asher e Dante trocaram um olhar de angústia absoluta. Eles sabiam que o resgate era apenas o começo. O corpo de Sofia poderia curar, mas a mente... a alma da mulher confiante e provocadora que eles amavam fora estuprada e torturada até a exaustão.
Davi e Cole saíram da casa minutos depois, enquanto as chamas começavam a lamber as janelas da propriedade rural. O som dos gritos de Lucas ecoava lá dentro, mas nenhum deles olhou para trás.
Davi entrou no carro e pegou Sofia dos braços de Dante. Ele a apertou contra si, beijando o topo de sua cabeça suja e ferida.
— Eu sinto muito, minha rainha — ele soluçava silenciosamente. — Eu sinto muito.
O grupo partiu em direção à mansão, mas nada seria como antes. A convivência caótica e as provocações haviam morrido naquele porão. Agora, o que restava era um grupo de homens quebrados pela culpa, unidos por um objetivo sombrio: reconstruir a mulher que eles mesmos, em sua arrogância e ciúme, permitiram que fosse destruída.
A guerra contra os inimigos externos fora vencida, mas a guerra contra as memórias de Sofia e a própria consciência deles estava apenas começando. E naquela noite, sob o céu estrelado da Itália, ficou claro que os personagens de livros e o mafioso real haviam finalmente aprendido a lição mais dolorosa de todas: que o amor sem liberdade é apenas outra forma de tortura, e que o preço de sua proteção obsessiva fora a própria alma da mulher que eles juraram proteger.