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Além do roubo

Ouro, Sangue e o Silêncio de Toledo

O ar dentro da Casa da Moeda estava saturado com o cheiro de pólvora, suor e o ozônio metálico das furadeiras que nunca paravam. Mas para Clara, o cheiro que mais a incomodava era o do medo. Não o medo de morrer — ela já tinha encarado a morte em barracos úmidos e ruas vazias muito antes de saber o que era um plano de assalto —, mas o medo de que o silêncio que ela e Sergio mantiveram por meses estivesse prestes a se tornar eterno.

As horas finais eram um caos coreografado. O túnel estava quase pronto, Berlim estava cada vez mais errático em sua grandiosidade suicida, e Nairobi tentava manter a fundição operando sob uma pressão desumana. Clara, a Paris, movia-se entre os reféns com sua habitual leveza forçada, distribuindo sorrisos que não chegavam aos olhos, mas que mantinham a histeria sob controle. Suas bochechas, antes coradas pela risada fácil em Toledo, agora estavam pálidas, marcadas pela exaustão.

No hangar, a quilômetros dali, o Professor sentia cada batida do coração de Paris através do rádio, mesmo que eles mal falassem sobre nada que não fosse técnico. Ele olhava para as telas, vendo a imagem granulada de Clara de relance, e suas mãos tremiam. Ele, o homem que antecipou cada movimento de Raquel Murillo, o homem que jogou um xadrez psicológico com a inspetora enquanto o seu próprio peito ardia de culpa, sentia que o controle estava escapando por entre seus dedos.

— Paris, na escuta? — A voz dele soou nos fones dela, baixa, rouca de cansaço.

Clara afastou-se do grupo de reféns, entrando em uma das salas laterais. Ela pressionou o comunicador.

— Na escuta, Professor. A fundição está em 90%. O moral está... estável, dentro do possível.

Houve uma pausa longa. Longa demais para os padrões de Sergio Marquina.

— Clara... — O uso do nome real foi como um choque elétrico. — O tempo está acabando. A polícia vai entrar. Eles não vão esperar a rendição. Eles vão entrar para matar.

— Eu sei, Sergio. Eu sinto o cheiro deles daqui — ela respondeu, tentando manter a voz firme, embora suas pernas parecessem feitas de gelatina. — Mas o plano está funcionando. Nós vamos sair.

— Eu não deveria ter deixado você entrar — sussurrou ele, e Clara pôde ouvir o som de papéis sendo amassados. — Eu calculei tudo, mas o risco para você... se algo acontecer, se o Berlim não segurar a retaguarda...

— Sergio, escuta — interrompeu ela, com uma autoridade que raramente usava. — Você fez o que tinha que fazer. Você seduziu a inspetora, você viveu aquela mentira para nos dar cada segundo que temos agora. Eu não sou uma vítima. Eu sou sua parceira. E eu vou sair daqui para cobrar aquele futuro que você me prometeu em Toledo.

— Eu amo você — disse ele, a confissão saindo como um suspiro de alívio e agonia. — Eu precisava dizer isso agora. Caso o rádio silencie.

Clara fechou os olhos, uma lágrima solitária traçando um caminho pela poeira em seu rosto.

— Eu também amo você. Agora, volte a ser o gênio. Tire-nos daqui.

O caos estourou pouco depois. O som das explosões na entrada principal ecoou como trovões dentro de uma catedral de concreto. A polícia estava vindo. O plano de fuga final foi ativado.

No salão principal, a tensão explodiu. Tóquio e Rio estavam na linha de frente, as armas cuspindo fogo. Nairobi gritava ordens, o rosto banhado em suor. Foi nesse momento, entre os tiros e os gritos, que a máscara de "apenas colegas" caiu.

Berlim, com seu sorriso cínico e os olhos brilhando com a lucidez de quem sabe que não tem nada a perder, observou Paris enquanto ela se posicionava para cobrir a retirada dos últimos membros em direção ao túnel. Ele viu a forma como ela segurava o fone, a expressão de terror não por si mesma, mas por quem estava do outro lado da linha.

— Ele está nervoso, não está? — Berlim perguntou, recarregando seu fuzil com uma calma perturbadora. — O nosso pequeno gênio está perdendo a compostura por sua causa, Paris.

Clara olhou para ele, o cano da metralhadora quente em suas mãos.

— Não é hora para suas charadas, Berlim.

— Não é charada, minha cara. É óbvio. O amor é um veneno para um plano como este, mas é uma delícia de se observar no fim do mundo. — Ele deu um passo à frente, o fogo refletido em seus olhos. — Ele me contou. Ou melhor, ele não precisou contar. Eu o conheço. Sergio nunca respirou dessa forma por ninguém.

Tóquio, que passava correndo, parou por um segundo, os olhos arregalados.

— Do que ele está falando? Você e o Professor?

Clara não respondeu com palavras. Ela apenas olhou para a câmera de segurança no canto da sala, sabendo que Sergio estava assistindo. O silêncio dela foi a confirmação.

— Que se dane a regra — gritou Nairobi lá de trás, enquanto empurrava o último carrinho de dinheiro. — Se vocês sobreviverem a isso, eu quero ser a madrinha! Agora movam-se!

A retirada para o túnel foi um borrão de adrenalina e desespero. O grupo descia para as profundezas da terra, o som das botas batendo no metal sincronizado com as batidas do coração de Clara. Mas Berlim não desceu. Ele parou na entrada do túnel, a metralhadora pesada em suas mãos, o rosto voltado para a luz que vinha do salão onde a polícia avançava.

— Berlim, o que você está fazendo? — gritou Clara, tentando voltar para pegá-lo.

— Alguém tem que garantir que o túnel não seja descoberto antes de vocês cruzarem — disse ele, sem olhar para trás. — E eu, como vocês sabem, sempre tive um fraco pelo dramático.

— Não seja idiota! — Rio gritou, mas Berlim apenas acenou com a mão.

— Digam ao meu irmão... que foi uma honra. E Paris? — Ele virou o rosto levemente. — Cuide dele. Ele é um homem difícil, mas é o único que vale a pena neste mundo de medíocres.

Clara sentiu um nó na garganta. Ela odiava Berlim e o admirava na mesma medida.

— Berlim, venha agora! — a voz do Professor ecoou pelos alto-falantes do túnel, carregada de uma dor que Clara nunca tinha ouvido. — Andrés, é uma ordem!

— No xadrez, Sergio... — Berlim sorriu, as primeiras balas da polícia começando a atingir o parapeito de mármore acima dele. — Às vezes, o bispo precisa se sacrificar para que o rei e a rainha possam fugir. Bella ciao, irmão.

O som das metralhadoras de Berlim afogou qualquer outra resposta. Clara foi puxada por Helsinki para dentro da escuridão do túnel enquanto as explosões finais selavam a entrada. Ela chorava, não apenas pelo homem que ficava para trás, mas pelo peso do sacrifício que permitia que ela continuasse respirando.

A caminhada pelo túnel pareceu durar uma eternidade e um segundo ao mesmo tempo. Quando finalmente emergiram no hangar, o ar estava frio e cheirava a terra úmida.

Sergio estava lá.

Ele não parecia o Professor. Ele não tinha o controle, não tinha os óculos perfeitamente ajustados. Ele estava desabado sobre a mesa de rádio, os ombros sacudindo em soluços silenciosos pela perda do irmão.

Clara correu. Ela ignorou o dinheiro, ignorou os outros membros do grupo que se abraçavam ou caíam no chão em exaustão. Ela se jogou nos braços dele.

Sergio a apertou com uma força que quase lhe tirou o fôlego, enterrando o rosto em seu pescoço.

— Você está aqui... — ele murmurou, a voz quebrada. — Você está viva.

— Eu prometi, não prometi? — Clara disse, segurando o rosto dele entre as mãos sujas de pólvora. — Eu disse que viria cobrar o futuro.

Os outros membros do grupo observavam em um silêncio respeitoso. Tóquio limpou o sangue do rosto, trocando um olhar com Nairobi. A revelação de que o líder e a "alegria do grupo" estavam juntos explicava tanta coisa — as tensões silenciosas, os olhares roubados, a proteção sutil que o Professor exercia sobre os movimentos de Paris.

— Então era por isso que você quase teve um infarto quando a Paris ficou presa na fundição naquela primeira semana? — Nairobi perguntou, tentando trazer um pouco de leveza ao momento sombrio, embora seus próprios olhos estivessem úmidos.

Sergio se afastou de Clara apenas o suficiente para olhar para o grupo. Ele limpou as lágrimas e, por um momento, a máscara do Professor tentou voltar, mas ele a deixou cair. Ele segurou a mão de Clara com firmeza, entrelaçando seus dedos nos dela.

— Sim — admitiu ele, a voz recuperando a força. — Eu quebrei a minha própria regra no primeiro dia em Toledo. Eu peço desculpas por não ter sido honesto com vocês, mas a segurança do plano dependia do meu... distanciamento. Ou da ilusão dele.

— O plano funcionou, Professor — disse Rio, sentando-se em um caixote de dinheiro. — Estamos ricos. E estamos vivos. Bem... quase todos nós.

O silêncio caiu sobre eles novamente ao pensarem em Berlim, Moscou e Oslo. O preço da liberdade tinha sido pago em sangue.

— Precisamos ir — disse Sergio, retomando o comando. — Temos menos de dez minutos antes que a polícia localize este hangar. Helsinki, carregue os caminhões. Tóquio, Rio, ajudem Nairobi com os passaportes.

Enquanto o grupo se movia com uma eficiência renovada, Sergio puxou Clara para um canto escuro do hangar, longe da luz das lâmpadas fluorescentes.

— No que você está pensando? — perguntou ela, notando a sombra de dúvida em seus olhos.

— Na Raquel — confessou ele. — Eu a deixei para trás. Eu a usei, Clara. E embora o que eu sinta por você seja a única coisa real em toda essa farsa, eu não posso deixar de sentir que destruí a vida de uma mulher que não merecia isso.

Clara tocou o peito dele, sentindo o coração que agora batia por ela.

— Você deu a ela uma escolha, Sergio. E você nos deu uma chance. O mundo lá fora vai nos chamar de monstros, de ladrões, de terroristas. Mas aqui dentro... — ela olhou para os caminhões carregados de bilhões de euros — ...nós somos apenas pessoas que se recusaram a passar fome.

Ele beijou a testa dela, um gesto cheio de ternura e promessa.

— Para onde vamos? — perguntou ela.

— Para onde o mapa não alcança — respondeu ele com um pequeno sorriso, o primeiro sorriso de um homem livre. — Mas primeiro, temos que desaparecer. Você está pronta para deixar de ser a Paris?

Clara olhou para trás, para o túnel que representava o fim de sua vida antiga e o início de algo incerto e perigoso. Ela pensou na fome que a trouxera até ali, na amizade de Nairobi, na loucura de Berlim e no amor improvável do homem à sua frente.

— Eu nunca quis ser a Paris para sempre, Sergio. Eu só queria ser a Clara que não precisa mais ter medo do amanhã.

Eles caminharam em direção ao caminhão, as mãos ainda unidas. O roubo do século tinha terminado, mas para os dois, a maior jornada estava apenas começando. Enquanto os motores roncavam e as portas do hangar se abriam para a noite espanhola, o Professor e Paris deixaram de existir. Sob o luar de uma Espanha que nunca mais seria a mesma, dois amantes fugiam para o desconhecido, levando consigo o peso do ouro e a leveza de um segredo que não precisava mais ser escondido.

A estrada à frente era longa, mas pela primeira vez na vida, Clara não estava correndo de algo. Ela estava correndo para algo. E ao lado de Sergio, ela sabia que, não importa o que acontecesse, eles nunca mais passariam fome — nem de pão, nem de amor.