Além do roubo
O Segredo sob a Máscara de Dalí
O ar no novo esconderijo, em uma remota fazenda no sudeste asiático, era úmido e quente, um contraste absoluto com a frieza de pedra de Toledo. Mas Clara, agora vivendo uma vida de luxo discreto que nunca ousara sonhar, sentia um frio persistente no estômago que nenhum sol tropical conseguia aquecer.
Ela estava diante do espelho do banheiro, a mão repousando sobre a barriga ainda plana, mas que ela sentia mudar a cada batida de seu coração acelerado. O teste de farmácia sobre a pia de mármore não deixava dúvidas: duas linhas vermelhas, nítidas como o traço de um plano de Sergio.
— Mais uma variável que você não calculou, meu amor — sussurrou ela para o próprio reflexo.
Clara sabia o que aconteceria se contasse a Sergio. Ele a isolaria. Ele a colocaria em uma redoma de cristal, longe de qualquer perigo, enquanto o resto do grupo se preparava para o novo e audacioso plano: o Banco da Espanha. O Professor, em sua eterna necessidade de controle e proteção, jamais permitiria que uma Paris grávida entrasse naquele prédio. E Clara, a gordinha que aprendera a lutar pelo seu espaço no mundo à base de socos e risadas, não aceitaria ficar para trás assistindo pela televisão enquanto suas amigas, Nairobi e Tóquio, arriscavam a pele.
A porta do quarto se abriu e o som familiar dos passos de Sergio a fez esconder o teste rapidamente em uma gaveta.
— Clara? — A voz dele estava carregada daquela intensidade intelectual que sempre a desarmava. — Está tudo bem? Estamos prestes a começar a conexão com o Palermo.
Ela saiu do banheiro, forçando o sorriso extrovertido que era sua marca registrada, embora o enjoo matinal estivesse lutando para emergir.
— Tudo ótimo, Sergio. Só um pouco de calor. Esse clima não foi feito para quem tem as minhas curvas, você sabe disso.
Sergio aproximou-se, ajeitando os óculos com o dedo médio, um gesto que ela conhecia tão bem. Ele a abraçou pela cintura, a mão descendo perigosamente perto da altura do ventre. Clara sentiu um calafrio.
— Você está mais... radiante ultimamente — comentou ele, beijando-lhe a têmpora. — O retiro nos fez bem, mas sinto que sua mente está voltando para o jogo.
— O jogo nunca parou, não é? — Clara afastou-se levemente, pegando seu macacão vermelho que estava dobrado sobre a cama. — O Rio foi pego. Precisamos trazê-lo de volta.
— Sim. Mas este roubo... é diferente. O Banco da Espanha é uma fortaleza. É um ato de guerra, não apenas um assalto.
Clara olhou nos olhos dele, vendo o brilho da determinação e a sombra do medo.
— E eu vou estar lá, Sergio. Como Paris. Como sua rainha no tabuleiro.
— Eu preferia que você ficasse comigo, no centro de comando — disse ele, a voz baixando. — Depois de tudo o que passamos na Casa da Moeda, eu não suportaria perder você.
— Você não vai me perder — afirmou ela, com uma firmeza que era tanto para ele quanto para si mesma. — Mas eu não sou uma peça decorativa. Eu sou a Paris. Eu mantenho o moral alto, eu controlo a fundição, eu sou o coração daquele grupo. Se eu não entrar, eles vão sentir que algo está errado.
Sergio suspirou, derrotado pela lógica dela, sem imaginar o segredo que pulsava sob o tecido da roupa dela.
— Prometa-me que terá cuidado redobrado.
— Eu prometo — disse ela, cruzando os dedos atrás das costas. — Por nós dois.
Meses depois, o plano estava em pleno curso. O caos do Banco da Espanha era maior do que qualquer coisa que Clara tivesse imaginado. O cheiro de metal fundido, o som dos alarmes e a tensão constante com os reféns eram um teste diário para seu corpo, que agora protestava de formas que ela mal conseguia esconder.
Dentro do banco, Nairobi era a única que parecia notar algo diferente. Durante uma pausa na fundição do ouro, enquanto os outros descansavam, Nairobi puxou Clara para um canto, longe das câmeras que o Professor monitorava.
— Paris, você está pálida. E não me venha com essa história de que é o reflexo do ouro — disse Nairobi, cruzando os braços e analisando a amiga com aquele olhar clínico de quem conhece cada centímetro de uma linha de produção.
— É só o cansaço, Nairobi. Não dormi bem com o barulho das brocas — mentiu Clara, limpando o suor da testa.
— Você não engana a "puta ama", guria. Você está comendo mais do que o normal, mas está enjoada de cheiros que antes adorava. E aquele seu riso fácil? Está parecendo um disco arranhado.
Clara olhou em volta, certificando-se de que Bogotá ou o Denver não estavam por perto.
— Se eu te contar, você tem que jurar pelo seu filho que não vai dizer uma palavra ao Professor. Nem por rádio, nem por sinal de fumaça.
Nairobi franziu a testa, a expressão mudando de sarcasmo para uma preocupação profunda.
— O que foi? Você está doente?
— Não — sussurrou Clara, pegando a mão de Nairobi e levando-a até sua barriga. — Eu estou grávida, Nairobi.
O silêncio que se seguiu foi quebrado apenas pelo som distante do martelar do ouro. Os olhos de Nairobi se arregalaram, e por um momento ela pareceu ter perdido a fala, algo raro para a mulher mais vocal do grupo.
— Ai, minha santa... — Nairobi exclamou em um sussurro. — Clara, você ficou louca? Entrar em um banco, no meio de um tiroteio, carregando um bebezinho do Professor?
— Se eu contasse, ele me impediria. E se eu não viesse, eu morreria de ansiedade lá fora. Aqui dentro, eu posso ajudar. Eu posso garantir que todos saiam vivos para que esse filho tenha uma família, não apenas um pai escondido em um bunker.
— O Sergio vai te matar... ou morrer de um ataque cardíaco — disse Nairobi, balançando a cabeça, mas um sorriso terno começou a surgir em seus lábios. — Um pequeno Professor ou uma pequena Paris. Caramba, guria, você é corajosa.
— Eu preciso que você me ajude a esconder isso até sairmos daqui — pediu Clara. — Ajuste meu macacão se começar a apertar, me ajude com os turnos mais pesados.
— Pode contar comigo. Mas escute bem: ao menor sinal de perigo real, você vai para o cofre, você se esconde atrás de uma tonelada de ouro se for preciso. Entendeu?
Clara assentiu, sentindo um alívio imenso por não carregar mais o fardo sozinha. No entanto, o destino no Banco da Espanha não era feito de misericórdia.
A situação escalou rapidamente. Gandía, o chefe de segurança, estava solto, transformando o banco em um filme de terror. Clara estava na sala de comunicações quando ouviu o rádio estalar. Era a voz do Professor, mas não era a voz do mentor calmo. Era a voz de um homem desesperado.
— Paris? Paris, responda! — Sergio gritava.
Clara apertou o comunicador, sentindo uma pontada aguda no baixo ventre, fruto do estresse.
— Estou aqui, Sergio. O que houve?
— O Gandía... ele pegou a Nairobi. Ele a tem no banheiro. Eu preciso que você fique longe, Clara. Não saia da sala de comunicações. É uma ordem!
O coração de Clara parou. Nairobi, sua única confidente, a mulher que prometera ajudá-la a proteger seu segredo, estava em perigo mortal.
— Eu não posso ficar parada, Sergio! — gritou ela, já se levantando e pegando sua arma.
— Clara, por favor! — A voz dele quebrou. — Eu tive um pesadelo com isso. Eu não posso perder vocês dois.
Clara estacou. "Vocês dois".
— Do que você está falando? — perguntou ela, a voz trêmula.
Houve um silêncio pesado no rádio. Do outro lado, no esconderijo, Sergio olhava para os exames médicos que encontrara na gaveta do banheiro semanas atrás, mas que decidira não confrontar até que estivessem seguros. Ele sabia. Ele sempre soubera, mas sua negação era sua única forma de continuar o plano.
— Eu vi o teste, Clara. Antes de virmos para a Espanha. Eu vi na gaveta.
As lágrimas inundaram os olhos de Clara. Ela se encostou na parede fria, sentindo o peso da máscara de Dalí em sua mão.
— Por que você não disse nada? — perguntou ela.
— Porque eu conheço você. Porque eu sabia que, se eu tentasse te impedir, você viria por conta própria, e seria ainda mais perigoso. Eu achei que, se eu seguisse o plano à perfeição, eu poderia proteger vocês de longe. Mas o plano... o plano está desmoronando.
— Sergio, me escuta — disse ela, recuperando a compostura enquanto limpava o rosto. — A Nairobi está lá. Ela sabe. Ela é a única que sabe. Eu não vou deixá-la morrer.
— Clara, não! É uma armadilha!
Mas Clara já tinha desligado o rádio. Ela correu pelo corredor, ignorando a dor e o cansaço. Quando chegou ao saguão, a cena era dantesca. Gandía mantinha Nairobi imobilizada contra a porta, um buraco na madeira permitindo apenas que a cabeça dela aparecesse.
— Solte ela! — gritou Clara, apontando sua arma para o segurança, enquanto Denver e Tóquio também gritavam ordens de outros ângulos.
— Ora, ora — zombou Gandía, os olhos injetados de loucura. — A gordinha sorridente decidiu mostrar os dentes? Você parece um pouco lenta hoje, Paris. O que foi? O peso da consciência ou o peso de outra coisa?
Clara não recuou. Ela sentia a vida pulsando dentro de si e a vida de sua melhor amiga por um fio à sua frente.
— Gandía, você quer sair daqui vivo, não quer? — disse Clara, tentando usar a lógica do Professor. — Se você atirar, não haverá um centímetro deste banco onde você possa se esconder. Nós vamos te despedaçar.
Nairobi olhou para Clara, os olhos cheios de lágrimas e um reconhecimento mudo.
— Vá embora, Paris — tossiu Nairobi. — Pense no pequeno. Vá embora!
— Eu não vou a lugar nenhum sem você, Nairobi! — rebateu Clara.
O momento de tensão foi interrompido por um estrondo. Gandía, em um movimento covarde, empurrou Nairobi e disparou. O som do tiro ecoou como o fim do mundo.
Clara viu Nairobi cair. Viu o sangue. Viu o caos se instalar enquanto o grupo disparava contra o segurança que fugia. Ela correu até a amiga, caindo de joelhos ao seu lado.
— Nairobi! Fica comigo, por favor! — Clara pressionava o ferimento, as mãos tremendo violentamente.
— Clara... — Nairobi sorriu fracamente, o brilho nos olhos começando a apagar. — Você... você vai ser uma mãe incrível. Diga ao Sergio... que ele é um idiota por deixar você entrar aqui.
— Não fala assim, você vai contar para ele! — soluçou Clara.
Mas o silêncio de Nairobi foi a resposta mais dolorosa. Ao redor delas, o grupo gritava, mas para Clara, o mundo tinha ficado mudo. Ela sentiu uma mão em seu ombro. Era Denver, tentando levantá-la.
— Paris, temos que sair daqui, o exército está se movendo!
Clara levantou-se lentamente. Seu macacão vermelho estava manchado com o sangue da mulher que prometera ser a madrinha de seu filho. Ela olhou para a câmera de segurança, sabendo que Sergio estava assistindo, destruído pelo luto e pelo medo.
Ela pegou o rádio caído no chão.
— Sergio? — sua voz era fria, desprovida da alegria que outrora a definia.
— Eu estou aqui... Clara, eu sinto muito... eu sinto tanto... — a voz do Professor era um farrapo.
— Chega de planos, Sergio. Chega de xadrez — disse ela, olhando para o corpo de Nairobi e depois para sua própria barriga. — Agora não é mais pelo dinheiro. Não é nem pelo Rio. É por ela. E é pelo nosso filho.
— O que você vai fazer? — perguntou ele, temendo a resposta.
— Eu vou terminar o que começamos. Mas do meu jeito. Se a inspetora Sierra quer guerra, ela vai ter. Porque não há nada mais perigoso no mundo do que uma mãe que não tem mais nada a perder, exceto o futuro que você prometeu.
Clara colocou a máscara de Dalí. O sorriso de plástico da máscara escondia as lágrimas, mas seus olhos brilhavam com uma fúria que o Professor nunca tinha mapeado em seus diagramas.
— Paris? — chamou Sergio uma última vez.
— O Professor está morto, Sergio. E a Paris também. Agora, resta apenas o xeque-mate.
Ela caminhou em direção ao centro do banco, cada passo firme, cada movimento calculado. O segredo estava fora, o luto era real, e o Banco da Espanha estava prestes a descobrir que o maior erro de qualquer sistema é subestimar o coração de uma mulher que carrega a vida e a morte no mesmo corpo. A quarta temporada não seria sobre um roubo; seria sobre a sobrevivência de uma linhagem escrita em ouro e sangue.