Alexjax
Entre o Brilho do Sol e o Gelo do Segredo
O sol da tarde de domingo refletia-se cruelmente no asfalto da praça central, criando uma miragem de calor que Alex sentia em sua própria pele, embora o toque de Jax, sempre frio, estivesse logo ali. Eles estavam sentados em um banco de madeira sob a sombra rala de uma acácia. Alex, com seu caderno de esboços no colo, tentava desenhar o caimento de um tecido imaginário, mas seus dedos falhavam. Ele não conseguia se concentrar. O motivo de sua distração não era o barulho das crianças correndo ou o som distante de um saxofonista de rua, mas sim a presença da terceira pessoa no banco.
Eliane.
Ela estava sentada ao lado de Jax, ocupando o espaço com uma naturalidade que fazia o estômago de Alex revirar. Eliane tinha cabelos escuros, cortados em um estilo curto e moderno que emoldurava seu rosto delicado. Ela era a namorada "oficial" de Jax, a face que ele apresentava ao mundo, aos pais e à sociedade acadêmica. Para todos os efeitos, Alex era apenas o amigo inseparável, o companheiro de estudos, a sombra silenciosa que sempre acompanhava o casal.
— Está tão quente hoje, não acha, Jax? — Eliane comentou, passando a mão pelo pescoço e ajeitando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Sim — respondeu Jax de forma monossilábica. Ele parecia mais pálido do que o normal sob a luz direta do sol, as olheiras profundas denunciando mais uma noite de insônia e pensamentos obsessivos.
Jax estava sentado no meio, funcionando como uma fronteira física entre seus dois mundos. Sua mão direita estava pousada sobre a coxa de Eliane, um gesto que ele fazia para manter as aparências. Mas sua mão esquerda estava escondida entre ele e Alex, os dedos longos e gélidos apertando discretamente o pulso de Alex, um aperto possessivo que dizia: "Você é meu, não importa quem esteja olhando".
— Você está muito quieto, Alex — Eliane disse, inclinando-se para frente para olhá-lo por cima do ombro de Jax. — O desenho não está saindo como você queria?
Alex forçou um sorriso, sentindo o suor frio descer por suas costas. A dualidade da situação era sufocante.
— Só estou tentando captar a luz — mentiu Alex, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal. — É difícil desenhar com tanta claridade.
— Você sempre foi perfeccionista — ela riu, uma risada leve e genuína que fazia Alex se sentir o pior ser humano da terra. Eliane não era uma vilã; ela era apenas uma peça no jogo de xadrez distorcido de Jax.
De repente, Eliane aproximou-se mais de Jax. Ela envolveu o braço dele com o seu e inclinou a cabeça para beijá-lo. Foi um beijo calmo, de namorada, algo que deveria ser normal em uma tarde de domingo no parque. Mas para Alex, cada segundo daquele contato parecia uma eternidade de agulhas cravadas em seu peito.
Jax não recuou. Ele aceitou o beijo de Eliane, fechando os olhos enquanto os lábios dela pressionavam os seus. No entanto, enquanto ele a beijava, seu aperto no pulso de Alex tornou-se quase insuportável, as unhas cravando levemente na pele macia, como se ele estivesse tentando transferir toda a sua culpa e sua possessividade através daquele toque secreto.
Alex desviou o olhar, fixando-o em um ponto qualquer na grama. Ele sentia o gosto amargo da humilhação. Ele era o segredo. O amante escondido nas sombras de uma biblioteca, o corpo que Jax reivindicava entre quatro paredes, mas que negava diante do sol.
— Eu te amo, Jax — sussurrou Eliane após se afastar, os olhos brilhando com uma afeição que Alex reconhecia bem demais.
Jax não disse "eu também". Ele nunca dizia. Ele apenas assentiu e passou o braço pelos ombros dela, puxando-a para perto, mas seus olhos, sombrios e febris, encontraram os de Alex por um breve e torturante momento. Havia um pedido de desculpas silencioso ali, ou talvez fosse apenas a satisfação sádica de saber que ele tinha os dois em suas mãos.
— Eu vou buscar uma água — disse Alex subitamente, fechando o caderno com força. Ele precisava sair dali antes que perdesse o fôlego.
— Eu vou com você — Jax começou a se levantar, mas Eliane o segurou pelo braço.
— Ah, fique aqui comigo, Jax. Você está tão cansado ultimamente. Deixe o Alex ir, ele conhece o caminho.
Jax hesitou, seus dedos soltando o pulso de Alex com relutância. A tensão em sua mandíbula era evidente.
— Volte logo — ordenou Jax, sua voz rouca carregando aquele tom de comando que Alex não conseguia ignorar.
Alex caminhou em direção ao quiosque, sentindo as pernas trêmulas. Ele se encostou em uma árvore longe da vista do banco e respirou fundo, tentando conter as lágrimas. Ele amava Jax com uma intensidade que beirava a autodestruição, mas ser o "segredo" estava começando a corroer sua alma de designer, sua identidade, sua dignidade.
Quanto tempo ele aguentaria ser a sombra enquanto Eliane era a luz? Quanto tempo ele aceitaria as marcas de posse no pescoço que precisavam ser escondidas com golas altas, enquanto Eliane exibia o namorado com orgulho?
— Ele nunca vai contar a ela, sabe?
Alex deu um pulo ao ouvir a voz. Giovanni estava parado ali, encostado em um poste, observando a cena do banco de longe com um sorriso cínico.
— O que você quer, Giovanni? — perguntou Alex, limpando o rosto rapidamente.
— Só estou observando o desastre — Giovanni caminhou até ele, a presença física imponente ofuscando o ambiente. — Meu irmão é um mestre em manter as pessoas em cativeiro. Ele tem a Eliane para o status, para o papai e para a mamãe... e tem você para saciar essa fome doentia de posse que ele tem.
— Você não sabe do que está falando.
— Eu sei exatamente do que estou falando, Alex. Eu vejo como você olha para eles. Você está morrendo por dentro toda vez que ela o toca. Por que você se submete a isso? Você poderia ter alguém que não tivesse vergonha de segurar sua mão na frente de todo mundo. Alguém que não precisasse de uma namorada de fachada para esconder quem realmente é.
— O Jax não tem vergonha de mim! — Alex exclamou, embora a frase soasse oca até para seus próprios ouvidos.
— Não? Então por que ele não termina com ela agora mesmo e te assume? — Giovanni deu um passo à frente, invadindo o espaço de Alex. — Porque ele é um covarde, Alex. Ele prefere te manter como um bichinho de estimação escondido no armário.
— Sai daqui, Giovanni — Alex tentou passar por ele, mas o irmão de Jax bloqueou o caminho.
— Pense nisso, pequeno designer. O tempo passa. E o Jax... bem, a saúde dele não é a única coisa que está desmoronando. Se você continuar sendo o segredo dele, você vai desaparecer junto com ele.
Giovanni deu um tapinha condescendente no ombro de Alex e se afastou, deixando um rastro de dúvida e amargura no ar.
Alex comprou a água e voltou para o banco. Eliane estava rindo de algo que Jax dissera, embora Jax parecesse estar a quilômetros de distância mentalmente. Quando Alex se sentou, Jax imediatamente recuperou a posse de seu pulso por baixo da mesa, como se estivesse marcando território contra a ameaça invisível de Giovanni.
— Demorou — comentou Jax, os olhos examinando o rosto de Alex em busca de qualquer sinal de traição.
— A fila estava grande — mentiu Alex novamente.
A tarde passou como um borrão de desconforto. Quando finalmente o sol começou a se pôr, Eliane se despediu, dando um beijo casto em Jax e um abraço amigável em Alex.
— Nos vemos na aula amanhã, Alex! — ela acenou, caminhando em direção ao estacionamento.
Assim que ela sumiu de vista, a atmosfera mudou instantaneamente. O "personagem" de Jax caiu. Ele agarrou Alex pelo braço com uma força brusca e o puxou para trás de um grande arbusto ornamental, onde as sombras eram densas.
— O que o Giovanni disse para você? — Jax rosnou, prensando Alex contra o tronco de uma árvore. Sua respiração estava acelerada, o esforço de manter a máscara diante de Eliane o deixara exausto e irritadiço.
— Como você sabe que eu falei com ele? — Alex perguntou, tentando empurrar o peito de Jax, mas o namorado era como uma estátua de gelo, inamovível.
— Eu sinto o cheiro dele em você. Eu vi ele se aproximando. O que ele disse? Ele tentou te tocar?
— Ele disse a verdade, Jax! — Alex explodiu, as lágrimas finalmente vencendo a barreira. — Ele disse que eu sou o seu segredinho sujo. Que você nunca vai me assumir. Que eu vou passar a vida inteira vendo você beijar a Eliane em público enquanto eu espero pelas migalhas da sua atenção no escuro!
Jax apertou o rosto de Alex com uma mão, forçando-o a olhar em seus olhos febris.
— Você não é um segredo sujo. Você é a única coisa real na minha vida. Eliane é... ela é uma necessidade. Você sabe como meus pais são. Eles nunca aceitariam...
— E quando é que o que eu sinto vai importar mais do que o que seus pais pensam? — Alex soluçou. — Eu vi você beijando ela, Jax. Aqui. Na minha frente. Você não tem ideia do quanto isso dói.
Jax suavizou o aperto, mas não o soltou. Ele encostou a testa na de Alex, tremendo levemente. A anemia parecia estar drenando suas energias naquele momento de crise emocional.
— Eu faço isso para nos proteger, Alex. Se eles souberem, eles me mandam para longe. Eles me internam em algum lugar para "cuidar da minha saúde" e eu nunca mais vou poder te ver. Você quer isso? Quer que nos separem?
— Eu quero ser amado à luz do dia, Jax.
— Você é amado a cada segundo do dia — Jax sussurrou, descendo os lábios para o pescoço de Alex, encontrando a pele sensível logo abaixo da orelha. Ele mordeu o local com força, uma marca deliberada que Eliane nunca veria. — Você é meu. De corpo, alma e respiração. Eliane tem o meu nome no papel, mas você tem o meu sangue, Alex. Você tem cada batida desse meu coração doente.
Jax o beijou com uma urgência desesperada, uma mistura de desejo e medo de perda. Alex, como sempre, sentiu sua resistência desmoronar. O toque de Jax era como uma droga; ele sabia que era tóxico, sabia que o estava destruindo, mas não conseguia viver sem a intensidade daquela possessão.
— Diga — ordenou Jax contra os lábios de Alex. — Diga que você aceita. Diga que você não precisa de mais nada além de mim.
Alex fechou os olhos, sentindo as mãos frias de Jax subirem por baixo de sua camiseta, reivindicando cada centímetro de sua pele.
— Eu aceito — sussurrou Alex, sentindo-se como se estivesse assinando sua própria sentença de solidão acompanhada. — Mas não sei por quanto tempo vou aguentar, Jax.
— Você vai aguentar para sempre — Jax afirmou, a voz recuperando a força sombria. — Porque eu nunca vou te deixar ir. Se você tentar me deixar, Alex, eu juro que eu arrasto nós dois para o fundo do poço.
Eles ficaram ali, abraçados nas sombras da praça enquanto a noite caía. Para o mundo, Jax era o namorado dedicado de Eliane. Para Alex, Jax era o mestre de uma prisão de seda e gelo.
No dia seguinte, na universidade, a rotina se repetiu. Alex estava no corredor quando viu Jax e Eliane caminhando de mãos dadas. Elano, o ex de Alex, passou por eles e lançou um olhar provocador para Alex, como se soubesse do segredo e estivesse apenas esperando o momento certo para atacar. Giovanni estava encostado em uma pilastra, observando tudo com um olhar predatório.
Jax passou por Alex sem dizer uma palavra. Ele estava rindo de algo que Eliane dizia. Mas, ao passar, seu ombro roçou propositalmente no de Alex, e por um breve segundo, ele deslizou um bilhete para a mão do menor.
Alex abriu o papel quando estava sozinho no banheiro.
"Biblioteca. Meia-noite. Não se atrase. Você é meu."
Alex olhou para o próprio reflexo no espelho. Ele viu as olheiras começando a aparecer, a palidez que começava a mimetizar a de Jax. Ele estava se tornando uma extensão do namorado, uma criatura das sombras.
— Até quando? — ele perguntou para o espelho.
Mas a resposta não veio. A única coisa que importava era o peso do bilhete em sua mão e a promessa de mais uma noite onde ele seria o único universo de Jax, longe dos olhos de Eliane, longe do julgamento de Giovanni, e mergulhado na obsessão que era, ao mesmo tempo, seu paraíso e seu inferno pessoal.
Alex guardou o bilhete no bolso e saiu do banheiro. Ele viu Eliane de longe, conversando com algumas amigas sobre o futuro, sobre casamento, sobre uma vida que ela acreditava que teria com Jax. Alex sentiu uma pontada de pena por ela, mas a sensação foi rapidamente substituída por uma onda de ciúme possessivo que ele aprendera com o próprio Jax.
Ela podia ter o dia. Ela podia ter as aparências. Mas à meia-noite, no silêncio das estantes e dos livros mortos, Jax pertenceria apenas a ele. E, por enquanto, naquela teia de mentiras e desejos proibidos, isso teria que ser o suficiente.
Ao caminhar para a aula, Alex sentiu o olhar de Elano sobre ele. O ex-namorado se aproximou, sussurrando ao passar:
— Você parece cansado, Alex. A vida de segredo está te consumindo.
Alex não respondeu. Ele apenas apertou o bilhete no bolso e seguiu em frente. Ele era um designer de moda; ele sabia como criar fachadas bonitas para esconder estruturas complexas e, às vezes, feias. E sua vida com Jax era sua obra-prima mais perigosa: um vestido de gala feito de arame farpado, lindo de se ver, mas que sangrava quem o vestia.
A noite chegou, e com ela, o frio característico da cidade. Alex saiu de seu dormitório escondido, movendo-se como um fantasma pelos jardins do campus. A biblioteca estava mergulhada na escuridão, mas a porta lateral, como sempre, estava destrancada.
Lá dentro, o cheiro de papel velho e o silêncio absoluto o receberam. Ele caminhou até o fundo, no corredor de História da Arte, o lugar onde tudo começara.
Jax estava lá, sentado no chão, encostado em uma estante. Ele parecia exausto, a respiração pesada ecoando no vazio. Quando viu Alex, seus olhos brilharam com uma necessidade febril.
— Você veio — disse Jax, a voz quase sumindo.
— Eu sempre venho, Jax.
Alex sentou-se entre as pernas de Jax, permitindo que o namorado o envolvesse em seus braços longos e frios. Ali, no escuro, não havia Eliane, não havia Giovanni, não havia fachada. Havia apenas a realidade nua e crua de dois seres quebrados que se encontravam na obsessão.
— Ela quer marcar o noivado — sussurrou Jax, a voz carregada de nojo. — Meus pais estão pressionando.
Alex congelou. O medo que ele tentara ignorar o dia inteiro voltou com força total.
— E o que você vai fazer?
Jax puxou Alex para mais perto, beijando-lhe o topo da cabeça.
— Eu vou dar a eles o que eles querem. Um noivado de papel. Mas eu vou dar a você a minha vida. Nós vamos fugir, Alex. Não agora, mas em breve. Assim que eu conseguir o dinheiro do fundo de reserva.
— Você está mentindo — disse Alex, as lágrimas voltando. — Você nunca vai deixá-los.
Jax virou Alex para que ficassem de frente. Ele tirou um anel de prata simples do bolso — não o anel de diamantes que a família esperava que ele desse a Eliane, mas um aro fino, gravado com as iniciais deles por dentro.
— Este é o verdadeiro noivado — disse Jax, colocando o anel no dedo de Alex. — Você pode não poder usá-lo na frente deles, mas ele está aí. Ele é a prova de que você é o único que eu escolhi.
Alex olhou para o anel brilhando fracamente na penumbra. Era uma promessa ou uma corrente? Naquele momento, ele não conseguia distinguir. Ele apenas abraçou Jax, escondendo o rosto em seu peito, ouvindo o coração doente do namorado bater por ele.
Ser o segredo de Jax era um fardo pesado, uma dor constante que pulsava abaixo da superfície. Mas enquanto Jax o olhasse com aquela fome, enquanto ele o marcasse como seu e o protegesse do mundo com sua loucura silenciosa, Alex continuaria a caminhar naquela corda bamba.
O segredo continuaria. As mentiras cresceriam. E entre o brilho do sol que pertencia a Eliane e o gelo das sombras que pertencia a ele, Alex escolhia a escuridão. Porque na escuridão, e somente nela, Jax era inteiramente, obsessivamente, dele.