Alexjax
Laços de Sangue e Obsessão
O apartamento de Jax era um santuário de sombras. As cortinas pesadas raramente eram abertas, criando um crepúsculo eterno que favorecia a sensibilidade visual de Jax e escondia a palidez extrema de sua pele. Alex estava sentado no sofá de couro preto, observando Jax, que descansava a cabeça em seu colo. Os dedos de Alex acariciavam os cabelos escuros e sedosos do namorado, sentindo a estrutura óssea delicada de seu crânio. Jax parecia um príncipe caído, uma criatura de porcelana que poderia se estilhaçar se o mundo fosse bruto demais com ele.
— Você está muito quieto hoje — murmurou Alex, sua voz suave quebrando o silêncio denso.
— Estou pensando — respondeu Jax, sem abrir os olhos. Suas mãos longas estavam entrelaçadas nas de Alex, o aperto firme, quase doloroso. — Pensando em como o mundo é cheio de pessoas que querem tocar no que não lhes pertence.
Alex suspirou. Ele sabia que Jax ainda estava processando o encontro com Elano. O ciúme de Jax não era algo que passava rápido; era uma chama lenta que consumia tudo ao redor até que restassem apenas cinzas.
— Elano foi embora, Jax. Ele não vai voltar. Você deixou isso bem claro.
— Ele foi apenas o primeiro, Alex. Há sempre alguém. — Jax abriu os olhos, e a intensidade sombria neles fez Alex estremecer. — Mas ninguém me preocupa mais do que o sangue do meu próprio sangue.
Antes que Alex pudesse perguntar o que aquilo significava, o som da chave girando na fechadura ecoou pelo corredor. Jax sentou-se abruptamente, sua postura mudando de vulnerável para defensiva em um milésimo de segundo. A porta se abriu, revelando uma figura que, embora compartilhasse traços genéticos com Jax, exalava uma energia completamente oposta.
Giovanni entrou no apartamento como se fosse o dono do lugar. Mais velho que Jax por três anos, ele era o retrato da saúde e da vitalidade que faltavam ao irmão caçula. Enquanto Jax era magro e anêmico, Giovanni era robusto, com ombros largos e uma pele bronzeada que denunciava horas ao sol. Ele tinha o mesmo olhar intenso, mas nele, o brilho era de carisma, não de loucura.
— Ora, se não é o casal mais recluso da cidade — disse Giovanni, jogando as chaves sobre a mesa de centro. Seu olhar deslizou por Jax e pousou em Alex, demorando-se ali com uma insolência que não passou despercebida. — Como você está, Alex? Você parece mais bonito cada vez que te vejo.
Alex sentiu a mão de Jax apertar seu pulso com uma força repentina.
— O que você está fazendo aqui, Giovanni? — a voz de Jax era um rosnado baixo, perigoso.
— Vim visitar meu irmãozinho, é claro. E ver se o Alex não se cansou dessa sua aura de filme de terror ainda — Giovanni sorriu, um sorriso que mostrava dentes perfeitos, aproximando-se do sofá. Ele ignorou a tensão de Jax e sentou-se na poltrona à frente deles, cruzando as pernas de forma relaxada. — Sabe, Alex, eu estava pensando... você passa tempo demais trancado aqui. Um garoto como você precisa de luz, de movimento. Eu vou a uma festa na sexta, você deveria vir comigo.
O silêncio que se seguiu foi gélido. Alex sentiu o corpo de Jax tremer levemente ao seu lado. A anemia de Jax muitas vezes o deixava fisicamente fraco, mas sua mente, quando alimentada pelo ciúme, tornava-se uma arma afiada.
— Ele não vai a lugar nenhum com você — disse Jax, as palavras saindo por entre dentes cerrados.
— Eu perguntei ao Alex, Jax. Não ao seu segurança particular — rebateu Giovanni, mantendo o olhar fixo no menor. — O que me diz, Alex? Só uma noite fora dessa caverna. Eu prometo que cuido bem de você. Melhor do que o Jax, que mal consegue carregar as próprias compras.
— Giovanni, por favor... — Alex tentou intervir, sentindo o desastre iminente. — Eu estou bem aqui. Eu prefiro ficar com o Jax.
Giovanni soltou uma risada leve, mas seus olhos brilhavam com algo que Alex não gostou: desafio.
— Você é leal demais, pequeno. É uma pena. Jax sempre teve o hábito de guardar as coisas mais bonitas só para ele, mas ele esquece que eu sempre fui melhor em cuidar do que é valioso.
Jax levantou-se. O movimento foi instável, sua pressão caindo com a rapidez do levante, mas ele se manteve de pé, encarando o irmão mais velho. A diferença de porte era ridícula, mas a aura de Jax era tão carregada de malícia que Giovanni finalmente parou de sorrir.
— Saia — ordenou Jax.
— Você está me expulsando? Da casa que nossos pais pagam o aluguel? — Giovanni arqueou uma sobrancelha.
— Saia antes que eu esqueça que compartilhamos o mesmo sobrenome — Jax deu um passo à frente, sua mão pálida apontando para a porta. — Eu vi como você olha para ele, Giovanni. Eu conheço esse olhar. Você sempre quis o que era meu. Meus brinquedos, minha atenção... mas o Alex não é um objeto. Ele é a minha vida. E se você tentar tocá-lo, eu juro por tudo o que é sagrado que eu vou acabar com você.
Giovanni levantou-se lentamente, sua altura superando a de Jax. Ele deu um passo em direção ao irmão, ficando cara a cara. A tensão era palpável, como uma corda prestes a arrebentar.
— Você é fraco, Jax — sussurrou Giovanni, alto o suficiente para Alex ouvir. — Você o prende aqui porque tem medo de que, se ele vir o mundo, ele perceba que você não passa de uma sombra. Eu posso dar a ele o que você nunca vai conseguir. Estabilidade. Força. Vida.
— Você não pode dar a ele o que eu dou — Jax retrucou, sua voz agora estranhamente calma, o que era muito mais assustador. — Eu dou a ele a minha alma. Eu o pertenço tanto quanto ele me pertence. Você só quer um troféu para ganhar de mim.
Giovanni olhou para Alex uma última vez, um olhar carregado de promessa e desejo, antes de pegar suas chaves.
— Isso não acabou, Jax. Você não pode protegê-lo de tudo para sempre. Principalmente de mim.
Quando a porta bateu, Jax desabou de volta no sofá. Sua respiração estava ruidosa e superficial. Alex imediatamente se ajoelhou à sua frente, pegando suas mãos frias.
— Jax, olha para mim. Respira. Ele já foi.
Jax abriu os olhos, e Alex viu lágrimas de puro ódio e frustração acumuladas ali.
— Ele quer você, Alex. Ele sempre consegue o que quer. Ele é forte, ele é saudável... ele é tudo o que eu não sou.
— Jax, para com isso! — Alex segurou o rosto dele com firmeza. — Eu não quero o Giovanni. Eu não quero a força dele, nem a vida dele. Eu quero você. Com toda a sua escuridão, com todo o seu ciúme... eu sou seu.
Jax puxou Alex para um abraço desesperado, enterrando o rosto em seu pescoço. Ele inalou o cheiro de Alex como se fosse oxigênio em um quarto sem ar.
— Ele não vai desistir — murmurou Jax contra a pele de Alex. — Eu o conheço. Giovanni é um predador. Ele acha que, por ser meu irmão, tem algum direito sobre o que eu amo.
— Ele não tem direito a nada — afirmou Alex.
Mas, no fundo, Alex estava preocupado. Giovanni não era como Elano. Elano era um estranho, alguém que Jax podia simplesmente expulsar de suas vidas com uma ameaça. Giovanni era família. Ele tinha acesso a lugares e informações que Elano não tinha. E, acima de tudo, Giovanni era persistente.
Naquela noite, Jax não dormiu. Ele ficou sentado na cama, observando Alex dormir sob o luar que filtrava pelas frestas da cortina. Suas mãos acariciavam obsessivamente o braço de Alex, certificando-se de que ele ainda estava ali. A mente de Jax trabalhava em alta velocidade, traçando planos, imaginando cenários.
A anemia o deixava exausto, mas a paranoia o mantinha alerta. Ele começou a pensar em como Giovanni sempre fora o favorito. O filho perfeito, o atleta, o orgulho da família. Jax era apenas o "menino doente", o problema que precisava de remédios e cuidados constantes. E agora, Giovanni queria tirar dele a única coisa que o fazia se sentir superior, a única coisa que era verdadeiramente sua.
— Eu vou te matar antes de deixar ele te levar — sussurrou Jax na escuridão, sua voz soando como uma promessa sombria. — E depois eu me mato, para que possamos ser donos um do outro no inferno.
Nos dias que se seguiram, a presença de Giovanni tornou-se uma sombra constante. Ele aparecia na universidade "por acaso", oferecendo caronas a Alex ou enviando mensagens que Jax interceptava com fúria. Cada interação era uma faísca em um barril de pólvora.
Certa tarde, Alex estava saindo da biblioteca quando Giovanni o interceptou no estacionamento.
— Alex! Espera — chamou Giovanni, aproximando-se com aquele passo atlético e confiante.
— Giovanni, eu já disse que não quero conversar. O Jax vai ficar furioso se souber que você está aqui.
— O Jax não precisa saber de tudo, Alex. Ele é instável. Você não percebe que vive pisando em ovos com ele? — Giovanni parou na frente de Alex, bloqueando seu caminho. — Eu estou preocupado com você. Ele é possessivo demais. Isso não é amor, é uma prisão.
— É o meu tipo de prisão — respondeu Alex, tentando passar, mas Giovanni segurou seu braço. Não era um aperto bruto como o de Elano, era firme e quente.
— Venha jantar comigo. Só uma conversa. Eu quero te mostrar que a vida pode ser leve. Sem dramas, sem marcas no pescoço, sem medo de um colapso nervoso a cada cinco minutos.
— Solta ele, Giovanni.
A voz veio de trás de um carro próximo. Jax saiu das sombras, parecendo um fantasma vingativo. Ele estava mais magro do que nunca, a pele quase translúcida revelando as veias azuis em seus pulsos. Mas seus olhos... seus olhos queimavam com uma luz maníaca.
— Jax, que coincidência — disse Giovanni, sem soltar o braço de Alex.
— Não é coincidência. Eu sigo cada passo dele — confessou Jax, sem um pingo de vergonha. — Eu sabia que você tentaria algo hoje.
Jax aproximou-se, e Alex viu que ele escondia algo no bolso da jaqueta larga. O coração de Alex disparou.
— Jax, calma... — pediu Alex, sentindo que a situação estava prestes a explodir.
— Eu estou calmo, Alex. Estou perfeitamente lúcido — Jax parou a poucos centímetros de Giovanni. Ele estava ofegante, o esforço de andar rápido até ali cobrando seu preço. — Giovanni, esta é a última vez que eu te aviso. Fique longe do Alex. Se você se aproximar dele de novo, eu vou contar para os nossos pais sobre os seus "negócios" paralelos na empresa. Eu vou destruir a sua reputação de filho perfeito.
Giovanni empalideceu levemente, mas logo recuperou a compostura.
— Você não faria isso. Destruiria a família.
— Eu destruiria o mundo inteiro para manter o Alex comigo — afirmou Jax, sua voz vibrando com uma convicção assustadora. — Você acha que eu me importo com herança? Com sobrenome? Eu só me importo com ele.
Giovanni soltou o braço de Alex, olhando para o irmão com uma mistura de nojo e temor. Ele percebeu, naquele momento, que Jax não estava jogando. Jax tinha ultrapassado a linha onde a razão opera.
— Você é louco, Jax. Completamente louco.
— Talvez — Jax sorriu, um sorriso que não tinha nada de humano. — Mas ele é meu. E você nunca vai ter o que é meu.
Giovanni deu um passo atrás, balançando a cabeça.
— Você vai acabar matando ele com essa obsessão. Ou morrendo você mesmo.
— Pelo menos morreremos juntos — retrucou Jax.
Giovanni se virou e caminhou em direção ao seu carro, derrotado pela imprevisibilidade da loucura do irmão. Ele sabia que, se continuasse, Jax cumpriria a ameaça, e Giovanni amava seu status social mais do que qualquer desejo por Alex.
Jax virou-se para Alex. Ele estava tremendo tanto que mal conseguia ficar em pé. Alex o segurou, sentindo o corpo magro de Jax desabar contra o seu.
— Ele se foi? — perguntou Jax, a voz agora pequena e vulnerável.
— Sim, Jax. Ele se foi.
— Ele não vai voltar?
— Não. Você o assustou de verdade.
Jax fechou os olhos, deixando o peso de seu corpo ser sustentado por Alex.
— Me leva para casa, Alex. Eu estou tão cansado...
Alex o guiou até o carro, sentindo uma mistura de alívio e tristeza. Ele sabia que a ameaça de Giovanni fora neutralizada, mas a que custo? Jax estava se consumindo. Sua possessividade era a única coisa que o mantinha de pé, mas também era o que o estava matando lentamente.
Ao chegarem ao apartamento, Jax não deixou Alex se afastar nem para buscar um copo de água. Ele o puxou para a cama, entrelaçando suas pernas e braços nos dele, como se quisesse fundir seus corpos em um só.
— Você é meu — sussurrou Jax na penumbra do quarto.
— Eu sou seu — repetiu Alex, beijando a testa fria de Jax.
— Promete que nunca vai deixar ele, ou o Elano, ou qualquer outro chegar perto de novo?
— Eu prometo, Jax.
Jax suspirou, finalmente relaxando. Ele adormeceu em poucos minutos, exausto pela batalha mental e física. Alex ficou acordado por um longo tempo, ouvindo a respiração irregular do namorado. Ele sabia que o mundo lá fora continuaria tentando entrar, que outras pessoas seriam atraídas por ele, e que Jax continuaria a lutar contra cada uma delas com unhas e dentes, apesar de sua fragilidade.
Naquela escuridão, Alex percebeu que ele era o centro do universo de Jax — um universo perigoso, possessivo e sombrio, mas era o único lugar onde ele se sentia verdadeiramente, obsessivamente, amado. E, enquanto Jax o segurasse daquela forma, como se Alex fosse seu último fôlego de vida, Alex não iria a lugar nenhum.
A batalha contra o sangue fora vencida, mas a guerra pela posse total de Alex estava apenas começando. E Jax, em sua anemia e loucura, estava pronto para lutar até o último batimento de seu coração doente.