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Alma gêmea

Entre Mapas, Ciúmes e Pós de Pirlimpimpim

A luz da manhã na Terra do Nunca não era como a luz de Londres ou de qualquer outro lugar que Hanna conhecesse. Era uma claridade dourada, quase sólida, que entrava pelas frestas da cabana trazendo consigo o cheiro de jasmim e aventura. Hanna acordou sentindo o peso reconfortante do braço de Peter sobre sua cintura. Por um momento, ela apenas observou o teto de madeira, processando a loucura das últimas vinte e quatro horas. Ela, a garota inteligente de dezessete anos que sempre tinha uma resposta lógica para tudo, estava agora nos braços de uma lenda.

Ela se virou devagar, tentando não acordá-lo, mas Peter Pan tinha o sono de um animal selvagem; ao menor movimento, seus olhos se abriram, brilhando com aquela intensidade travessa que Hanna já estava começando a adorar.

— Bom dia, minha rainha brava — murmurou ele, a voz ainda rouca de sono, puxando-a para mais perto.

— Bom dia, convencido — retrucou Hanna, dando um leve peteleco no nariz dele, embora seu sorriso gentil a traísse. — Você sempre acorda com esse cabelo de quem lutou com um furacão?

Peter passou a mão pelos fios bagunçados, rindo.

— É o charme da ilha, Hanna. Se você ficar muito tempo aqui, o vento vai começar a pentear o seu também. Mas duvido que consiga estragar sua beleza. Muita gente deve ter dito isso para você lá no seu mundo, não é? Que você é... perfeita?

Hanna sentiu o rosto esquentar. Ela sabia que tinha um corpo que chamava atenção e traços que muitos elogiavam, mas ouvir aquilo de Peter, naquele tom quase vulnerável, era diferente.

— Algumas pessoas diziam coisas — respondeu ela, tentando manter o tom brincalhão. — Mas eu geralmente as assustava antes que pudessem terminar o elogio. Você sabe, meu temperamento não é dos mais fáceis.

Peter sentou-se na cama, observando-a com curiosidade.

— Eu gosto do seu temperamento. Os Meninos Perdidos precisam de alguém que coloque ordem naquela bagunça. Mas agora, temos um dia inteiro pela frente. O que você quer fazer primeiro? Caçar sereias? Provocar o Gancho? Ou talvez... — ele se aproximou do ouvido dela — ... apenas voar comigo?

Hanna sentiu um frio na barriga.

— Voar? Peter, eu sou inteligente o suficiente para saber que a gravidade é uma lei, não uma sugestão.

— Na Terra do Nunca, as leis são o que eu digo que são — ele se levantou com um pulo ágil, estendendo a mão para ela. — Vamos, Hanna. Confie em mim.

Eles saíram da cabana e o cenário lá fora era ainda mais vibrante do que na noite anterior. Os Meninos Perdidos já estavam correndo de um lado para o outro, travando batalhas imaginárias com espadas de madeira. Quando viram Hanna, pararam imediatamente.

— Bom dia, Hanna! — gritou Magrelo, o menor deles, correndo até ela. — Você vai nos contar mais histórias hoje? Ou vai brigar com o Peter de novo? É engraçado quando você briga com ele.

Hanna riu, bagunçando o cabelo do menino.

— Talvez as duas coisas, pequeno. Mas primeiro, seu capitão quer me ensinar a desafiar as leis da física.

— O pó! — lembrou Peter, batendo na própria testa. — Sininho! Onde está aquela fadinha temperamental?

Hanna notou que, ao mencionar o nome, uma pequena luz verde começou a ziguezaguear furiosamente ao redor da cabeça de Peter. O som era como o de pequenos sinos de cristal batendo uns nos outros, mas o tom parecia... irritado.

Sininho parou no ar, bem na frente do rosto de Hanna. A fadinha era minúscula, mas a expressão de poucos amigos era perfeitamente visível.

— Ela é fofa — comentou Hanna, estendendo o dedo para um toque gentil.

Sininho desviou bruscamente e soltou uma sequência de tilintares agudos que fizeram Peter fazer uma careta.

— Ei, não fale assim! — repreendeu Peter. — Ela é nossa convidada. E ela é... bem, você sabe o que ela é para mim.

Hanna arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços. Sua inteligência e intuição feminina captaram a mensagem na hora.

— Ela está com ciúmes, Peter? — perguntou Hanna, com um meio sorriso provocador. — Que coisa feia, Sininho. Eu achei que fadas fossem seres de luz, não de drama.

A fada brilhou em um tom de vermelho intenso e voou para longe, escondendo-se entre as folhas de uma árvore alta.

— Ela vai superar — disse Peter, dando de ombros, embora parecesse um pouco desconfortável. — Ela só não está acostumada a dividir minha atenção com alguém que... bem, que realmente consegue conversar comigo de igual para igual.

Hanna sentiu uma pontada de satisfação, mas não deixou transparecer. Ela se aproximou de Peter, olhando-o nos olhos.

— Se vamos fazer isso, vamos logo. Antes que eu mude de ideia e decida que prefiro caminhar como uma pessoa normal.

Peter assobiou e, após alguns segundos de relutância, Sininho voltou, sobrevoando Hanna e deixando cair uma chuva de pó brilhante sobre seus cabelos pretos e ombros. O cheiro era de canela e sonhos.

— Agora — instruiu Peter, segurando as mãos de Hanna —, pense em algo feliz. Algo que faça seu coração querer pular do peito.

Hanna fechou os olhos. Ela pensou em sua casa, na chuva batendo na janela, mas depois pensou no beijo de Peter na noite anterior, na sensação de finalmente pertencer a algum lugar, mesmo que esse lugar fosse impossível.

De repente, seus pés deixaram de tocar a grama.

— Eu estou... eu estou flutuando! — exclamou ela, os olhos castanhos arregalados de surpresa.

— Você está voando, Hanna! — Peter riu, dando uma pirueta no ar ao redor dela.

Hanna começou a pegar o jeito, movendo os braços e as pernas. Sua agilidade natural ajudava, e logo ela estava subindo acima das copas das árvores. A vista era de tirar o fôlego. Ela podia ver a Lagoa das Sereias, o acampamento dos índios e, ao longe, o navio pirata balançando nas águas escuras da Baía dos Canibais.

— É incrível — admitiu ela, o vento bagunçando seus cabelos. — Quase tão bom quanto ganhar uma discussão.

— Você não consegue ser romântica por cinco minutos, consegue? — brincou Peter, aproximando-se e flutuando de costas ao lado dela.

— Eu sou prática, Peter. O romance está na altitude, não nas palavras.

Eles voaram em direção à costa, onde as falésias encontravam o mar. Peter parecia radiante, exibindo-se com manobras arriscadas, mas sempre voltando para o lado de Hanna para garantir que ela estava segura. No entanto, a paz durou pouco.

— Peter! — uma voz grave e áspera ecoou lá de baixo, vinda de um pequeno bote que remava perto das rochas.

Hanna estreitou os olhos. No bote, um homem com um chapéu extravagante e um gancho de metal no lugar da mão esquerda olhava para cima com puro ódio.

— Ah, não. O Gancho novamente — suspirou Peter, mas seus olhos brilharam com a perspectiva de uma luta. — Ele nunca aprende.

— Então aquele é o famoso Capitão Gancho? — perguntou Hanna, sentindo sua braveza natural aflorar. — Ele parece mais um pirata de festa à fantasia do que uma ameaça real.

— Não o subestime, Hanna — avisou Peter, embora estivesse sorrindo. — Ele é traiçoeiro. Fique aqui em cima, eu vou dar um susto nele.

— Ficar aqui em cima? — Hanna arqueou a sobrancelha. — Você me trouxe para a Terra do Nunca para eu ser uma espectadora? Nem pensar, Pan.

Antes que Peter pudesse protestar, Hanna mergulhou. Ela não tinha uma espada, mas tinha uma inteligência rápida e uma mira excelente. Ela avistou um ninho de cocos em uma palmeira inclinada sobre o mar e, com um movimento ágil, chutou um deles enquanto passava voando.

O coco caiu certeiro, atingindo o chapéu de Gancho e derrubando-o na água.

— Mas o que é isso?! — gritou o pirata, tentando se equilibrar no bote enquanto seus marujos riam e depois se calavam de medo.

Hanna pousou em um rochedo alto, cruzando os braços e olhando para baixo com um sorriso vitorioso.

— Acho que você deixou cair uma coisa, Capitão! — gritou ela.

Peter pousou ao lado dela, gargalhando tanto que quase perdeu o equilíbrio.

— Isso foi... genial! Hanna, você é malvada. Eu adorei!

Gancho olhou para cima, vendo a nova figura ao lado de seu nêmesis.

— Quem é essa insolente, Pan? Uma nova Wendy?

— Ela não é "uma nova" nada, Gancho — respondeu Peter, sua voz subitamente séria e protetora, dando um passo à frente de Hanna. — Ela é a Hanna. E eu recomendaria que você não a irritasse. Ela tem uma mira melhor que a minha.

Gancho rosnou algo sobre vingança e ordenou que seus homens remassem de volta para o navio. Ele sabia que, contra dois alvos voadores, ele era uma presa fácil.

Quando o bote se afastou, Peter se virou para Hanna, o olhar cheio de uma admiração nova.

— Você realmente não tem medo de nada, não é?

— Eu tenho medo de baratas e de gente burra — respondeu ela, limpando as mãos na calça magra que acentuava suas curvas, fazendo Peter desviar o olhar por um segundo, ligeiramente afetado. — Piratas com ganchos são apenas alvos maiores.

Peter aproximou-se, envolvendo a cintura dela com as mãos. O clima de adrenalina da pequena batalha transformou-se rapidamente em algo mais íntimo.

— Você é diferente de qualquer pessoa que já esteve nesta ilha, Hanna. Você não quer que eu mude, e você não tenta ser apenas uma "mãe" para os meninos. Você é... você.

— E você é um garoto que se recusa a crescer, mas que está agindo de forma muito madura agora — observou ela, passando as mãos pelos ombros dele. — Isso é um problema para a sua reputação?

— Talvez — admitiu ele, encostando a testa na dela. — Mas acho que posso abrir uma exceção para a minha alma gêmea.

Ele a beijou ali mesmo, no topo do rochedo, com o som das ondas quebrando abaixo deles. Era um beijo selvagem e doce ao mesmo tempo, que cheirava a mar e a liberdade. Hanna sentiu que poderia ficar ali para sempre. A lógica dizia que ela tinha uma vida em outro lugar, mas seu coração dizia que o "outro lugar" nunca teve Peter Pan.

— Peter? — chamou ela, quando se afastaram.

— Sim?

— Se eu for ficar... eu vou precisar de um lugar para guardar meus livros. E você vai ter que aprender a ouvir quando eu disser que uma ideia sua é estúpida.

Peter riu, puxando-a para um abraço apertado.

— Negócio fechado. Mas em troca, você tem que prometer que nunca vai parar de me olhar desse jeito brava e gentil ao mesmo tempo.

— Prometo — disse ela, sorrindo.

Enquanto voavam de volta para a Árvore do Enforcado, onde ficava o esconderijo, Hanna viu Sininho observando-os de longe. A fadinha ainda parecia emburrada, mas Hanna apenas deu um tchauzinho brincalhão. Ela sabia que ganharia a amizade da fada com o tempo, ou pelo menos o seu respeito.

Ao chegarem, os Meninos Perdidos os receberam com gritos e aplausos. Eles já tinham ouvido falar do "incidente do coco" — as notícias viajavam rápido na Terra do Nunca através dos pássaros.

— Hanna! Você é incrível! — gritou um dos gêmeos. — Você pode nos ensinar a chutar coisas na cabeça dos piratas?

Hanna olhou para Peter, que deu de ombros com um sorriso cúmplice.

— Bem — começou ela, sentando-se em um tronco de árvore enquanto os meninos se amontoavam ao seu redor —, a primeira regra para chutar um pirata é a trajetória parabólica. Alguém aqui sabe o que é física?

Os meninos trocaram olhares confusos, e Peter sentou-se ao lado de Hanna, apoiando o queixo na mão, observando-a com um olhar que dizia que, pela primeira vez em séculos, ele não estava interessado em nenhuma outra aventura que não incluísse a garota de cabelos pretos e olhos castanhos ao seu lado.

A noite caiu sobre a ilha, trazendo consigo o brilho das flores luminescentes e o canto das sereias ao longe. Hanna, deitada na rede improvisada que Peter fizera para ela, olhou para as estrelas. Ela sabia que o destino era uma força estranha, mas, pela primeira vez em dezessete anos, ela não sentia a necessidade de questionar o porquê de estar ali.

Peter pulou na rede ao lado dela, fazendo-a balançar.

— No que está pensando? — perguntou ele, passando os dedos pelos fios pretos do cabelo dela, como fizera quando ela acordou pela primeira vez.

— Estou pensando que a Terra do Nunca é um lugar muito bagunçado — respondeu ela, fechando os olhos e aproveitando o carinho. — E que ela tem muita sorte de eu ter chegado para colocar ordem na casa.

Peter riu baixo, beijando a têmpora dela.

— É — sussurrou ele. — Nós temos muita sorte mesmo.

E ali, entre os sussurros da floresta mágica e o calor do primeiro amor, Hanna adormeceu, sabendo que, embora fosse inteligente o suficiente para saber que contos de fadas não existiam, ela estava vivendo o mais real de todos eles.