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Alma gêmea

Marcas de Destino e Sombras de Desejo

O silêncio na Terra do Nunca nunca era absoluto. Havia sempre o sussurro das folhas prateadas, o coaxar distante de criaturas que só despertavam sob o luar e o som rítmico das ondas batendo contra os penhascos. Dentro da cabana de madeira, o ar era morno e carregado com o cheiro de resina e o perfume doce que emanava da pele de Hanna.

Ela acordou lentamente, sentindo o frescor da madrugada. Seus olhos castanhos e levemente puxados se ajustaram à penumbra, encontrando o teto rústico acima de si. Não era a primeira vez que perdia o sono naquele horário; desde que chegara à ilha, seu relógio biológico parecia ter se sintonizado com o de Peter. Ela se virou de lado na cama improvisada, encontrando-o já desperto, com os braços cruzados atrás da cabeça, observando-a com uma intensidade que sempre a fazia perder o fôlego por um segundo.

— Perdeu o sono de novo, rainha brava? — sussurrou Peter, a voz vibrando num tom baixo que parecia acariciar a espinha de Hanna.

— Parece que sim — respondeu ela, ajeitando uma mecha de seu cabelo preto que caíra sobre o rosto. — Acho que a magia deste lugar é barulhenta demais para uma mente que não para de pensar.

Peter deu um sorriso de lado, aquele sorriso que misturava a inocência de um menino com a astúcia de um homem que vira séculos passarem.

— A ilha gosta de você. Ela sussurra o seu nome quando você dorme. Eu ouço.

Hanna soltou um risinho suave, sentando-se e abraçando os joelhos. Sua silhueta magra e definida era desenhada pela luz da lua que filtrava pelas frestas.

— Você é um poeta terrível, Pan. Mas, já que estamos acordados, o que passa nessa sua cabeça de vento?

Peter sentou-se também, aproximando-se dela. O movimento fez com que o lençol caísse, revelando que ele estava sem camisa, algo que Hanna notou imediatamente, embora tentasse manter o foco na conversa. A pele dele parecia brilhar levemente, e os músculos de seus ombros eram firmes, resultado de anos voando e lutando.

— Estava pensando em algo que o destino me disse — começou ele, o tom subitamente mais sério. — Antes de você chegar, a ilha me deu visões. Ela falou de uma garota que não teria medo de me enfrentar, que seria inteligente o suficiente para me desarmar com palavras... e que carregaria marcas na pele.

Hanna arqueou uma sobrancelha, sua curiosidade aguçada.

— Marcas? Que tipo de marcas?

— Tatuagens — disse Peter, a palavra soando estrangeira e fascinante em sua boca. — Eu nunca entendi bem o que eram, até ver alguns piratas com desenhos nos braços, mas o destino disse que as suas seriam diferentes. Que seriam parte de quem você é. Você as tem, não tem?

Hanna sentiu um frio na barriga. Ela sempre fora discreta sobre suas tatuagens, vendo-as como segredos gravados em seu próprio corpo, símbolos de sua autonomia e força.

— Sim, eu tenho — confessou ela, a voz um pouco mais baixa. — Duas, na verdade.

Os olhos de Peter brilharam com uma curiosidade quase elétrica.

— Onde? Posso ver?

Hanna hesitou por um segundo. Sua braveza costumeira estava lá, mas havia também uma vulnerabilidade nova ao lidar com Peter. Ela sabia que ele não perguntava por malícia infantil, mas por uma conexão que ia além da compreensão humana.

— Eu tenho uma na barriga, perto do quadril — disse ela, levando a mão à barra da blusa leve que vestia —, e outra logo abaixo do peito, seguindo a linha das costelas.

— Mostre-me — pediu ele, a voz quase um comando, mas carregada de uma doçura que a desarmou completamente.

Hanna suspirou, cedendo ao desejo dele. Com movimentos lentos e precisos, ela levantou a barra da blusa. Primeiro, revelou a tatuagem na barriga: um desenho delicado e geométrico que parecia uma constelação estilizada, fundindo-se com as curvas de seu corpo elogiado por tantos, mas agora admirado apenas por ele.

Peter aproximou-se, seus dedos roçando a pele dela com uma leveza de quem toca uma asa de borboleta. O toque enviou descargas elétricas pelo corpo de Hanna.

— É linda — sussurrou ele, os olhos fixos no desenho. — Parece um mapa de estrelas que ainda não descobri.

— E a outra? — perguntou ele, levantando o olhar para encontrar os olhos castanhos dela.

Hanna subiu um pouco mais a blusa, revelando a tatuagem abaixo do peito. Era uma frase em uma língua antiga, com traços finos e elegantes que contornavam sua anatomia. Peter inclinou a cabeça, fascinado pela forma como a tinta parecia fazer parte dela, como se tivesse nascido ali.

— O destino não mentiu — disse ele, a voz agora carregada de uma admiração profunda. — Você é uma obra de arte, Hanna. Cada detalhe seu... parece ter sido feito para este lugar. Para mim.

Hanna soltou a blusa, mas Peter não se afastou. A tensão no pequeno quarto mudara. O assunto das tatuagens, embora interessante, parecia ter sido apenas o gatilho para algo mais profundo que fervilhava entre eles desde o primeiro beijo.

— Por que está me olhando assim? — perguntou ela, tentando recuperar sua postura brincalhona, embora sua respiração estivesse ficando pesada.

— Assim como? — retrucou ele, a voz agora num tom de barítono que ela nunca ouvira antes.

— Como se você não estivesse ouvindo uma palavra do que eu digo. Como se estivesse... calculando algo.

Peter soltou uma risada curta e sem fôlego.

— Você é inteligente demais para o seu próprio bem, Hanna. Eu não estou ouvindo, de fato. Eu parei de ouvir no momento em que você revelou a primeira marca.

Hanna percebeu que o olhar dele não estava mais em suas tatuagens, nem em seus olhos. Ele estava fixo na boca dela, acompanhando o movimento de seus lábios a cada palavra.

— Peter... — ela começou, mas o nome morreu em sua garganta.

Sem aviso, ele se moveu. Com a agilidade de um predador e a urgência de um amante, Peter eliminou o espaço entre eles. Suas mãos encontraram a cintura de Hanna, puxando-a para si enquanto seus lábios se chocavam contra os dela em um beijo que não tinha nada de inocente.

Era um beijo faminto, profundo, que carregava toda a possessividade de um rei protegendo seu tesouro e toda a paixão de um rapaz que acabara de descobrir o que significava desejar alguém de verdade. Hanna soltou um gemido baixo contra a boca dele, suas mãos subindo instintivamente para os ombros nus de Peter.

A pele dele estava quente, quase febril. Ela sentiu a textura dos músculos sob seus dedos, a força bruta que ele normalmente escondia sob o disfarce de um menino travesso. Peter a empurrou gentilmente para trás, fazendo-a deitar-se novamente na cama, e posicionou-se por cima dela, sustentando o peso nos cotovelos sem quebrar o contato dos lábios.

Hanna sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela já esperava por aquilo; a forma como ele a observava durante o dia, o modo como ele se tornava protetor quando outros se aproximavam, tudo indicava que o desejo dele era uma corda esticada prestes a romper.

— Eu estava louco para fazer isso de novo — murmurou ele entre beijos, descendo para o pescoço dela, onde deixou uma trilha de fogo que fez Hanna arquear as costas.

— Você... você é muito convencido, Pan — conseguiu dizer ela, a voz falha, enquanto enterrava as mãos nos cabelos dele, puxando-o para mais perto.

— E você é muito brava — retrucou ele, voltando a olhar para ela, os olhos brilhando com uma chama selvagem. — Mas agora, você é minha. O destino gravou isso na sua pele, e eu vou gravar no meu coração.

Hanna sorriu, um sorriso doce e carregado de entrega. Ela sabia que, em qualquer outro lugar, sua mente lógica estaria analisando os riscos, as consequências de se entregar àquele sentimento em uma ilha onde o tempo não existia. Mas ali, sob o peso reconfortante de Peter, sentindo o calor de seu corpo sem camisa contra o seu, a lógica não tinha poder.

— Então não fale mais, Peter — sussurrou ela, puxando-o pela nuca para um novo beijo. — Apenas me mostre que o destino realmente tem bom gosto.

O beijo que se seguiu foi mais lento, explorando cada canto, cada sensação. Peter movia-se com uma confiança que fascinava Hanna. Ele parecia estar descobrindo um novo mundo através dela, e ela, por sua vez, estava descobrindo que a Terra do Nunca era muito mais do que apenas magia e piratas. Era o lugar onde ela podia finalmente baixar a guarda, onde sua braveza encontrava um porto seguro na audácia dele.

As mãos de Peter voltaram para a barra da blusa dela, mas desta vez não havia hesitação. Ele a removeu com delicadeza, seus olhos percorrendo o corpo de Hanna com uma reverência que a fazia se sentir a criatura mais preciosa de todo o oceano.

— Você é perfeita, Hanna — disse ele, a voz falhando por um momento. — As marcas, o corpo, o espírito... Eu nunca vou deixar você ir.

— Eu não pretendo ir a lugar nenhum — respondeu ela, sentindo-se completa como nunca se sentira em dezessete anos de vida organizada e previsível.

Naquela madrugada, as estrelas da Terra do Nunca pareceram brilhar com mais intensidade, e até o vento silenciou ao redor da cabana. Não havia mais espaço para dúvidas ou perguntas sem resposta. Havia apenas a respiração entrecortada de dois jovens que, desafiando as leis do tempo e do espaço, haviam encontrado um no outro a razão para acreditar que algumas histórias nunca precisam terminar.

Hanna envolveu as pernas ao redor da cintura de Peter, sentindo a conexão profunda que os unia. Ela era a rainha brava, a garota inteligente das tatuagens escondidas, e ele era o rei daquela ilha perdida. Juntos, eles eram a prova de que, às vezes, o destino não apenas nos leva a um lugar, ele nos devolve a nós mesmos através do olhar de outra pessoa.

— Peter — chamou ela, num sussurro quase inaudível quando ele se aninhou na curva de seu pescoço após um longo tempo.

— Hum?

— Você ainda acha que crescer é uma aventura terrível?

Peter levantou a cabeça, olhando-a com um carinho que transbordava.

— Se for para crescer ao seu lado, Hanna... acho que posso aprender a gostar dessa aventura também.

Ela riu, beijando-lhe a testa.

— Ótimo. Porque eu tenho muito o que te ensinar.

— Mal posso esperar pelas aulas — ele brincou, voltando a beijá-la, selando um pacto silencioso sob o luar da madrugada eterna.

A noite continuou, mas para eles, o tempo havia parado. E na quietude daquele refúgio mágico, Hanna percebeu que suas tatuagens não eram apenas desenhos; eram coordenadas que a guiaram exatamente para onde ela precisava estar: nos braços do menino que se tornara seu mundo.