Amante, Amor, Amiga
Entre a Embriaguez e o Desejo
O tilintar das taças de cristal marcou o início de uma noite que, embora começasse sob o pretexto da amizade e do consolo, carregava uma eletricidade latente que ambas fingiam não notar. Alanis serviu o vinho com a elegância que lhe era peculiar, o líquido rubi capturando a luz suave da luminária de canto. Elas se acomodaram no sofá grande e macio da sala, encolhendo as pernas e criando um casulo de intimidade que o mundo exterior não ousaria invadir.
— Esse vinho é maravilhoso, Lanis — comentou Gabi, deixando que o sabor amadeirado descansasse em sua língua antes de engolir. — Você sempre teve bom gosto para essas coisas.
— Eu tento — Alanis sorriu, os olhos verdes brilhando sob a franja loira. — Sabe que eu ando numa fase muito "casa"? Comprando plantas, testando receitas, escolhendo vinhos... Acho que é o meu jeito de fincar raízes depois de tanto tempo vivendo em hotéis e sets de filmagem.
— Eu te entendo tanto. — Gabi suspirou, relaxando o corpo contra o encosto. — A vida de turnê com a peça é mágica, mas tem uma hora que você só quer o cheiro do seu amaciante e o silêncio do seu quarto. Embora, ultimamente, o silêncio estivesse barulhento demais lá em casa.
— Mas agora você está aqui — Alanis pontuou, a voz descendo um tom, tornando-se mais aveludada. — E aqui o silêncio é bom.
A conversa fluiu com a facilidade de quem compartilha anos de história. Elas riram lembrando de gafes nos bastidores da novela, discutiram sobre os livros de poesia que Alanis andava lendo e a nova obsessão de Gabi por astrologia, que fazia Alanis revirar os olhos de forma brincalhona. Entre um assunto e outro, a garrafa de vinho ia esvaziando, e as bochechas de Gabriela ganhavam um tom rosado que combinava com seus cabelos ruivos.
No entanto, à medida que o álcool aquecia o sangue, a natureza da conversa começou a mudar. Os espaços entre as palavras tornaram-se mais curtos, e a distância física entre elas parecia diminuir por magnetismo próprio. O olhar de Alanis, antes apenas acolhedor, agora demorava-se mais tempo nos lábios de Gabi enquanto ela falava.
— Você mudou, Gabi — Alanis disse, interrompendo um comentário banal sobre uma série que ambas gostavam. — Não sei explicar. Tem uma força nova em você. Uma liberdade.
Gabi sentiu um frio na barriga que não tinha nada a ver com o vinho. Ela deixou a taça na mesa de centro e se virou completamente para Alanis, apoiando o rosto na mão.
— Talvez seja porque, pela primeira vez em anos, eu não estou tentando ser o que alguém espera que eu seja. Eu sou só a Gabi. E a Gabi, agora mesmo, está se sentindo muito atraída pela nova versão loira da melhor amiga dela.
O silêncio que se seguiu não foi de choque, mas de reconhecimento. Alanis sentiu o coração acelerar, aquela velha cautela tentando erguer um muro, mas a conexão que tinham — aquela mesma que as tornara o casal favorito do Brasil na ficção — era real demais para ser ignorada. Ela também deixou sua taça de lado e se aproximou.
— Gabi... — sussurrou Alanis, a mão subindo hesitante para afastar uma mecha ruiva do rosto da amiga. — Eu tive tanto medo de que, se eu desse um passo, eu estragaria o que a gente tem.
— E o que a gente tem, Lanis? — Gabi perguntou, a voz quase um sussurro, os olhos castanhos fixos nos verdes. — Porque eu acho que a gente tem algo que nunca coube só na palavra "amizade".
Alanis não respondeu com palavras. Ela reduziu o espaço final, inclinando o rosto até que suas respirações se misturassem. O primeiro toque foi suave, um roçar de lábios que carregava a pergunta que ambas faziam há anos. Quando Gabi suspirou contra a boca dela, Alanis aprofundou o beijo.
O beijo tinha gosto de vinho e de uma saudade acumulada que nenhuma das duas tinha coragem de admitir. As mãos de Gabi encontraram a nuca de Alanis, os dedos se enroscando nos fios loiros, enquanto Alanis a puxava para mais perto, querendo eliminar qualquer centímetro de ar entre elas. A língua de Alanis explorou a de Gabi com uma urgência calma, uma dança coreografada pela memória celular de quando fingiam se amar diante das câmeras, mas que agora transbordava verdade.
— O quarto... — murmurou Gabi entre selinhos, a voz embargada pelo desejo.
Elas se levantaram sem quebrar o contato físico. O trajeto até o quarto foi pontuado por tropeços e risos baixos, as mãos já explorando por baixo das blusas, tateando a pele quente. Ao cruzarem a porta, Alanis empurrou Gabi suavemente contra a parede, prendendo as mãos da ruiva acima da cabeça enquanto beijava seu pescoço com voracidade.
— Você não tem ideia de quantas vezes eu imaginei isso — confessou Alanis, a voz rouca contra a pele de Gabi.
— Então para de imaginar e faz, Lanis — respondeu Gabi, arqueando o corpo quando sentiu os dentes de Alanis morderem levemente o lóbulo de sua orelha.
Alanis despiu Gabi com uma reverência quase religiosa. Cada peça de roupa que caía no chão parecia remover uma camada de defesa. Quando Gabi ficou apenas de lingerie, a luz fraca que vinha do corredor desenhou suas curvas, e Alanis parou por um segundo, admirada. Gabi não perdeu tempo e começou a desabotoar a camisa de Alanis, os dedos ágeis revelando a pele clara e os ombros definidos da amiga.
Elas tombaram na cama, um emaranhado de pernas e braços. O toque de Alanis era paciente, mas firme. Suas mãos desceram pelas costas de Gabi, sentindo o arrepio da ruiva a cada centímetro percorrido. Gabi, por sua vez, explorava o corpo de Alanis com uma curiosidade faminta, beijando as clavículas, o vale entre os seios, descendo até o ventre.
— Gabi... — Alanis arfou, a cabeça jogada para trás nos travesseiros quando a ruiva encontrou um ponto sensível em sua coxa.
O clima estava denso, o ar pesado com o cheiro de pele e desejo. Alanis inverteu as posições, ficando por cima de Gabi. Seus olhos verdes pareciam chamas sob a penumbra. Ela começou a beijar o abdômen de Gabi, descendo lentamente, enquanto suas mãos acariciavam a parte interna das coxas da ruiva, abrindo caminho.
Quando Alanis finalmente removeu a última barreira de seda, Gabi soltou um gemido baixo, fechando os olhos e se entregando totalmente. O toque de Alanis era artístico; ela conhecia os ritmos, as pausas e as intensidades que Gabi precisava. Com os dedos e a boca, Alanis explorou a intimidade da amiga, ouvindo cada mudança na respiração dela como se fosse uma partitura musical.
— Por favor, Lanis... agora — pediu Gabi, as mãos apertando os lençóis, o corpo tremendo em antecipação.
Alanis subiu novamente, beijando Gabi com uma paixão renovada. Ela se posicionou entre as pernas da ruiva, os corpos colados, suor contra suor. Quando começaram a se mover juntas, em um ritmo que parecia ter sido ensaiado por mil vidas passadas, o mundo lá fora deixou de existir. Não havia Pablo, não havia ex-namoradas, não havia teatro ou televisão. Havia apenas a fricção da pele, o som dos gemidos abafados contra o ombro uma da outra e a sensação de que, finalmente, o encaixe era perfeito.
Gabi sentia cada movimento de Alanis como uma onda elétrica. Ela puxou a loira para um beijo profundo enquanto suas pernas se envolviam na cintura dela, buscando mais profundidade, mais contato. A entrega era absoluta. Alanis, geralmente tão contida e racional, deixava-se levar pelo instinto, guiada pelos sons de prazer que Gabi soltava.
O ápice veio como uma explosão coordenada. Gabi sentiu o corpo retesar, as unhas cravando-se levemente nas costas de Alanis enquanto o prazer a inundava em ondas avassaladoras. Segundos depois, Alanis desabou sobre ela, a respiração errática, o coração batendo tão forte que Gabi podia senti-lo contra o seu próprio peito.
Ficaram ali, abraçadas, enquanto a adrenalina baixava e o silêncio do quarto tornava-se, enfim, acolhedor. O suor esfriava na pele, mas o calor entre elas permanecia. Alanis beijou o topo da cabeça ruiva de Gabi, puxando o edredom para cobri-las.
— Isso foi... — Gabi começou, mas a voz falhou.
— Eu sei — completou Alanis, sorrindo contra o ombro dela. — Foi muito mais do que um vinho e um jantar.
Gabi se aconchegou mais nos braços da amiga, sentindo uma paz que não experimentava há meses. O término com Pablo agora parecia uma memória distante, um prefácio necessário para que ela pudesse chegar àquele momento.
— Você ainda está com medo? — Gabi perguntou baixinho, referindo-se ao que Alanis dissera mais cedo sobre se envolver de novo.
Alanis ficou em silêncio por um momento, traçando círculos imaginários no braço de Gabi.
— Com você, o medo parece menor do que a vontade de ficar. Eu não sei o que isso vai ser amanhã, Gabi. Mas eu sei que não quero que você vá embora agora.
— Eu não vou — prometeu Gabi, fechando os olhos. — Pelo menos não até o café da manhã.
Elas riram baixo, um som de cumplicidade que selou a noite. Ali, entre lençóis bagunçados e o eco de prazer, Gabriela e Alanis descobriram que algumas histórias não terminam quando as câmeras desligam; elas apenas esperam o momento certo, e a garrafa certa de vinho, para finalmente serem escritas de verdade.
A luz da lua entrava pela fresta da cortina, iluminando o contraste entre o ruivo e o loiro sobre o travesseiro. Gabi adormeceu ouvindo a respiração rítmica de Alanis, sentindo que, apesar de todos os desgastes da semana, ela finalmente tinha voltado para casa. E a casa não era um lugar, era aquela mulher de olhos verdes que a segurava como se ela fosse a coisa mais preciosa do mundo.