Amante, Amor, Amiga
Despertares e Reencontros
O sol da manhã carioca pedia licença pelas frestas da cortina de linho, pintando listras douradas sobre o edredom bagunçado. Gabriela foi a primeira a despertar, sentindo o peso reconfortante do braço de Alanis em volta de sua cintura. Por alguns segundos, ela apenas permaneceu imóvel, absorvendo o calor e o cheiro de lavanda que emanava dos lençóis e da pele da mulher ao seu lado. O alívio que sentira na noite anterior não tinha evaporado com o sono; pelo contrário, parecia ter se solidificado em algo real e tangível.
Ela se virou lentamente, tentando não acordar a outra, mas Alanis já estava emergindo do sono. Os olhos verdes se abriram devagar, piscando contra a claridade, e um sorriso preguiçoso e genuíno surgiu assim que encontraram o rosto de Gabi.
— Bom dia, ruiva — murmurou Alanis, a voz ainda mais rouca e profunda pelo despertar.
— Bom dia, loira — Gabi respondeu, aproximando-se para selar os lábios nos dela em um beijo suave, que carregava a doçura de quem não tem pressa.
Alanis a puxou para mais perto, escondendo o rosto no pescoço de Gabi por um momento, suspirando satisfeita.
— Eu tive um sonho maravilhoso, mas acordar e ver que não foi só o vinho da noite passada é muito melhor.
Gabi riu baixo, acariciando os cabelos claros de Alanis que caíam sobre o travesseiro.
— Definitivamente não foi só o vinho. Embora ele tenha ajudado a soltar umas verdades que estavam entaladas aqui faz tempo.
Elas ficaram ali, emaranhadas, o silêncio da manhã sendo preenchido apenas pelo som da respiração de ambas. A mente de Gabi viajou no tempo, voltando para anos atrás, antes de toda a loucura da fama nacional e dos relacionamentos conturbados.
— Você lembra daquela semana de Carnaval em 2019? — perguntou Gabi, os dedos traçando padrões aleatórios no ombro de Alanis. — Quando a Gio apresentou a gente?
Alanis soltou uma risada nasalada, lembrando-se perfeitamente.
— Como eu poderia esquecer? A Giovanna estava tão empolgada dizendo que tinha encontrado a "minha alma gêmea de amizade". A gente passou aquela semana inteira grudada, indo de bloco em bloco, rindo de coisas que só a gente entendia.
— Eu já gostava de você ali, sabia? — confessou Gabi, olhando nos olhos verdes da amiga. — Tinha uma coisa na sua energia que me prendia. Mas aí veio a pandemia, a gente se trancou em mundos diferentes, e a correria de tudo depois... parecia que o tempo estava sempre jogando contra a gente.
Alanis suspirou, uma sombra de nostalgia passando por seu rosto.
— Eu também sentia isso. Teve tantos momentos naqueles anos em que eu quis te ligar, ou te chamar para sair de novo com o pessoal, mas a vida ia levando a gente para caminhos tão distintos. Eu ficava te acompanhando de longe, vendo suas conquistas, torcendo por cada peça, cada projeto.
Alanis deu um meio sorriso provocador, apertando levemente a cintura de Gabi.
— Mas preciso dizer que, mesmo longe, você nunca me deixou esquecer que estava ali. Durante esses sete anos, Gabriela Medvedovsky, você não perdeu uma única foto minha. Sempre lá, curtindo, comentando... Eu postava e pensava: "Vejamos quanto tempo a ruiva vai levar para dar o like".
Gabi sentiu o rosto esquentar, soltando uma gargalhada e escondendo o rosto no peito de Alanis.
— Ai, meu Deus, era tão óbvio assim? Eu tentava ser discreta, juro!
— Discreta? — Alanis riu, virando-se para ficar levemente por cima de Gabi, apoiada nos cotovelos. — Você comentava até as fotos conceituais que ninguém entendia. Eu achava o máximo. Era como se a gente mantivesse um fiozinho de conexão, mesmo sem se falar de verdade.
— É que eu sempre tive essa sensação de que a gente ainda tinha uma história para escrever — disse Gabi, voltando a ficar séria, a mão subindo para acariciar o rosto de Alanis. — Quando a gente foi escalada para a novela este ano e soubemos que seríamos um casal, eu quase não acreditei. Parecia que o universo estava dando uma segunda chance para aquele sentimento de 2019 florescer.
— E floresceu — concordou Alanis, beijando a ponta do nariz de Gabi. — Trabalhar com você este ano foi o que me manteve sã. A gente construiu aquelas personagens com tanto carinho porque, no fundo, a base já estava lá. A química que todo mundo comentava... não era só atuação, né?
— Nunca foi só atuação, Lanis. Pelo menos não para mim. Mas eu estava com o Pablo, você estava lidando com as suas questões... a gente se protegeu.
— É verdade. Mas talvez agora seja a hora de parar de se proteger tanto — Alanis sugeriu, o olhar intenso e vulnerável. — A gente já sabe o que acontece quando a gente se afasta. Que tal a gente descobrir o que acontece quando a gente resolve ficar?
Gabi sentiu o coração transbordar. Ela puxou Alanis para um beijo mais profundo, um beijo que selava aquele pacto silencioso de presença e honestidade. Não havia mais a pressão do set de filmagem, nem a sombra de relacionamentos passados. Eram apenas elas duas, no conforto de um quarto ensolarado, redescobrindo o que começara em um Carnaval distante.
— Bom — disse Gabi, depois de um tempo, com a voz leve. — Por mais que eu queira passar o resto do dia aqui, meu estômago está começando a protestar.
Alanis sorriu, dando um último selinho nela antes de se espreguiçar.
— Você tem razão. Vamos levantar. Eu faço o café, mas você me ajuda a picar as frutas.
Elas saíram da cama com a naturalidade de quem já fazia aquilo há anos. Alanis vestiu um camisetão largo e Gabi pegou um roupão de seda que estava pendurado atrás da porta. Na cozinha, o clima continuou leve. O som da cafeteira começando a passar o café preencheu o ambiente, misturando-se ao som da rádio suave que Alanis ligou.
Gabi pegou uma tábua e começou a cortar o mamão e as bananas, enquanto observava Alanis de costas, concentrada em preparar as torradas. Havia uma paz doméstica ali que Gabi não sentia há muito tempo. Com Pablo, as manhãs eram muitas vezes apressadas, cheias de discussões sobre horários ou silêncios desconfortáveis. Com Alanis, até o ato de preparar o café parecia uma dança.
— Sabe, Lanis — disse Gabi, concentrada na fruta —, eu estava tão desgastada ontem quando cheguei de São Paulo. Achei que ia levar semanas para me sentir humana de novo.
Alanis se virou, encostando-se na bancada com duas canecas fumegantes nas mãos. Ela entregou uma a Gabi.
— O Rio tem esse poder, mas acho que é a companhia que faz a diferença. Você precisava de um lugar seguro para desarmar a armadura da peça e do término.
— E você é esse lugar — Gabi sorriu, bebendo um gole do café forte. — Desde 2019, mesmo que eu não soubesse admitir.
— Eu fico feliz em ser — Alanis aproximou-se, passando um braço pelos ombros de Gabi enquanto ela terminava de arrumar a fruteira. — E agora que a novela acabou e você está com a peça aqui no Rio, a gente não tem mais a desculpa da distância ou da correria.
— Não temos — concordou Gabi. — E eu não pretendo inventar nenhuma.
Elas levaram o café para a mesa da varanda, que dava para uma vista parcial das árvores do bairro. O ar da manhã estava fresco, e a conversa continuou a fluir, agora sobre planos futuros, sobre a estreia da peça no Rio e sobre como elas queriam passar os próximos dias.
— A Giovanna vai surtar quando souber — comentou Gabi, rindo ao imaginar a reação da amiga em comum. — Ela vai dizer "eu avisei" por pelo menos três horas seguidas.
— Deixa ela dizer — Alanis deu de ombros, sorrindo. — Pela primeira vez na vida, eu não me importo de dar razão a ela.
Enquanto tomavam café, Alanis esticou a mão sobre a mesa, entrelaçando seus dedos aos de Gabi. O toque era firme, um lembrete constante de que estavam ali, presentes e inteiras.
— Gabi — chamou Alanis, fazendo a ruiva olhar para ela. — Obrigada por ter me ligado ontem. Eu sei que não foi fácil dar esse passo depois de uma semana tão exaustiva.
— Foi a melhor decisão que eu tomei em muito tempo, Lanis.
O dia estava apenas começando, e embora o futuro ainda fosse uma página em branco, Gabriela sentia que as cores que usariam para pintá-lo seriam muito mais vibrantes do que qualquer coisa que já tinham vivido antes. Entre o aroma do café e o brilho do sol nos olhos verdes de Alanis, Gabi percebeu que o fim de seu relacionamento com Pablo não tinha sido apenas um ponto final, mas o espaço necessário para que ela finalmente pudesse começar o capítulo que seu coração vinha ensaiando desde aquele encontro de Carnaval.
— Vamos comer logo essas torradas — brincou Alanis, quebrando o momento contemplativo com um brilho travesso no olhar. — Porque depois eu quero que você me conte tudo, detalhe por detalhe, sobre como foi aquela última sessão em São Paulo. Quero saber o que você sentiu no palco.
Gabi sorriu, sentindo-se vista e ouvida como nunca fora antes.
— Eu conto tudo. Mas só se você prometer que a gente vai passar o resto da tarde na rede, sem olhar o celular.
— Prometido — disse Alanis, selando o acordo com mais um beijo, enquanto o Rio de Janeiro despertava lá fora, indiferente à revolução silenciosa e linda que acontecia naquela varanda.