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Amor

O Veneno da Serpente e o Brilho do Bronze

A manhã em Ítaca nasceu sob um céu de um azul tão profundo que parecia tingido pelo próprio manto de Poseidon. No entanto, o ar no palácio dos Uchiha estava carregado com uma eletricidade que não vinha das tempestades de Zeus. No pátio de mármore, o som seco de madeira contra madeira substituía, momentaneamente, o tilintar do aço. Obito decidira que, naquele dia, o treinamento seria focado em agilidade e desarmamento, e ele mesmo supervisionava os jovens guerreiros da guarda real e os nobres que buscavam seu favor.

Tatsuyo movia-se como um borrão de sombras e luz. Seus cabelos pretos, presos em um nó alto, balançavam conforme ela girava para evitar o ataque de dois soldados simultaneamente. Kuro estava a poucos metros, lidando com outros três com uma displicência que beirava o insulto. Ele bocejava enquanto desviava de estocadas, derrubando seus oponentes com rasteiras precisas ou toques sutis nos pontos de equilíbrio.

— Menos exibicionismo, Hatake! — gritou Obito do alto do pedestal, embora um sorriso de canto revelasse sua satisfação. — Se fosse uma batalha real contra os persas, você já estaria tentando seduzir as Erínias no submundo!

Kuro riu, chutando o escudo de um soldado para longe.

— Com todo respeito, Rei Obito, as Erínias teriam que me alcançar primeiro!

Tatsuyo aproveitou a distração de Kuro para deslizar por baixo de seu braço e encostar a ponta de sua espada de treino nas costelas dele.

— Morto — disse ela, com um brilho vitorioso nos olhos pretos.

Kuro congelou, sentindo a pressão da madeira. Ele olhou para baixo, depois para o rosto dela, que estava a poucos centímetros do seu. O suor brilhava na pele parda de Tatsuyo, e o cheiro de lavanda e ferro que sempre a acompanhava inundou os sentidos do rapaz.

— Você trapaceou — sussurrou ele, a voz subitamente baixa. — Usou meu respeito pelo seu pai contra mim.

— Em uma guerra, Kuro, a única regra é sobreviver — ela respondeu, não recuando.

A tensão entre os dois foi interrompida por um aplauso seco e lento. Elian aproximava-se, vestindo uma túnica de linho fino com bordados em ouro, segurando uma xifos de bronze polido que parecia nunca ter sido usada em combate real. Seus olhos, no entanto, eram frios como o mármore das estátuas.

— Uma exibição fascinante, Princesa — disse Elian, ignorando completamente a presença de Kuro. — Mas me pergunto se o treinamento constante com alguém de... linhagem inferior... não está limitando seu verdadeiro potencial. Afinal, um mestre é apenas tão bom quanto o desafio que recebe.

Obito, que descia as escadas, estreitou os olhos. Ele conhecia o tipo de Elian: homens que herdavam poder mas não sabiam como forjá-lo.

— O Hatake tem o melhor histórico de combate desta ilha, Elian — interveio Obito, sua voz de trovão silenciando o pátio. — Se você acha que pode oferecer um desafio maior à minha filha, sinta-se à vontade para provar.

Elian sorriu, uma expressão que não chegava aos olhos.

— Eu não ousaria levantar a mão contra a herdeira, meu Rei. Mas gostaria de testar o homem que vossa majestade escolheu para ser a sombra dela. Dizem que o Hatake é rápido. Gostaria de ver se ele é rápido o suficiente para enfrentar um estilo de luta mais... refinado.

Kuro girou a espada de madeira na mão, o sorriso voltando ao rosto, embora agora carregasse um toque de perigo.

— Refinado? É assim que chamam as aulas de dança que vocês, nobres, fazem no continente?

Tatsuyo sentiu a raiva borbulhar. Ela conhecia Elian e sabia que ele não daria um passo sem uma vantagem oculta.

— Kuro, não precisa... — começou ela, mas o Hatake já estava dando um passo à frente.

— Será um prazer, Lorde Elian. Mas vamos usar aço. Madeira é para crianças, não é?

O silêncio caiu sobre o pátio. Obito cruzou os braços, observando. Ele queria ver até onde a arrogância de Elian ia. Rin, que observava de uma janela interna, apertou o parapeito com força. Ela sentia um presságio ruim, uma sombra que Atena parecia sussurrar em seu ouvido.

— Que assim seja — declarou Obito. — Primeiro sangue ou rendição. Sem golpes fatais.

Kuro desembainhou sua espada. Era uma lâmina de ferro bem cuidada, com o punho envolto em couro gasto. Elian sacou a sua, o bronze brilhando intensamente sob o sol de Ares.

O combate começou sem aviso. Elian era, surpreendentemente, um lutador técnico. Ele usava a maior envergadura para manter Kuro à distância, desferindo estocadas rápidas. Kuro, no entanto, movia-se como a água. Ele não bloqueava os golpes; ele os deixava passar, movendo-se milímetros para o lado, fazendo Elian gastar energia.

— É só isso? — provocou Kuro, saltando para trás após um ataque particularmente agressivo. — Achei que os "pretendentes" de Ítaca tivessem mais fogo.

Elian rangeu os dentes. Ele avançou novamente, mas desta vez, ao cruzar lâminas com Kuro, ele fez algo que apenas quem estivesse muito perto poderia notar. Ele pressionou um pequeno mecanismo no guarda-mão de sua espada. Uma fina agulha, embebida em um extrato de ervas entorpecentes, projetou-se por um milissegundo.

Kuro sentiu uma picada leve no pulso enquanto desviava a lâmina de Elian. Ele não deu importância, achando que era apenas um arranhão do metal. Mas, segundos depois, o mundo começou a girar. O brilho do sol tornou-se insuportável e seus reflexos, geralmente impecáveis, falharam.

Elian viu a hesitação e sorriu. Ele desferiu um corte lateral que Kuro mal conseguiu bloquear, sendo jogado para trás.

— O que foi, Hatake? O cansaço chegou cedo? — zombou o nobre.

Tatsuyo deu um passo à frente, a mão no cabo de sua própria espada. Algo estava errado. Kuro estava pálido e seus movimentos estavam pesados.

— Kuro! — gritou ela.

Kuro tentou focar a visão. Ele via três versões de Elian à sua frente. Ele respirou fundo, tentando canalizar a disciplina que Obito lhe ensinara. "Ignore a dor, ignore o medo, torne-se a lâmina".

Elian avançou para o golpe final, visando o ombro de Kuro para humilhá-lo diante de todos. No último instante, Kuro não recuou. Ele se jogou para frente, deixando a lâmina de Elian cortar seu ombro superficialmente, mas usando o ímpeto para atingir o rosto do nobre com o cabo da espada.

O som do impacto foi seco. Elian caiu para trás, o nariz sangrando, a dignidade em frangalhos. Kuro permaneceu de pé por um segundo, a respiração errática, antes de seus joelhos cederem.

Tatsuyo correu antes mesmo que ele atingisse o chão. Ela o segurou pelos ombros, impedindo que sua cabeça batesse no mármore.

— Kuro! Fale comigo!

Obito aproximou-se rapidamente, seus olhos de águia notando imediatamente o pequeno ponto vermelho no pulso de Kuro e a mancha escura na lâmina de Elian que agora jazia no chão.

— Guardas! — a voz de Obito ecoou como um trovão, fazendo os pássaros voarem das árvores próximas. — Confisquem a arma de Lorde Elian. Agora!

Elian, limpando o sangue do rosto, tentou se levantar com uma falsa indignação.

— O que é isso? Eu venci! Ele caiu por fraqueza!

— Você usou veneno — disse Rin, que surgira no pátio com uma velocidade impressionante. Ela se ajoelhou ao lado de Tatsuyo, examinando o pulso de Kuro. — Uma toxina de efeito rápido. Não é letal, mas é desonroso. Em Ítaca, Elian, tratamos traidores com o rigor de Zeus.

Tatsuyo olhou para Elian, e o fogo em seus olhos pretos era tão intenso que o nobre recuou um passo. Ela se levantou lentamente, desembainhando sua xifos. A ponta da lâmina apontava diretamente para a garganta dele.

— Você tocou no meu guarda. Você desonrou a casa de meu pai — a voz de Tatsuyo era um sussurro perigoso. — Se você não estivesse sob o teto de hospitalidade deste palácio, eu enviaria sua alma para o Hades agora mesmo.

— Tatsuyo, guarde a arma — ordenou Obito, embora sua mão estivesse pesadamente sobre o ombro de um de seus guardas, indicando que ele compartilhava da fúria da filha. — Elian, você e sua comitiva devem deixar Ítaca até o pôr do sol. Suas terras serão notificadas de sua covardia. Se colocar os pés aqui novamente, não haverá diplomacia que o salve.

Elian saiu furioso, mas o medo era visível em seus olhos. Ele sabia que perdera qualquer chance de conquistar o trono — ou Tatsuyo.

No quarto de Kuro, o silêncio era quebrado apenas pelo som das ondas lá fora. Rin já havia administrado o antídoto e o rapaz dormia profundamente. Tatsuyo estava sentada ao lado da cama, segurando a mão dele. Ela não se importava se os servos comentavam ou se seu pai a observava da porta.

Kuro começou a despertar algumas horas depois. Ele piscou, tentando ajustar a visão, e sentiu o calor de uma mão pequena e firme sobre a sua.

— Você está horrível — disse Tatsuyo, um leve sorriso brincando em seus lábios, embora seus olhos estivessem úmidos.

Kuro tentou se sentar, mas uma onda de náusea o fez desistir.

— Eu perdi? — perguntou ele, a voz rouca.

— Você o nocauteou antes de desmaiar. Papai disse que foi a manobra mais arriscada e brilhante que já viu.

Kuro relaxou contra os travesseiros.

— Ele usou alguma coisa... eu senti a picada.

— Ele usou veneno, Kuro. Ele teve medo de você. Todos eles têm medo de você, porque sabem que você é o único que realmente me conhece. O único que eu...

Ela parou, as palavras presas na garganta. Kuro apertou a mão dela.

— O único que você o quê, Tatsy?

Tatsuyo olhou para ele, e por um momento, a princesa desapareceu, restando apenas a jovem que crescera ao lado daquele rapaz de cabelos brancos.

— O único que eu não suportaria perder.

Kuro sentiu seu coração bater mais forte que qualquer tambor de guerra. Ele se esforçou para se levantar um pouco mais, ignorando a tontura.

— Eu fiz um juramento à sua mãe, Tatsuyo. Mas o juramento que fiz a mim mesmo é muito mais antigo. Eu não protejo você porque sou seu guarda. Eu protejo você porque você é o meu mundo.

Tatsuyo inclinou-se para frente, a distância entre eles diminuindo até que suas testas se encostassem. O ar parecia vibrar com a promessa que ambos sabiam que não poderiam cumprir abertamente, mas que não podiam mais ignorar.

— Eles vão tentar de novo — sussurrou ela. — Outros virão. Meu pai está sob pressão para me casar.

— Que venham — respondeu Kuro, sua mão subindo para acariciar o rosto dela. — Deixe que tragam seus exércitos, seus títulos e seu ouro. Nenhum deles tem o que eu tenho.

— E o que você tem, Hatake?

Kuro sorriu, o brilho travesso voltando aos seus olhos castanhos.

— Eu tenho a bênção de Ares, a confiança do Rei e, mais importante... eu tenho o coração da mulher mais perigosa da Grécia.

Tatsuyo riu, uma risada curta e genuína, antes de selar o momento com um beijo casto na testa dele.

Longe dali, no altar de Ares, a chama das tochas oscilou violentamente, como se o Deus da Guerra estivesse rindo. A paz em Ítaca era uma ilusão frágil, e as sombras que Elian deixara para trás eram apenas o começo. Mas, enquanto o sol se punha, banhando o palácio em tons de sangue e ouro, Tatsuyo e Kuro sabiam que, independentemente do que o destino reservasse, eles enfrentariam as Parcas juntos.

Obito observava a cena da varanda, ao lado de Rin.

— Você viu como ela olhou para ele? — perguntou Rin, encostando a cabeça no ombro do marido.

— Eu vi — respondeu Obito, suspirando. — Ele é um bom homem, Rin. Mas o conselho vai exigir um rei com linhagem.

— O conselho exige poder, Obito. E o poder de Ítaca está no sangue dos Uchiha e na lealdade daqueles que nos amam. Se o amor deles for tão forte quanto o nosso, não haverá exército no Olimpo capaz de separá-los.

Obito abraçou a esposa, olhando para o mar infinito. Ele sabia que tempos difíceis viriam. A Grécia estava mudando, e Ítaca era uma joia cobiçada por muitos. Mas, ao ver sua filha e o rapaz que ele considerava um filho, ele sentiu uma ponta de esperança. O amor era a única coisa mais forte que a guerra, e em Ítaca, ambos estavam prestes a ser testados.