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Amor

O Despertar da Flor de Ítaca

A noite em Ítaca possuía um silêncio sagrado, interrompido apenas pelo lamento rítmico do mar contra os penhascos de mármore. O banquete real havia terminado, mas a tensão do dia — o confronto com Elian e a revelação de sua traição — ainda pairava nos corredores como a fumaça das tochas.

Kuro caminhava um passo atrás de Tatsuyo, sua sombra projetando-se longa e protetora contra as paredes de pedra. O ferimento em seu ombro, agora devidamente tratado pelas mãos de Rin, ainda latejava levemente, mas ele mal sentia a dor física. Seus sentidos estavam todos voltados para a figura à sua frente: a herdeira do trono, a mulher que desafiara um nobre por sua causa.

Ao chegarem à porta dos aposentos de Tatsuyo, o protocolo ditava que ele deveria permanecer do lado de fora, uma sentinela silenciosa até o amanhecer. No entanto, quando Tatsuyo girou o trinco de bronze, ela não entrou sozinha. Ela manteve a porta aberta, olhando para ele com olhos que brilhavam mais que as estrelas sobre o Jônico.

— Entre, Kuro — disse ela, a voz suave, mas carregada de uma determinação que não admitia recusas.

Kuro hesitou por uma fração de segundo, olhando para os lados do corredor deserto.

— Tatsy, seu pai...

— Meu pai sabe que você é o único em quem confio meu fôlego, Kuro. Entre.

Ele obedeceu. O som da porta se fechando e do ferrolho sendo passado ecoou no quarto como um decreto. O aposento era amplo, decorado com tapeçarias que narravam as glórias dos Uchiha e o cheiro doce de óleos de banho e sândalo. Tatsuyo caminhou até a cama, sentando-se na borda do colchão de lã macia, enquanto Kuro permanecia em pé, a postura rígida de um soldado, as mãos cruzadas atrás das costas.

— Você ainda está agindo como se estivéssemos no pátio diante de todo o conselho — comentou Tatsuyo, soltando a fita que prendia seus cabelos pretos. — Sente-se aqui. Comigo.

Kuro soltou um suspiro longo, desfazendo a postura oficial. Ele se aproximou e sentou-se ao lado dela, mas manteve uma distância respeitosa.

— Foi um dia longo — disse ele, olhando para as próprias mãos calejadas. — Elian foi embora, mas outros virão. A política grega é como a Hidra; corte uma cabeça e duas surgem no lugar.

Tatsuyo soltou uma risada amarga, balançando a cabeça.

— Eles não me veem como uma pessoa, Kuro. Sou um título, uma chave para o trono de Ítaca. Falam de casamentos e alianças como se estivessem negociando gado no mercado. Elian... ele não queria meu amor. Ele queria o que meu pai construiu.

— Ele não merecia nem olhar para você — rosnou Kuro, a raiva por Elian ainda viva em seu peito. — Mas o Rei Obito está certo em uma coisa. Você precisará de alguém ao seu lado. Ítaca é forte, mas o mundo é vasto e faminto.

Tatsuyo virou-se para ele, encurtando a distância entre seus corpos.

— Eu já tenho alguém ao meu lado. Tenho você.

— Eu sou seu guarda, Tatsy. Eu não tenho terras, não tenho navios.

— Você tem a minha alma — sussurrou ela, e o peso daquelas palavras fez o ar no quarto parecer subitamente escasso. — Você acha que eu me importo com a linhagem de um príncipe de Tebas ou de Esparta? Eu vi você sangrar hoje por mim. Eu vi você lutar quando seus sentidos estavam falhando, apenas para garantir que eu estivesse segura.

Kuro olhou para ela, e a máscara de sarcasmo que ele usava para proteger o próprio coração finalmente se estilhaçou.

— Eu faria tudo de novo. Mil vezes.

Tatsuyo estendeu a mão, tocando o rosto de Kuro com a ponta dos dedos. O toque foi como uma centelha em palha seca. Ela se inclinou, e Kuro não recuou. Quando seus lábios finalmente se encontraram, foi como se o mundo ao redor tivesse deixado de existir. O beijo foi, a princípio, hesitante — o primeiro de Tatsuyo, uma descoberta doce e trêmula. Mas logo a paixão contida por anos de amizade e dever transformou-se em algo mais profundo, mais faminto.

As mãos de Kuro encontraram a cintura de Tatsuyo, puxando-a para mais perto, enquanto ela enredava os dedos nos cabelos brancos e rebeldes dele. Quando se separaram para respirar, ambos estavam ofegantes, os olhos fixos um no outro.

As mãos de Kuro tornaram-se mais ousadas, descendo pelas curvas da túnica dela, e o desejo, cru e honesto, tomou conta do quarto. No entanto, antes que as coisas avançassem além do retorno, Kuro parou. Ele segurou o rosto de Tatsuyo entre as mãos, a expressão subitamente séria, quase temerosa.

— Tatsy... — a voz dele falhou por um momento. — Você tem certeza disso? Você é a princesa de Ítaca. A herdeira de Ares. Eu sou apenas o seu guarda. O que estamos fazendo... se alguém souber, se seu pai souber... não haverá volta. Eu não quero ser aquele que mancha sua honra antes de um casamento legítimo.

Tatsuyo segurou os pulsos dele, os olhos pretos queimando com uma convicção divina.

— Minha honra pertence a mim, Kuro, não aos nobres que cobiçam meu trono. E eu a estou entregando a você. Não porque sou obrigada, mas porque é o que eu mais desejei desde que entendi o que era amar alguém. Eu não quero um casamento por contrato. Eu quero este momento. Eu quero você.

Kuro fechou os olhos por um segundo, sentindo o peso daquela entrega.

— Eu desejei isso por tanto tempo que achei que fosse enlouquecer — admitiu ele, a voz rouca. — Cada vez que eu via você treinar, cada vez que você sorria para mim... eu tinha que me lembrar do meu lugar.

— Seu lugar é aqui — disse ela, puxando-o para um novo beijo, desta vez mais urgente.

Com uma calma quase devota, Kuro começou a desamarrar os cordões da túnica branca de linho de Tatsuyo. Ele agia como se estivesse diante de um altar, tratando cada centímetro da pele parda dela como algo sagrado. Quando o tecido caiu, revelando a forma atlética e graciosa da princesa sob a luz bruxuleante das lamparinas, Kuro perdeu o fôlego. Ela era, de fato, a imagem de uma deusa.

Tatsuyo deitou-se sobre os lençóis, sentindo o frescor do ar contra sua pele e o calor intenso do olhar de Kuro. Ela estendeu a mão, puxando-o para cima dela. Enquanto ela acariciava o cabelo curto e repicado de Kuro, sentindo a textura macia entre os dedos, ele se inclinou sobre ela.

Kuro baixou a cabeça, seus lábios encontrando o ápice dos seios de Tatsuyo. O contato fez um arrepio percorrer todo o corpo da princesa, que soltou um suspiro baixo, arqueando as costas. Era uma sensação nova, avassaladora, um tipo de combate que ela nunca havia treinado, onde a rendição era a maior vitória.

— Kuro... — sussurrou ela, o nome dele soando como uma prece.

Ele continuou a explorá-la com uma ternura que contrastava com sua natureza de guerreiro. Cada beijo, cada carícia, era uma promessa silenciosa de proteção e adoração. Quando ele finalmente se uniu a ela, houve um momento de dor aguda, um sacrifício de sangue que Tatsuyo aceitou com os olhos abertos, fixos nos dele.

Kuro parou, esperando que ela se acostumasse, limpando com o polegar uma lágrima solitária que escapou do canto do olho dela.

— Eu estou aqui — sussurrou ele. — Eu não vou a lugar nenhum.

— Não pare — pediu ela, envolvendo-o com suas pernas, a força da guerreira misturando-se à vulnerabilidade da mulher.

O que se seguiu foi uma dança de corpos e almas que as paredes de Ítaca nunca haviam testemunhado com tamanha pureza. Não era apenas o ato físico; era a fusão de duas vidas que haviam crescido juntas, entrelaçadas pelo destino e forjadas pelo fogo da lealdade. Kuro era cuidadoso, guiando Tatsuyo através das sensações que a faziam sentir como se estivesse voando sobre o topo do Monte Olimpo.

Quando o êxtase finalmente os alcançou, o mundo pareceu desmoronar e se reconstruir em um novo formato. Eles ficaram abraçados por um longo tempo, a respiração de Kuro pesada contra o pescoço de Tatsuyo, enquanto o suor esfriava em seus corpos.

— Agora — começou Kuro, a voz abafada pelos cabelos dela —, eu realmente pertenço a você. De uma forma que nenhuma lei ou rei pode mudar.

Tatsuyo sorriu, sentindo uma paz que nunca conhecera. Ela sabia que, lá fora, os pretendentes ainda tramariam, que as fronteiras ainda seriam ameaçadas e que seu pai, o Rei Obito, teria que enfrentar escolhas difíceis para o futuro do reino. Mas ali, naquele quarto, sob a proteção invisível de Ares e o silêncio da noite, ela era apenas Tatsuyo, e ele era apenas Kuro.

— Você sempre pertenceu a mim, Kuro Hatake — disse ela, aninhando-se no peito musculoso dele. — Só demoramos dezessete anos para admitir.

Kuro beijou o topo da cabeça dela, olhando para a janela onde a Aurora começava a pintar o horizonte de rosa e laranja.

— O dia vai nascer logo — comentou ele. — Eu preciso sair antes que os guardas troquem o turno.

— Eu sei — respondeu Tatsuyo, apertando o braço dele. — Mas hoje, quando treinarmos no pátio, todos verão a mesma princesa e o mesmo guarda. Só nós dois saberemos que Ítaca tem um novo segredo.

Kuro levantou-se com relutância, vestindo suas roupas e recuperando sua espada. Antes de sair, ele se inclinou e deu um último beijo em Tatsuyo, um beijo que carregava todo o peso de sua devoção.

— Eu protegerei você, Tatsy. Contra os nobres, contra os deuses e contra o próprio tempo.

Ele saiu silenciosamente, como uma sombra que retorna à escuridão. Tatsuyo permaneceu na cama, observando o sol nascer sobre o mar. Ela sentia-se diferente; o peso da coroa parecia mais leve agora que ela sabia que não precisaria carregá-la sozinha. Em suas veias corria o sangue dos Uchiha, e em seu coração, o fogo de um amor que desafiaria a própria história da Grécia.

A guerra poderia vir, os pretendentes poderiam clamar, mas a herdeira de Ítaca havia feito sua escolha. E Ares, o Deus da Guerra, certamente sorria do alto de seu trono, pois sabia que não havia força maior na terra do que dois guerreiros que lutavam pelo que amavam.