Amor
O Labirinto de Sombras e a Benção do Olimpo
O crepúsculo sobre Ítaca trazia consigo uma paleta de cores que parecia sangrar sobre o horizonte. O vermelho profundo e o roxo real tingiam as ondas do Mar Jônico, enquanto o palácio, ainda marcado pelas marcas da batalha no salão, começava a se acalmar sob a guarda vigilante dos soldados leais. O cheiro de ferro e poeira estava sendo substituído pelo aroma de incenso de mirra que emanava dos pequenos altares, uma tentativa de purificar o ambiente após a violência dos pretendentes.
Tatsuyo caminhava ao lado de Kuro pelos jardins internos, onde as oliveiras centenárias sussurravam segredos ao vento. Seus passos eram lentos, o cansaço físico finalmente começando a cobrar seu preço, mas a adrenalina ainda pulsava em suas veias. Ela olhou para Kuro de relance; ele parecia maior, mais imponente sob a luz do entardecer. O arco de madeira negra estava pendurado em seu ombro, uma relíquia que agora carregava o peso de sua nova realidade.
— Às vezes — começou Kuro, quebrando o silêncio com uma voz que carregava um tom de incredulidade —, sinto que as Moiras estão rindo de mim. Ontem eu era apenas o guarda que roubava beijos na varanda. Hoje, sou o homem que dobrou o destino de Ítaca.
Tatsuyo parou diante da entrada do pequeno altar de Ares, virando-se para ele. Ela estendeu a mão e tocou o peito dele, sentindo o batimento firme e constante de seu coração.
— Você nunca foi "apenas" nada, Kuro. O arco apenas mostrou ao mundo o que eu e meu pai já sabíamos. As Moiras não estão rindo; elas estão tecendo um tapete que será lembrado por gerações.
— Mas o custo será alto — disse ele, cobrindo a mão dela com a sua. — Elian e os outros... eles têm famílias influentes no continente. O que aconteceu hoje não foi o fim da guerra, Tatsy. Foi apenas o primeiro grito de batalha.
— Então que venham — respondeu ela, os olhos pretos brilhando com a fúria sagrada de seu deus patrono. — Ares não nos deu força para que tivéssemos medo de sombras políticas.
Eles entraram no altar. A estátua de bronze de Ares parecia observar a dupla com uma aprovação silenciosa. Tatsuyo ajoelhou-se, mas desta vez, fez um sinal para que Kuro se ajoelhasse ao seu lado. Juntos, eles ofereceram uma prece silenciosa. Kuro não era um homem de rituais, mas ali, com o calor do corpo de Tatsuyo ao seu lado, ele sentiu uma conexão estranha com o divino. Era como se a lâmina de sua alma estivesse sendo temperada.
Enquanto isso, nos aposentos reais, Obito e Rin observavam o mar da varanda. O Rei de Ítaca tinha um pano úmido pressionado contra o corte em seu supercílio, mas sua mente estava longe da dor física.
— Você está preocupado com a reação do conselho, não está? — perguntou Rin, sua voz suave como a brisa noturna.
— O conselho eu posso controlar, Rin — respondeu Obito, afastando o pano e revelando o olhar intenso. — O que me preocupa é o que esse poder fará com eles. Kuro é um bom homem, mas ele agora é um alvo. Ele não é mais o guarda invisível; ele é o sucessor. Cada sombra em Ítaca agora terá uma adaga com o nome dele.
Rin aproximou-se, abraçando-o pela cintura e repousando a cabeça em seu ombro musculoso.
— Ele tem a Tatsuyo. E ela tem a nós. Nós os treinamos para serem lobos, Obito. Não chore pelas ovelhas que tentarem mordê-los.
Obito soltou um suspiro que pareceu carregar o peso de todo o reino.
— Eu vi como ele segurou aquele arco. Ele usou a técnica que eu lhe ensinei, mas houve algo mais. Uma vontade que eu só vi em homens destinados a grandes tragédias ou grandes impérios. Eu só espero que os deuses sejam benevolentes com eles.
A conversa foi interrompida por uma batida firme na porta. Era Kakashi, o veterano capitão da guarda e mentor de Kuro, que trazia notícias das masmorras.
— Meu Rei — disse Kakashi, curvando-se levemente, o rosto parcialmente oculto pelas sombras do corredor. — Elian está falando. Ele afirma que não agiu sozinho. Diz que houve promessas de apoio vindas de Micenas. Se isso for verdade, não estamos lidando apenas com nobres mimados, mas com uma conspiração para tomar Ítaca como um ponto estratégico para o mar.
Obito endureceu a postura. Micenas era uma potência que ele preferia manter como aliada, mas nunca confiara plenamente em seus governantes.
— Mantenha-o vivo, Kakashi. Mas certifique-se de que ele entenda que a hospitalidade de Ítaca terminou no momento em que ele derramou sangue no meu salão.
De volta aos jardins, Tatsuyo e Kuro haviam saído do altar e caminhavam em direção a uma parte mais isolada das muralhas, onde podiam ver as luzes das vilas de pescadores lá embaixo.
— Você acha que seremos felizes? — perguntou Tatsuyo subitamente, olhando para as estrelas.
Kuro parou, surpreso com a vulnerabilidade na voz da princesa que, minutos antes, enfrentara nobres com o olhar de uma rainha.
— Eu acho que seremos testados — respondeu ele sinceramente. — Acho que teremos noites em que a coroa pesará mais que qualquer armadura. Mas se você estiver comigo, Tatsy... se eu puder ver esse seu olhar de "deusa da guerra" todas as manhãs, então sim, eu seria o homem mais feliz, mesmo que o mundo inteiro estivesse desmoronando.
Tatsuyo sorriu, uma expressão que suavizou seus traços marcantes.
— Você sempre sabe o que dizer, Hatake. É irritante.
— É um dom — brincou ele, aproximando-se e envolvendo-a em seus braços. — Mas falando sério, seu pai vai me fazer passar por um inferno amanhã, não vai?
— Oh, com certeza — riu ela, encostando a cabeça no peito dele. — Ele vai te tratar como o general que ele precisa que você seja. Espere por marchas forçadas, treinos com escudo sob o sol do meio-dia e, provavelmente, ele vai tentar te derrubar na lama na frente de todos os recrutas.
— Vale a pena — sussurrou Kuro, baixando a cabeça para beijar o pescoço dela. — Cada gota de suor e sangue.
Eles ficaram ali por um longo tempo, observando a lua subir. A paz era temporária, ambos sabiam. As notícias de Micenas chegariam em breve, e o julgamento de Elian traria consequências que poderiam levar Ítaca a um conflito aberto. Mas, naquele momento, sob o manto de Zeus e a proteção de Ares, eles eram apenas dois jovens que haviam conquistado o direito de se amar.
Na manhã seguinte, o palácio acordou com o som de trombetas. Não era um chamado para a guerra, mas um anúncio. Obito, Rin e Tatsuyo apareceram no balcão principal, diante do povo de Ítaca que se aglomerava na praça abaixo.
Kuro estava posicionado logo atrás deles, vestindo uma nova armadura de bronze polido, um presente que Rin insistira em entregar naquela manhã. O metal brilhava como o sol.
— Povo de Ítaca! — a voz de Obito ecoou, poderosa e inquestionável. — Ontem, nossa casa foi testada. Covardes tentaram manchar nossa honra e usurpar o direito de minha filha. Mas os deuses falaram através do aço e da força.
Ele fez um sinal para que Kuro desse um passo à frente.
— Este homem, Kuro Hatake, provou ser o sucessor legítimo por mérito e coragem. Ele não apenas dobrou o arco de nossa linhagem, mas protegeu a herdeira com sua própria vida. A partir de hoje, ele não é mais um guarda. Ele é o General de Ítaca e o futuro consorte de Tatsuyo Uchiha!
Um rugido de aprovação subiu da multidão. O povo amava Kuro; eles o viam como um deles, um homem que subira pela própria força, e viam em Tatsuyo a beleza e a fúria que admiravam nos Uchiha.
Tatsuyo segurou a mão de Kuro, erguendo-a junto com a sua. Ela olhou para o lado e viu o orgulho no rosto de sua mãe e a aprovação severa, mas real, no de seu pai.
— Estamos juntos nisso agora — sussurrou ela para Kuro, enquanto os gritos de "Ítaca! Ítaca!" preenchiam o ar.
— Até o fim — respondeu ele, apertando a mão dela.
No entanto, nos limites da multidão, um mensageiro com as cores de Micenas observava a cena com olhos estreitos. Ele não se juntou aos aplausos. Em vez disso, montou em seu cavalo e partiu em direção ao porto. A notícia do novo general e da união dos Uchiha correria rápido, e os inimigos de Ítaca não ficariam parados por muito tempo.
A tarde foi dedicada aos preparativos. Enquanto Rin organizava a logística de um banquete que serviria para selar a aliança com as famílias leais da ilha, Obito levou Kuro para o campo de treinamento privativo.
— Você acha que o arco foi a parte difícil, garoto? — perguntou Obito, jogando uma lança pesada para Kuro.
— Eu imagino que o pior venha agora — respondeu Kuro, pegando a arma no ar com reflexos impecáveis.
— Exato. Liderar homens é diferente de lutar sozinho. Você precisa que eles morram por você, e para isso, você precisa estar disposto a morrer por eles primeiro. Micenas está se movendo. Eles veem minha sucessão como uma fraqueza porque Tatsuyo é mulher e você não tem nome.
— Vou lhes dar um nome que eles temerão pronunciar — afirmou Kuro, cravando a lança no chão.
Obito sorriu, um brilho perigoso nos olhos.
— É o que eu espero. Agora, mostre-me como você se defende contra um ataque de flanco.
O treino durou horas. Tatsuyo observava de longe, sentada nos degraus de mármore, polindo sua própria espada. Ela sabia que sua vida de princesa protegida terminara ali. Ela não seria apenas a esposa de um general; ela seria a rainha que lideraria ao lado dele.
Ao cair da noite, o banquete começou. O vinho corria livre, e a música das liras preenchia o salão reconstruído. Tatsuyo e Kuro sentaram-se lado a lado, recebendo as homenagens dos capitães. Elian e seus aliados haviam sido esquecidos, apodrecendo nas profundezas do castelo, enquanto uma nova era começava.
Em um momento de privacidade, Rin aproximou-se do jovem casal.
— Vocês fizeram bem hoje — disse ela, colocando as mãos nos ombros de ambos. — Mas lembrem-se: o poder é como o mar. Ele pode sustentar seu navio ou afogá-lo em uma tempestade. Mantenham-se fiéis um ao outro, e Ítaca nunca cairá.
— Obrigada, mãe — disse Tatsuyo, sentindo a sabedoria nas palavras de Rin.
Quando a festa finalmente diminuiu e os convidados se retiraram, Tatsuyo e Kuro voltaram para a varanda onde tudo começara. O silêncio era doce.
— Você está pronta para o que vem por aí? — perguntou Kuro, abraçando-a por trás, protegendo-a do vento frio.
— Com você? — ela virou-se em seus braços, olhando profundamente em seus olhos castanhos. — Eu enfrentaria o próprio Cronos se fosse necessário.
Kuro a beijou, um beijo que selava não apenas um desejo, mas um destino. Eles eram os filhos de Ítaca, protegidos por Ares, guiados por Atena e abençoados por Zeus. A conspiração de Micenas poderia vir, os deuses poderiam testá-los, mas enquanto o sangue Uchiha e a lealdade Hatake estivessem unidos, o trono de Ítaca permaneceria inabalável, uma fortaleza de amor e aço contra a escuridão do mundo antigo.
E assim, sob o olhar atento das estrelas e o murmúrio eterno do mar, a história de amor que nascera entre treinos e altares preparava-se para se tornar o mito mais poderoso que a Grécia já conhecera.