Amor
O Arco de Ulisses e o Sangue dos Invasores
O salão principal do castelo de Ítaca nunca parecera tão vasto e, ao mesmo tempo, tão sufocante. As grandes portas de bronze haviam sido seladas ao amanhecer por ordem de Obito, e o ar estava denso com o cheiro de incenso, suor e a expectativa voraz de dezenas de homens. A luz do sol entrava pelas frestas superiores, iluminando as partículas de poeira que dançavam sobre o mármore frio.
Tatsuyo estava sentada em um trono menor, à direita de seu pai. Ela vestia uma túnica de seda branca com bordados em fio de ouro que serpenteavam como chamas, e seus cabelos pretos caíam em ondas perfeitas até a cintura. Sua expressão era uma máscara de porcelana: fria, régia e inalcançável. Ao seu lado, Rin observava a multidão com um olhar calculista, enquanto Obito, com os braços cruzados sobre o peito musculoso, parecia um deus do julgamento.
No centro do salão, repousava o objeto que era o motivo de tanto alvoroço: um arco colossal, feito de madeira negra desconhecida e reforçado com chifre de boi e placas de ferro. Não era um arco comum; era uma relíquia de família, pesado e rígido demais para qualquer homem comum sequer curvar as hastes, quanto mais encordoá-lo. Além do arco, doze machados de guerra estavam cravados no chão, alinhados perfeitamente, com os orifícios de seus cabos formando um túnel estreito.
— A regra é simples — a voz de Tatsuyo ecoou, clara e cortante como o aço. — Aquele que conseguir encordoar este arco e disparar uma flecha que atravesse o orifício dos doze machados sem desviar o curso, terá minha mão e o direito de governar Ítaca ao meu lado.
Um murmúrio percorreu os nobres. Muitos ali eram homens robustos, príncipes de terras distantes e guerreiros que se gabavam de suas conquistas. Um a um, eles tentaram.
O primeiro, um lorde de Cefalônia com braços como troncos de árvore, rosnou enquanto puxava a corda de cânhamo reforçado. Seu rosto ficou roxo, as veias de seu pescoço saltaram, mas o arco nem sequer rangeu. Ele desistiu, jogando a arma no chão com um xingamento abafado.
O segundo, um jovem arrogante da Ática, tentou usar o peso do próprio corpo para dobrar a madeira, mas o arco ricocheteou, quase quebrando as costelas do rapaz.
A cena se repetiu por horas. O salão estava desprovido de qualquer outra arma; Obito garantira que todas as xifos e lanças fossem levadas para o arsenal externo, temendo que a frustração dos nobres resultasse em derramamento de sangue antes da hora. Apenas o arco e a flecha solitária sobre a mesa permaneciam.
Elian, que havia retornado com uma escolta reforçada e uma petição do conselho que Obito não pudera ignorar legalmente, observava tudo com um desdém crescente. Ele não tentou o arco. Ele sabia que suas mãos, afeitos a vinhos e intrigas, não possuíam a força bruta necessária.
— Isso é uma farsa! — gritou Elian, sua voz estridente interrompendo o silêncio após o décimo quinto pretendente falhar. — Este teste é impossível! O arco é amaldiçoado ou forjado por Hefesto para nunca ser dobrado por mortais.
Ele caminhou até o centro, apontando um dedo acusador para Tatsuyo.
— Você está zombando de nós, Princesa. Nenhum homem nesta sala, nem mesmo o mais forte dos seus guardas, conseguiria tal feito. Exigimos que este circo acabe. Escolha o melhor entre nós, aquele com a linhagem mais nobre e as terras mais vastas, e pare de nos submeter a essa humilhação.
— O melhor de vocês? — Tatsuyo ergueu uma sobrancelha, um sorriso gélido tocando seus lábios. — Se nenhum de vocês consegue completar um teste de habilidade e força, como pretendem proteger Ítaca quando os persas ou os espartanos baterem à nossa porta?
— A princesa tem razão — disse uma voz vinda do fundo do salão, perto das sombras das colunas.
Kuro Hatake deu um passo à frente. Ele não vestia as cores da nobreza, apenas sua armadura de couro leve e a túnica escura de guarda real. Seus cabelos brancos estavam levemente bagunçados, e seus olhos castanhos brilhavam com uma determinação que fez o coração de Tatsuyo acelerar.
— Eu ainda não tentei — disse Kuro, calmamente.
Uma gargalhada coletiva explodiu entre os pretendentes.
— Você? — Elian riu tanto que precisou se apoiar em um dos machados. — O cão de guarda? O órfão que o rei recolheu das docas?
— Cuidado com a língua, Elian — avisou Obito, sua voz soando como um trovão distante. — Em Ítaca, qualquer homem livre tem o direito de tentar a prova, se a princesa assim permitir.
Tatsuyo olhou para Kuro. Havia um universo de palavras não ditas entre eles. Ela sabia que ele era forte, mas aquele arco testava mais do que músculos; testava a conexão entre a alma e a arma.
— Permito — declarou ela. — Que o guarda tente.
Kuro caminhou até o centro do salão sob os olhares de escárnio e as piadas obscenas dos nobres. Ele ignorou a todos. Ele se ajoelhou diante do arco, tocando a madeira negra com uma reverência quase religiosa. Ele sentiu a vibração da arma; era pesada, sim, e exigia um respeito que os outros não haviam dado.
Ele se levantou, posicionando o arco contra o chão. Kuro não tentou dobrá-lo apenas com a força bruta dos braços. Ele usou a técnica que Obito lhe ensinara anos atrás: a transferência de peso, a respiração profunda vinda do diafragma e a concentração absoluta.
O salão ficou em silêncio absoluto. Ouviu-se um rangido baixo. A madeira negra começou a ceder. Os músculos das costas de Kuro, visíveis sob a túnica, retesaram-se como cordas de aço. Com um movimento fluido e um estalo que ecoou como um tiro, ele encaixou a alça da corda no entalhe superior.
Os pretendentes ficaram boquiabertos. Elian deu um passo atrás, o rosto pálido.
Kuro não parou. Ele pegou a flecha única, posicionou-a na corda e ergueu o arco. O peso era imenso, fazendo seus braços tremerem levemente, mas ele fechou um dos olhos, alinhando a ponta de bronze com o minúsculo orifício do primeiro machado.
Ele soltou o ar dos pulmões. A corda cantou.
A flecha disparou como um relâmpago, um zunido agudo cortando o ar. Ela atravessou o primeiro machado, o segundo, o terceiro... e continuou, em uma linha perfeitamente reta, atravessando o décimo segundo e cravando-se com força na porta de madeira do fundo do salão.
Por três segundos, ninguém respirou.
— Pelos deuses... — sussurrou Rin, um sorriso de puro orgulho iluminando seu rosto.
Tatsuyo levantou-se lentamente, seus olhos fixos em Kuro.
— O desafio foi vencido — anunciou ela, a voz vibrando de emoção. — Ítaca tem seu consorte.
A explosão de fúria foi imediata.
— Traição! — berrou Elian, o rosto vermelho de ódio. — Isso foi um truque! Eles planejaram isso para entregar o trono a um plebeu!
— Não aceitaremos! — gritou outro nobre, puxando um punhal escondido sob a túnica, desafiando a ordem de desarmamento. — Ítaca não será governada por um bastardo de cabelos brancos!
Em um piscar de olhos, o salão transformou-se em um campo de batalha. Os pretendentes, movidos pela humilhação e pela cobiça, avançaram contra o estrado real. Como não havia espadas, eles usavam o que podiam: cadeiras, taças de bronze pesadas e os próprios machados que Kuro acabara de usar como alvo.
— Kuro! — gritou Tatsuyo, saltando do estrado.
Kuro não hesitou. Ele usou o próprio arco como um bastão, golpeando o primeiro homem que se aproximou. O impacto quebrou a mandíbula do agressor.
Obito levantou-se como um gigante despertado. Ele não precisava de armas; seus punhos eram como marretas. Ele agarrou dois nobres pelas golas das túnicas e chocou suas cabeças com um som surdo.
— Vocês ousam profanar o meu salão? — rugiu Obito, derrubando três homens com um único chute circular. — Vocês ousam atacar a minha família?
Rin, ágil e precisa, usava uma adaga que mantinha escondida na coxa. Ela se movia como uma sombra entre os atacantes, desabilitando nervos e tendões com cortes cirúrgicos.
Tatsuyo encontrou Kuro no meio da confusão. Um pretendente tentou agarrá-la por trás, mas ela girou, usando o impulso para desferir uma cotovelada no nariz do homem e, em seguida, uma rasteira que o enviou ao chão.
— Onde está Elian? — perguntou Kuro, ofegante, enquanto bloqueava o golpe de um banco de madeira com o braço.
— Lá! — Tatsuyo apontou para o fundo, onde Elian tentava arrancar a flecha da porta, possivelmente para usá-la como arma contra eles.
Eles correram juntos, abrindo caminho através da massa de homens enfurecidos. Kuro era um borrão de movimento, protegendo os flancos de Tatsuyo enquanto ela derrubava qualquer um que cruzasse seu caminho. A sincronia entre os dois era perfeita, uma dança de guerra que apenas anos de treino e um amor profundo poderiam forjar.
Elian finalmente conseguiu soltar a flecha, virando-se com os olhos arregalados de loucura.
— Você não vai ficar com ela, Hatake! — gritou ele, avançando com a flecha como se fosse uma adaga.
Kuro empurrou Tatsuyo para trás e esquivou-se do ataque desajeitado de Elian. Ele agarrou o pulso do nobre, torcendo-o até ouvir o estalo do osso. Elian soltou um grito agudo, caindo de joelhos.
Kuro recuperou a flecha e a pressionou contra a garganta de Elian.
— Você falou muito sobre linhagens e direitos — disse Kuro, a voz fria como o gelo do norte. — Mas esqueceu que, em Ítaca, o direito é conquistado com sangue e coragem. Coisas que você nunca teve.
— Matem-nos! — Elian gritou para seus seguidores restantes. — Matem todos eles!
Mas os outros pretendentes, vendo seus líderes caírem e o Rei Obito lutando como um demônio possuído por Ares, começaram a recuar. A porta principal foi arrombada por fora; a guarda real, liderada pelos capitães leais a Obito, invadiu o salão com lanças em punho.
— Rendam-se! — ordenou o capitão da guarda. — Ou o Hades terá muitos convidados hoje!
Um a um, os nobres jogaram seus pertences no chão e caíram de joelhos. O salão, antes um local de banquete e pretensão, agora estava manchado de sangue e destroços.
Obito caminhou até o centro, sua respiração pesada, limpando o sangue de um corte no supercílio. Ele olhou para Kuro e Tatsuyo, que ainda estavam perto de Elian.
— Levem-nos para as masmorras — ordenou Obito aos guardas, apontando para Elian e os instigadores. — Eles serão julgados por traição e tentativa de regicídio.
Quando o salão foi finalmente limpo dos insurgentes, restaram apenas a família real e Kuro. O silêncio voltou, mas era um silêncio diferente — um silêncio de vitória.
Tatsuyo aproximou-se de Kuro. Ela estendeu a mão e limpou uma mancha de poeira da bochecha dele.
— Você conseguiu — sussurrou ela, com os olhos brilhando. — Você dobrou o arco.
— Eu não teria conseguido se não soubesse o que me esperava no final da prova — respondeu Kuro, segurando a mão dela e levando-a aos lábios.
Obito aproximou-se, colocando as mãos nos ombros de ambos. Ele olhou para Kuro com um respeito genuíno, o tipo de respeito que um guerreiro reserva apenas para seus iguais.
— Você provou seu valor, Hatake. Não apenas com o arco, mas com a coragem de proteger o que é seu.
— Ele é o futuro de Ítaca, Obito — disse Rin, aproximando-se e abraçando o marido pela cintura. — O povo nunca seguirá um nobre arrogante depois de ver o que um homem com o coração certo pode fazer.
Obito assentiu, olhando para a flecha que Kuro ainda segurava.
— Amanhã, anunciaremos o noivado oficialmente. E que qualquer um que tenha algo contra, lembre-se do que aconteceu hoje neste salão.
Tatsuyo olhou para Kuro, e a promessa silenciosa que haviam feito nas sombras finalmente se tornou uma realidade sob a luz do sol. Eles sabiam que a vida em Ítaca continuaria sendo um desafio; haveria outros nobres, outras conspirações e o peso constante de liderar um povo. Mas, enquanto estivessem juntos, com a bênção de Ares e a sabedoria de Atena, eles seriam inquebráveis.
— Vamos? — perguntou Kuro, oferecendo o braço à princesa.
— Para onde? — Tatsuyo sorriu.
— Para o altar de Ares. Acho que devemos um agradecimento ao deus que nos deu a força hoje.
Eles caminharam juntos, saindo do salão em direção aos jardins internos. O sol de Ítaca brilhava intensamente, refletindo-se nas águas do mar e no futuro que ambos, finalmente, tinham o direito de chamar de seu. A lenda de Tatsuyo e Kuro estava apenas em seu capítulo inicial, mas já era escrita com a tinta indelével do amor e do aço.