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Amor

O Brilho Além do Placar

A arena Konoha Ice Center estava em ebulição. O som das lâminas cortando o gelo, o choque dos corpos contra o acrílico e os gritos ensurdecedores da torcida criavam uma atmosfera elétrica que faria qualquer pessoa comum tremer. Mas para Tatsuyo, aquele era apenas mais um dia de trabalho — embora um dia consideravelmente mais pesado.

Ela ajeitou o fone de ouvido e verificou o gravador em sua mão. Vestia uma jardineira de veludo cotelê verde-musgo sobre uma blusa de lã preta de gola alta, um conjunto que a mantinha aquecida no ambiente gélido do ringue e, mais importante, acomodava confortavelmente a curva nítida de sua barriga de quatro meses. A gestação não a impedira de continuar sendo a jornalista esportiva mais respeitada da liga; se algo mudara, fora apenas a sua percepção de urgência e um brilho nos olhos que nem as luzes fortes da arena conseguiam ofuscar.

No gelo, o jogo estava nos segundos finais. O Konoha Wolves liderava por 3 a 2 contra o temível time de Kumo. Kuro, o capitão e defensor estrela, era um borrão de branco e azul, bloqueando ataques com uma ferocidade que parecia ter dobrado desde que descobrira que seria pai. Quando a buzina final ecoou, sinalizando a vitória, a arena explodiu.

Tatsuyo sorriu, sentindo um chute leve em seu ventre.

— Viu só, pequeno? — sussurrou ela para a barriga. — Seu pai é um exibido.

Ela se posicionou na zona mista, o local onde os jogadores passavam para as entrevistas rápidas antes de irem para o vestiário. As câmeras de TV de rede nacional já estavam posicionadas, e o link ao vivo estava prestes a começar. O público em casa e nas redes sociais aguardava ansiosamente; desde o casamento, a dinâmica entre a jornalista "pé no chão" e o jogador "obcecado" era o conteúdo favorito da internet.

Kuro vinha em sua direção, tirando o capacete e revelando o cabelo branco suado e grudado na testa. Ele estava ofegante, o rosto corado pelo esforço físico, mas assim que seus olhos castanhos encontraram Tatsuyo, a expressão de predador do gelo derreteu instantaneamente para um sorriso bobo e genuíno.

O cinegrafista fez o sinal de "três, dois, um" e apontou para Tatsuyo.

— Estamos aqui ao vivo com o capitão dos Wolves, Kuro, após uma vitória suada contra o Kumo — começou Tatsuyo, mantendo o tom profissional, embora seus olhos brilhassem. — Kuro, uma defesa espetacular no último período garantiu o placar. O que passou pela sua cabeça naquele último contra-ataque?

Kuro parou à frente dela, a diferença de altura de quase vinte centímetros ainda sendo um contraste adorável. Ele se inclinou um pouco em direção ao microfone, mas seus olhos nunca deixaram o rosto de Tatsuyo.

— Honestamente, Tatsuyo? — A voz dele saiu rouca pelo cansaço. — Eu só pensava que tinha duas pessoas muito importantes me assistindo hoje e que eu não podia deixar ninguém passar por mim. Eu tinha que garantir que o caminho estivesse seguro.

Tatsuyo sentiu as bochechas esquentarem levemente. Ela sabia que ele não estava falando apenas do jogo.

— Uma estratégia sólida — disse ela, tentando retomar o foco técnico. — Com essa vitória, vocês garantem a liderança da conferência. Como o time pretende manter esse ritmo para os playoffs, considerando a pressão externa?

Kuro deu um passo à frente, encurtando a distância profissional. Ele ignorou completamente a câmera que transmitia para milhões de pessoas.

— A pressão externa não incomoda quando a base em casa é forte — disse ele, a voz baixando de tom, tornando-se mais íntima. — Mas, falando em ritmo... você está de pé há muito tempo, não está? Como estão os pés? E o nosso pequeno defensor aí dentro, está se comportando?

O silêncio caiu sobre os comentaristas no estúdio. A internet, em tempo real, começou a entrar em colapso. Tatsuyo riu, tentando manter a compostura enquanto o microfone captava tudo.

— Kuro, estamos ao vivo para todo o país. Foco no hóquei, por favor.

— Eu estou focado no que importa — rebateu ele, soltando o taco de hóquei no chão e, para a surpresa de todos, ajoelhando-se sobre o gelo sintético da zona mista.

As redes sociais explodiram. O "muro de Konoha", o homem que derrubava atacantes de cem quilos, estava ajoelhado aos pés de uma jornalista de jardineira. Kuro encostou a mão enluvada, mas com cuidado, na barriga de Tatsuyo.

— Ei, campeão — disse ele, falando diretamente para o ventre dela, ignorando os flashes dos fotógrafos ao redor. — O papai ganhou hoje. Espero que você tenha gostado do show. Não chute muito a mamãe hoje à noite, tá? Ela trabalhou muito.

Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela colocou a mão sobre a cabeça de Kuro, os dedos se perdendo nos fios brancos e curtos.

— Kuro, levante-se. Você está todo suado e as pessoas estão olhando.

— Deixe que olhem — disse ele, levantando-se com um salto, mas sem soltar a cintura dela. — Eu sou o homem mais feliz do mundo, Tatsuyo. Ganhar esse jogo é bom, mas voltar para casa com você e saber que nossa família está crescendo... isso é o que me faz o melhor jogador da liga.

Ele se inclinou e deu um beijo rápido, mas carregado de afeto, na testa dela, e depois um beijo casto nos lábios, esquecendo completamente que ainda segurava o microfone da emissora.

— Agora, se me der licença, Sra. Capitã, eu preciso de um banho e de uma pizza gigante. Você me espera no carro?

— Espero — respondeu ela, a voz falhando um pouco. — Vá logo, antes que seus companheiros venham te carregar.

Kuro piscou para a câmera, pegou seu taco e saiu em direção ao vestiário, deixando uma Tatsuyo atordoada e um país inteiro em estado de choque emocional.

— Bem... — Tatsuyo voltou-se para a câmera, tentando recuperar o fôlego e a postura profissional, embora seu sorriso fosse radiante. — Voltamos para o estúdio. Como viram, o capitão dos Wolves está... com as prioridades em dia.

Assim que a transmissão cortou, o celular de Tatsuyo começou a vibrar violentamente no bolso da jardineira. Eram notificações do Twitter, Instagram e mensagens de amigos.

"O BEIJO DO ANO!", dizia uma manchete instantânea. "Kuro ajoelhado no gelo é a coisa mais pura que o esporte já viu", comentava uma influenciadora famosa. "A jardineira da sorte: como Tatsuyo conquistou o gelo e o coração do capitão", dizia outro portal.

Vídeos do momento em que Kuro falava com a barriga dela já acumulavam milhões de visualizações em questão de minutos. A imagem dele, musculoso e suado, contrastando com a doçura do gesto para com a esposa grávida, tornou-se o meme de "meta de relacionamento" definitivo.

Uma hora depois, Tatsuyo estava sentada no banco do passageiro do SUV preto de Kuro. O silêncio do carro era um alívio após o caos da arena. Kuro entrou logo depois, cheirando a sabonete e vestindo um moletom largo.

— Você tem noção do que fez? — perguntou ela, embora não houvesse raiva em sua voz. — Minhas redes sociais travaram. O diretor da emissora disse que foi a maior audiência de uma entrevista pós-jogo na história do canal.

Kuro ligou o motor e olhou para ela, o olhar cheio daquela obsessão saudável que ela aprendera a amar.

— Eu não planejei, Tatsu. Eu só vi você ali, linda com essa jardineira verde, com o nosso filho aí dentro... e o jogo perdeu a importância. Eu só queria que o mundo soubesse o quanto eu tenho orgulho de vocês.

Tatsuyo suspirou, encostando a cabeça no banco.

— Você é um exagerado, Kuro.

— Sou um homem apaixonado — corrigiu ele, pegando a mão dela e beijando os nós dos dedos. — E por falar em exagerado, eu vi que a pizza de pepperoni está em promoção. O que acha?

— Acho que o bebê concorda plenamente.

Enquanto o carro se afastava da arena, as telas gigantes do lado de fora ainda mostravam o replay do momento na zona mista. A internet continuaria falando por dias, os programas de TV analisariam cada palavra, e as fãs suspirariam com a "perfeição" do casal.

Mas para Kuro e Tatsuyo, enquanto atravessavam as ruas iluminadas de Konoha, o que importava não era a fama ou os recordes. Era o calor das mãos dadas, o chute suave do bebê e a certeza de que, não importa o quão barulhento o mundo se tornasse, eles sempre teriam o seu próprio refúgio de silêncio e verdade.

— Ei, Tatsu? — chamou Kuro, enquanto paravam em um sinal vermelho.

— Oi?

— Acha que ele vai querer patins de hóquei ou jardineiras primeiro?

Tatsuyo riu, uma risada clara que preencheu o carro.

— Conhecendo o pai que tem? Provavelmente os dois ao mesmo tempo.

Kuro sorriu, acelerando o carro em direção ao futuro que, para ele, era muito mais brilhante do que qualquer holofote de estádio.