Amor
Cicatrizes e Silêncios Compartilhados
A luz da manhã entrava pelas janelas da sala de aula com uma intensidade que Tatsuyo Nakamura detestava. Para a maioria dos alunos, era apenas um dia ensolarado de primavera, mas para ela, cada raio de sol parecendo ricochetear nas mesas brancas era um estímulo visual a mais para processar. Ela ajustou os óculos de lentes levemente escurecidas e puxou as mangas do seu moletom azul-marinho até cobrirem as palmas das mãos.
Sob o tecido, as feridas de ontem ainda ardiam. Ela sabia que não deveria ter feito aquilo, mas a sensação da pele se rompendo era a única coisa que conseguia "cortar" o ruído branco que ameaçava explodir seu cérebro.
Ela sentou-se na sua mesa habitual, no fundo da sala, perto da parede. Era o seu porto seguro. Ou, pelo menos, era o que ela pensava até o som de passos pesados e familiares ecoar pelo corredor.
— Ei, Tatsuyo! — A voz de Kuro Hatake era como um acorde de violão bem tocado no meio de uma orquestra desafinada.
Ela levantou os olhos lentamente. Kuro estava parado à porta, a mochila pendurada em apenas um ombro, o cabelo branco levemente bagunçado como se tivesse acabado de tirar o capacete de hóquei. Ele sorriu, e Tatsuyo sentiu aquele mesmo calor estranho da noite anterior.
— Oi, Kuro — ela sussurrou, a voz quase sumindo.
Kuro não hesitou. Ele caminhou em direção a ela, mas, ao contrário dos outros alunos que passavam esbarrando nas cadeiras e fazendo barulho proposital, ele se moveu com uma agilidade silenciosa. Ele puxou a cadeira ao lado da dela — o lugar que costumava ficar vazio ou ocupado por algum material esquecido — e sentou-se.
— O lugar está ocupado? — perguntou ele, embora já estivesse se acomodando.
— Não... mas você costuma sentar com o time lá na frente — ela observou, apontando discretamente para o grupo de jogadores que já começava a rir alto perto da mesa do professor.
Kuro deu de ombros, abrindo um caderno que parecia ter sido mastigado por um cachorro nas bordas.
— Eles são barulhentos demais hoje. Acho que o café da manhã deles tinha muito açúcar. Prefiro aqui. É mais... calmo.
Tatsuyo olhou para ele, tentando decifrar se ele estava apenas sendo gentil ou se realmente queria estar ali. Kuro percebeu o olhar dela e, por um momento, a máscara de "garoto engraçadinho" caiu, revelando uma sinceridade que a desarmou.
— Como estão as mãos? — ele perguntou em voz baixa, inclinando-se um pouco mais perto, mas respeitando o espaço dela.
Tatsuyo encolheu os ombros e escondeu as mãos sob a mesa.
— Estão bem. Só... ardendo um pouco.
— Você passou algum remédio? — Kuro franziu o cenho. — Minha mãe é enfermeira, ela vive me dando sermão sobre infecções por causa dos cortes que eu ganho no gelo. Se você quiser, eu tenho um pouco de pomada antisséptica na minha bolsa de treino.
— Não precisa, Kuro. Eu lavei bem.
— Promete? — Ele a encarou seriamente.
— Prometo.
O sinal tocou, um som estridente que fez Tatsuyo fechar os olhos com força e tensionar os ombros. Ela sentiu as unhas buscando automaticamente a pele do pulso por dentro da manga, mas antes que pudesse apertar, sentiu um toque leve no tampo da mesa, bem ao lado do seu braço.
Era a mão de Kuro. Ele não a tocou diretamente, mas deixou a palma aberta ali, como um convite.
— Foca no ritmo da respiração, Tatsuyo — ele murmurou enquanto o professor entrava na sala. — Ignora o sinal. Ele já parou.
Ela abriu os olhos e viu a mão dele. As pequenas marcas de unhas que ela havia deixado ontem ainda eram visíveis na pele clara dele, como pequenas luas crescentes vermelhas. O fato de ele não as esconder, de não sentir vergonha delas, fez com que Tatsuyo relaxasse os dedos.
A aula de História seguiu de forma lenta. Para Tatsuyo, o desafio era o ventilador de teto que fazia um tique-tique rítmico e irritante. Ela começou a balançar a perna, um movimento repetitivo para tentar dissipar a energia nervosa.
— O que foi? — Kuro sussurrou, sem tirar os olhos do quadro negro, fingindo que estava anotando algo.
— O ventilador — ela respondeu, sentindo-se boba. — O som dele é... amarelo.
Kuro parou a caneta. Ele não riu. Ele não perguntou o que ela queria dizer com "som amarelo". Ele apenas olhou para o ventilador e depois para ela.
— Amarelo tipo um limão azedo ou amarelo tipo um sol quente demais?
Tatsuyo piscou, surpresa pela compreensão dele.
— Tipo um limão azedo. Ácido. Incomoda os dentes.
Kuro assentiu. Ele se levantou de repente, fazendo a cadeira ranger levemente.
— Professor Collins? — chamou Kuro, com sua voz de capitão que impunha respeito imediato.
— Sim, Hatake?
— Aquele ventilador está fazendo um barulho de metal batendo. Acho que pode cair na cabeça de alguém. Será que podemos desligar e abrir as janelas de trás? O vento está bom hoje.
O professor olhou para o ventilador, deu de ombros e concordou.
— Tem razão, Hatake. Desligue-o, por favor.
Kuro caminhou até o interruptor, desligou o aparelho e abriu as janelas, deixando uma brisa fresca entrar. Ao voltar para o seu lugar, ele lançou um olhar rápido para Tatsuyo.
— Melhor? — ele perguntou, apenas com o movimento dos lábios.
Tatsuyo sentiu um nó na garganta, mas desta vez não era de pânico. Era de gratidão. Ela assentiu, permitindo-se um pequeno e raro sorriso que iluminou seu rosto pardo.
No intervalo, o caos do refeitório era algo que Tatsuyo sempre evitava. Ela costumava se esconder na biblioteca ou atrás das arquibancadas do campo de futebol. Mas hoje, Nico a interceptou no corredor.
— Ei, esquisita — chamou Nico, aproximando-se com dois amigos do time de hóquei. — Onde você pensa que vai? Mamãe mandou você me entregar o dinheiro do lanche que ela esqueceu de me dar.
Tatsuyo parou, sentindo o peito apertar. Nico estava em um daqueles dias em que queria se sentir superior na frente dos amigos.
— Está na minha mochila, Nico. Mas não precisa gritar.
— Eu grito se eu quiser! — Nico riu, arrancando a mochila do ombro dela com um puxão brusco. — Você é muito lenta. Parece que vive em outro planeta.
Os amigos de Nico riram. Tatsuyo sentiu a visão começar a embaçar. O corredor estava cheio, o barulho das conversas estava aumentando, e a agressividade do irmão era a faísca que faltava para um incêndio sensorial. Suas mãos foram direto para os antebraços, as unhas prontas para cravar.
— Devolve a mochila dela, Nico.
A voz veio de trás deles. Era fria, cortante e carregada de uma autoridade que nenhum aluno ousaria desafiar. Kuro Hatake estava parado ali, com os braços cruzados, os músculos do peito e dos braços sob a camiseta da escola parecendo ainda maiores devido à tensão.
Nico empalideceu levemente.
— Ah, qual é, Capitão? É só uma brincadeira. Ela é minha irmã.
— Eu não vi ninguém rindo — disse Kuro, dando um passo à frente. — E eu me lembro de ter dito para você ser mais legal ontem, não me lembro? Parece que você tem problemas de memória, Nakamura. Talvez precise de um tempo extra no banco de reservas para refletir.
Nico engoliu em seco. Ele sabia que Kuro não estava brincando. O capitão tinha o poder de influenciar as decisões do treinador sobre quem jogava e quem ficava no banco.
— Toma — Nico resmungou, entregando a mochila de volta para Tatsuyo de qualquer jeito. — Você é um estraga-prazeres, Hatake.
Nico e seus amigos saíram apressados. Kuro suspirou, passando a mão pelo cabelo branco, nitidamente irritado. Ele se voltou para Tatsuyo e sua expressão suavizou instantaneamente.
— Você está bem? — ele perguntou, percebendo que ela ainda tremia.
Tatsuyo estava com as mãos presas nos braços, mas ainda não tinha começado a se arranhar. Ela olhava para o chão, tentando controlar a respiração.
— Eu odeio quando ele faz isso — ela sussurrou. — Ele faz eu me sentir... errada.
Kuro se aproximou e, desta vez, ele se atreveu a colocar uma mão gentil sobre o ombro dela. Foi um toque firme, mas incrivelmente cuidadoso.
— Você não é errada, Tatsuyo. Ele é que é um moleque que ainda não cresceu. Vem, vamos sair daqui. O refeitório vai estar um inferno hoje.
Ele a guiou para fora do prédio principal, em direção à arena de hóquei. Era o lugar favorito de Kuro, e durante o horário de almoço, ficava quase vazio e mergulhado em um silêncio frio e reconfortante.
Eles se sentaram no banco de reservas, de frente para o gelo liso e brilhante sob as luzes da arena. O frio ajudava a acalmar os nervos de Tatsuyo, agindo como uma compressa gelada em sua mente superaquecida.
— Por que você é tão bom comigo? — ela perguntou depois de um longo silêncio.
Kuro estava brincando com um disco de hóquei que encontrara no banco, girando-o entre os dedos com habilidade.
— Honestamente? No começo, eu só achava que você precisava de um defensor. Mas depois... eu comecei a te observar mais. Você percebe coisas que ninguém mais percebe, Tatsuyo. Você vê o mundo de um jeito intenso. Eu acho isso incrível. E eu odeio injustiça. Ver o Nico te tratando mal é como ver alguém chutando um filhote.
Tatsuyo fez uma careta.
— Eu não sou um filhote, Kuro.
Kuro riu, um som genuíno que ecoou pela arena vazia.
— Eu sei que não é. Você é muito mais forte do que eu. Se eu tivesse que sentir tudo o que você sente, o barulho, as luzes, a pressão... eu já teria surtado no primeiro dia. Você aguenta isso todo dia e ainda tira notas melhores que as minhas em Matemática.
Tatsuyo sentiu um rubor subir pelo pescoço.
— Eu posso te ajudar com Matemática, se você quiser.
Kuro parou de girar o disco e olhou para ela, os olhos castanhos brilhando de entusiasmo.
— Você faria isso? Porque o Collins disse que se eu não tirar um B na próxima prova, eu estou fora do time. E eu sou um desastre com equações.
— Eu ajudo — ela disse com firmeza. — É uma troca. Você me ajuda com o "barulho" e eu te ajudo com os números.
Kuro estendeu a mão para ela, a mesma mão que ainda tinha as marcas dela.
— Fechado, parceira.
Tatsuyo olhou para a mão dele e, desta vez, sem hesitar, ela a apertou. Não foi um aperto de pânico, mas um aperto de amizade.
— Kuro? — ela chamou enquanto eles ainda estavam de mãos dadas.
— Sim?
— Posso te mostrar uma coisa?
Ela puxou a manga do moletom, revelando as marcas de ontem. Estavam avermelhadas e algumas tinham pequenas crostas.
— Eu não quero mais fazer isso — ela confessou, a voz embargada. — Mas às vezes é a única coisa que me faz parar de querer gritar.
Kuro olhou para as feridas com uma tristeza profunda, mas não com pena. Ele pegou a mão dela com as duas mãos dele, envolvendo-a em um calor protetor.
— Quando você sentir vontade de fazer isso, me procura. Se eu não estiver por perto, me manda uma mensagem. Qualquer hora. Eu vou te dar outra coisa para focar. A gente pode contar os azulejos da parede, ou você pode apertar a minha mão, ou eu posso te contar as piadas ruins que o goleiro do time conta. Qualquer coisa, Tatsuyo. Mas não se machuque mais. Você é preciosa demais para ter essas cicatrizes.
Tatsuyo sentiu uma lágrima solitária escorrer, mas ela a limpou rapidamente. Pela primeira vez em dezessete anos, o mundo não parecia um lugar tão hostil. O gelo à frente deles era frio, mas o coração de Kuro Hatake era o lugar mais quente que ela já conhecera.
— O Nico vai ficar furioso se souber que estamos passando o tempo juntos — comentou ela, tentando mudar de assunto para não chorar.
— Deixe que ele fique — Kuro deu de ombros, levantando-se e puxando-a gentilmente para que ficasse de pé também. — Ele precisa aprender que o capitão dele tem um novo foco. E que esse foco inclui proteger a melhor tutora de Matemática que essa escola já viu.
Eles caminharam juntos para fora da arena. Kuro manteve-se ao lado dela, seu corpo alto e musculoso agindo como um escudo natural contra o fluxo de alunos que voltava para as salas. Tatsuyo não precisou usar seus fones de ouvido naquela tarde. O som da voz de Kuro, contando uma história engraçada sobre como ele quase caiu de cara no gelo em seu primeiro treino, era o único som que ela precisava para se sentir em paz.
Ela ainda teria crises. Ela ainda teria dias em que o mundo seria "amarelo ácido". Mas agora, ela sabia que não precisava enfrentar o furacão sozinha. Havia um capitão de cabelos brancos pronto para patinar ao lado dela, enfrentando qualquer tempestade que a vida decidisse enviar.