Voltar ao resumo

Amor

Marcas de Giz e Promessas de Gelo

A biblioteca da escola era um dos poucos lugares onde o "amarelo ácido" que Tatsuyo sentia no mundo se transformava em um azul pálido e silencioso. O cheiro de papel antigo e o som abafado das páginas sendo viradas eram como um bálsamo para seus sentidos sempre alertas. No entanto, naquela tarde, o silêncio era interrompido por um som rítmico que a estava deixando tensa: o bater impaciente da caneta de Kuro contra a mesa de madeira.

Tatsuyo olhou para o papel à frente deles. Ela havia escrito três equações de segundo grau, explicando passo a passo como encontrar o valor de delta. Kuro, por outro lado, parecia estar encarando os números como se fossem hieróglifos de uma civilização perdida.

— Kuro — chamou ela, sua voz mal ultrapassando um sussurro —, a caneta. O barulho.

Kuro parou instantaneamente, arregalando os olhos castanhos em um pedido de desculpas mudo.

— Foi mal, Tatsuyo. É que meu cérebro parece que entra em curto-circuito quando vê esse "x" e esse "y" juntos. No gelo, tudo é instinto, sabe? Eu vejo o disco, calculo o ângulo sem nem pensar. Mas aqui... — Ele apontou para o caderno com um sorriso autodepreciativo. — Aqui eu me sinto um pato fora d'água. Ou um jogador sem patins.

Tatsuyo deu um sorriso minúsculo, ajeitando seus fones de ouvido que estavam pendurados no pescoço, prontos para serem usados caso algum grupo de alunos entrasse fazendo barulho.

— Tente pensar na equação como uma jogada de defesa — sugeriu ela, aproximando o caderno dele. — O delta é como o posicionamento dos seus defensores. Se ele for negativo, significa que a defesa falhou e não há solução para o gol... ou melhor, para a raiz.

Kuro inclinou a cabeça, os fios brancos de seu cabelo caindo levemente sobre a testa. Ele parecia realmente estar tentando visualizar aquilo.

— Então, se o delta for zero, eu tenho exatamente uma chance de salvar o jogo? — perguntou ele, interessado.

— Exatamente — respondeu ela, sentindo uma pontada de satisfação por conseguir se comunicar na "língua" dele.

Eles ficaram ali por mais uma hora. Kuro era esforçado, embora se distraísse facilmente com qualquer movimento na biblioteca. Tatsuyo notou que, sempre que ele percebia que ela estava ficando inquieta com o som de uma cadeira arrastando ou com a luz forte da janela, ele discretamente mudava de posição para fazer sombra sobre o papel dela ou iniciava uma conversa baixa para focar a atenção dela apenas na sua voz.

— Você é uma professora paciente — comentou Kuro, fechando o livro após finalmente resolver um problema sozinho. — Acho que aprendi mais hoje do que no semestre inteiro com o Collins.

— Você que é bom em ouvir — disse Tatsuyo, guardando seus lápis de cor na ordem exata do arco-íris, um hábito que a acalmava.

— É mais fácil ouvir quando a voz é agradável — rebateu ele, piscando para ela com aquele jeito brincalhão que sempre a deixava sem saber como reagir.

Antes que Tatsuyo pudesse processar o elogio, a porta da biblioteca se abriu com um estrondo. Nico entrou, seguido por dois colegas do time. Ele parecia irritado, e o som de seus passos pesados no chão de linóleo fez Tatsuyo encolher os ombros imediatamente.

— Sabia que vocês estariam aqui — disse Nico, parando na frente da mesa e ignorando completamente o aviso de "silêncio" da bibliotecária. — Hatake, o treinador está chamando. O treino vai começar mais cedo hoje porque ele quer testar uma nova tática de Power Play.

Kuro olhou para o relógio de pulso e franziu o cenho.

— Ainda faltam vinte minutos para o horário oficial, Nakamura.

— Ele mudou agora. Vamos logo. E você, Tatsuyo — Nico olhou para a irmã com um desprezo que fez o estômago dela revirar —, não fica aí mofando. Vai para a arena ou me espera no portão. Mas não faz aquela cara de quem está tendo um derrame se eu demorar, ouviu?

Tatsuyo sentiu a pressão começar a subir. O tom de voz de Nico era como lixa em sua pele. Suas mãos escorregaram para debaixo da mesa, e ela sentiu a ponta das unhas procurando as cicatrizes ainda frescas em seus pulsos.

— Nico — a voz de Kuro subiu um tom, perdendo toda a descontração de antes —, eu já te disse sobre como falar com ela.

— E eu já disse que você não é o pai dela, Kuro! — Nico retrucou, cruzando os braços. — Você está agindo como se ela fosse de vidro. Ela é só estranha, tá legal? Sempre foi. Você só está dando corda para as manias dela.

Tatsuyo sentiu o mundo começar a girar. "Estranha". "Manias". As palavras de Nico ecoavam em sua cabeça como batidas de tambor desafinadas. Ela começou a balançar o corpo para frente e para trás, um movimento sutil, mas que Kuro notou imediatamente. As unhas dela se enterraram na carne do antebraço.

— Sai daqui, Nico — ordenou Kuro, levantando-se. Ele era mais alto e muito mais imponente que o mais novo. — Agora. Vá para o vestiário. Eu chego em cinco minutos.

Nico bufou, murmurando algo sobre "capitão mimando a esquisita", e saiu batendo a porta.

O silêncio que se seguiu foi pior do que o barulho. Tatsuyo estava em transe, a respiração curta, os olhos fixos em um ponto vazio na mesa. Ela sentia a dor em seus braços, mas era uma dor "boa", uma dor que competia com a agonia mental que Nico havia causado.

— Tatsuyo. Olha para mim.

A voz de Kuro era suave, mas firme. Ele não tentou tocá-la, lembrando-se de que, em momentos de crise, o toque físico não solicitado poderia ser um gatilho.

— Ele não sabe o que diz — continuou Kuro, ajoelhando-se ao lado da cadeira dela para ficar no mesmo nível de seus olhos. — Ele é pequeno por dentro. Você é gigante.

Tatsuyo não conseguia parar. Suas unhas estavam puxando a pele, e ela sentiu o calor do sangue começando a brotar.

— Tatsuyo, solte os braços. Lembra da nossa promessa? — Kuro estendeu a mão, deixando-a aberta sobre a mesa, entre eles. — Aperte a minha mão. Pode descontar em mim. Eu aguento o tranco, sou o capitão, lembra?

Lentamente, como se estivesse lutando contra um ímã poderoso, Tatsuyo soltou o próprio braço. Suas mãos tremiam violentamente. Ela buscou a mão de Kuro e a apertou com uma força surpreendente para alguém tão pequena. Suas unhas cravaram no dorso da mão dele, exatamente sobre as marcas do dia anterior.

Kuro não emitiu um único som de dor. Ele apenas respirou fundo, acompanhando o ritmo dela.

— Isso... — sussurrou ele. — Respira comigo. Inspira o ar frio da arena... expira o calor do deserto.

Eles ficaram assim por longos minutos. Aos poucos, o balanço do corpo de Tatsuyo diminuiu. Seus olhos voltaram a ter foco. Ela olhou para baixo e viu o que estava fazendo com a mão de Kuro.

— Desculpa... eu machuquei você de novo — disse ela, soltando-o rapidamente, como se tivesse tocado em brasa.

Kuro olhou para a própria mão, onde quatro pequenas marcas vermelhas sangravam levemente. Ele deu um sorriso de lado, pegando um lenço de papel do bolso e limpando o local sem dar importância.

— Eu já disse, são medalhas. Prefiro mil vezes essas marcas na minha mão do que ver você se machucando.

Tatsuyo sentiu uma onda de exaustão atingi-la. Crises sensoriais sempre a deixavam como se tivesse corrido uma maratona.

— Você tem que ir para o treino — disse ela, limpando uma lágrima teimosa. — O Nico disse que o treinador está esperando.

— O treinador pode esperar cinco minutos. E o Nico... bem, o Nico vai ter que aprender a carregar todos os equipamentos do time sozinho hoje como punição por ser um idiota — Kuro se levantou e estendeu a mão, desta vez não para ser apertada, mas para ajudá-la a levantar. — Você vem comigo?

— Para a arena? — perguntou ela, hesitante.

— Sim. Eu não vou deixar você sozinha agora. Você pode ficar na cabine de transmissão. É fechada, tem vidro duplo, o som do treino quase não chega lá. É o lugar mais silencioso da arena. Eu te deixo lá com seus livros e, quando o treino acabar, eu te levo para casa.

Tatsuyo hesitou. A ideia de estar perto de Nico a assustava, mas a ideia de estar perto de Kuro a fazia se sentir estranhamente segura.

— Tudo bem — concordou ela.

Caminhar pelo corredor com Kuro era uma experiência diferente para Tatsuyo. Normalmente, ela tentava ser invisível, encostando-se nas paredes para evitar o contato físico com os outros alunos. Mas Kuro caminhava ao lado dela de um jeito que parecia reivindicar o espaço ao redor deles. Ele cumprimentava as pessoas com acenos rápidos, mas sua atenção nunca saía totalmente dela.

Ao chegarem na arena de hóquei, o frio característico a envolveu. Kuro a levou escada acima, até a pequena cabine de vidro onde os narradores ficavam durante os jogos oficiais.

— Aqui — disse ele, abrindo a porta. O interior era pequeno, com uma bancada comprida e cadeiras confortáveis. Realmente, o som lá dentro era apenas um murmúrio distante. — Fique aqui. Ninguém vai te incomodar. Eu vou avisar o zelador para não subir.

Tatsuyo sentou-se em uma das cadeiras e olhou através do vidro. Lá embaixo, o gelo brilhava sob os refletores. Alguns jogadores já estavam patinando, incluindo Nico, que parecia estar procurando por alguém na arquibancada.

— Obrigada, Kuro — disse ela, olhando para ele.

Kuro parou na porta, o capacete já em mãos.

— De nada, Tatsuyo. E olha... — Ele hesitou por um segundo. — Se o barulho ficar ruim mesmo aqui dentro, ou se você se sentir mal, acenda a luz vermelha da cabine. É a luz de "No Ar". Eu vou estar olhando para cá o tempo todo. Se ela acender, eu saio do gelo na hora.

Tatsuyo sentiu seu coração dar um pulo.

— Você perderia o treino por mim?

Kuro sorriu, e desta vez foi um sorriso doce, sem nenhuma ponta de piada.

— Eu perderia o campeonato inteiro por você, Nakamura. Agora, estude Matemática. Eu quero aquele "B" no meu boletim.

Ele fechou a porta suavemente. Tatsuyo o observou descer as escadas e entrar no gelo. Ele se movia com uma elegância que contrastava com seu tamanho. Assim que ele entrou, Nico se aproximou dele, provavelmente para reclamar da demora, mas Kuro apenas apontou para o vestiário e disse algo que fez Nico baixar a cabeça e patinar para longe.

Durante as duas horas seguintes, Tatsuyo não abriu o livro de Matemática. Ela ficou observando Kuro. Ela notou como ele era um líder nato, como incentivava os colegas e como, a cada cinco minutos, ele parava e olhava para cima, em direção à cabine de vidro.

Ela se sentiu vista. Não como "a menina autista", não como "a irmã do Nico", mas como Tatsuyo.

Perto do final do treino, algo aconteceu. Nico, em um momento de frustração por ter errado um passe, bateu o taco contra a proteção de acrílico com tanta força que o som ecoou até dentro da cabine, vibrando no peito de Tatsuyo. Ela se encolheu, o susto disparando seu sistema de alerta.

Lá embaixo, Kuro parou imediatamente. Ele não olhou para Nico. Ele olhou direto para a cabine.

Tatsuyo viu a preocupação no rosto dele, mesmo à distância. Ela sentiu a tentação de levar a mão ao braço, de sentir a dor familiar para controlar o susto. Mas então, ela se lembrou da luz vermelha. E se lembrou da promessa dele.

Ela não acendeu a luz. Em vez disso, ela levantou a mão e fez um pequeno aceno, sinalizando que estava bem.

Kuro relaxou visivelmente. Ele fez um sinal de positivo com o polegar e voltou para o jogo, mas não antes de lançar um olhar mortal para Nico, que parecia subitamente muito interessado em olhar para os próprios patins.

Quando o treino terminou e as luzes da arena começaram a ser apagadas uma a uma, Kuro subiu até a cabine. Ele estava suado, o cabelo branco grudado na testa e o cheiro de gelo e esforço físico o acompanhando.

— Tudo certo? — perguntou ele, ofegante.

— Tudo certo — respondeu ela, levantando-se. — O Nico... ele é sempre tão barulhento.

— Ele vai aprender — disse Kuro, pegando a mochila dela. — Eu tive uma conversa com o treinador. Nico vai ficar encarregado de polir os patins de todo o time pelas próximas duas semanas. Isso deve mantê-lo ocupado o suficiente para não ter energia para ser um idiota com você.

Tatsuyo soltou uma risada curta, a primeira do dia.

— Ele vai odiar isso.

— Eu sei. É por isso que é divertido — Kuro caminhou ao lado dela em direção à saída. — Vamos. Vou te levar para comer alguma coisa. Tem uma lanchonete aqui perto que faz um milkshake de morango que não faz barulho nenhum ao ser bebido.

Tatsuyo sorriu, sentindo que, pela primeira vez, não precisava se esconder atrás de suas próprias unhas.

— Eu gostaria disso, Kuro.

Enquanto saíam da arena, o sol estava se pondo, pintando o céu de tons de roxo e laranja — cores que Tatsuyo achava confortáveis. Ela olhou para a mão de Kuro, que ainda segurava a alça da mochila dela, e viu as marcas que ela havia deixado. Elas estavam lá, um lembrete silencioso de que ela tinha alguém que não se importava em carregar suas dores.

Kuro Hatake era um capitão de hóquei, um cara musculoso e engraçado, mas para Tatsuyo, ele era algo muito mais simples e vital: ele era o seu silêncio em meio ao barulho. E, pela primeira vez, o silêncio não era um lugar solitário.