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Amor

Entre Cadernos, Ciúmes e Olhares Ousados

A casa dos Nakamura era pequena, silenciosa e organizada de uma forma que beirava o obsessivo. Cada objeto tinha seu lugar exato, uma necessidade de Tatsuyo para manter o caos do mundo exterior longe de seu refúgio. No entanto, naquela tarde, o silêncio habitual foi quebrado pelo som dos passos pesados de Kuro Hatake, que parecia grande demais para aquele ambiente delicado.

Kuro entrou na sala carregando sua mochila de treino em um ombro e a de Tatsuyo no outro. Ele cheirava a uma mistura de desodorante esportivo caro e o frio persistente do rinque de hóquei. Seus olhos castanhos percorreram o local, notando a simplicidade do lugar onde sua "pequena" passava os dias.

— Uau, Tatsy... sua casa é tão... você — comentou Kuro, com um sorriso de canto, enquanto deixava as mochilas sobre a mesa de jantar de madeira clara.

Tatsuyo, cujas mãos ainda estavam protegidas pelas bandagens brancas que Kuro fizera no vestiário, moveu-se com cautela. Ela estava nervosa. Ter alguém em seu espaço seguro era um desafio sensorial imenso. O cheiro de Kuro era forte, a presença dele ocupava muito espaço, mas, estranhamente, não era uma sensação ruim. Era apenas... intensa.

— É pequena — ela sussurrou, evitando contato visual direto. — O papai está no quarto. Ele não gosta de barulho.

— Sem problemas. Eu posso ser bem silencioso quando quero — disse Kuro, embora sua expressão sugerisse que "silencioso" era a última coisa que ele pretendia ser.

Ele se sentou à mesa, abrindo as pernas de um jeito folgado que evidenciava seu físico de atleta. Kuro não tinha o menor interesse no trabalho de biologia sobre mitocôndrias. Seu único interesse era observar como o cabelo preto de Tatsuyo caía sobre seu rosto quando ela se curvava para pegar os cadernos, e como a pele parda dela parecia brilhar sob a luz suave da tarde.

— Onde a gente começa? — perguntou ela, abrindo o livro didático.

Antes que Kuro pudesse responder com alguma gracinha, uma sombra pequena e carrancuda apareceu na porta da cozinha. Nico estava parado ali, com os braços cruzados sobre o peito, observando o capitão do time de hóquei com uma desconfiança que não cabia em seus onze anos.

— O que ele está fazendo aqui de novo? — Nico perguntou, a voz carregada de um ciúme protetor.

Tatsuyo olhou para o irmão, seus olhos suavizando instantaneamente.

— Oi, bebê. O Kuro veio me ajudar com o trabalho da escola.

— Ajudar? — Nico caminhou até a mesa e sentou-se na cadeira ao lado da irmã, praticamente colando seu ombro ao dela, como se marcasse território. — Ele é jogador de hóquei. Jogadores de hóquei não são bons em biologia. Eles só sabem bater nas pessoas com tacos.

Kuro soltou uma risada curta, achando graça da audácia do garoto. Ele reconhecia aquele olhar; era o olhar de quem guardava um tesouro.

— Ora, Nico, você ficaria surpreso com o que eu sei sobre anatomia — Kuro disse, lançando um olhar rápido e carregado de segundas intenções para Tatsuyo, que felizmente (ou infelizmente) não captou o duplo sentido. — Mas relaxa, carinha. Eu não mordo. A menos que me peçam.

Tatsuyo sentiu um calafrio percorrer sua espinha. Ela não entendia bem por que Kuro falava certas coisas de um jeito que a fazia sentir calor, mas ela focou no papel à sua frente.

— Nico, por favor, deixe a gente trabalhar — pediu ela suavemente. — Você já lanchou?

— Não estou com fome — mentiu o garoto, cujo estômago roncou no segundo seguinte.

— Eu faço um sanduíche para você daqui a pouco — Tatsuyo disse, estendendo a mão enfaixada para acariciar o cabelo do irmão.

Kuro observou a cena com uma mistura de admiração e desejo. Ver Tatsuyo naquele papel maternal, cuidando de Nico com tanta doçura, fazia seu coração bater mais rápido, mas também despertava seu lado mais possessivo. Ele queria aquela atenção. Ele queria que aquelas mãos, mesmo feridas, tocassem nele daquela forma.

— Então, Tatsy... — Kuro começou, ignorando completamente o livro aberto. — Essa bandagem está confortável? Não está apertando muito?

— Está boa, Kuro. Obrigada.

— Deixe-me ver. — Sem esperar por uma resposta, ele estendeu a mão e cobriu a mão enfaixada dela com a sua.

A pele dele era quente e áspera por causa dos calos do hóquei. O contato fez Tatsuyo prender a respiração. Para uma autista, o toque físico podia ser opressor, mas Kuro tinha uma maneira de tocá-la que parecia... firme. Não era um toque hesitante que causava arrepios de agonia; era uma pressão constante que a ajudava a se sentir aterrada.

— Está um pouco frouxa aqui — mentiu Kuro, deslizando os dedos pela lateral do pulso dela, sentindo a pulsação acelerada da garota sob sua pele. — Eu deveria apertar mais tarde.

— Ei! — Nico bateu a mão na mesa. — Para de segurar a mão dela! Vocês têm que escrever o trabalho!

Kuro soltou a mão de Tatsuyo relutantemente, lançando um olhar de tédio para o menino.

— Você é bem barulhento para alguém tão pequeno, sabia? — provocou Kuro.

— E você é bem esquisito para alguém tão velho! — rebateu Nico. — Eu sei o que você está fazendo. Você fica olhando para a Tatsy como se ela fosse um pedaço de pizza.

Kuro ergueu uma sobrancelha, um sorriso travesso brincando em seus lábios.

— Pizza é a minha comida favorita, Nico. E sua irmã é muito mais bonita que qualquer pizza.

Tatsuyo sentiu o rosto queimar. Ela abaixou a cabeça, escondendo-se atrás de suas mechas pretas.

— Kuro... o trabalho... — ela murmurou, tentando retomar o foco.

— Certo, certo. Biologia. — Kuro suspirou, pegando uma caneta e começando a girá-la habilmente entre os dedos. — "A mitocôndria é a usina de força da célula". Tipo eu no time de hóquei, entende? Eu sou a energia de tudo aquilo.

— Você é muito convencido — disse Tatsuyo, dando um sorriso tímido que fez Kuro querer pular a mesa e beijá-la ali mesmo.

— Sou apenas honesto, pequena. — Ele se inclinou para frente, diminuindo a distância entre eles. — Mas sabe o que realmente me dá energia? Ver você sorrir.

Nico fez um som de vômito falso.

— Que nojo! Eu vou para o meu quarto! Mas eu estou de olho em você, Hatake! Se eu ouvir qualquer coisa estranha, eu chamo o meu pai!

— Seu pai não está trancado no quarto? — Kuro perguntou, com um tom de desafio.

O rosto de Nico caiu por um segundo, a tristeza substituindo a raiva. Ele olhou para a porta do corredor e depois para Tatsuyo. A realidade daquela casa era pesada, e Kuro percebeu que tinha tocado em uma ferida aberta.

Tatsuyo percebeu a mudança de atmosfera. Ela se levantou e abraçou Nico por trás, apertando o irmão contra si.

— Está tudo bem, Nico. O papai só está cansado. Vá jogar seu videogame, eu levo o sanduíche para você em dez minutos.

Nico assentiu, lançando um último olhar mortal para Kuro antes de sair da sala. O silêncio que se seguiu foi diferente. Mais denso. Kuro sentiu um pouco de culpa por ter provocado o garoto sobre o pai ausente, mas sua atenção logo voltou para a menina à sua frente.

Tatsuyo voltou a se sentar, mas parecia mais agitada. Seus dedos começaram a tamborilar na mesa e ela olhou fixamente para um ponto na parede. Kuro sabia os sinais. O estresse da interação com o irmão e a presença dele estavam começando a sobrecarregá-la.

— Ei — chamou ele, com a voz baixa e rouca. — Esquece o trabalho. Esquece o Nico. Olha para mim.

Tatsuyo hesitou, mas virou o rosto para ele.

— O mundo está ficando barulhento de novo? — perguntou Kuro.

Ela assentiu levemente.

— Eu sinto... como se houvesse muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. As luzes, o cheiro, o trabalho... e você...

— Eu o quê? — Ele se aproximou mais, seu joelho roçando o dela por baixo da mesa.

— Você é... muito forte. Sua presença. É como se você estivesse em todo lugar.

Kuro sorriu, mas não era o sorriso de pegador de sempre. Era algo mais profundo. Ele esticou o braço e, com extrema delicadeza, afastou o cabelo do rosto dela, prendendo uma mecha atrás da orelha. Seus dedos roçaram a pele parda do pescoço dela, e ele sentiu Tatsuyo estremecer.

— Eu quero estar em todo lugar onde você estiver, Tatsuyo — ele declarou, a voz vibrando de sinceridade. — Eu sei que eu sou um idiota às vezes, e que eu falo besteira, mas eu nunca senti por ninguém o que eu sinto quando vejo você cuidando desse pirralho ou tentando se esconder do mundo.

Tatsuyo sentiu as lágrimas pinçarem seus olhos. Ela começou a mexer nas bandagens, a velha mania de querer se machucar para aliviar a pressão interna voltando à tona. Kuro percebeu imediatamente. Ele segurou os pulsos dela com firmeza, impedindo o movimento.

— Não. Não faça isso. Lembra do que eu disse? Aperta a minha mão.

Ele ofereceu a palma da mão para ela. Tatsuyo a segurou, primeiro com hesitação, depois com força. Ela cravou os dedos na pele dele, mas Kuro nem piscou. Ele aguentou a pressão, oferecendo a ela a âncora que ela precisava.

— Isso... — ele sussurrou. — Descarrega em mim. Eu aguento.

Eles ficaram assim por alguns minutos. O tempo parecia ter parado na pequena sala de jantar. A respiração de Tatsuyo foi se acalmando, o ritmo cardíaco voltando ao normal. O contato com Kuro era como um isolante acústico; ele abafava o resto do mundo.

— Melhor? — perguntou ele.

— Sim — ela respondeu, soltando a mão dele e notando as marcas vermelhas que deixara na pele branca de Kuro. — Desculpe. Eu te machuquei.

Kuro olhou para as marcas e depois para ela, um brilho faminto em seus olhos castanhos.

— Você não tem ideia do que eu deixaria você fazer comigo, Tatsuyo. Isso aqui não é nada.

Ele se levantou, mas em vez de se afastar, ele deu a volta na mesa e parou atrás da cadeira dela. Ele se inclinou, apoiando as mãos no encosto da cadeira, cercando-a. O perfume dele agora a envolvia completamente.

— Você é tão linda — ele murmurou perto do ouvido dela. — Às vezes eu fico no treino pensando em como seria o gosto dos seus lábios. Se eles teriam gosto de baunilha, como o seu cabelo.

Tatsuyo sentiu o coração disparar, mas não de pânico. Era uma expectativa nova, algo que ela nunca tinha permitido que florescesse.

— Kuro... o Nico pode voltar...

— O Nico está jogando Minecraft com fones de ouvido. Ele não vai ouvir — disse Kuro, sua voz descendo um oitavo.

Ele girou a cadeira dela para que ela ficasse de frente para ele. Kuro se ajoelhou no chão, ficando na altura dos olhos dela, exatamente como fizera no vestiário. Mas desta vez, não havia kit de primeiros socorros.

— Eu posso te beijar? — ele perguntou, a audácia dando lugar a uma vulnerabilidade rara. — Eu prometo que vou ser gentil. Vou parar no momento em que você pedir.

Tatsuyo olhou para ele. O capitão do time de hóquei, o garoto que todas as meninas queriam, estava ali, ajoelhado aos pés dela, pedindo permissão. Ela sentiu que, com ele, o mundo não era tão assustador.

— Sim — ela sussurrou.

Kuro não perdeu tempo. Ele aproximou o rosto lentamente, dando a ela cada segundo para recuar. Quando seus lábios finalmente tocaram os dela, foi como uma explosão de silêncio. Foi suave, um toque de exploração. Kuro era experiente, mas com Tatsuyo, ele agia como se fosse sua primeira vez. Ele queria saborear cada milímetro.

O beijo se aprofundou ligeiramente, e Tatsuyo soltou um pequeno suspiro contra a boca dele, suas mãos enfaixadas subindo para tocar os ombros largos de Kuro. Ele gemeu baixinho, um som de pura satisfação, e suas mãos subiram para o rosto dela, segurando-a como se ela fosse feita de cristal.

— TATSUYO! CADÊ O MEU SANDUÍCHE? — o grito de Nico vindo do corredor fez os dois se separarem bruscamente.

Kuro quase caiu para trás, praguejando baixinho entre dentes. Tatsuyo estava vermelha como um tomate, tentando desesperadamente ajeitar o cabelo e o caderno ao mesmo tempo.

Nico entrou na sala, parando de imediato ao ver a cena. Kuro já estava de pé, fingindo ler o livro de biologia de cabeça para baixo.

— Por que você está todo vermelho, Hatake? — Nico perguntou, estreitando os olhos. — E por que a Tatsy está com cara de quem viu um fantasma?

— O ar-condicionado deve estar quebrado, garoto — disse Kuro, tentando recuperar sua pose de capitão descolado, embora sua respiração ainda estivesse pesada. — E sua irmã estava apenas me explicando... o ciclo de Krebs. É muito emocionante.

Nico olhou de um para o outro, claramente não acreditando em uma palavra.

— Eu odeio biologia — resmungou o menino. — E eu ainda quero meu sanduíche.

Tatsuyo se levantou rapidamente, suas pernas um pouco trêmulas.

— Eu vou fazer, Nico. Já vou.

Ela caminhou para a cozinha, mas antes de entrar, ela olhou para trás. Kuro estava olhando para ela com um sorriso vitorioso e um brilho nos olhos que prometia que aquilo era apenas o começo.

Kuro voltou sua atenção para Nico, que ainda o encarava.

— Sabe, Nico — disse Kuro, fechando o livro de biologia com um estalo — , eu acho que vou precisar vir aqui muitas vezes para terminar esse trabalho. Biologia é um assunto... muito extenso.

Nico suspirou, derrotado pela persistência do jogador.

— Se você fizer ela chorar, eu furo os pneus da sua bicicleta.

— Eu não tenho bicicleta, Nico. Eu tenho um carro.

— Então eu furo os pneus do seu carro!

Kuro riu, recostando-se na cadeira. Ele olhou para a cozinha, ouvindo o som de Tatsuyo preparando o lanche do irmão. Ele sabia que a vida dela era difícil, que o silêncio daquela casa escondia muitas dores e que o mundo lá fora continuaria sendo barulhento demais para ela. Mas, enquanto ele estivesse por perto, ele seria o escudo dela.

E, talvez, ele pudesse ensiná-la que nem todo barulho era ruim. Alguns, como o som de dois corações batendo no mesmo ritmo durante um beijo, eram a única música que realmente importava.