Amor
O Peso do Silêncio e a Promessa de um Capitão
O ar de outono estava começando a esfriar as ruas, mas dentro do carro de Kuro Hatake, o clima era de uma tensão doce e carregada. Ele havia estacionado a duas quadras da casa dos Nakamura, um lugar que se tornara seu refúgio particular nas últimas semanas. Kuro não era mais apenas o capitão do time de hóquei que aparecia para "estudar biologia"; ele era a sombra protetora de Tatsuyo, o porto seguro onde ela podia desmoronar sem medo.
Tatsuyo estava sentada no banco do passageiro, as mãos repousando sobre o colo. As bandagens antigas haviam dado lugar a cicatrizes finas, marcas que Kuro beijava todas as vezes que tinha oportunidade, jurando que as substituiria por memórias melhores. Ela olhava pela janela, observando as folhas secas dançarem no asfalto, seu perfil pardo iluminado pelo pôr do sol alaranjado.
— Tatsy? — chamou Kuro, sua voz rouca quebrando o silêncio confortável.
Ela virou o rosto lentamente, os olhos pretos profundos encontrando os castanhos dele.
— Sim, Kuro?
Kuro tamborilou os dedos no volante, algo raro para alguém tão autoconfiante. Ele esticou a mão e segurou a de Tatsuyo, entrelaçando seus dedos com uma firmeza que sempre a acalmava.
— Eu andei pensando muito. Sobre a gente. Sobre como eu me sinto quando não estou perto de você e como o rinque de hóquei parece vazio quando eu não te vejo naquela arquibancada. — Ele deu um sorriso de lado, aquele que costumava desarmar qualquer um, mas agora era tingido de uma vulnerabilidade genuína. — Eu não quero mais ser o "amigo que ajuda nos estudos". Eu quero ser o cara que você apresenta para as pessoas. O cara que o Nico tem que aceitar de vez, mesmo que ele queira furar meus pneus.
Tatsuyo sentiu o coração falhar uma batida. O pânico sensorial tentou subir pela sua garganta, a ideia de mudança sempre a assustava, mas o calor da mão de Kuro agiu como um âncora.
— O que você está dizendo? — sussurrou ela.
— Eu estou dizendo que sou louco por você, Tatsuyo Nakamura. — Kuro se inclinou, o rosto a centímetros do dela, o cheiro de menta e adrenalina envolvendo-a. — Quer namorar comigo? De verdade? Com direito a eu te buscar na porta da sala e encarar qualquer idiota que se atreva a olhar torto para você?
As lágrimas começaram a brotar nos olhos de Tatsuyo. Não eram lágrimas de crise, mas de um alívio que ela nem sabia que precisava. Ela assentiu com a cabeça, incapaz de formular palavras por um momento.
— Sim — ela finalmente conseguiu dizer. — Eu quero.
Kuro não esperou. Ele a puxou para um beijo que selava aquela promessa. Não era um beijo roubado ou escondido; era o beijo de alguém que finalmente tinha encontrado seu lugar no mundo. Ele a segurou com cuidado, respeitando o limite dela, mas deixando claro que agora ela pertencia ao time dele.
— Tudo bem, namorada — disse ele, saboreando a palavra. — Agora, temos um pequeno problema para resolver. Um problema de 1 metro e 40 de altura chamado Nico.
Quando eles chegaram à porta da casa, o ambiente parecia diferente. Tatsuyo sentia uma eletricidade no ar, uma mistura de felicidade e o medo inevitável da reação do irmão. Nico era o seu "bebê", o menino que ela criara enquanto o pai se perdia em seu próprio mundo de sombras. A aprovação dele era tudo.
Assim que a porta se abriu, Nico estava lá, sentado no sofá com o controle do videogame na mão, mas a tela estava pausada. Ele estava esperando. Seus olhos pretos e perspicazes alternaram entre Kuro e Tatsuyo, notando imediatamente como as mãos deles estavam unidas e como o rosto da irmã brilhava de um jeito que ele nunca tinha visto.
— Vocês demoraram — disse Nico, a voz carregada de uma desconfiança infantil, mas afiada.
— O treino acabou mais tarde, Nico — mentiu Kuro, entrando na casa com a confiança de quem já se sentia parte da mobília.
— Mentira. O treino de terça acaba às cinco. São seis e meia — rebateu o menino, levantando-se e caminhando até eles. — E por que vocês estão se olhando desse jeito esquisito? Tatsy, você está com cara de quem comeu muito doce.
Tatsuyo respirou fundo, sentindo os dedos de Kuro apertarem os seus em sinal de apoio. Ela se ajoelhou na frente do irmão, ficando na altura dele.
— Nico, bebê... lembra que eu disse que o Kuro era um grande amigo?
— Eu nunca acreditei nisso — interrompeu Nico, cruzando os braços. — Amigos não ficam se olhando como se quisessem se morder.
Kuro soltou uma risada, mas Tatsuyo continuou séria, com uma doçura firme.
— Pois é. O Kuro me pediu em namoro hoje. E eu aceitei. Agora nós somos namorados, Nico.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O controle do videogame escapou da mão de Nico e caiu no tapete com um baque surdo. O rosto do menino passou do pardo normal para um vermelho intenso em questão de segundos.
— O QUÊ? — Nico gritou, sua voz falhando no final. — Namorados? Tipo... de beijar? E de andar de mãos dadas na escola?
— Exatamente assim, pirralho — disse Kuro, tentando descontrair, mas Nico não estava para brincadeiras.
— NÃO! — Nico explodiu, correndo para o meio da sala, os olhos cheios de lágrimas de puro ciúme. — Você não pode ser namorado dela! Você é o capitão do hóquei! Você é... você é grande e barulhento! A Tatsy é minha! Ela cuida de mim!
— Nico, escute... — Tatsuyo tentou se aproximar, mas o menino recuou.
— Se você namorar ele, você vai esquecer de mim! — Nico gritou, o peito subindo e descendo com força. — Você vai querer sair com ele e me deixar sozinho com o papai trancado no quarto! Ele vai te levar embora e eu vou ficar sem ninguém!
O coração de Tatsuyo se partiu. Ela conhecia aquele medo; era o medo do abandono, o mesmo que ela sentia todos os dias. Ela olhou para Kuro, desesperada, sentindo a sobrecarga sensorial começar a formigar em suas mãos. Ela começou a coçar a palma da mão, um sinal claro de que uma crise estava a caminho.
Kuro percebeu o movimento. Ele agiu rápido. Ele não foi até Tatsuyo; ele foi até Nico. Ele se agachou na frente do garoto, ignorando o olhar de fúria que recebia.
— Escuta aqui, Nico Nakamura — disse Kuro, sua voz assumindo aquele tom de comando que usava no gelo, mas sem a agressividade. — Eu sou o capitão do time, certo? E um capitão nunca abandona seus jogadores.
Nico fungou, limpando o nariz com a manga da camiseta.
— E daí?
— E daí que, se eu estou namorando a sua irmã, isso significa que você entrou para o meu time também. Você acha que eu sou idiota de deixar você sozinho? Quem é que vai me ajudar a entender as manias dela quando eu fizer bobagem? Quem é que vai jogar videogame comigo quando ela estiver ocupada estudando?
Nico parou de soluçar por um momento, processando a informação.
— Você... você quer jogar comigo?
— Eu quero ganhar de você no FIFA, isso sim — provocou Kuro, dando um peteleco de leve no ombro do menino. — Olha para ela, Nico. Olha para a sua irmã.
Nico olhou para Tatsuyo, que ainda tremia levemente, as mãos presas uma na outra.
— Ela está feliz, não está? — continuou Kuro. — Você já viu ela sorrir assim antes? Eu não estou aqui para tirar ela de você. Eu estou aqui para garantir que ninguém mais machuque ela. Nem o mundo, nem os idiotas da escola, e nem ela mesma quando estiver triste. Eu sou o reforço, Nico.
Tatsuyo sentiu a tensão deixar seu corpo. As palavras de Kuro eram como um bálsamo. Ela se aproximou e envolveu os dois em um abraço, sentindo o calor de seu irmão e a força de seu namorado.
— Você sempre vai ser o meu bebê, Nico — sussurrou ela no ouvido do irmão. — Nada no mundo vai mudar isso. O Kuro só vai ajudar a gente a ser mais forte.
Nico ficou em silêncio por um longo tempo, o rosto escondido no ombro da irmã. Lentamente, ele relaxou os braços e retribuiu o abraço. Depois de alguns minutos, ele se afastou, olhando para Kuro com uma expressão solene.
— Se você fizer ela chorar... — começou Nico.
— Eu sei, você fura meus pneus — completou Kuro com um sorriso largo.
— Não. Eu conto para todo mundo na escola que você dorme com um ursinho de pelúcia — ameaçou o menino, com um brilho malicioso que provava que ele era mesmo irmão de Tatsuyo.
Kuro arregalou os olhos, surpreso com a criatividade do garoto.
— Ei! Como você sabe do Sr. Pinguim?
Tatsuyo soltou uma risada clara e cristalina, o som mais bonito que Kuro já ouvira. O clima pesado havia se dissipado, substituído por uma nova dinâmica que, embora estranha, parecia certa.
— O sanduíche, Tatsy! — Nico exclamou, lembrando-se de sua fome eterna. — Agora que você tem um namorado atleta, ele deve comer muito. Você vai ter que fazer três sanduíches!
— Eu ajudo — disse Kuro, levantando-se e puxando Tatsuyo pela mão. — Eu sou um mestre na cozinha... bom, eu sei fritar ovo.
Eles foram para a cozinha pequena e organizada. Kuro se encostou no balcão, observando Tatsuyo se movimentar. Ela parecia mais leve. O peso de esconder o que sentia havia sumido. Nico sentou-se à mesa, já abrindo o pacote de salgadinhos, mas seus olhos ainda seguiam Kuro.
— Hatake? — chamou Nico.
— Fala, parceiro.
— Você realmente gosta dela? Tipo, de verdade? Ou é só porque ela é bonita?
Kuro olhou para Tatsuyo, que estava cortando o pão com cuidado. Ele pensou em todas as vezes que a viu lutar contra o próprio cérebro, em todas as vezes que ela cuidou de Nico com uma paciência infinita, e em como ela era a única pessoa que conseguia silenciar o barulho dentro da cabeça dele.
— Eu gosto de tudo nela, Nico. Gosto do jeito que ela organiza os lápis por cor, gosto do cheiro de baunilha e até do jeito que ela me ignora quando está focada em algo. Ela é a pessoa mais forte que eu conheço. Bonita é só um detalhe.
Tatsuyo sentiu o rosto esquentar, mas não se escondeu atrás do cabelo desta vez. Ela olhou para Kuro e sorriu, um sorriso cheio de confiança.
— O Kuro é meio bobo, Nico — disse ela, colocando os pratos na mesa. — Mas ele tem um coração bom.
— É, ele serve — admitiu Nico, pegando seu sanduíche. — Mas se ele começar com muita melação, eu vou morar no quarto do papai.
Eles riram, o som preenchendo a casa que costumava ser silenciosa demais. O pai deles, trancado em seu quarto, talvez tenha ouvido o eco daquela alegria, um lembrete de que a vida continuava pulsando além daquela porta.
Mais tarde, quando Nico finalmente subiu para o quarto e o silêncio da noite se instalou, Kuro e Tatsuyo ficaram sozinhos na sala. Eles estavam sentados no sofá, as luzes baixas para não incomodar os sentidos dela. Tatsuyo estava encostada no peito de Kuro, ouvindo as batidas ritmadas de seu coração.
— Você foi incrível com ele — sussurrou ela.
— Eu quis dizer cada palavra — respondeu Kuro, beijando o topo da cabeça dela. — Nós somos um time agora, pequena. E eu sou um capitão que não aceita perder.
Tatsuyo pegou a mão de Kuro e a levou aos lábios, beijando as marcas que ela mesma havia deixado dias atrás.
— Obrigada por ser o meu silêncio, Kuro.
— E obrigado por ser a minha música, Tatsuyo.
Naquela noite, as unhas de Tatsuyo não encontraram sua pele. Elas ficaram entrelaçadas nas de Kuro, protegidas e seguras. O mundo ainda era barulhento, as crises ainda voltariam, e os desafios de ser um casal tão diferente ainda os testariam, mas, pela primeira vez em muito tempo, Tatsuyo Nakamura não tinha medo do barulho. Ela tinha o seu capitão, tinha o seu bebê, e agora, ela tinha a si mesma, inteira e amada.
Kuro a apertou um pouco mais contra si, fechando os olhos e deixando-se levar pelo cheiro de baunilha. Ele sabia que a estrada seria longa, mas enquanto tivesse Tatsuyo ao seu lado, ele patinaria sobre qualquer gelo, por mais fino que fosse. Porque, no final das contas, o amor não precisava ser perfeito; ele só precisava ser o lugar onde você finalmente podia parar de lutar sozinho.