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Amor

Sombras na Varanda e o Peso do Silêncio

A noite caiu sobre Vancouver com uma elegância fria, pintando o céu de um azul-marinho profundo que contrastava com as luzes vibrantes da cidade lá embaixo. Dentro da cobertura, o ambiente era o oposto do clima externo. O aquecimento central mantinha tudo aconchegante, e o silêncio só era quebrado pelo som baixo da televisão, onde Kuro analisava, pela terceira vez, um lance específico do jogo contra os *Oilers*.

Tatsuyo estava sentada na outra ponta do sofá em formato de L. Ela segurava uma caneca de chá com as duas mãos, observando Kuro. Ele parecia relaxado, mas ela notava como os músculos de suas costas se tensionavam sempre que ele discordava de uma marcação do juiz na tela. Ele era tão intenso, tão cheio de vida. Era difícil para ela conciliar a imagem do Kuro "estrela do hóquei", que intimidava adversários com um olhar, com o homem que, minutos atrás, tinha insistido em lavar a louça do jantar para que ela pudesse descansar.

— Você está fazendo aquela cara de novo — disse Kuro, sem desviar os olhos da TV.

Tatsuyo piscou, saindo de seus devaneios.

— Que cara?

— A cara de quem está calculando quanto custa o oxigênio que está respirando para me reembolsar depois — ele brincou, finalmente virando o rosto para ela. O cabelo branco estava bagunçado, e um sorriso de canto brincava em seus lábios. — Relaxa, Tats. O sofá não vai cobrar aluguel por hora.

— Eu só... estava pensando em como tudo mudou rápido — ela admitiu, baixando o olhar para o chá. — Há uma semana, eu não sabia se teria um teto. E agora estou aqui, em uma cobertura que provavelmente custa mais do que o bairro onde eu cresci.

Kuro desligou a televisão e virou o corpo totalmente para ela, apoiando o braço no encosto do sofá.

— O valor dessa cobertura não importa. O que importa é que você está segura. O resto é detalhe.

— Minha mãe me ligou hoje — soltou Tatsuyo, a voz saindo mais fina do que pretendia.

O semblante de Kuro escureceu instantaneamente. Ele sabia que qualquer contato com a família Nakamura era sinônimo de retrocesso emocional para ela.

— E o que ela queria? — perguntou ele, tentando manter o tom de voz controlado.

— Ela disse que o... que *ele* está arrependido. Que ele não tem comido direito, que a casa deles está um caos sem mim. Ela disse que eu estou sendo egoísta por "destruir a felicidade de um homem bom" por causa de "alguns desentendimentos".

Kuro sentiu uma onda de fúria tão genuína que precisou fechar os punhos para não socar a mesa de centro. "Alguns desentendimentos". Era assim que chamavam os hematomas que ele vira no braço dela meses atrás? Era assim que chamavam o medo que a fazia pular toda vez que alguém levantava a voz?

— E o que você disse a ela? — perguntou ele, a voz perigosamente baixa.

— Eu não disse nada. Eu desliguei. Mas... dói, Kuro. Dói saber que, para eles, meu bem-estar vale menos do que a aparência de uma "família perfeita". Eles preferiam me ver sofrendo lá do que me ver livre aqui.

— Eles estão errados, Tatsuyo. Completamente errados. — Kuro se aproximou um pouco mais, mas parou quando percebeu que ela recuou minimamente, um reflexo instintivo que ainda o matava por dentro. — Eles não te merecem. E aquele desgraçado... se ele chegar perto desta cobertura, eu juro pela minha carreira que ele vai descobrir por que eu sou o jogador mais penalizado da liga por brigar no gelo.

Tatsuyo soltou um riso fraco, mas as lágrimas já começavam a embaçar seus olhos pretos.

— Você não pode estragar sua carreira por minha causa.

— Eu faria muito mais do que isso por você — ele murmurou, a verdade escapando antes que ele pudesse filtrá-la.

O silêncio que se seguiu foi denso. Kuro queria dizer tudo. Queria dizer que a amava desde os quinze anos, que cada gol que marcava era, secretamente, dedicado a ela, e que ver o que aquele homem fez com a alma dela era a maior dor que ele já sentira. Mas ele olhou para ela — pequena, frágil, tentando se reconstruir caco por caco — e soube que não era a hora. Ela precisava de um amigo, de um porto seguro, não de mais uma pressão emocional.

— Eu vou tomar um banho — disse ela, levantando-se apressadamente. — O dia foi... longo.

— Claro. Boa noite, Tats. Se precisar de qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, meu quarto é o último do corredor.

— Boa noite, Kuro. E obrigada. Por tudo.

Ele a observou caminhar até o quarto de hóspedes. Quando a porta se fechou, Kuro soltou um suspiro pesado e jogou a cabeça para trás no sofá. Ele se sentia um hipócrita. Estava cobrando dela uma quantia ridícula de aluguel, mentindo sobre os custos reais da cobertura, tudo para manter o orgulho dela intacto. Ele sabia que, se ela descobrisse que pagava apenas uma fração do condomínio, ela fugiria no meio da noite por não querer ser um "fardo".

***

Na manhã seguinte, o sol de Vancouver decidiu não aparecer, dando lugar a uma chuva fina e persistente. Kuro tinha folga do treino, mas seu corpo, condicionado a anos de disciplina, o acordou às seis da manhã.

Ele saiu do quarto esperando encontrar a cozinha já limpa e o café pronto, mas, para sua surpresa, a casa estava silenciosa. Um lampejo de preocupação cruzou sua mente. Será que ela tinha ido embora? Será que a ligação da mãe a tinha feito voltar para aquele inferno?

Ele caminhou até a porta do quarto dela e bateu levemente.

— Tatsuyo? Você está acordada?

Sem resposta. Ele girou a maçaneta devagar. A porta não estava trancada.

O quarto estava na penumbra, mas ele pôde ver a silhueta dela na cama. Tatsuyo estava encolhida, tremendo, com os lençóis puxados até o queixo. Pequenos sons abafados saíam dela — ela estava chorando durante o sono.

— Não... por favor... eu vou fazer melhor... — ela murmurava, a voz embargada pelo terror de um pesadelo.

Kuro sentiu o coração apertar. Ele se sentou na beirada da cama, mantendo uma distância respeitosa, e chamou suavemente:

— Tats. Ei, Tatsuyo. Acorda. É só um sonho.

Ela despertou com um grito sufocado, sentando-se abruptamente na cama. Seus olhos estavam arregalados, as pupilas dilatadas pelo pânico. Quando viu a silhueta de um homem perto dela, ela se encolheu contra a cabeceira, cruzando os braços na frente do rosto em um gesto defensivo que fez o estômago de Kuro revirar.

— Não me bate! Eu juro que vou limpar, eu juro!

— Tatsuyo! Sou eu! É o Kuro! — Ele levantou as mãos, mostrando as palmas, a voz carregada de urgência e doçura. — Olha para mim. Você está na minha casa. Você está segura. Ninguém vai te tocar.

Levou alguns segundos para que o reconhecimento voltasse aos olhos dela. A respiração de Tatsuyo estava errática, curtos arquejos que denunciavam uma crise de ansiedade. Quando ela finalmente percebeu onde estava, desabou. Ela se inclinou para frente e começou a chorar convulsivamente, escondendo o rosto nas mãos.

Kuro não aguentou. Ele quebrou sua própria regra de espaço e a puxou para seus braços. Tatsuyo não resistiu; ela se agarrou à camiseta dele como se fosse sua única âncora em um mar revolto.

— Shhh... eu estou aqui — sussurrou Kuro, ninando-a enquanto passava a mão pelos longos cabelos pretos dela. — Ele não está aqui. Ele nunca mais vai encostar em você. Eu prometo, Tats. Eu prometo pela minha vida.

Eles ficaram assim por um longo tempo. O calor do corpo de Kuro, o cheiro de sabonete e o ritmo constante de seu coração batendo contra o ouvido dela foram, aos poucos, trazendo Tatsuyo de volta à realidade. O tremor diminuiu, e os soluços tornaram-se suspiros cansados.

— Desculpe — ela disse, a voz rouca. — Eu estraguei seu descanso. Eu sou um desastre, Kuro.

Kuro a afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela entre as mãos. Ele ignorou o fato de que ela estava usando uma de suas camisetas velhas de treino, que ficava enorme nela, e focou apenas naqueles olhos pretos que ele tanto adorava.

— Escute bem — disse ele, com uma firmeza que não admitia discussões. — Você não é um desastre. Você é uma sobrevivente. E sobreviventes têm pesadelos. Isso não te faz fraca, Tats. Faz de você humana. E se você precisar que eu te acorde de pesadelos todas as manhãs pelo resto da vida, eu farei isso com prazer.

Tatsuyo olhou para ele, e por um momento, a barreira de proteção que ela construíra ao redor de si mesma pareceu vacilar.

— Por que você faz isso? — perguntou ela, quase em um sussurro. — Por que gasta tanto tempo comigo quando tem milhares de mulheres lá fora que fariam qualquer coisa para estar no meu lugar?

Kuro sorriu, um sorriso triste e honesto.

— Porque nenhuma daquelas milhares de mulheres é você. Nenhuma delas me conhece desde que eu era um pirralho com os joelhos ralados. E nenhuma delas... — ele hesitou, mas decidiu continuar — ... nenhuma delas faz meu coração bater do jeito que você faz.

Tatsuyo congelou. O ar entre eles pareceu carregar-se de eletricidade. Kuro percebeu que tinha ido longe demais e rapidamente tentou suavizar o clima com seu jeito brincalhão habitual.

— Além disso, como eu disse, seu curry é imbatível. Eu sou um homem simples, Tats. Ganhe meu estômago e você ganha minha alma.

Ela soltou uma risadinha molhada, limpando o rosto com as costas das mãos.

— Você é um idiota, Hatake.

— Mas sou o seu idiota favorito, não sou? — Ele piscou para ela, levantando-se da cama. — Agora, chega de choro. Vou preparar um café da manhã decente para você. E não tente me ajudar. Hoje é meu dia de ser a "dona de casa".

Tatsuyo o observou sair do quarto. Pela primeira vez em meses, a sensação de aperto no peito não era de medo, mas de algo que ela quase tinha esquecido como era sentir: esperança.

***

Enquanto Kuro fritava panquecas na cozinha — e tentava não queimar a cozinha no processo —, ele pensava na situação financeira. Ele abriu o aplicativo do banco no celular e viu a transferência que Tatsuyo fizera no dia anterior. Era exatamente um quinto do valor total das contas, como ele havia mentido para ela.

Ele se sentia mal por enganá-la, mas sabia que era a única forma. Tatsuyo tinha um orgulho feroz, uma das poucas coisas que o ex dela não conseguira quebrar totalmente. Se ela soubesse que ele estava cobrindo quase tudo, ela se sentiria comprada, e isso era a última coisa que ele queria.

— Kuro? — A voz dela veio da entrada da cozinha. Ela tinha trocado de roupa, agora vestindo calças de ioga e um moletom. — O cheiro está... interessante.

— Interessante é um eufemismo para "quase queimado"? — perguntou ele, rindo enquanto virava uma panqueca que estava um pouco mais escura do que o ideal.

— Talvez um pouco. — Ela se aproximou, observando-o trabalhar. — Kuro, sobre o que você disse no quarto...

Ele parou com a espátula no ar. O coração deu um solavanco.

— Não precisa dizer nada, Tats. Eu sei que você está passando por muita coisa. Eu não quis te pressionar. Eu só queria que você soubesse que... você é especial. Para mim.

Tatsuyo caminhou até ele e, de forma hesitante, colocou a mão sobre o braço musculoso dele. A pele branca dele contra a pele parda dela parecia um encaixe perfeito.

— Eu não estou pronta para nada agora — disse ela, com sinceridade. — Minha cabeça ainda é um lugar muito confuso. Mas... eu fico feliz que seja você. Se tem alguém que eu quero que esteja ao meu lado enquanto eu tento me encontrar, esse alguém é você.

Kuro virou-se para ela, deixando a espátula de lado. Ele não a beijou, embora desejasse isso mais do que qualquer troféu de hóquei. Em vez disso, ele inclinou a cabeça e encostou a ponta do nariz no dela, um gesto de intimidade pura e simples.

— Eu não vou a lugar nenhum, boneca. Eu esperei anos, posso esperar mais alguns.

— Anos? — Ela arqueou uma sobrancelha, surpresa.

— Desde o baile da oitava série, quando você apareceu com aquele vestido azul e eu quase esqueci como se respira — confessou ele, sentindo o rosto esquentar, algo raro para o confiante Kuro Hatake.

Tatsuyo riu, uma risada clara e cristalina que ecoou pela cobertura, afastando os últimos resquícios do pesadelo matinal.

— Aquele vestido era horrível, Kuro! Tinha babados demais!

— Para mim, você parecia uma princesa. Uma princesa que sabia dar um soco de direita melhor que qualquer garoto, mas ainda assim, uma princesa.

Eles tomaram café juntos, em meio a lembranças da infância e planos triviais para o dia. Por algumas horas, o passado traumático de Tatsuyo e as pressões da carreira de Kuro ficaram em segundo plano.

No entanto, o mundo real tinha o hábito de bater à porta nos momentos mais inoportunos. O interfone da cobertura tocou, quebrando a harmonia da manhã. Kuro franziu o cenho; ele não esperava ninguém, e seus amigos de time geralmente mandavam mensagem antes.

— Eu atendo — disse ele, levantando-se.

Ao olhar para a tela do monitor de segurança, Kuro sentiu o corpo entrar em modo de combate instantaneamente. O sangue ferveu em suas veias.

Lá embaixo, na entrada do prédio, estava o ex-namorado de Tatsuyo. Ele segurava um buquê de flores e tinha uma expressão de "homem injustiçado" que Kuro conhecia bem demais pelas descrições dela. Atrás dele, o pai de Tatsuyo observava, parecendo dar apoio moral ao "genro".

Kuro olhou para trás. Tatsuyo estava na mesa, bebendo seu suco, sem perceber o que estava acontecendo.

— Quem é, Kuro? — perguntou ela, notando a demora dele.

Kuro desligou o monitor antes que ela pudesse ver. Ele se virou para ela, forçando um sorriso calmo, embora seus olhos estivessem frios como o gelo do rinque.

— É só uma entrega errada, Tats. Vou descer rapidinho para resolver isso com o porteiro. Não saia daqui, ok? E não abra a porta para ninguém.

— Tudo bem... — respondeu ela, estranhando a mudança repentina no tom de voz dele.

Kuro pegou as chaves e saiu. Enquanto o elevador descia, ele estralou os nós dos dedos. Ele tinha prometido a Tatsuyo que ela estaria segura sob o teto dele. E Kuro Hatake nunca perdia uma disputa quando o que estava em jogo era o que ele mais amava no mundo.

A proteção da cobertura era física, mas a verdadeira fortaleza era o homem que agora se preparava para enfrentar os fantasmas dela, garantindo que eles nunca mais cruzassem o limiar da nova vida que Tatsuyo estava começando a construir.