Amor
Sombras no Hall e o Rugido do Gelo
O elevador descia silenciosamente, mas dentro de Kuro, uma tempestade de adrenalina e fúria rugia. Ele olhou para o próprio reflexo no espelho da cabine: os cabelos brancos repicados, a mandíbula travada, os olhos castanhos que agora pareciam dois pedaços de obsidiana. Ele não era apenas o ala-esquerdo dos *Wolves* naquele momento; ele era a única barreira entre Tatsuyo e o abismo que quase a consumiu.
Quando as portas se abriram no saguão de mármore, o contraste foi imediato. O ambiente era luxuoso e calmo, mas o ar parecia ter ficado escasso. Perto da recepção, o porteiro, um homem de meia-idade chamado Carlos, parecia desconfortável. Diante dele, dois homens esperavam com uma arrogância que fez o sangue de Kuro latejar nas têmporas.
O ex-namorado de Tatsuyo, Hiroshi, estava impecável em um terno sob medida, segurando um buquê de lírios brancos. Ao lado dele, o pai de Tatsuyo, o Sr. Nakamura, mantinha uma postura rígida, o rosto marcado por uma severidade antiga e cega.
— Onde ela está, Hatake? — A voz de Hiroshi era suave, calculada, o tipo de voz que convencia as pessoas de que ele era a vítima.
Kuro não parou até estar a poucos centímetros dele. Ele era mais alto e muito mais largo que Hiroshi, uma montanha de músculos forjados em treinos brutais. Ele sentiu o cheiro do perfume caro do outro e sentiu náuseas.
— Fora daqui — disse Kuro, a voz tão baixa que era quase um rosnado. — Agora.
— Escute aqui, rapaz — interveio o Sr. Nakamura, dando um passo à frente. — Isso é um assunto de família. Tatsuyo está sendo infantil. Ela pertence ao lado do noivo dela, não escondida na cobertura de um jogador de hóquei com má reputação. Estamos aqui para levá-la para casa.
Kuro soltou uma risada seca, sem nenhum humor.
— Casa? Você chama aquele lugar onde ela era tratada como um objeto de casa? — Ele se voltou para Hiroshi, que ainda sustentava um sorriso cínico. — E você... se der mais um passo em direção ao elevador, eu vou esquecer que existem câmeras aqui e vou te mostrar exatamente o que acontece quando alguém tenta tocar no que é meu.
— No que é seu? — Hiroshi arqueou uma sobrancelha, o veneno escorrendo de suas palavras. — Ela não é sua, Kuro. Ela é uma boneca quebrada que eu tentei consertar. Ela vai voltar para mim porque não sabe ser nada sem alguém para lhe dizer o que fazer. Ela é fraca.
O soco de Kuro foi tão rápido que o porteiro nem teve tempo de piscar. Não foi um soco de briga de bar; foi o impacto técnico e devastador de um atleta de elite. O som do punho encontrando a mandíbula de Hiroshi ecoou pelo saguão. O homem caiu para trás, os lírios brancos espalhando-se pelo chão como restos de um funeral.
— Kuro! — gritou o Sr. Nakamura, horrorizado. — Você enlouqueceu? Vou chamar a polícia!
— Chame — desafiou Kuro, limpando o sangue dos nós dos dedos na lateral da calça de moletom. — Chame a polícia e eu chamarei meu advogado, que por acaso tem fotos de todos os hematomas que esse lixo deixou na sua filha. Vamos ver quem sai algemado daqui, Sr. Nakamura. E quanto ao senhor... — Kuro apontou o dedo para o homem mais velho — ... a Tatsuyo não é fraca. Ela teve a força de fugir de dois monstros. Se o senhor não consegue ver o valor da própria filha, o senhor não merece nem saber o nome dela.
Hiroshi gemia no chão, a mão no rosto. Kuro se inclinou sobre ele, a sombra de sua estatura cobrindo o homem caído.
— Se eu vir você perto dela, ou se você ligar para ela mais uma vez, eu não vou usar as mãos. Eu vou usar o meu taco de hóquei. E eu garanto que você nunca mais vai conseguir sorrir para uma foto de família perfeita. Saiam. Agora.
Carlos, o porteiro, percebendo a gravidade da situação, finalmente interveio.
— Senhores, por favor, retirem-se antes que eu chame a segurança do condomínio. O Sr. Hatake tem o direito de restringir quem entra em sua propriedade.
Os dois homens saíram, Hiroshi sendo amparado pelo Sr. Nakamura, deixando para trás o cheiro dos lírios e a tensão elétrica no ar. Kuro respirou fundo, tentando acalmar o coração que parecia querer saltar do peito. Ele olhou para as flores esmagadas no chão e sentiu uma tristeza profunda por Tatsuyo. Como a família dela podia ser tão cega?
Quando ele voltou para a cobertura, tentou recompor a expressão. Ele não queria que ela visse a violência em seus olhos. Mas, ao abrir a porta, encontrou Tatsuyo parada no corredor, o rosto pálido e as mãos tremendo. Ela estava segurando o celular, a tela exibindo uma mensagem que acabara de chegar.
— Eles estavam lá embaixo, não estavam? — perguntou ela, a voz frágil.
Kuro fechou a porta e caminhou até ela, a raiva se dissipando para dar lugar a uma proteção desesperada.
— Sim, Tats. Mas eles já foram. Eles não vão voltar.
— Meu pai me mandou uma mensagem... disse que você agrediu o Hiroshi. — Ela olhou para a mão de Kuro, onde os nós dos dedos estavam vermelhos e inchados. — Por que, Kuro? Por que você se coloca em risco por mim? Ele pode te processar, você pode ser suspenso do time...
— Eu não dou a mínima para o time se isso significar deixar aquele covarde chegar perto de você — disse ele, aproximando-se e pegando as mãos dela nas suas. — Tatsuyo, olhe para mim. Você não é um peso. Você não é um problema a ser resolvido. Você é a pessoa mais importante da minha vida. E eu vou lutar contra o mundo inteiro, incluindo a sua família, se for preciso para te manter segura.
Tatsuyo começou a chorar silenciosamente, e Kuro a puxou para um abraço apertado. Ele sentia o corpo dela tremer contra o dele, e o desejo de protegê-la era quase físico, uma dor no peito que ele não sabia como aliviar.
— Eu sinto que estou estragando tudo — soluçou ela contra o peito dele. — Sua casa, sua carreira, sua paz...
— Você não está estragando nada, boneca. Você está dando sentido a tudo isso. — Ele a afastou um pouco, limpando as lágrimas do rosto pardo com os polegares. — Agora, chega de falar deles. Vamos focar em nós. No aqui e agora.
Para distraí-la, Kuro a levou para a sala e a fez sentar no sofá. Ele foi até a cozinha e voltou com um saco de gelo para a mão dele e duas taças de vinho, apesar de ser cedo. Ele sabia que ela precisava de algo para relaxar os nervos.
— Sabe — começou ele, tentando mudar o tom para algo mais leve —, o Carlos, o porteiro, ficou impressionado com o meu soco. Ele disse que eu deveria considerar o boxe se o hóquei não der certo.
Tatsuyo soltou um riso nervoso, mas sincero.
— Você é impossível, Kuro Hatake.
— Sou persistente. É diferente. — Ele deu um gole no vinho, observando-a. — Tats, eu quero te propor uma coisa.
— O quê?
— Amanhã é sábado. Não tenho treino. Quero que a gente saia. Não para um lugar chique onde as pessoas vão nos fotografar, mas para aquele chalé que meus pais têm nas montanhas. Só nós dois. Ar puro, silêncio e nenhuma mensagem de família tóxica. O que acha?
Tatsuyo hesitou. A ideia de sair da segurança da cobertura a assustava, mas a ideia de estar sozinha com Kuro, longe de tudo, parecia um sonho.
— Você acha que... que é seguro?
— Comigo? Sempre. Eu sou o melhor guarda-costas que o dinheiro não pode comprar — ele piscou, e a atmosfera pesada começou a se dissipar.
O restante do dia passou em uma calmaria vigilante. Tatsuyo, ainda movida por seus traumas, tentou limpar a cozinha novamente, mas Kuro a impediu, arrastando-a para ver um filme de comédia pastelão que ele sabia que ela odiava, só para ouvi-la reclamar e rir das piadas ruins.
À noite, o silêncio da cobertura era diferente. Não era o silêncio do medo, mas o de uma trégua necessária. Kuro estava deitado no sofá grande, com a cabeça no colo de Tatsuyo, enquanto ela passava os dedos distraidamente pelos cabelos brancos dele. Era um contato simples, mas para Kuro, valia mais do que qualquer contrato milionário.
— Kuro? — chamou ela baixinho.
— Hum?
— Obrigada por me defender. Eu nunca tive ninguém que fizesse isso por mim. Nem mesmo meus pais. Eles sempre esperaram que eu fosse a pessoa que apaziguasse as coisas, não importava o custo para mim.
Kuro abriu os olhos e olhou para ela de baixo para cima. A luz da cidade entrava pelas janelas, criando sombras suaves no rosto dela.
— Você não precisa mais apaziguar nada, Tats. A guerra acabou. Agora é hora da reconstrução. E eu vou ser o seu alicerce, se você me deixar.
Tatsuyo se inclinou e, pela primeira vez, foi ela quem iniciou o contato, depositando um beijo casto e demorado na testa dele.
— Eu acho que já deixei há muito tempo.
Kuro sentiu um calor se espalhar por seu corpo que não tinha nada a ver com o vinho ou o aquecimento da casa. Era o desejo, sim, puro e latente, mas era também a promessa de um futuro. Ele queria aquela mulher em todos os sentidos — queria a risada dela, o curry dela, o corpo dela e, acima de tudo, a paz dela.
No dia seguinte, eles partiram para as montanhas. O chalé era rústico, cercado por pinheiros cobertos de neve e um silêncio que parecia abraçar a alma. Kuro fez questão de desligar o celular dela e o dele, deixando apenas o número da segurança do prédio em caso de emergência.
Eles passaram o dia caminhando pela neve e, à noite, acenderam a lareira. Tatsuyo parecia mais leve, a tensão em seus ombros finalmente cedendo. Eles estavam sentados em um tapete de pele diante do fogo, dividindo uma manta.
— Sabe o que eu percebi? — perguntou Tatsuyo, olhando para as chamas.
— O quê?
— Que eu não sinto falta de nada da minha vida antiga. Nem das roupas, nem da casa dos meus pais, nem... dele. Eu só sinto falta da pessoa que eu era antes de tudo ficar sombrio.
— Ela ainda está aí, Tats — disse Kuro, pegando a mão dela e entrelaçando seus dedos. — Ela só estava escondida, esperando o gelo derreter.
Ele se aproximou, o rosto a poucos centímetros do dela. O cheiro de lenha queimada e o calor da lareira criavam um casulo de intimidade. Kuro podia ver cada detalhe do rosto dela, a pequena sarda no nariz pardo, o brilho nos olhos pretos que agora não refletiam mais pânico, mas curiosidade.
— Posso te beijar? — perguntou ele, a voz rouca, respeitando o espaço que ela ainda precisava.
Tatsuyo não respondeu com palavras. Ela reduziu a distância e selou seus lábios nos dele. Foi um beijo suave no início, um teste de limites, mas logo se tornou profundo e necessitado. Kuro a puxou para mais perto, sentindo a delicadeza do corpo dela contra a sua força. Naquele momento, ele não era o jogador tarado ou o amigo engraçadinho; ele era o homem que a amava com cada fibra de seu ser.
Quando se afastaram, ambos estavam sem fôlego. Tatsuyo encostou a testa na dele, um sorriso genuíno surgindo em seus lábios.
— Acho que o gelo está começando a derreter de verdade — sussurrou ela.
Kuro sorriu de volta, sentindo-se o homem mais sortudo do mundo. Ele sabia que o caminho ainda teria obstáculos. Sabia que a família dela e o ex ainda poderiam tentar causar problemas. Mas, enquanto olhava para Tatsuyo, ele sabia que a batalha no saguão do prédio fora apenas o começo. Ele protegeria aquele calor com tudo o que tinha.
— Então vamos garantir que ele nunca mais congele — disse ele, puxando-a para mais um beijo, enquanto a neve caía silenciosamente do lado de fora, protegendo o pequeno refúgio que haviam criado.
Naquela noite, sob o céu estrelado das montanhas, Tatsuyo não teve pesadelos. Pela primeira vez em anos, ela dormiu o sono dos justos, protegida pelos braços de um homem que a via não como um objeto ou um peso, mas como sua maior preciosidade. E Kuro, vigiando o sono dela, soube que não importava o quanto custassem as contas ou o quanto sua carreira fosse testada; ter Tatsuyo Nakamura de volta à vida era o único prêmio que realmente importava.