Amor
Acordes de Obsessão e o Brilho Roxo
A manhã seguinte no Westlake Studios não trouxe a paz que Michael esperava. O sol de Los Angeles filtrava-se pelas persianas do escritório de Quincy Jones, mas Michael não conseguia se concentrar nas métricas de vendas ou nos arranjos de cordas. Sua mente era um loop infinito da noite anterior: o suor de Maddy, o som agressivo de sua guitarra e, principalmente, a imagem de Prince deslizando os dedos pelas cordas dela como se estivesse tocando a própria pele da moça.
Michael estava sentado no sofá de couro, batendo ritmicamente com os dedos no joelho. Ele se sentia dividido. Havia o Michael que queria proteger Maddy de si mesma, das drogas e daquele estilo de vida autodestrutivo, e havia o Michael que, pela primeira vez, sentia um desejo possessivo que beirava o perigoso.
A porta se abriu e Quincy entrou, acompanhado por um assistente.
— Michael, você parece que não dorme há dias, Smelly — disse Quincy, ajustando os óculos. — A sessão de ontem com a garota Perez foi produtiva, mas ouvi dizer que houve... tensão.
Michael forçou um sorriso suave, sua voz saindo quase em um sussurro.
— Ela é intensa, Quincy. É o que a música precisa.
— Intensidade é uma coisa, caos é outra — retrucou Quincy. — Só tome cuidado para não se perder no incêndio dela. E, a propósito, Prince ligou. Ele quer voltar hoje. Disse que tem uma ideia para um sintetizador que combinaria com o solo da Maddy.
O estômago de Michael deu um nó. Ele se levantou abruptamente, a jaqueta amarela brilhando sob a luz do estúdio.
— Não. Hoje é uma sessão fechada. Só eu e ela.
Quincy arqueou uma sobrancelha, mas antes que pudesse responder, o som inconfundível de uma guitarra distorcida ecoou pelo corredor. Maddy havia chegado.
Ela não entrou pela porta principal. Ela simplesmente apareceu na sala de controle, usando um vestido de cetim vermelho curto demais, botas de combate e o cabelo preso em um coque desleixado. Ela parecia um anjo caído que acabara de sair de uma briga de bar.
— Quem está pronto para fazer história e quem está pronto para ir para casa? — perguntou ela, a voz rouca, ignorando Quincy e fixando os olhos diretamente em Michael.
Michael sentiu o calor subir pelo pescoço.
— Maddy, estamos apenas discutindo o cronograma.
— Foda-se o cronograma, Michael — disse ela, caminhando até ele e parando a centímetros de seu rosto. Ela cheirava a chiclete de cereja e algo metálico. — Eu tive uma ideia para o final de *Beat It*. Algo que vai fazer os ouvidos das pessoas sangrarem de prazer.
— Maddy, o Quincy está aqui... — Michael tentou alertar, mas ela nem se virou.
— Oi, Q. — Ela acenou por cima do ombro. — Importa-se de nos dar o estúdio? O Rei e a Rainha do Caos têm trabalho a fazer.
Quincy soltou uma risada seca, pegou suas pastas e saiu, murmurando algo sobre "artistas e seus hormônios".
Assim que a porta se fechou, a atmosfera mudou. Michael deu um passo à frente, tentando recuperar o controle da situação, mas Maddy foi mais rápida. Ela o empurrou levemente contra a mesa de mixagem, prendendo-o com os braços.
— Você jogou fora o meu envelope ontem — disse ela, os olhos semicerrados, mas com um sorriso brincando nos lábios.
— Fiz o que era certo — respondeu Michael, tentando manter a voz firme, embora seu coração estivesse martelando contra as costelas. — Você não precisa disso, Maddy. Você tem talento suficiente sem veneno no sangue.
— Você é tão fofo quando tenta ser meu herói — ela zombou, aproximando os lábios da orelha dele. — Mas sabe o que eu realmente preciso agora?
Antes que Michael pudesse responder, a porta do estúdio se abriu novamente. E lá estava ele. Prince.
Ele não pediu licença. Ele entrou com a confiança de quem sabia que sua presença era uma provocação. Dessa vez, ele não trazia a guitarra, mas sim uma garrafa de cristal com um líquido âmbar e dois copos.
— Espero não estar interrompendo nada... íntimo — disse Prince, a voz suave como veludo.
Michael se afastou de Maddy instantaneamente, a timidez voltando a nublar seu rosto, mas seus olhos brilhavam com uma irritação latente.
— Prince, eu disse ao Quincy que a sessão hoje seria privada.
— E eu disse ao Quincy que boas ideias não esperam por convites — Prince caminhou até a mesa, servindo um pouco do líquido em um dos copos e oferecendo a Maddy. — Para a melhor guitarrista da cidade. Um brinde ao seu solo de ontem. Foi... estimulante.
Maddy pegou o copo, seus dedos roçando propositalmente nos de Prince. Ela tomou um gole, mantendo o contato visual com ele, ignorando completamente o desconforto óbvio de Michael.
— Você tem bom gosto, Rogers — disse ela, usando o sobrenome de Prince com uma familiaridade que fez Michael cerrar os punhos.
— Eu reconheço qualidade quando vejo — Prince se inclinou sobre a mesa, ficando perigosamente perto de Maddy. — Sabe, eu estava pensando... aquele riff que você fez no final... se adicionássemos um pedal de wah-wah e uma linha de baixo mais suja, poderíamos transformar essa música em algo que o Michael nem saberia como dançar.
Maddy riu, uma risada alta e provocadora.
— Você acha que ele não aguenta o tranco?
— Eu acho que o Michael gosta de tudo muito limpo — Prince disse, virando-se para Michael com um sorriso desafiador. — Não é, Mike? Você tem medo de se sujar na lama com a gente.
Michael sentiu uma onda de adrenalina que não vinha da música. Era uma raiva fria, algo que ele raramente permitia que viesse à tona. Ele caminhou até o centro da sala, parando entre os dois.
— Eu não tenho medo de nada, Prince — disse Michael, sua voz subindo uma oitava, ganhando aquela autoridade que ele usava nos palcos. — E esta é a *minha* música. Maddy é a *minha* guitarrista. Se você quer experimentar, vá para o seu estúdio.
Prince levantou as mãos em sinal de rendição simulada, mas o brilho em seus olhos dizia que ele tinha conseguido o que queria: desestabilizar o "bom garoto".
— Tudo bem, Mike. Não precisa ficar nervoso. Eu só vim trazer um presente. — Ele olhou para Maddy, um olhar que era um convite descarado. — Nos vemos no *The Roxy* mais tarde, Maddy? Vou tocar um set improvisado. Acho que você gostaria de participar.
Maddy deu de ombros, mas não recusou.
— Talvez eu apareça.
Quando Prince finalmente saiu, o silêncio no estúdio era quase ensurdecedor. Michael estava ofegante, a raiva ainda vibrando em seus ombros. Ele se virou para Maddy, que terminava de beber o que Prince lhe dera.
— Você vai? — perguntou ele, a voz carregada de mágoa.
— Talvez. Por que não? Ele é um músico incrível, Michael. E ele não tenta me dar sermão a cada cinco minutos.
— Ele está usando você para chegar em mim! — Michael explodiu, dando um passo em direção a ela. — Ele sabe que eu... que nós...
— Que nós o quê? — Maddy o desafiou, colocando o copo vazio na mesa com um estalo. — Nós não somos nada, Michael. Somos dois estranhos fazendo um disco. Você se diverte comigo entre as gravações, mas amanhã você volta para a sua Terra do Nunca e eu volto para a sarjeta.
Michael a agarrou pelos ombros, forçando-a a olhá-lo.
— Isso não é verdade e você sabe disso. Eu me importo com você.
— Então prove! — ela gritou. — Pare de agir como se tivesse medo de mim! Pare de agir como se o Prince fosse uma ameaça porque ele tem coragem de dizer o que quer!
O desafio nos olhos dela foi o estopim. Michael não era de brigar, mas a combinação de ciúme, desejo e a pressão da fama o levaram ao limite. Ele a puxou para um beijo que foi quase um ataque. Não havia hesitação, não havia a doçura do Michael que o mundo conhecia. Era o Michael que Maddy tinha despertado — o homem que rugia em *Beat It*.
Maddy respondeu com a mesma intensidade, suas mãos subindo para o peito dele, arrancando os botões da jaqueta amarela. Eles tropeçaram em direção ao sofá, derrubando pedestais de microfone pelo caminho.
— Ele não pode ter você — Michael rosnou contra a pele do pescoço dela, seus dentes cravando-se levemente ali, deixando uma marca que Prince veria de longe se ela ousasse aparecer no clube. — Você é minha, Maddy. Diga.
Maddy soltou um gemido que era metade protesto, metade prazer. A dominância de Michael a excitava de uma forma que o flerte barato de Prince jamais conseguiria. Ela sentia a força nos braços dele, a urgência em seus movimentos.
— Eu sou... — ela arfou, enquanto Michael levantava o vestido de cetim, revelando a ausência de lingerie por baixo. — Eu sou o seu pior pesadelo, Michael.
— Então eu não quero acordar — ele respondeu.
Ele a possuiu ali mesmo, no couro frio do sofá, sob as luzes fluorescentes do estúdio que pareciam piscar no ritmo de sua união frenética. Michael não era gentil; ele era faminto. Ele queria marcar cada centímetro dela, queria que ela sentisse o peso de sua presença para que, quando Prince a olhasse, ela só conseguisse pensar em Michael.
Maddy cravou as unhas nos braços dele, sua respiração tornando-se curta e errática. A adrenalina do momento, misturada com o álcool que Prince lhe dera, criava uma névoa de êxtase puro. Ela via o rosto de Michael acima dela — não o ídolo pop, mas um homem possuído por uma paixão primitiva.
— Michael... mais... — ela implorou, as pernas envolvendo a cintura dele, puxando-o para mais fundo.
Ele acelerou o ritmo, seus corpos colidindo com um som úmido e rítmico que preenchia a sala de gravação vazia. No ápice, Michael gritou, um som gutural que ecoou pelos microfones ainda abertos, gravando para a eternidade a evidência de sua entrega total ao caos dela.
Minutos depois, eles estavam deitados, os peitos subindo e descendo em sincronia. Michael escondia o rosto no cabelo dela, sentindo o cheiro de suor e música.
— Você ainda vai ao clube? — ele perguntou, a voz voltando ao tom suave, mas com um toque de possessividade.
Maddy olhou para o teto, um sorriso preguiçoso nos lábios. Ela passou a mão pelo rosto dele, limpando uma gota de suor.
— Acho que estou cansada demais para o Prince hoje, Applehead. Você me esgotou.
Michael sorriu, um sentimento de vitória morna se espalhando por seu peito. Ele sabia que Prince não desistiria fácil, e sabia que Maddy ainda era uma chama imprevisível que poderia consumi-lo a qualquer momento. Mas, por enquanto, o fogo estava sob seu controle.
— Maddy? — ele chamou.
— Hum?
— Amanhã... vamos terminar a ponte de *Beat It*. Eu quero que você toque como se estivesse tentando quebrar a guitarra.
Maddy riu, beijando a ponta do nariz dele.
— Michael, querido... eu sempre toco como se estivesse tentando quebrar tudo. Inclusive você.
Ela se levantou, ajeitando o vestido vermelho amassado, e caminhou até sua Fender. Ela tocou um único acorde — uma nota suja, cheia de feedback e distorção.
— Isso foi para o Prince — disse ela, piscando para Michael.
Depois, tocou uma melodia doce, quase melancólica, que parecia uma carícia.
— E isso foi para você.
Michael observou-a sair do estúdio, a guitarra nas costas e o caminhar confiante de quem sabia que tinha o mundo — e o Rei do Pop — na palma da mão. Ele se recostou no sofá, fechando os olhos. O jogo com Prince estava apenas começando, e a guerra pela alma de Maddy Perez seria longa. Mas Michael Jackson nunca entrava em uma briga para perder.
Ele pegou o copo que Prince deixara na mesa e o arremessou contra a parede. O cristal se estilhaçou em mil pedaços, brilhando como diamantes no chão escuro.
— Beat it, Prince — ele sussurrou para o vazio. — Beat it.