Amor
Ecos de Eletricidade e Ciúme
O brilho das luzes de néon de Los Angeles parecia mais pálido em comparação à voltagem que corria nas veias de Michael naquela manhã. O estúdio Westlake ainda guardava o cheiro de Maddy — uma mistura inebriante de tabaco, couro e aquele perfume floral barato que ela insistia em usar. Ele estava sentado ao piano, os dedos flutuando sobre as teclas, mas sua mente não estava na melodia. Estava na imagem dela, nua sob a luz vermelha da mesa de som, sendo a única pessoa no mundo capaz de desarmar suas defesas.
A porta do estúdio se abriu com um estrondo. Maddy entrou, usando óculos escuros de lente espelhada e uma jaqueta de motoqueiro que parecia ter sobrevivido a uma guerra. Ela carregava uma caixa de pizza em uma mão e sua inseparável Fender na outra.
— Acorda, Applehead! — gritou ela, jogando a caixa sobre o piano de cauda, fazendo as cordas vibrarem em protesto. — O sol já nasceu e eu ainda não ouvi o mix final daquela ponte que gravamos ontem.
Michael sorriu, um brilho travesso nos olhos que ele raramente mostrava a outras pessoas.
— Você está atrasada, Maddy. Três horas atrasada.
— O tempo é um conceito burguês, Michael — ela respondeu, tirando os óculos e revelando olheiras profundas que só a tornavam mais hipnótica. — Além disso, tive que parar para comprar isso aqui.
Ela tirou um pequeno envelope do bolso e o jogou sobre as partituras de *Thriller*. Michael reconheceu instantaneamente o que era. Seu sorriso desapareceu, substituído por aquela expressão de preocupação quase paternal que Maddy tanto desprezava e, secretamente, adorava.
— Maddy, nós conversamos sobre isso. Você prometeu que ia diminuir.
— Eu disse que ia tentar, não que ia conseguir — ela retrucou, já se conectando ao amplificador. — E não me olhe assim. Eu preciso de energia para aguentar o seu perfeccionismo. Você quer o solo de "Beat It" ou quer um coral de igreja? Porque se quiser o coral, está no lugar errado.
Michael suspirou, aproximando-se dela. Ele tocou seu ombro, sentindo a rigidez dos músculos dela.
— Eu só me preocupo com você. Você é... preciosa demais para se destruir assim.
Maddy parou de ajustar os botões do amplificador e olhou para ele. Por um breve segundo, a máscara de durona caiu. Ela viu a sinceridade nos olhos castanhos dele, uma pureza que a incomodava porque a fazia sentir que, talvez, ela pudesse ser salva. E Maddy Perez não queria ser salva; ela queria ser consumida.
— Não tente me consertar, Michael — sussurrou ela, a voz subitamente rouca. — Apenas me use na sua música. É para isso que eu sirvo, não é?
— Você sabe que não é verdade — disse ele, a voz firme.
Antes que a discussão pudesse avançar, a porta se abriu novamente. Mas desta vez, não era um assistente ou Quincy Jones. Era Prince.
Ele entrou no estúdio como se fosse o dono do lugar, vestindo um conjunto de seda roxa que brilhava sob as luzes artificiais. Ele carregava uma guitarra personalizada, branca e curvilínea, que parecia uma extensão de seu próprio corpo.
— Ouvi dizer que o som aqui estava ficando interessante — disse Prince, sua voz aveludada preenchendo o espaço. — Mas achei que faltava um pouco de... atitude.
Michael sentiu uma pontada imediata de irritação. Ele e Prince mantinham uma rivalidade respeitosa, mas a presença dele ali, especialmente depois do que acontecera no dia anterior, parecia uma invasão de território.
— Prince, não esperávamos você hoje — disse Michael, cruzando os braços.
— Eu sei, Mike. Mas eu estava no estúdio ao lado e não pude resistir. — Ele se virou para Maddy, ignorando completamente Michael. — E então, Maddy? Pronta para um desafio de verdade ou vai continuar tocando essas notas bonitinhas para o Michael?
Maddy soltou uma risada desafiadora, seus olhos brilhando com o desafio.
— Notas bonitinhas? Você não ouviu nada ainda, baixinho.
— Então me mostre — desafiou Prince, aproximando-se dela.
Ele começou a tocar um riff funk rápido, os dedos se movendo com uma agilidade sobrenatural. Maddy não hesitou. Ela respondeu com uma distorção pesada, transformando a melodia dele em algo sombrio e agressivo. Os dois começaram a duelar, um círculo de energia se formando entre eles. Prince se aproximava cada vez mais, seus corpos quase se tocando enquanto trocavam notas. Ele sorria para ela, uma expressão de pura sedução musical, e Maddy retribuía com uma intensidade que Michael nunca tinha visto direcionada a mais ninguém.
Michael observava da lateral, o coração batendo forte, mas não de admiração. Era ciúme. Um ciúme puro, ardente e infantil que ele não sabia como processar. Ver Prince invadir o espaço pessoal de Maddy, ver a forma como ela parecia responder àquela energia, o fazia sentir-se excluído de um mundo que ele mesmo a convidara para entrar.
— Já chega! — Michael exclamou, sua voz cortando o barulho das guitarras.
Os dois pararam. Prince olhou para Michael com um sorriso de canto de boca, claramente satisfeito por ter conseguido uma reação.
— O que foi, Mike? A música está alta demais para você?
— Nós temos um cronograma, Prince — disse Michael, caminhando até o centro do estúdio e se colocando entre Maddy e o rival. — Maddy é a minha guitarrista neste álbum. Se você quer tocar, faça isso no seu tempo.
Prince deu de ombros, guardando a palheta no bolso.
— Tudo bem, tudo bem. Só estava testando o equipamento. — Ele olhou para Maddy uma última vez, descendo o olhar pelo corpo dela de forma lenta e deliberada. — Você é fogo, garota. Se o Michael ficar muito comportado para você, sabe onde me encontrar.
Quando Prince saiu, o silêncio que se seguiu foi tenso. Maddy começou a guardar os cabos, agindo como se nada tivesse acontecido, mas Michael estava visivelmente abalado.
— Você gostou disso, não foi? — perguntou ele, a voz tremendo levemente.
— Gostei do quê? De tocar com um dos melhores músicos do mundo? Sim, Michael, eu gostei. É para isso que eu vivo.
— Ele estava flertando com você na minha frente!
— E daí? Eu sou livre, Michael. Eu não pertenço a você, nem ao Prince, nem a ninguém.
Michael a segurou pelo braço, não com força, mas com uma urgência que a fez parar.
— Você pertence a este projeto. E você... você esteve comigo ontem à noite.
Maddy soltou um suspiro irritado e se soltou.
— Ontem à noite foi incrível, Michael. Mas não confunda as coisas. Eu não sou uma das suas fãs que desmaia só porque você olha para elas. Eu sou o caos, lembra? E se você não consegue lidar com o fato de que outros homens vão me olhar, então talvez você devesse contratar um guitarrista de estúdio de cinquenta anos que use suéter.
Ela caminhou até o canto do estúdio, pegando sua bolsa. Ela tirou o envelope que tinha trazido mais cedo e, diante dos olhos horrorizados de Michael, preparou uma linha rápida sobre a superfície de um amplificador.
— Maddy, não! — Michael tentou impedi-la, mas ela foi mais rápida.
Ela aspirou o pó, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos enquanto a substância atingia seu sistema. Quando abriu os olhos, eles estavam elétricos, as pupilas quase cobrindo a íris.
— Agora — disse ela, a voz vibrando com uma energia artificial —, vamos gravar essa porra dessa música.
Michael sentiu uma mistura de nojo e atração. Ele odiava o que ela fazia consigo mesma, mas a confiança selvagem que emanava dela naquele momento era irresistível. Ele sinalizou para o engenheiro de som através do vidro. A batida de *Beat It* começou a ecoar pelos alto-falantes.
Maddy começou a tocar. Não era apenas música; era um exorcismo. Ela torturava as cordas, tirando sons que pareciam gritos de agonia e prazer. Michael, contagiado pela energia destrutiva dela, começou a dançar. Seus movimentos eram mais agressivos do que o normal, cada chute e cada giro carregados com a frustração e o ciúme que ele sentia por Prince.
Eles eram dois polos opostos colidindo em uma explosão de som. Quando a música parou, ambos estavam arfando. Maddy largou a guitarra no chão, o som do impacto ecoando pelo estúdio, e caminhou até Michael. Ela o empurrou contra a parede acolchoada da cabine de voz.
— Você dança como se quisesse me matar ou me foder — ela sussurrou, o hálito quente contra o pescoço dele. — Qual dos dois vai ser, Michael?
Michael não respondeu com palavras. Ele a pegou pela cintura, levantando-a e fazendo com que ela envolvesse as pernas em seu quadril. Ele a beijou com uma ferocidade que a pegou de surpresa. Não havia doçura ali, apenas a necessidade bruta de marcar seu território, de apagar o toque de Prince, de possuir a mulher que se recusava a ser possuída.
Ele a levou para o pequeno sofá de couro nos fundos do estúdio, onde a luz era escassa. Suas mãos percorriam o corpo dela com uma familiaridade que crescia a cada segundo. Ele puxou a calça de couro dela, seus dedos roçando a pele quente e úmida. Maddy gemia o nome dele, as unhas cravadas nas costas de Michael, deixando marcas que ele teria dificuldade em esconder dos figurinistas no dia seguinte.
— Diga que você é minha — ele exigiu, a voz profunda, enterrando o rosto no pescoço dela.
— Eu sou... da música — ela provocou, mesmo enquanto seu corpo se arqueava sob o dele.
Michael parou por um segundo, olhando-a nos olhos.
— Maddy...
— Tudo bem, seu idiota possessivo — ela cedeu, puxando-o para baixo para um beijo faminto. — Neste momento, neste estúdio... eu sou sua.
O ato foi frenético, impulsionado pela droga no sistema dela e pelo ciúme no dele. Michael movia-se com uma precisão rítmica, cada estocada sincronizada com os batimentos acelerados de Maddy. Ela era barulhenta, selvagem, uma força da natureza que o obrigava a sair de sua concha de perfeição e enfrentar a realidade crua do desejo humano.
Quando o clímax veio, foi como uma explosão de estática. Eles ficaram ali, emaranhados um no outro, o silêncio do estúdio retornando gradualmente. Michael acariciava o cabelo dela, sentindo a respiração dela se acalmar contra seu peito.
— Você sabe que isso não resolve nada, não é? — Maddy disse finalmente, a voz cansada. — Prince ainda vai estar por aí. E eu ainda vou querer me destruir.
Michael apertou-a mais forte.
— Eu não vou deixar. Nem um, nem outro.
Maddy soltou uma risada triste.
— Você é tão doce, Michael. Tão ingênuo. Você acha que pode controlar o fogo sem se queimar.
— Eu já estou queimando, Maddy — ele admitiu, a voz baixa e honesta. — E, pela primeira vez na minha vida, eu não quero que apaguem o incêndio.
Ela se levantou, limpando-se e vestindo a roupa com uma eficiência fria que sempre o deixava um pouco desconfortável. Ela pegou sua guitarra e caminhou até a porta.
— Amanhã, no mesmo horário? — perguntou ela, sem olhar para trás.
— Maddy?
Ela parou, a mão na maçaneta.
— Deixe o envelope aqui — pediu Michael. — Por favor.
Houve um longo silêncio. Maddy enfiou a mão no bolso, tirou o envelope e o jogou no chão.
— Só por hoje, Michael. Só porque você toca melhor que o Prince.
Ela saiu, deixando-o sozinho na penumbra do estúdio. Michael caminhou até o envelope, pegou-o e o jogou na lata de lixo. Ele sabia que era uma vitória temporária. Ele sabia que Maddy Perez era um furacão e que ele era apenas um homem tentando segurar o vento. Mas, enquanto olhava para a guitarra dela que ainda vibrava levemente no suporte, ele sabia que não trocaria aquele caos por toda a paz do mundo.