Amor
Solo de Sangue e Neon
O ar no Westlake Studios estava denso, carregado com o cheiro de café requentado, fiação aquecida e a tensão elétrica que precedia as grandes criações. Michael estava de pé atrás do vidro da sala de controle, os braços cruzados sobre o peito, observando Maddy no centro do estúdio principal. Ela parecia uma anomalia naquele ambiente técnico e limpo: usava uma camiseta rasgada do Led Zeppelin, calças de couro justas e tinha um cigarro apagado pendurado no canto da boca, desafiando abertamente as regras de "proibido fumar".
Ao redor dela, os músicos de apoio — homens experientes que já haviam tocado com os maiores nomes da indústria — pareciam hipnotizados. Greg, o tecladista titular da sessão, um homem alto com um sorriso fácil e mãos ágeis, estava inclinado sobre o amplificador de Maddy, rindo de algo que ela dissera.
— Você está me dizendo que aprendeu esse dedilhado ouvindo discos de blues roubados do seu tio? — perguntou Greg, a voz carregada de uma admiração que Michael achou excessivamente melosa.
— E alguns truques de rua em East L.A. — Maddy respondeu, dando uma piscadela que fez Greg corar. — A técnica é para os fracos, Greggy. O que importa é se você consegue fazer a madeira chorar.
Greg riu e tocou levemente o ombro de Maddy, deslizando a mão em direção ao braço dela enquanto apontava para as cordas da Fender. Michael, do outro lado do vidro, sentiu uma pontada aguda no peito, como se um dos cabos de alta tensão do estúdio tivesse se conectado diretamente ao seu coração. Ele apertou os botões do console de mixagem com tanta força que as pontas dos dedos ficaram brancas.
— Quincy, podemos começar? — a voz de Michael saiu pelo intercomunicador, soando mais afiada do que o normal. — O tempo de estúdio é caro e não estamos aqui para um coquetel.
Maddy olhou para o vidro, seus olhos encontrando os de Michael. Ela soltou um sorriso de lado, aquele sorriso que dizia que ela sabia exatamente o que ele estava sentindo. Greg se afastou, mas não antes de lançar um olhar desafiador para a sala de controle.
— Tudo pronto, Michael — disse Quincy Jones, sentindo a vibração pesada no ar. — Maddy, vamos gravar o solo de *Beat It*. Dê-nos aquele fogo que você prometeu.
A batida icônica começou a ecoar pelos alto-falantes. Michael observava cada movimento de Maddy. Quando ela começou a tocar, o mundo ao redor pareceu desaparecer. Não era apenas música; era uma agressão rítmica. Ela torturava as cordas, tirando sons que oscilavam entre um grito humano e o rugido de uma fera. Greg, ao teclado, tentava acompanhar a energia dela, inclinando-se em sua direção, buscando uma conexão visual que Michael queria desesperadamente cortar.
Em um momento de improviso, Maddy caminhou até o teclado de Greg, encostando as costas nas dele enquanto fazia um bend impossível na guitarra. O tecladista sorriu, acompanhando-a com um sintetizador sujo, e por um segundo, eles pareciam uma unidade.
Michael não aguentou. Ele abriu a porta da sala de controle e entrou no estúdio principal, interrompendo a sessão com um gesto brusco.
— Parem! — ele exclamou. O silêncio que se seguiu foi constrangedor. Os músicos trocaram olhares confusos.
— O que houve, Mike? Estava soando incrível — disse Greg, ainda perto demais de Maddy para o gosto de Michael.
— A harmonia está errada — mentiu Michael, caminhando até o centro do estúdio. Ele se colocou fisicamente entre Maddy e Greg, sua presença emanando uma autoridade silenciosa e possessiva. — Greg, tente algo mais minimalista. Você está sobrecarregando o solo dela. E Maddy... foque na melodia principal, não se distraia com... interações.
Maddy arqueou uma sobrancelha, encostando a guitarra no quadril.
— Distrações, Jackson? Eu achei que estávamos criando um momento.
— O momento é entre você e a música — Michael retrucou, a voz baixa, apenas para ela ouvir. — Não entre você e o tecladista.
Ele se virou para o resto da banda, seus olhos brilhando com uma intensidade que ninguém ousava questionar.
— Dez minutos de intervalo. Todos fora, exceto a Maddy.
Os músicos saíram rapidamente, Greg lançando um último olhar de desculpas para Maddy, o que só serviu para irritar Michael ainda mais. Quando a porta pesada se fechou, restando apenas os dois sob a luz avermelhada dos amplificadores, a tensão mudou de profissional para visceral.
— Você está louco? — Maddy perguntou, soltando a guitarra no suporte. — Você quase expulsou o cara porque ele foi legal comigo.
— Ele não estava sendo "legal", Maddy. Ele estava flertando com você na minha frente — Michael deu um passo à frente, a timidez habitual completamente substituída por uma possessividade crua. — Eu vi como ele tocou em você.
— E desde quando você é o dono do meu corpo, Applehead? — ela o provocou, caminhando em sua direção até que seus peitos se tocassem. — Achei que você fosse o garoto comportado da Jehovah’s Witness.
Michael a agarrou pelos braços, puxando-a para perto. O cheiro dela — couro, suor e aquele perfume barato — o atingiu como um soco.
— Você sabe que eu não sou mais esse garoto quando estou com você. Você me transformou em algo que eu nem reconheço. E eu não vou deixar ninguém, nem o Prince, nem um tecladista qualquer, tirar isso de mim.
Maddy sentiu o pulso dele acelerado contra a pele dela. Ela adorava aquele Michael — o homem que rugia sob a superfície de veludo. Ela passou as mãos pelo peito dele, sentindo os batimentos frenéticos.
— Então me mostre — sussurrou ela. — Mostre que você é o único que manda aqui.
Michael não esperou. Ele a empurrou contra a parede acolchoada do estúdio, suas mãos subindo por baixo da camiseta dela com uma urgência que a fez arfar. O beijo foi um confronto, uma disputa por território. Ele a beijava como se estivesse tentando marcar cada centímetro de sua alma, apagando qualquer vestígio de outros olhares ou toques.
Ele a levantou, as pernas de Maddy envolvendo sua cintura instantaneamente. Com um movimento brusco, ele a sentou sobre o console de mixagem auxiliar que ficava no canto da sala. O metal frio contra a pele dela só serviu para intensificar o calor que emanava de Michael. Ele abriu o zíper da calça de couro dela com uma pressa possessiva, seus dedos encontrando a umidade que já a traía.
— Você é minha — ele rosnou contra o pescoço dela, deixando uma marca vermelha que seria impossível de esconder. — Diga.
— Eu sou sua... — Maddy gemeu, a cabeça jogada para trás, as mãos cravadas nos ombros de Michael. — Só sua, seu maníaco.
Michael a possuiu ali mesmo, entre os microfones e as fitas magnéticas que gravariam a história da música. Cada estocada era carregada de uma fúria silenciosa, um desejo de fundir seus mundos tão díspares. Maddy gritava o nome dele, o som ecoando pela sala vazia, uma melodia muito mais real do que qualquer nota que haviam gravado antes. O prazer era violento, uma explosão de neon e sombra que os deixou exaustos e trêmulos.
Quando terminaram, o silêncio do estúdio parecia carregar o peso do segredo deles. Michael ajudou-a a se vestir, seus gestos agora voltando a ser gentis, quase devocionais. Ele beijou a testa dela, um toque suave que contrastava com a selvageria de momentos antes.
— Vá para casa — ele disse suavemente. — Eu termino a mixagem e te encontro lá em duas horas.
Maddy apenas assentiu, ainda atordoada pela intensidade do encontro. Ela pegou sua guitarra e saiu, deixando Michael sozinho com os ecos da paixão deles.
Duas horas depois, Michael estacionava seu carro em frente ao prédio decadente em Silver Lake. Ele subiu as escadas com o coração na boca. Ele nunca tinha feito isso — nunca tinha se permitido ser tão vulnerável fora dos palcos.
Ao entrar no apartamento, encontrou Maddy sentada no chão, cercada por discos, com uma garrafa de cerveja na mão e o olhar perdido na janela que dava para as luzes da cidade. Ela não parecia a guitarrista confiante de antes; parecia pequena, quase frágil na penumbra.
Michael sentou-se ao lado dela, no chão duro.
— Você está bem? — ele perguntou, pegando a mão dela.
Maddy deu de ombros, sem olhá-lo.
— Eu não sei lidar com isso, Michael. Com você. Você é o sol, e eu sou... eu sou o tipo de pessoa que vive no escuro. Eu uso drogas para não sentir o peso da realidade, e você é a realidade mais pesada que já encontrei.
Michael puxou o rosto dela para que ela o olhasse. A luz da lua refletia nas lágrimas que ela tentava esconder.
— Maddy, escute — ele começou, sua voz tremendo levemente. — Eu passei a vida inteira sendo o que os outros queriam que eu fosse. Eu era um produto, uma imagem, um ídolo. Mas quando estou com você, no seu caos, eu sinto que finalmente sou um homem. Eu não quero te consertar, e não quero que você mude por mim.
Ele fez uma pausa, respirando fundo, as palavras que ele guardara por tanto tempo finalmente encontrando o caminho para fora.
— Eu amo você, Maddy. Não a guitarrista, não a imagem rebelde. Eu amo a garota que me faz perder o controle. Eu amo o fato de que você é a única pessoa no mundo que não tem medo de mim.
Maddy ficou em silêncio por um longo tempo, o som da respiração deles sendo a única coisa audível. Ela olhou para o envelope de pó branco que estava sobre a mesa, e depois para Michael. Com um gesto lento, ela pegou o envelope e o jogou na lata de lixo.
— Você é um idiota, Jackson — ela disse, a voz rouca, puxando-o para um beijo que tinha gosto de promessa e redenção. — Um idiota maravilhoso.
Naquela noite, sob o teto rachado de um apartamento em Silver Lake, o Rei do Pop encontrou algo que nenhum disco de platina poderia dar: a paz de ser amado por quem ele realmente era, no meio do mais belo e destrutivo caos.