Amor
O Crepúsculo das Máscaras
O sol de Coruscant, sempre filtrado pela poluição atmosférica e pelo brilho metálico dos arranha-céus, parecia particularmente implacável naquela tarde. Dentro dos aposentos senatoriais de Tatsuyo Nakamura, o ar condicionado trabalhava em silêncio, mas a atmosfera era sufocante. Tatsuyo estava parada diante do espelho de corpo inteiro, as mãos espalmadas sobre o ventre que, aos seis meses de uma gestação dupla, não podia mais ser ocultado por túnicas largas ou truques de iluminação. A curva era nítida, uma promessa de vida que se tornara sua sentença de exposição.
Ela vestia uma túnica cerimonial pesada, de um azul profundo, com bordados em fios de ouro que deveriam desviar o olhar, mas o volume era inegável. Seus cabelos pretos e ondulados estavam presos em um penteado complexo, adornado com joias de Naboo que pareciam pesadas demais para sua cabeça.
— Eles estão chegando, não estão? — perguntou ela, a voz um sussurro quebrado.
Das sombras no canto do quarto, Kuro Hatake emergiu. Ele não usava suas túnicas Jedi habituais, mas uma armadura leve de combate por baixo de uma capa escura. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de uma malícia vibrante, estavam sombrios, carregados de uma tensão que fazia seus músculos de 1,80m parecerem cordas prestes a romper. O cabelo branco repicado estava úmido de suor; ele passara as últimas horas tentando, em vão, sentir as movimentações políticas e da Força ao redor do edifício.
— O hangar está cercado por guardas senatoriais e há uma escolta de cavaleiros Jedi no corredor principal — disse Kuro, aproximando-se e colocando as mãos sobre as dela, cobrindo o ventre onde seus filhos chutavam com uma energia que ele podia sentir através da Força. — Não é apenas uma visita de cortesia, Tatsuyo. É um tribunal.
— Meus pais... o Conselho... o Chanceler... — Tatsuyo fechou os olhos, sentindo o peso da vergonha e do medo. — Eles sabem, Kuro. Eles não teriam vindo em peso se não tivessem certeza.
— Deixe que saibam — rosnou Kuro, a voz profunda vibrando de possessividade. — Eu não vou deixar que encostem em você. Eu renuncio à Ordem agora mesmo se for preciso. Eu jogo este sabre de luz no abismo de Coruscant antes de permitir que eles te julguem.
— Se você fizer isso, eles nos destruirão — respondeu ela, virando-se para encará-lo. — Precisamos de diplomacia, Kuro. Precisamos de tempo.
O som metálico da porta principal sendo aberta ecoou pelo apartamento. Não houve pedido de entrada. Foi uma invasão autorizada pela autoridade máxima.
— Senadora Nakamura — a voz era fria, polida e carregada de uma autoridade que fazia os ossos tremerem. Era a voz de seu pai, o embaixador Hiroshi Nakamura, acompanhado pela mãe de Tatsuyo e por uma comitiva que faria qualquer sistema estelar tremer.
Tatsuyo respirou fundo, buscando uma calma que não possuía. Kuro se posicionou meio passo atrás dela, a mão direita descansando perigosamente perto do cinto, onde seu sabre de luz estava oculto.
Ao entrarem no salão principal, o cenário era devastador. De um lado, os pais de Tatsuyo, figuras de nobreza e honra inabaláveis, cujos rostos eram máscaras de decepção. Do outro, a pequena e enigmática figura do Mestre Yoda, apoiado em seu cajado, ladeado por Mace Windu e outros membros do Conselho. Autoridades do Senado completavam o semicírculo, transformando a sala de estar em um tribunal de inquisição.
— Pai. Mãe — disse Tatsuyo, inclinando a cabeça levemente, mantendo as mãos cruzadas à frente do ventre. — Mestre Yoda. A que devo a honra desta visita inesperada?
— Inesperada, Tatsuyo? — Sua mãe deu um passo à frente, os olhos fixos na saliência óbvia sob a túnica azul. — O escândalo que você carrega é inesperado. A desonra que você trouxe ao nome Nakamura é inesperada!
— Uma perturbação na Força, sentimos — disse Yoda, sua voz rouca preenchendo o silêncio. — Escondido, o segredo estava. Mas a vida... a vida brilha forte demais para as sombras a conterem.
Mace Windu deu um passo à frente, seus olhos fixos em Kuro.
— Cavaleiro Hatake. Sua presença aqui não é apenas irregular, é incriminatória. Você foi designado para a proteção da Senadora, não para a profanação do Código Jedi.
Kuro sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo à frente, ignorando o protocolo, a postura musculosa e desafiadora.
— Eu não profanei nada, Mestre Windu — rebateu Kuro, o tom de voz perigosamente baixo. — Eu protegi o que é mais valioso nesta galáxia. Algo que o Código de vocês parece ter esquecido como valorizar: a vida e o amor.
— Amor? — Hiroshi Nakamura soltou um riso amargo. — Você é um soldado, um monge guerreiro sem linhagem! Minha filha estava prometida a uma aliança que garantiria a paz em nosso setor. E agora ela está... grávida de um bastardo da Ordem?
— Não o chame assim — Tatsuyo interveio, sua voz subindo de tom, a coragem de mãe sobrepondo-se à da diplomata. — Não são bastardos. E Kuro não é apenas um soldado. Ele é o homem que eu amo. O homem com quem me casei em segredo perante a Força.
Um murmúrio de choque percorreu as autoridades do Senado. Casamento. Para um Jedi, era a expulsão imediata. Para uma Senadora, era o fim de sua carreira política e um suicídio social em Naboo.
— Casados... — sussurrou a mãe de Tatsuyo, levando a mão à boca. — Você jogou tudo fora, Tatsuyo. Sua honra, seu futuro... por um desejo carnal?
Kuro soltou um riso seco, cruzando os braços sobre o peito largo.
— Vocês chamam de desejo carnal porque têm medo de admitir que a Força nos uniu. Eu sou um "tarado", como alguns mestres gostam de sussurrar pelos corredores, porque eu sinto a vida com intensidade. Eu não sou uma estátua de gelo como vocês. Eu amo Tatsuyo com cada fibra do meu ser. E esses bebês... — ele apontou para o ventre dela — ...são a única coisa real nesta guerra de mentiras.
— Bebês? — Mace Windu franziu a testa. — No plural?
— Gêmeos — disse Tatsuyo, erguendo o queixo. — E eles têm dois pais que os defenderão contra qualquer um de vocês.
Mestre Yoda fechou os olhos por um momento, seu rosto enrugado demonstrando uma tristeza profunda.
— Grande é o perigo, quando o apego nubla a visão. O caminho de Anakin Skywalker, você segue, jovem Hatake. O medo da perda, para o Lado Sombrio leva.
— O meu único medo — disse Kuro, aproximando-se de Yoda até ficar a poucos centímetros da pequena criatura — é que meus filhos cresçam em um universo governado por velhos que preferem regras a sentimentos. Se o Conselho me quer fora, eu saio. Mas tentem tirar a guarda deles, ou tentem exilar Tatsuyo, e vocês verão do que um "Jedi apaixonado" é capaz.
A ameaça pairou no ar como eletricidade estática. O poder de Kuro era conhecido; ele era um prodígio de força bruta e instinto, e a ideia de tê-lo como um inimigo da Ordem era aterrorizante.
— Você não está em posição de fazer exigências, Hatake — disse Hiroshi. — Tatsuyo retornará a Naboo imediatamente. Ela ficará em reclusão até o nascimento. As crianças serão entregues a cuidadores adequados e o assunto será apagado dos registros oficiais.
Tatsuyo sentiu um frio glacial percorrer sua espinha. A ideia de ser separada de seus bebês, de ser trancada como uma prisioneira em sua própria casa, era pior do que a morte.
— Não — disse ela, a voz firme como aço. — Eu não vou a lugar nenhum. E ninguém toca nos meus filhos.
— Você é minha filha e uma cidadã de Naboo sujeita às minhas ordens! — gritou o pai.
— Eu sou uma Senadora da República e uma mulher livre! — rebateu ela, dando um passo à frente, a mão de Kuro encontrando a base de suas costas para sustentá-la. — E se vocês tentarem me levar à força, Kuro destruirá este edifício antes que cruzemos o hangar.
Kuro sorriu, mas era um sorriso sem humor, o brilho castanho de seus olhos escurecendo. Ele ativou o sabre de luz, a lâmina azul zumbindo no ar, iluminando seu cabelo branco e a pele parda de Tatsuyo com uma luz espectral.
— Experimentem — desafiou ele.
Mace Windu e os outros Jedi levaram as mãos aos seus sabres, mas Yoda levantou o cajado, pedindo calma.
— Violência, nada resolve. O destino, traçado já está. Expulso da Ordem, você está, Kuro Hatake. O sabre, entregar você deve.
Kuro olhou para a arma em sua mão, o símbolo de tudo o que ele fora treinado para ser. Sem hesitar, ele desativou a lâmina e jogou o cabo nos pés de Windu. O som do metal batendo no chão de mármore soou como um veredito definitivo.
— Fiquem com ele — disse Kuro. — Eu não preciso de um cristal para proteger minha família. Eu tenho a Força, e tenho algo que vocês nunca entenderão.
Ele se virou para os pais de Tatsuyo, que recuaram diante da intensidade de seu olhar.
— Quanto a vocês... Tatsuyo fica comigo. Nós vamos desaparecer. Se tentarem nos seguir, se tentarem usar a política para nos caçar, eu juro que voltarei. E eu não serei tão diplomático quanto fui hoje.
Tatsuyo olhou para a mãe, buscando um resquício de compaixão, mas encontrou apenas a frieza da tradição. A dor de perder a família era imensa, mas o amor que pulsava em seu ventre era maior. Ela sabia que, a partir daquele momento, eles eram párias. Fugitivos em uma galáxia em guerra.
— Vamos embora daqui — sussurrou Tatsuyo para Kuro.
— Senadora Nakamura — chamou Mace Windu —, você entende que, ao sair por essa porta com ele, você renuncia a toda a proteção da República?
Tatsuyo parou na soleira da porta, virando-se uma última vez. Ela olhou para o ventre, depois para o homem musculoso e rebelde ao seu lado, e finalmente para os mestres Jedi.
— A República não pode nem proteger a si mesma de um Sith infiltrado — disse ela com um desdém que os chocou. — Eu prefiro confiar a minha vida ao homem que me ama do que a um Senado que discute protocolos enquanto mundos queimam.
Kuro passou o braço pelos ombros dela, guiando-a para fora. Enquanto caminhavam pelo corredor, ele sentia os olhares de choque dos guardas e funcionários. A notícia se espalharia como fogo. Em poucas horas, seriam os nomes mais procurados de Coruscant.
Ao chegarem ao hangar privado, Kuro a ajudou a subir em uma nave de fuga rápida que ele mantinha preparada para emergências. Ele a sentou na poltrona do copiloto, prendendo o cinto com uma delicadeza extrema.
— Você está bem? — perguntou ele, ajoelhando-se à frente dela, as mãos em seus joelhos. — Os bebês... eles estão bem?
Tatsuyo assentiu, as lágrimas finalmente caindo livremente.
— Eles estão agitados. Acho que sentiram a tensão. Kuro... nós perdemos tudo.
Kuro pegou o rosto dela entre as mãos, forçando-a a olhar para ele. Seus olhos castanhos brilhavam com uma promessa inabalável.
— Nós não perdemos nada, Tatsuyo. Nós nos ganhamos. O resto é apenas poeira estelar. Eu vou te levar para um lugar onde ninguém nos encontrará. Um lugar onde esses dois guerreiros possam nascer em paz.
— Onde? — perguntou ela, soluçando.
— Para onde a Força nos guiar — disse ele, dando-lhe um beijo casto na testa antes de assumir o controle da nave. — Eu sou um "tarado" persistente, lembra? Eu não desisto do que é meu. E você, Tatsuyo, é o meu universo inteiro.
A nave decolou, cortando o céu alaranjado de Coruscant, deixando para trás os templos, os senados e as sombras de um destino que tentou, em vão, separá-los. Eles eram agora um eclipse: a união da luz e da sombra, da honra e do desejo, navegando rumo ao desconhecido para proteger a vida que florescia em dobro no silêncio do amor proibido. A galáxia podia estar em chamas, mas dentro daquela pequena cabine, o futuro acabara de começar.