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amor

Marcas do Silêncio e o Grito da Alma

O silêncio que se seguiu à breve trégua era frágil, como vidro temperado prestes a estilhaçar sob pressão. Lucy estava sentada na beira da cama, os dedos trêmulos brincando com a bainha do moletom sujo de sangue e poeira. A presença de Celina, a poucos metros de distância, era uma âncora e, ao mesmo tempo, uma ameaça ao seu isolamento autoimposto.

— Você precisa trocar essa roupa, Lucy. Está cheia de sangue e sujeira da rua — disse Celina, sua voz mantendo aquele tom de autoridade que não admitia réplicas, embora houvesse uma nota de cansaço nela.

Lucy não discutiu. Ela apenas assentiu, sentindo o corpo pesar toneladas. Levantou-se e caminhou até o armário, pegando a maior blusa de pijama que possuía — um camisetão cinza, desgastado, que ficava enorme em sua estrutura magra. Era sua armadura noturna, algo que a escondia do mundo e de si mesma.

Esquecendo por um segundo a presença vigilante de Celina, ou talvez exausta demais para manter a guarda, Lucy virou-se de costas e puxou o moletom por cima da cabeça.

O ar no quarto pareceu congelar.

Celina, que estava guardando o kit de primeiros socorros, parou no meio do movimento. Seus olhos alfas, aguçados e atentos a cada detalhe, varreram as costas expostas da garota de dezesseis anos. A luz amarelada do abajur revelou uma topografia de horror que nenhum uniforme escolar ou atitude rebelde poderia disfarçar.

Não eram apenas os hematomas novos da briga. Havia cicatrizes brancas e longas, marcas inconfundíveis de fivelas de cinto. Havia pequenas marcas circulares, queloides que só poderiam ter sido causadas por queimaduras de cigarro. E, mais recentes, manchas arroxeadas de tapas que cruzavam suas escápulas como sombras permanentes.

— Lucy... — O nome saiu da boca de Celina como um sopro de horror. — O que é isso?

Lucy paralisou. O tecido do pijama ainda estava em suas mãos, mas ela não o vestiu imediatamente. Seus ombros subiram até as orelhas, uma reação instintiva de defesa. Ela rapidamente enfiou os braços nas mangas e deixou o camisetão cair sobre o corpo, cobrindo as evidências de sua história privada de dor.

— Não é nada — respondeu Lucy, a voz soando oca, desprovida de qualquer entonação.

— Não é nada? — Celina deu um passo à frente, a fúria alfa borbulhando novamente, mas desta vez tingida de uma angústia profunda. — Lucy, suas costas parecem um campo de batalha. Aquilo são marcas de cinto. E queimaduras. Quem fez isso com você?

Lucy caminhou até sua cama e se sentou, pegando o celular na cabeceira e fingindo rolar a tela, ignorando completamente a presença da outra. O silêncio era sua única arma, o muro que ela construíra tijolo por tijolo durante anos.

— Lucy, eu estou falando com você! — Celina agora estava parada bem à frente dela, a postura rígida. — Isso não é resultado de brigas de rua. Essas cicatrizes são antigas. São sistemáticas. Se você não me disser o que está acontecendo, eu vou agora mesmo falar com a direção. Vou exigir que chamem o seu pai, que investiguem...

O nome "pai" ecoou no quarto como uma detonação.

A reação de Lucy foi visceral. Em um segundo, ela estava sentada; no outro, ela havia saltado sobre Celina com a agilidade de um animal encurralado. Ela empurrou a alfa mais velha contra a parede, as mãos agarrando o colarinho do pijama de Celina com uma força que não parecia vir de alguém tão jovem.

— Você não vai falar com ninguém! — rosnou Lucy, o rosto a centímetros do de Celina. Seus olhos, atrás das lentes dos óculos, estavam dilatados, brilhando com um desespero selvagem. — Você não sabe de nada! Cale a boca! Cale a maldita boca!

Celina não revidou o ataque físico. Ela era mais forte, mais experiente, mas o que viu no rosto de Lucy a desarmou completamente. Não era a agressividade de uma alfa desafiando outra pelo território. Era o surto de alguém que via a própria morte diante de si.

— Lucy, me solta — pediu Celina, mantendo a voz firme, mas calma, enquanto segurava os pulsos da garota para contê-la.

— Você não vai chamar ele! Você não tem o direito! — Lucy continuava a gritar, embora sua voz estivesse começando a falhar, transformando-se em um som agudo e doloroso. — Se você contar... se ele vier aqui...

De repente, a força de Lucy desapareceu. Suas mãos escorregaram do colarinho de Celina e suas pernas cederam. Celina a segurou antes que ela atingisse o chão, envolvendo-a em um abraço apertado, quase possessivo.

Foi então que o som mudou. Não era mais raiva. Lucy começou a hiperventilar, sons curtos e sufocados saindo de sua garganta. Ela estava tendo um ataque de pânico severo.

— Respira, Lucy. Olha para mim, respira — dizia Celina, sentando-se no chão e puxando a garota para o seu colo, ignorando o fato de que Lucy odiava o toque. Naquele momento, o toque era a única coisa que a mantinha na realidade.

Lucy soluçava sem lágrimas no início, o corpo tremendo tão violentamente que os dentes batiam. Ela tentava puxar o ar, mas seus pulmões pareciam colapsados sob o peso das memórias que a menção ao pai trouxera à tona.

— Eu... eu não... — Lucy tentava falar, mas apenas sons desconexos saíam.

— Shhh. Está tudo bem. Eu estou aqui. Ninguém vai vir aqui. Eu prometo — sussurrava Celina, passando a mão pelos cabelos bagunçados da menor, sentindo uma dor no próprio peito que nunca havia experimentado antes.

Demorou quase meia hora para que a respiração de Lucy voltasse ao normal. Ela acabou adormecendo ali mesmo, no chão do dormitório, exausta pelo esforço emocional. Com um cuidado que beirava a reverência, Celina a pegou no colo e a colocou na cama, cobrindo-a.

Celina não dormiu. Ela ficou sentada na poltrona, observando Lucy. A raiva contra a injustiça da vida daquela garota a consumia. Quando o relógio marcou quatro da manhã, ela viu o celular de Lucy, que havia caído no chão durante a briga, vibrar silenciosamente.

A curiosidade e o instinto protetor falaram mais alto que sua ética. Celina pegou o aparelho. Não havia senha — Lucy provavelmente não achava que alguém se importaria o suficiente para olhar.

Ao abrir o aplicativo de mensagens, o estômago de Celina deu um nó.

Havia um grupo apenas com o pai e o irmão de Lucy. As mensagens eram um catálogo de horrores.

"Você é um desperdício de espaço, Lucy. Quando voltar nas férias, vamos terminar o que começamos." "Espero que esteja se comportando, ou o cinto vai ser o menor dos seus problemas." "Você sabe que pertence a nós. Não importa para onde fuja."

Havia fotos de hematomas que eles mesmos tiravam dela, como troféus. O irmão enviava comentários obscenos e degradantes, lembrando-a de momentos que faziam o sangue de Celina ferver em uma fúria assassina.

Celina desligou a tela, as mãos tremendo. Agora ela entendia. As brigas de rua não eram rebeldia; eram uma tentativa de Lucy de sentir uma dor que ela pudesse controlar, uma dor que não viesse das mãos das pessoas que deveriam amá-la.

O dia amanheceu cinzento. Lucy acordou com a cabeça latejando e a memória fragmentada da noite anterior. Ela se sentou na cama, ajustando os óculos, e viu Celina parada perto da janela, de costas. O uniforme da alfa estava impecável, mas sua aura estava pesada, sombria.

— Você mexeu no meu celular — disse Lucy, sua voz fria como gelo ao notar o aparelho na mesa de Celina.

Celina virou-se lentamente. Seus olhos estavam vermelhos, como se ela tivesse passado a noite em claro lutando contra seus próprios demônios.

— Eu vi, Lucy. Eu vi tudo. As mensagens do seu pai... do seu irmão.

Lucy sentiu o chão sumir. A vergonha, ácida e corrosiva, subiu por sua garganta.

— Quem te deu o direito? — Lucy se levantou, a voz subindo de tom. — Quem você pensa que é para invadir a minha vida assim?

— Eu sou a pessoa que não vai deixar você voltar para aquela casa! — gritou Celina, perdendo a paciência que tanto se esforçara para manter. — Você está sendo destruída por eles, Lucy! Aquelas mensagens... aquilo é crime! Eles abusaram de você, eles te marcam como se você fosse um animal!

— Cala a boca! Você não entende! — Lucy avançou, mas parou a um passo de Celina, os punhos cerrados. — Se você contar para alguém, vai ser pior. Eles sempre descobrem. Eles sempre me acham.

— Pois que tentem me achar! — Celina deu um passo à frente, sua dominância alfa explodindo em ondas de pressão no quarto. — Você é minha responsabilidade agora, Lucy. Eu não vou ficar sentada assistindo você se matar aos poucos porque tem medo desses monstros.

— Você é uma egoísta! — Lucy cuspiu as palavras, as lágrimas finalmente transbordando, quentes e furiosas. — Você só quer se sentir a heroína, a aluna nota dez que salvou a coitadinha da colega de quarto. Você não se importa comigo, você se importa com a sua consciência!

O tapa no rosto de Lucy não veio, mas a palavra de Celina foi tão dolorosa quanto.

— Eu me importo tanto que não consigo respirar pensando no que eles fizeram com você! — Celina segurou os ombros de Lucy, sacudindo-a levemente. — Você prefere apanhar de estranhos na rua do que admitir que precisa de ajuda? É esse o seu plano? Morrer antes dos dezoito para não ter que enfrentar o que eles fizeram?

— Sim! — gritou Lucy. — Pelo menos na rua a dor acaba quando eu apago! Com eles... com eles nunca acaba!

Lucy tentou se desvencilhar, mas Celina a prendeu contra o próprio peito. Desta vez, Lucy não lutou. Ela desabou. A briga, o grito, a revelação do segredo mais obscuro de sua vida... tudo convergiu em um choro convulsivo que parecia arrancar sua alma.

— Eu odeio você — soluçou Lucy, apertando o tecido do blazer de Celina. — Eu odeio que você saiba.

— Eu sei — sussurrou Celina, encostando o queixo no topo da cabeça de Lucy, as lágrimas também descendo pelo seu rosto. — Pode me odiar o quanto quiser, Lucy. Mas eu não vou a lugar nenhum. E eles nunca, nunca mais vão tocar em você. Eu mato os dois antes que cheguem perto deste portão.

A promessa pairou no ar, densa e absoluta. Lucy, a alfa quebrada que odiava o toque, permitiu-se, pela primeira vez em anos, ser segurada. A briga não estava resolvida, a dor não tinha ido embora, e o medo do futuro ainda era um abismo negro sob seus pés. Mas, no calor do abraço de Celina, o frio constante que habitava seus ossos pareceu, por um breve momento, diminuir.

— Você vai ter que ir para a aula — disse Celina depois de um tempo, a voz recuperando a firmeza, embora ainda suave. — E depois, vamos sentar e planejar como acabar com a vida daqueles dois. Sem segredos, Lucy. Nunca mais.

Lucy se afastou um pouco, limpando o rosto com as costas das mãos. Ela olhou para Celina — a alfa séria, possessiva e brilhante que agora era sua única aliada no inferno.

— Eles são perigosos, Celina — alertou Lucy, o brilho de advertência voltando aos seus olhos.

Celina deu um sorriso frio, o tipo de sorriso que fazia os outros alunos tremerem nos corredores.

— Eles ainda não viram do que eu sou capaz quando tocam no que é meu.

A guerra estava declarada. E, pela primeira vez, Lucy não estava na linha de frente sozinha.

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