amor
Feridas Abertas e o Rugido da Proteção
O silêncio do dormitório 402, que antes parecia um refúgio, tornou-se uma armadilha sufocante para Lucy. Celina havia partido para uma excursão obrigatória da academia, uma viagem de dois dias que Lucy conseguiu evitar fingindo uma enxaqueca debilitante. Pela primeira vez em semanas, ela estava sozinha. E o isolamento, que ela sempre buscou como cura, rapidamente se transformou em seu pior pesadelo.
A porta do quarto não foi arrombada. Foi aberta com a frieza de quem possui a chave — ou a habilidade de contornar qualquer fechadura. Quando Lucy se levantou da cama, o coração disparando contra as costelas, ela deu de cara com a figura alta e robusta de seu irmão mais velho, Arthur. O sorriso dele era uma cicatriz viva em sua memória.
— Achou mesmo que aquele colégio interno de elite ia te esconder da família, maninha? — A voz dele era um veneno destilado.
Antes que Lucy pudesse gritar ou alcançar o spray de pimenta que Celina a obrigara a manter na mesa de cabeceira, Arthur avançou. O primeiro soco a atingiu no estômago, tirando-lhe todo o ar. Ele a agarrou pelos cabelos, jogando-a contra a parede de concreto com uma força que fez os quadros de Celina tremerem.
— Você fugiu — rosnou ele, prensando o corpo dela contra a parede, as mãos grandes e suadas subindo pelas coxas de Lucy, desrespeitando cada centímetro de sua pele. — Papai ficou muito chateado. E você sabe o que acontece quando ele fica chateado.
Lucy sentiu o pânico subir, mas o ódio foi mais rápido. Com um movimento desesperado, ela desferiu um chute certeiro na virilha dele. Arthur soltou um ganido de dor e recuou, mas a fúria em seus olhos dobrou de intensidade. Ele a derrubou no chão e, em um ato de crueldade pura, tirou um cigarro aceso do bolso.
— Você gosta de bancar a alfa rebelde, não é? — Ele pressionou a brasa ardente contra a clavícula dela.
O grito de Lucy foi abafado pela mão dele em sua boca. O cheiro de carne queimada invadiu suas narinas, misturando-se ao aroma metálico do sangue que já escorria de seu nariz. Arthur a chutou mais duas vezes nas costelas antes de se ajeitar.
— Considere isso um aperitivo. Papai está vindo terminar o serviço. A gente se vê no inferno, Lucy.
Ele saiu tão silenciosamente quanto entrou, deixando para trás apenas o rastro de dor e o som da respiração entrecortada de uma garota quebrado.
Duas horas depois, o som de passos apressados no corredor anunciou o retorno antecipado de Celina. Ela havia sentido um aperto inexplicável no peito, uma conexão alfa que a fizera abandonar a excursão no meio do caminho. Ao abrir a porta, encontrou Lucy sentada na cama, envolta em um cobertor, os óculos de aro fino perfeitamente posicionados.
— Lucy? Por que está no escuro? — Celina acendeu a luz, a voz carregada de uma preocupação que ela tentava disfarçar com autoridade.
— Eu só... dormi demais — murmurou Lucy, sem olhar para cima. Sua voz estava trêmula, mas ela mantinha a coluna ereta.
Celina estreitou os olhos. O cheiro no quarto estava errado. Havia fumaça de cigarro e o odor acre de medo.
— Levante-se. Vamos descer para o jantar. Você não comeu nada o dia todo.
Lucy hesitou. Ela sabia que, se ficasse sentada, poderia manter a fachada. Mas a ordem de Celina era absoluta. Ela tentou se levantar, forçando um sorriso cínico, mas assim que o peso do corpo pressionou as costelas fraturadas, suas pernas falharam.
— Lucy! — Celina gritou, saltando para frente e amparando a garota antes que ela atingisse o chão.
Lucy estava pálida, o suor frio escorrendo pela testa. Quando o cobertor deslizou, Celina viu a mancha de sangue na camiseta e a marca de queimadura vermelha e viva perto do pescoço.
— Quem fez isso? — A voz de Celina baixou uma oitava, tornando-se um rosnado perigoso. — Lucy, quem entrou aqui?!
— Ninguém... eu caí... — A voz de Lucy sumiu quando seus olhos reviraram e ela desmaiou nos braços da colega.
O hospital da academia era silencioso e cheirava a antisséptico. Lucy acordou com o bipe constante das máquinas. Celina estava sentada ao seu lado, os olhos fixos nela, a mandíbula tão tensa que parecia prestes a quebrar. Um policial estava parado à porta, esperando.
— Lucy, você precisa dizer a eles — pediu Celina, a voz suplicante, algo raro para ela. — O médico disse que essas marcas são de agressão e queimaduras propositais. Diga quem foi.
Lucy olhou para o teto branco, as lágrimas escorrendo silenciosamente pelas têmporas. O terror de seu pai era maior do que qualquer desejo de justiça.
— Eu não vi quem foi. Estava escuro. Eu só... eu não quero prestar queixa. Por favor, Celina, manda eles irem embora.
— Você está protegendo monstros! — Celina se levantou, a frustração explodindo. — Eles quase te mataram!
— Se eu falar, eles vão terminar o serviço! — gritou Lucy, a voz falhando. — Você não entende! Você tem uma família perfeita, notas perfeitas... você não sabe o que é viver com medo da própria sombra!
O policial suspirou e saiu do quarto, informando que, sem o depoimento da vítima e sem provas concretas da identidade do agressor, não podiam deter ninguém.
Celina sentiu uma chama negra acender em seu peito. Se o sistema não podia proteger Lucy, ela o faria. Ela esperou Lucy adormecer sob o efeito dos sedativos e saiu do hospital. Ela tinha o celular de Lucy. Ela tinha as mensagens. E ela tinha o rastro do cheiro de Arthur, que ainda impregnava o dormitório.
Não foi difícil encontrá-lo. Ele estava em um bar barato nos arredores da academia, celebrando a "visita" com alguns amigos. Celina entrou no local como uma tempestade de gelo. Quando Arthur a viu, um sorriso convencido surgiu em seu rosto.
— Ora, se não é a babá da minha irmãzinha. Veio pedir para eu pegar leve da próxima vez?
Celina caminhou até ele, a aura de alfa dominante fazendo os amigos dele recuarem instintivamente.
— Onde está o seu pai? — perguntou ela, a voz desprovida de qualquer emoção.
Arthur soltou uma gargalhada, dando um gole em sua cerveja.
— Ele já deve estar no hospital agora mesmo. Ele disse que ia "visitar" a Lucy para garantir que ela não abrisse a boca para a polícia. Ele vai terminar o que eu comecei. E depois, talvez eu volte para terminar com você.
O mundo de Celina parou por um microssegundo. O hospital. Lucy estava sozinha e indefesa.
Sem dizer uma palavra, Celina desferiu um soco tão potente no maxilar de Arthur que o som do osso quebrando ecoou pelo bar. Ele caiu como um saco de batatas, inconsciente antes mesmo de tocar o chão. Ela não ficou para ver o resultado. Correu para o carro, dirigindo como se sua vida dependesse disso — porque a de Lucy certamente dependia.
Enquanto isso, no quarto do hospital, a penumbra era cortada pela silhueta de um homem baixo e atarracado. O pai de Lucy, um homem cujo aroma de tabaco e álcool era o gatilho de todos os traumas da garota, fechou a porta silenciosamente.
Lucy acordou com a sensação de sufocamento. As mãos grandes e calejadas de seu pai já estavam em volta de seu pescoço, apertando com uma força impiedosa.
— Você sempre foi um erro, Lucy — sibilou ele, o rosto vermelho de ódio. — Uma alfa fraca. Uma vergonha para o meu sangue. Eu te dei a vida, e agora eu vou tirar.
Lucy tentou lutar, suas mãos arranhando os braços do pai, mas a sedação e os ferimentos anteriores a deixavam sem forças. A visão dela começou a escurecer. O bipe do monitor cardíaco acelerou desesperadamente antes de começar a falhar. Sua pressão caiu bruscamente, o corpo entrando em choque.
— Morra logo, sua imprestável — resmungou o homem, aumentando a pressão.
A porta do quarto foi arrombada com tanta força que saiu das dobradiças. Celina entrou como um raio. Ao ver a cena — Lucy ficando roxa, os olhos perdendo o brilho enquanto o pai a enforcava —, algo dentro de Celina quebrou. Não era mais a estudante exemplar. Era uma alfa protegendo o que era seu.
Ela agarrou o homem pelos ombros e o arremessou do outro lado do quarto, contra o suporte de soro metálico.
— SAIA DE PERTO DELA! — o grito de Celina foi um rugido que fez as janelas vibrarem.
O pai de Lucy, atordoado, tentou se levantar, mas Celina não deu chance. Ela desferiu um golpe devastador no plexo solar dele, seguido de um gancho de direita que o jogou contra a parede. Ele caiu, tossindo sangue, mas ainda tentou rosnar algo sobre "assuntos de família".
— A sua família acabou agora — disse Celina, sua voz tremendo de uma fúria contida.
Ela se virou para a cama, onde Lucy jazia imóvel, o pescoço marcado por sulcos profundos.
— MÉDICOS! AGORA! — Celina gritou, apertando o botão de emergência.
Enquanto a equipe médica entrava correndo para reanimar Lucy, o pai dela tentou se esgueirar para a saída. Celina, bloqueando o caminho, deu-lhe um último soco, um golpe de misericórdia que o deixou estirado no corredor, à vista de todos os enfermeiros e seguranças que chegavam.
— Ele tentou matá-la — disse Celina para os seguranças, apontando para o homem no chão. — E se ele se mexer antes da polícia chegar, eu mesma garanto que ele nunca mais ande.
As horas seguintes foram um borrão de luzes brancas e vozes abafadas. Lucy foi estabilizada, mas o dano emocional era incalculável. Celina não saiu do lado dela nem por um segundo, mesmo quando os policiais tentaram tirá-la para colher depoimento.
Quando Lucy finalmente abriu os olhos, horas depois, a primeira coisa que viu foi o rosto de Celina. A alfa estava despenteada, com os nós dos dedos manchados de sangue e os olhos transbordando de uma mistura de alívio e dor.
— Ele... ele se foi? — a voz de Lucy era apenas um sussurro rouco.
Celina segurou a mão dela, entrelaçando seus dedos com firmeza. Desta vez, Lucy não recuou. Ela buscou o toque.
— Ele nunca mais vai te tocar, Lucy. Nem ele, nem o seu irmão. Eles estão presos, e eu pessoalmente vou garantir que apodreçam lá.
Lucy fechou os olhos, uma lágrima solitária escapando.
— Por que você fez isso? Você podia ter se metido em problemas sérios... sua carreira, suas notas...
Celina inclinou-se para frente, encostando a testa na de Lucy, um gesto de intimidade e promessa.
— Eu já te disse, Lucy. Você é minha. E eu protejo o que é meu, não importa o preço.
O silêncio que se seguiu não era mais o silêncio do medo ou dos segredos. Era o silêncio de uma cura que estava apenas começando, sob a vigilância inabalável de uma alfa que descobriu que sua maior força não estava nos livros, mas na vontade de manter viva a garota que o mundo tentou apagar.