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Amor

Sombras no Pátio e Faíscas no Olhar

O sinal da hora do almoço ecoou pelos corredores da Hawkins High School como um alívio para a maioria, mas para Tatsuyo Nakamura, era o som do início de uma nova provação. Ela permaneceu sentada em sua mesa por alguns segundos extras, organizando seus cadernos com uma precisão quase cirúrgica. Seus dedos, de pele parda e delicada, traçavam a capa de um livro de física avançada, enquanto ela tentava mentalmente construir uma barreira invisível contra os olhares que sentia queimando em suas costas.

— Você vem ou vai esperar o teto cair? — A voz de Kuro Hatake surgiu acima dela, vibrante e cheia de uma confiança que Tatsuyo ainda não conseguia processar.

Ela olhou para cima e sentiu aquele costumeiro solavanco no peito. Kuro estava parado ali, com um dos braços apoiado no batente da porta, a camisa branca levemente tensionada nos ombros largos. O cabelo branco e repicado parecia brilhar sob as luzes fluorescentes da sala, e aquele sorriso de lado, que parecia prometer tanto proteção quanto problemas, estava lá.

— Eu só... estava terminando de anotar a última fórmula — mentiu ela, a voz saindo um pouco mais trêmula do que gostaria.

— Esquece as fórmulas por um segundo, Dragão — disse Kuro, aproximando-se. Ele se inclinou sobre a mesa dela, o cheiro de sabonete cítrico e algo que lembrava floresta atingindo o olfato de Tatsuyo. — O pessoal está nos esperando. E, honestamente, eu estou morrendo de fome. Se eu não comer agora, vou acabar devorando o lanche do Dustin, e ele chora por dias quando isso acontece.

Tatsuyo soltou uma risada curta, a primeira que soou natural desde que pisara naquela escola. Ela se levantou, a jaqueta skatista balançando ao redor de seu corpo esguio, e começou a caminhar ao lado dele.

No refeitório, o barulho era ensurdecedor. O grupo de amigos já ocupava a mesa de sempre no canto, um refúgio para os "esquisitos" da cidade. Dustin gesticulava freneticamente enquanto explicava algo para Lucas e Mike, enquanto Max e Eleven pareciam observar a entrada com expectativa.

— Finalmente! — exclamou Dustin quando os dois se aproximaram. — Kuro, eu achei que você tinha sido abduzido ou algo assim. Ah, oi, Tatsuyo! Senta aqui, o Lucas prometeu não falar sobre o time de basquete por pelo menos dez minutos.

— Ei! — protestou Lucas, mas ele deu um sorriso acolhedor para a garota nova.

Tatsuyo sentou-se entre Max e Kuro. Ela se sentia pequena naquela mesa, cercada por personalidades tão vibrantes, mas havia uma sensação de pertencimento que ela nunca experimentara antes. No entanto, a paz durou pouco.

Do outro lado do refeitório, a mesa dos populares, onde Troy e seus amigos se reuniam, estava em polvorosa. Risadas altas e olhares apontados na direção de Tatsuyo deixavam claro que o assunto era ela.

— Ignora eles — sussurrou Max, tocando levemente no braço de Tatsuyo. — Eles são como parasitas. Alimentam-se da atenção dos outros.

— É difícil ignorar quando parece que você é uma atração de circo — respondeu Tatsuyo, os olhos fixos em sua bandeja de comida intocada. — Eu passei por isso em todas as escolas. "De onde você é?", "Você mora em uma oca?", "Fala a língua dos animais?". Às vezes, eu só queria ser invisível.

Kuro, que estava prestes a morder um sanduíche, parou. Seus olhos castanhos escureceram, perdendo o brilho brincalhão de momentos atrás. Ele olhou para Tatsuyo e, em seguida, para a mesa de Troy.

— Você não nasceu para ser invisível, Tatsuyo — disse Kuro, sua voz baixa e carregada de uma seriedade que fez Will, sentado à frente, levantar a cabeça. — E se alguém aqui tiver um problema com a sua história ou com quem você é, esse alguém tem um problema comigo.

— Não precisa me defender o tempo todo, Kuro — disse ela, embora o calor que subiu por seu pescoço não fosse de raiva. — Eu sei me cuidar.

Kuro deu um sorriso atrevido, voltando ao seu estado normal.

— Ah, eu sei que sabe. Você é um dragão, lembra? Mas até os dragões precisam de um cavaleiro de vez em quando. Ou, no meu caso, um guarda-costas bonitão.

— Você é muito convencido — murmurou ela, escondendo o rosto atrás da trança longa.

— Sou realista — retrucou ele, piscando para ela.

A conversa na mesa mudou para assuntos mais leves, como o novo filme que estrearia no cinema de Hawkins, mas Tatsuyo sentia que o clima estava tenso. Eleven, que passara a maior parte do tempo em silêncio, de repente parou de comer. Seus olhos se fixaram em um ponto atrás de Tatsuyo.

— Eles estão vindo — disse Eleven, sua voz monótona carregada de aviso.

Troy e mais dois rapazes se aproximaram da mesa. Troy tinha um sorriso presunçoso no rosto, o tipo de sorriso que Kuro sentia uma vontade quase incontrolável de apagar com um soco.

— Ei, Hatake — começou Troy, parando logo atrás de Kuro. — A gente estava pesquisando aqui... Nakamura, né? É um nome japonês. Mas ela parece uma dessas selvagens que a gente vê nos livros de história. O que é, uma mistura de erro genético?

O refeitório ficou em silêncio por um breve segundo. Dustin abriu a boca para retrucar, mas Kuro foi mais rápido. Ele se levantou lentamente, seus 1,80m de altura fazendo Troy parecer subitamente menor. O físico definido de Kuro, realçado pela postura ereta, emanava uma ameaça silenciosa.

— Troy — disse Kuro, a voz perigosamente calma —, eu vou te dar exatamente três segundos para pedir desculpas e sumir da minha frente antes que eu decida que a sua cara precisa de uma reforma.

— Você vai me bater por causa dessa... — Troy não terminou a frase.

Kuro deu um passo à frente, invadindo o espaço de Troy de uma forma que fez o valentão tropeçar para trás.

— Eu não vou te bater — disse Kuro, aproximando o rosto do dele. — Eu vou te destruir socialmente, fisicamente e de qualquer outra forma que você consiga imaginar. A Tatsuyo é inteligente demais para perder tempo com lixo como você, mas eu? Eu tenho todo o tempo do mundo para transformar a sua vida num inferno.

Troy olhou ao redor, percebendo que ninguém na mesa dos populares estava vindo em seu socorro. Ele resmungou algo sobre "loucos" e saiu apressado, seguido por seus amigos.

Kuro suspirou, passando a mão pelo cabelo branco, e voltou a se sentar. Ele olhou para Tatsuyo, esperando ver medo ou gratidão, mas o que encontrou foi uma faísca de algo novo nos olhos pretos dela.

— Eu disse que sabia me defender — falou Tatsuyo, mas havia um sorriso brincando em seus lábios. — Mas admito que ver ele tropeçando nos próprios pés foi... satisfatório.

— Viu? — disse Kuro, voltando ao seu tom leve. — O fogo do dragão está começando a aparecer.

Após o almoço, o grupo se separou para as aulas da tarde. Kuro e Tatsuyo caminharam juntos até o armário dela. O corredor estava mais vazio agora.

— Por que você é tão legal comigo? — perguntou Tatsuyo, enquanto guardava seus livros. — Eu sou a menina nova, estranha, que todo mundo olha torto. E você... você parece ser o cara que todo mundo quer por perto.

Kuro encostou-se no armário ao lado do dela, cruzando os braços. Seus olhos castanhos percorreram o rosto dela, detendo-se nos detalhes — a curva suave do nariz, o brilho dos cabelos pretos, a profundidade do olhar.

— Eu não gosto do que todo mundo gosta, Tatsuyo — disse ele, a voz soando mais rouca. — E eu não acho você estranha. Eu acho você fascinante. Você tem uma força que essas pessoas aqui nem conseguem compreender. E, para ser honesto... — ele se inclinou mais perto, até que seus rostos estivessem a poucos centímetros de distância — ... eu sempre tive uma queda por garotas que sabem usar uma jaqueta de skatista melhor do que eu.

Tatsuyo sentiu o coração martelar contra as costelas. Ela podia sentir o calor emanando do corpo de Kuro.

— Você está flertando comigo no meio do corredor da escola? — perguntou ela, tentando manter a voz firme.

— Talvez — respondeu ele, com aquele sorriso de lado irresistível. — Está funcionando?

Tatsuyo desviou o olhar, sentindo as bochechas queimarem, mas não conseguiu evitar um pequeno aceno positivo com a cabeça.

— Ótimo — disse Kuro, afastando-se um pouco, mas ainda mantendo o contato visual. — Então, depois da aula, você vai me mostrar como se anda de skate de verdade. Eu tenho um lugar perfeito, perto da pedreira. É calmo, e a gente pode conversar sem o Dustin tentando nos convencer de que encontrou um novo tipo de réptil interdimensional.

— Tudo bem — concordou ela. — Mas eu aviso: se você cair e quebrar um braço, eu não vou te carregar.

— Ah, eu acho que você carregaria — provocou ele, piscando. — No fundo, você é uma alma gentil, Nakamura.

As aulas da tarde passaram como um borrão para ambos. Quando o sinal final tocou, Kuro já estava esperando por ela na saída, encostado em sua bicicleta. Tatsuyo apareceu logo depois, segurando seu skate — uma prancha de madeira desgastada, mas bem cuidada, com desenhos geométricos que remetiam à sua ancestralidade.

Eles seguiram para a pedreira em silêncio, um silêncio confortável que só era quebrado pelo som dos pneus da bicicleta no asfalto e pelas rodas do skate de Tatsuyo quando ela decidia pegar um pouco de impulso.

Ao chegarem ao topo da colina que dava vista para a pedreira, o sol começava a baixar, pintando o céu de Hawkins com tons de laranja e roxo. Era uma vista linda e, ao mesmo tempo, melancólica.

— Meu pai me deu esse skate quando eu fiz dez anos — disse Tatsuyo, sentando-se na beira da encosta, deixando as pernas balançarem. — Ele dizia que, quando eu estivesse em cima dele, o mundo não poderia me alcançar. Que eu seria mais rápida que o preconceito.

Kuro sentou-se ao lado dela, mantendo uma distância respeitosa, mas próxima o suficiente para que seus ombros se tocassem ocasionalmente.

— Seu pai parece um homem sábio — comentou Kuro.

— Ele é. Mas ele também sofreu muito. Minha família veio de uma linhagem de guerreiros e protetores da terra, mas aqui... aqui somos apenas "diferentes". É cansativo, Kuro. Às vezes, eu sinto que estou sempre em guerra, mesmo quando não há ninguém atacando.

Kuro olhou para as mãos dela, que brincavam com a trança lateral. Sem pensar muito, ele estendeu a mão e cobriu a mão dela com a sua. A pele branca dele contra a pele parda dela criava um contraste que ele achou absolutamente perfeito.

— Você não está mais sozinha nessa guerra — disse ele, a voz firme. — Hawkins é um lugar estranho. Tem monstros literais vivendo debaixo dos nossos pés. Mas as pessoas daqui... as que valem a pena... elas são leais até o fim. O grupo, o Mike, a Eleven... todos nós protegeríamos uns aos outros. E agora, você faz parte disso.

Tatsuyo olhou para a mão de Kuro sobre a sua e, em seguida, para o rosto dele. Havia uma sinceridade nos olhos dele que desarmava todas as suas defesas.

— Por que você é tão diferente deles, Kuro? — perguntou ela em voz baixa.

Kuro deu um suspiro longo, olhando para o horizonte.

— Minha família também não é exatamente o padrão de Hawkins. Meu cabelo não é assim por causa de tinta, Tatsuyo. É genético. Eu sempre fui o "esquisito de cabelo branco". Eu aprendi cedo que, se você não se impuser, o mundo te esmaga. Então eu decidi ser o cara que ninguém consegue esmagar. E eu decidi que usaria essa força para garantir que ninguém mais fosse esmagado na minha frente.

Ele se virou para ela, um brilho travesso voltando aos olhos.

— Além disso, eu sou um pouco tarado, como a Max diz. E eu não conseguiria deixar uma garota tão linda quanto você passar despercebida.

Tatsuyo soltou uma risada alta, empurrando o ombro dele de leve.

— Você estragou o momento profundo!

— É o meu talento especial — brincou ele. — Mas é sério. Você é incrível, Tatsuyo. E eu quero conhecer cada parte dessa história que você carrega. Quero saber o que significa cada desenho no seu skate, quero saber o que você pensa quando olha para as estrelas e, principalmente, quero ver você sorrir mais vezes.

Tatsuyo sentiu uma onda de afeto por aquele garoto de cabelos brancos. Ela se inclinou e, num gesto de coragem que surpreendeu a si mesma, encostou a cabeça no ombro dele.

— Obrigada, Kuro. Por hoje. Por tudo.

Eles ficaram ali por um longo tempo, observando o sol desaparecer. Para Tatsuyo, Hawkins não parecia mais uma cidade tão hostil. Com Kuro ao seu lado, o "dragão" dentro dela se sentia, pela primeira vez, em paz.

Mas, enquanto a escuridão caía, um calafrio percorreu a espinha de Kuro. Ele olhou para a floresta ao longe, sentindo aquela familiar sensação de que algo estava observando. Eleven disse que estava seguro, mas em Hawkins, o "seguro" era apenas o intervalo entre um pesadelo e outro.

Ele apertou a mão de Tatsuyo com um pouco mais de força. Não importava o que viesse do Mundo Invertido ou dos corredores da escola. Ele seria o escudo dela. E, se necessário, ele queimaria o mundo para mantê-la a salvo.

— Vamos? — perguntou ele, levantando-se e oferecendo a mão para ela. — Ainda tenho que te ver cair do skate pelo menos uma vez antes de escurecer totalmente.

— Em seus sonhos, Hatake — retrucou ela, levantando-se com agilidade e subindo na prancha. — Tenta me acompanhar!

Ela desceu a pequena ladeira com uma graça impressionante, a trança lateral voando atrás dela como uma bandeira. Kuro riu, pegou sua bicicleta e pedalou com toda a força, sentindo que, apesar de todos os perigos, aquele era o início de algo extraordinário.

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