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Amor

Entre o Asfalto e as Estrelas

A noite em Hawkins havia caído com uma suavidade enganosa, trazendo consigo aquele arrepio frio que subia pela espinha, típico do final de outono. Longe das luzes da cidade e do barulho constante do refeitório da escola, a pedreira parecia um santuário esquecido. O único som audível era o das rodas do skate de Tatsuyo estalando contra o asfalto irregular da estrada sem saída e a respiração ritmada de Kuro, que a observava sentado no capô de um carro abandonado nas proximidades.

Tatsuyo se movia com uma fluidez que desafiava a gravidade. A calça jeans baggie balançava conforme ela dobrava os joelhos para ganhar impulso, e a jaqueta de skatista estava aberta, revelando uma regata simples que contrastava com o tom rico de sua pele parda. Ela executou um *kickflip* perfeito, a prancha girando sob seus pés antes de aterrissar com um estalo seco e satisfatório.

— Nada mal, Dragão — exclamou Kuro, batendo palmas lentas. — Mas eu acho que você está exibindo apenas para me fazer sentir um completo inútil sobre rodas.

Tatsuyo parou a prancha com um movimento seco do pé, fazendo-a saltar para sua mão. Ela caminhou até ele, o rosto levemente corado pelo esforço físico e o brilho nos olhos pretos refletindo a luz da lua.

— Você disse que queria ver o que eu sabia fazer — disse ela, aproximando-se do carro. — Eu só estou cumprindo a minha parte do trato.

Kuro saltou do capô, aterrissando com a leveza de um predador. Com seus 1,80m, ele parecia envolver o espaço ao redor dela. Ele estendeu a mão e tocou a ponta da trança lateral de Tatsuyo, que estava um pouco bagunçada pelo vento.

— Você é incrível, sabia? — A voz dele baixou um tom, perdendo a ironia habitual. — Não é só o skate. É o jeito que você não deixa esse lugar apagar quem você é. Mesmo com aqueles idiotas tentando te diminuir.

Tatsuyo baixou o olhar por um momento, sentindo o peso daquela afirmação. As memórias das ofensas de Troy e dos olhares tortos no corredor ainda doíam, mas a presença de Kuro agia como um bálsamo.

— Às vezes eu sinto que estou apenas fingindo — confessou ela em um sussurro. — Finjo que não ouço, finjo que não me importo. Mas por dentro... por dentro, eu sinto que sou feita de vidro prestes a quebrar.

Kuro deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. O cheiro de Tatsuyo — uma mistura de baunilha e o frescor do ar noturno — preencheu seus sentidos. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando as maçãs de sua face parda.

— Então me deixa ser a moldura que segura os cacos — disse ele, a intensidade em seus olhos castanhos fazendo o coração de Tatsuyo falhar uma batida. — Eu não estou brincando, Tatsuyo. Eu nunca conheci ninguém como você. Você é inteligente, é forte e é a garota mais linda que já pisou nesta cidade amaldiçoada.

Tatsuyo sentiu o calor subir pelo rosto. Ela levou as mãos aos pulsos de Kuro, sentindo a firmeza dos músculos dele.

— Você é um convencido, Kuro Hatake — disse ela, embora houvesse um sorriso trêmulo em seus lábios. — E um pouco tarado, a Max estava certa.

Kuro soltou uma risada baixa, seu corpo vibrando contra o dela.

— Eu nunca neguei isso — admitiu ele, aproximando o rosto do dela. — Mas a Max esqueceu de mencionar que eu sou terrivelmente persistente quando encontro algo — ou alguém — que realmente vale a pena.

O silêncio que se seguiu não era desconfortável; era carregado de uma eletricidade que parecia espelhar as tempestades que costumavam assolar Hawkins. Tatsuyo olhou para os lábios de Kuro e depois voltou para seus olhos. Ela viu a promessa de proteção, mas também viu um desejo genuíno de conhecê-la, não como uma "exótica", mas como a pessoa que ela era.

— Por que eu? — perguntou ela, a voz quase sumindo. — Você poderia ter qualquer garota daquela escola. Você é o Hatake.

— Porque nenhuma delas tem o fogo que eu vi nos seus olhos quando você enfrentou o Troy — respondeu ele, a voz rouca. — E porque nenhuma delas me faz sentir que eu preciso ser uma versão melhor de mim mesmo só para poder ficar ao lado delas.

Kuro inclinou a cabeça, e Tatsuyo fechou os olhos, entregando-se ao momento. Quando seus lábios finalmente se encontraram, foi como se o mundo ao redor de Hawkins desaparecesse. Não havia Mundo Invertido, não havia bullying, não havia o peso da ancestralidade ou a dor do preconceito. Havia apenas o toque suave e, gradualmente, mais urgente de suas bocas.

O beijo de Kuro era como ele: intenso, protetor e levemente atrevido. Tatsuyo sentiu as mãos dele descerem do seu rosto para sua cintura, puxando-a para mais perto, até que não houvesse mais espaço entre eles. Ela enroscou os dedos nos cabelos brancos e repicados dele, surpresa com a maciez dos fios que pareciam tão rebeldes.

Quando se separaram para respirar, Kuro encostou a testa na dela, ambos arfantes.

— Uau — murmurou ele, um sorriso genuíno e desarmado surgindo em seu rosto. — Acho que o dragão acabou de me incinerar.

Tatsuyo riu, escondendo o rosto no peito dele, sentindo as batidas aceleradas do coração de Kuro sob a jaqueta.

— Você fala demais — disse ela, apertando-o em um abraço.

— É a minha maior qualidade e meu pior defeito — concordou ele, envolvendo-a em seus braços longos e fortes. — Mas falando sério, Tatsuyo... eu sei que as coisas não são fáceis para você aqui. Eu sei que o que você enfrenta é um tipo diferente de monstro. Mas eu prometo que, enquanto eu respirar, você nunca mais vai ter que enfrentar isso sozinha.

Tatsuyo se afastou o suficiente para olhar nos olhos dele. Ela viu a verdade ali. Kuro não era apenas o garoto atlético e confiante que todos viam; ele era alguém que compreendia a dor de ser diferente, de ser o "esquisito de cabelo branco".

— Eu acredito em você — disse ela com firmeza.

Kuro sorriu e, num gesto impulsivo, pegou o skate dela do chão.

— Certo, Dragão. Agora que selamos nosso pacto, você vai ter que me ensinar aquele giro que você fez. Se eu cair e quebrar a cara, você é obrigada a me dar um beijo para sarar.

Tatsuyo revirou os olhos, mas não conseguiu conter o sorriso.

— Você não perde uma oportunidade, não é?

— Nunca — disse ele, piscando. — A vida em Hawkins é curta demais para não aproveitar cada segundo com a garota mais inteligente da cidade.

Eles passaram o restante da noite ali, entre tentativas desastradas de Kuro no skate e risadas que ecoavam pelo vazio da pedreira. Por algumas horas, eles eram apenas dois adolescentes de quinze anos, descobrindo o primeiro amor sob o céu estrelado de Indiana.

Enquanto voltavam para a cidade, Kuro pedalando sua bicicleta com Tatsuyo equilibrada no cano, ele sentiu que algo havia mudado. O perigo ainda estava lá fora, nas sombras da floresta e nos segredos do laboratório, mas ele tinha algo novo pelo que lutar. E Tatsuyo, sentindo o vento no rosto e o calor das costas de Kuro, finalmente sentiu que, em Hawkins, ela não era mais uma estrangeira em sua própria terra. Ela tinha encontrado seu lugar. Ela tinha encontrado seu fogo.

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