Amor
O Mistério da Trança e o Verão de Hawkins
O sol de Hawkins estava especialmente impiedoso naquela tarde de julho. O asfalto da rua principal parecia derreter sob as rodas dos skates e das bicicletas, e o ar carregava aquele cheiro característico de grama cortada e cloro de piscina. Para o grupo, no entanto, o calor era apenas um detalhe. Eles estavam reunidos na garagem de Mike, o quartel-general improvisado onde planos mirabolantes e campanhas épicas de D&D ganhavam vida.
Tatsuyo estava sentada em um caixote de madeira, ajustando os eixos de seu skate. Ela vestia uma calça baggy jeans que parecia três números maior que o seu tamanho real, presa por um cinto de lona, e uma camiseta de uma marca de surf antiga que pertencia ao seu irmão mais velho. A roupa larga escondia sua silhueta, mas ela se movia com uma agilidade natural. Como sempre, seu longo cabelo preto, liso com leves ondulações, estava preso em uma trança lateral perfeita que caía sobre o ombro esquerdo, chegando quase à cintura.
— Eu estou dizendo, se a gente não for para a pedreira agora, eu vou entrar em combustão espontânea — reclamou Dustin, abanando-se com uma revista de quadrinhos.
— Dustin tem razão — concordou Lucas, limpando o suor da testa. — Até a Max está quieta demais. Isso é sinal de desidratação extrema.
Max, que estava recostada na parede com os fones de ouvido no pescoço, apenas revirou os olhos.
— Eu só estou guardando energia para não ter que carregar nenhum de vocês quando desmaiarem no caminho — retrucou ela, com um sorriso de canto.
Kuro Hatake, que estava encostado na mesa de ferramentas de Mr. Wheeler, soltou uma risada baixa. Ele era o mais alto do grupo, com seus 1,80m e um porte físico que claramente não vinha apenas de andar de bicicleta. O cabelo branco repicado contrastava drasticamente com sua pele branca, e seus olhos castanhos escuros pareciam sempre analisar tudo com uma malícia divertida.
— A Tatsuyo é a única que parece não estar sofrendo — observou Kuro, aproximando-se dela. Ele se inclinou, apoiando as mãos nos joelhos para ficar na altura dos olhos da garota. — Ei, Tats, como você consegue ficar com essa jaqueta enorme nesse calor? E essa trança... não esquenta o pescoço?
Tatsuyo sentiu o rosto esquentar, um contraste com a frieza que tentava manter. Ela era tímida por natureza, e Kuro tinha o hábito irritante (e, para ela, secretamente desconcertante) de invadir seu espaço pessoal.
— Eu estou bem, Kuro — respondeu ela em voz baixa, sem desviar os olhos do skate. — Já me acostumei. E a trança mantém tudo no lugar.
— Sabe, faz um ano que você anda com a gente — disse Will, que estava desenhando em um canto. — E eu percebi uma coisa. Eu nunca, nem uma única vez, vi você de cabelo solto. Nem quando fomos ao lago no ano passado.
Onze, que estava sentada ao lado de Mike, inclinou a cabeça, curiosa.
— É verdade — disse On. — Tatsuyo, seu cabelo é muito bonito. Por que esconder?
Tatsuyo parou de mexer no skate por um segundo. A pergunta era simples, mas a resposta era complexa. Havia uma pequena parte, talvez cinco por cento, que se devia às tradições de seus antepassados, uma conexão silenciosa com suas raízes que ela mantinha viva. Mas os outros noventa e cinco por cento eram pura insegurança e o desejo de não chamar atenção. O cabelo solto a fazia se sentir exposta, vulnerável demais.
— Ah, é só... mais prático assim — mentiu ela, dando de ombros. — O cabelo é comprido demais, atrapalha para andar de skate.
— Prático? — Kuro deu um passo à frente, um brilho travesso nos olhos. — Ou você está escondendo algum segredo ninja aí no meio? Talvez um mapa do tesouro? Ou talvez suas orelhas sejam pontudas?
— Deixa ela em paz, Kuro — disse Mike, embora ele também parecesse curioso.
— Eu só acho que um crime desses deveria ser punido — continuou Kuro, ignorando Mike. — Ter um cabelo desses e nunca deixar o vento bater nele? É um desperdício.
Tatsuyo levantou-se rapidamente, pegando seu skate.
— Vamos logo para a pedreira ou não? — perguntou ela, tentando mudar de assunto.
O grupo finalmente se moveu. As bicicletas cortavam as ruas de Hawkins, com Tatsuyo e Max liderando o caminho em seus skates. O vento soprava no rosto de Tatsuyo, e ela sentia a trança chicotear levemente suas costas. Kuro vinha logo atrás, pedalando com facilidade, os olhos fixos na silhueta da garota à sua frente. Ele a achava fascinante. O jeito como ela usava as roupas largas do irmão, a timidez que contrastava com a habilidade no skate, e aquele mistério constante sobre sua aparência.
Quando chegaram à pedreira, a água azulada parecia um oásis. Os meninos não perderam tempo. Dustin, Lucas e Mike pularam quase imediatamente, gritando enquanto a água fria chocava-se contra seus corpos quentes. Will e On entraram de forma mais contida, rindo das palhaçadas dos outros.
Tatsuyo e Max ficaram na beira, sentadas nas rochas. Max já estava de biquíni por baixo da roupa e logo se livrou da camiseta e dos shorts. Tatsuyo, porém, apenas tirou a jaqueta larga, revelando uma regata preta que ainda escondia muito, mas deixava seus braços à mostra.
Kuro saiu da água, o cabelo branco grudado na testa e as gotas escorrendo pelo peito definido. Ele caminhou até as meninas, passando a mão pelo cabelo para tirar o excesso de água.
— E então, Tats? Não vai entrar? — perguntou ele, com um sorriso desafiador.
— Talvez daqui a pouco — respondeu ela, abraçando os joelhos.
— É o cabelo, não é? — perguntou Max, olhando para a amiga. — Você tem medo que a água estrague a trança? Eu posso te ajudar a refazer depois, se quiser.
— Não é isso, Max. É só que... — Tatsuyo hesitou.
— É agora ou nunca! — gritou Kuro.
Antes que Tatsuyo pudesse reagir, Kuro avançou. Ele não a empurrou com força, mas a pegou pela cintura e, com um movimento rápido e coordenado, pulou com ela para dentro da água.
— Kuro! Não! — gritou ela, mas o som foi abafado pelo mergulho.
A água estava gelada e o choque foi imediato. Tatsuyo emergiu segundos depois, tossindo e tentando tirar a água dos olhos. Ela sentiu algo estranho. O peso em suas costas havia mudado. Ela levou a mão à nuca e seu coração disparou. O elástico que prendia sua trança havia se rompido no impacto ou talvez tivesse se soltado quando Kuro a segurou.
Lentamente, como se estivesse em câmera lenta, o cabelo de Tatsuyo começou a se espalhar pela água. As mechas pretas e onduladas flutuavam ao redor dela como uma nuvem escura.
O grupo, que estava no meio de uma guerra de água, parou instantaneamente.
Tatsuyo ficou parada, a água batendo nos ombros, sentindo-se completamente nua, apesar de estar vestida. O cabelo molhado agora caía sobre seus ombros e costas, chegando até a altura da cintura, emoldurando seu rosto pardo de uma forma que ninguém ali jamais tinha visto.
— Uau — murmurou Dustin, quebrando o silêncio. — Ela parece... diferente.
— Você está linda, Tats — disse On, com um sorriso sincero.
Tatsuyo tentou juntar o cabelo com as mãos, o rosto queimando de vergonha.
— Eu... eu preciso prender. Alguém tem um elástico? — perguntou ela, a voz trêmula.
Kuro, que estava mais perto dela, não disse nada por um longo momento. Ele apenas a observava, os olhos castanhos fixos nos dela. A expressão de deboche tinha desaparecido, substituída por algo que parecia admiração genuína.
— Por que você esconderia isso? — perguntou Kuro, a voz incomumente suave. Ele estendeu a mão e tocou uma mecha molhada do cabelo dela. — Você é incrível, Tatsuyo.
Tatsuyo olhou para ele, surpresa pela falta de alguma piada tarada ou comentário sarcástico.
— Eu não gosto de chamar atenção — sussurrou ela.
— Bem, tarde demais para isso — disse Max, nadando até ela. — Mas sério, Tats, você não precisa se esconder. A gente é o seu grupo. A gente gosta de você de qualquer jeito, mas ver quem você é de verdade... isso é legal.
Tatsuyo relaxou os ombros. Ela olhou para os amigos, todos sorrindo para ela, e depois para Kuro, que ainda mantinha aquele olhar intenso. Pela primeira vez em muito tempo, ela não sentiu a necessidade imediata de se esconder sob camadas de pano ou elásticos de cabelo.
— Tudo bem — disse ela, soltando um suspiro e deixando o cabelo flutuar livremente na água. — Mas se alguém fizer piada sobre eu parecer uma sereia de filme de terror, eu afogo vocês.
— Justo — riu Lucas.
O resto da tarde foi regado a risadas e mergulhos. Tatsuyo descobriu que, embora o cabelo solto desse mais trabalho na água, a sensação de liberdade era algo que ela não sabia que estava perdendo.
Quando o sol começou a se pôr, pintando o céu de Hawkins com tons de laranja e roxo, o grupo começou a se secar. Tatsuyo estava sentada em uma toalha, tentando desembaraçar os fios com os dedos.
Kuro aproximou-se e sentou-se ao lado dela. Ele já estava com sua camiseta, mas o cabelo branco ainda estava úmido.
— Ei — disse ele, chamando sua atenção. — Eu não queria te deixar desconfortável. Quer dizer, eu queria que você soltasse o cabelo, mas não queria que você ficasse chateada.
Tatsuyo olhou para ele e viu sinceridade em seus olhos.
— Eu sei, Kuro. E... obrigada. Acho que eu precisava de um empurrãozinho.
Kuro sorriu, e aquele brilho travesso voltou.
— De nada. Mas agora que o mistério da trança foi resolvido, qual é o próximo segredo? Você tem uma tatuagem secreta? Um terceiro olho?
Tatsuyo riu e deu um empurrão de leve no ombro dele.
— Cala a boca, Kuro.
— Só estou perguntando! — defendeu-se ele, rindo junto. — Mas sério, não prenda de novo hoje. Deixa secar ao vento. Fica... bem em você.
Ela sentiu o rosto esquentar novamente, mas desta vez, não desviou o olhar.
— Talvez eu deixe. Só por hoje.
Enquanto o grupo se preparava para voltar para casa, Tatsuyo montou em seu skate. O vento da noite começou a soprar, e ela sentiu seu cabelo, agora quase seco, balançar livremente atrás dela. Era uma sensação nova, estranha e maravilhosa. Ela olhou para o lado e viu Kuro pedalando ao seu lado, mantendo o ritmo.
Hawkins ainda era a mesma cidade pacata de sempre, e os perigos do Mundo Invertido pareciam uma fantasia distante diante daquela realidade simples de verão. Para Tatsuyo Nakamura, no entanto, aquele dia marcou o início de algo novo. Ela não era mais apenas a garota da trança lateral e das roupas do irmão. Ela era Tatsuyo, e finalmente, todos podiam vê-la por inteiro.