Amor
O Convite e o Ritmo do Coração
As flores de cerejeira e os narcisos começavam a brotar nos jardins de Hawkins, anunciando que a primavera não estava apenas no ar, mas também nos corredores da Hawkins High School. O assunto era um só: o Baile de Primavera. Para um grupo que já tinha enfrentado demogorgons e possessões mentais, a pressão social de conseguir um par parecia, curiosamente, muito mais aterrorizante.
Mike e Eleven já estavam acertados, trocando olhares apaixonados e promessas de danças lentas. Lucas tinha feito um cartaz elaborado para Max, que fingiu irritação, mas guardou o papel na mochila com um sorriso escondido. Dustin passava horas no rádio com Susie, coordenando a logística da viagem dela, e até Will parecia radiante após ter sido convidado por um garoto tímido do clube de artes.
No entanto, em um canto mais afastado do refeitório, o clima era de tensão estratégica.
— Cara, você está suando frio. Isso é patético até para os seus padrões — provocou Dustin, roubando uma batata frita da bandeja de Kuro.
Kuro Hatake, o garoto de 1,80m com físico de atleta e uma confiança que geralmente beirava a arrogância, parecia ter encolhido dez centímetros. Ele tamborilava os dedos na mesa, os olhos castanhos fixos em Tatsuyo, que estava a duas mesas de distância, absorta em um livro de biologia, com sua inseparável trança lateral repousando sobre a jaqueta jeans oversized.
— Eu não estou suando frio, Dustin. O aquecimento da escola está desregulado — mentiu Kuro, embora o suor em sua nuca contasse outra história.
— Kuro, você passa o dia inteiro fazendo piadinhas e sendo... bem, você — disse Mike, tentando ser útil. — Por que travar logo agora? É a Tatsuyo. Ela é nossa amiga.
— Exatamente! — Kuro exclamou, baixando o tom logo em seguida. — Ela é nossa amiga. E se ela rir da minha cara? E se ela achar que é mais uma das minhas brincadeiras idiotas? Eu não quero estragar o que a gente tem.
Lucas suspirou, recostando-se na cadeira.
— Olha, a gente viu como você olhou para ela na pedreira no verão passado. E a gente viu como você olha para ela toda vez que ela solta o cabelo, o que agora acontece pelo menos uma vez por semana. Se você não convidar, algum idiota do time de natação vai fazer isso.
Kuro sentiu um aperto no estômago. A ideia de outro cara se aproximando de Tatsuyo era pior do que qualquer rejeição. Ele olhou para a garota novamente. Ela parecia tão tranquila, tão alheia ao caos hormonal que ele estava vivendo. A pele parda dela brilhava sob as luzes fluorescentes, e ele se pegou imaginando como seria segurar a mão dela na frente de todo mundo.
— Certo — disse Kuro, levantando-se abruptamente, fazendo a mesa tremer. — Eu vou fazer isso. Mas se der errado, eu vou culpar cada um de vocês pelo resto da vida.
— Boa sorte, garanhão — riu Max, que tinha acabado de chegar e se juntado à conversa. — Tente não ser um tarado por cinco minutos, isso deve ajudar.
Kuro caminhou pelo refeitório. Cada passo parecia pesado, como se ele estivesse usando botas de chumbo. Quando ele parou em frente à mesa de Tatsuyo, ela não percebeu de imediato. Ela estava sublinhando algo no livro, a ponta da língua aparecendo levemente entre os lábios em um gesto de concentração que Kuro achava adorável.
— Hum, Tats? — ele começou, a voz saindo um pouco mais aguda do que o normal.
Tatsuyo levantou os olhos pretos e profundos, piscando surpresa. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, aquele sorriso tímido que sempre fazia o coração de Kuro dar um solavanco.
— Oi, Kuro. Aconteceu alguma coisa? Você está... vermelho.
— É o calor! — ele repetiu, amaldiçoando-se mentalmente. — Escuta, eu queria te perguntar uma coisa. Mas não aqui. Você tem planos depois da aula?
Tatsuyo fechou o livro lentamente, a curiosidade brilhando em seu olhar.
— Não, o meu irmão vai trabalhar até tarde na oficina. Eu ia só praticar uns ollies no estacionamento. Por quê?
— Eu queria... — ele hesitou, sentindo o peso dos olhares dos amigos às suas costas. — Eu queria te levar para tomar um milkshake. Só nós dois. No Benny’s. O que acha?
Tatsuyo ficou em silêncio por alguns segundos, processando o convite. Kuro era a pessoa mais barulhenta e extrovertida que ela conhecia, e vê-lo ali, gaguejando e pedindo para sair a sós, era uma visão inédita.
— Só nós dois? Sem o Dustin reclamando das calorias ou o Lucas e a Max brigando por causa de quadrinhos? — ela perguntou, com um brilho divertido nos olhos.
— Sim. Só a gente.
— Tudo bem, Kuro. Eu aceito.
O resto do dia passou como um borrão para ambos. Quando o sinal da última aula tocou, Tatsuyo encontrou Kuro no estacionamento. Ele estava encostado em sua bicicleta, tentando parecer legal, mas a forma como ele ajeitava o cabelo branco repicado a cada cinco segundos entregava seu nervosismo.
Eles pedalaram lado a lado até a lanchonete. O sol da tarde estava morno, e o vento soprava suavemente. Tatsuyo, em um momento de coragem silenciosa, tinha soltado a trança antes de sair da escola. Seu cabelo preto ondulado fluía livremente, batendo na cintura e se misturando à jaqueta larga do irmão. Kuro não conseguia parar de olhar de soslaio, admirado com a beleza natural dela.
No Benny’s, sentados em uma cabine de couro vermelho, o silêncio era preenchido apenas pelo som da jukebox ao fundo tocando uma música lenta do Cyndi Lauper.
— Então... — começou Tatsuyo, mexendo no canudo de seu milkshake de chocolate. — O que você queria falar comigo, Kuro? Você está estranho desde a hora do almoço.
Kuro respirou fundo. Ele sabia que, se tentasse ser o "Kuro pegador", ela perceberia a falsidade na hora. Ele precisava ser ele mesmo, o Kuro que realmente se importava com ela.
— Tatsuyo, você sabe que o Baile de Primavera é na sexta-feira, certo? — ele começou, olhando diretamente nos olhos dela.
Ela assentiu, o coração começando a acelerar.
— Todo mundo já tem um par. O Mike, o Lucas... até o Will — continuou ele. — E eu passei as últimas semanas pensando em quem eu gostaria de levar. E a verdade é que não existe ninguém em Hawkins, ou no mundo, que eu prefira ter ao meu lado do que você.
Tatsuyo travou com a colher no meio do caminho. Ela olhou para ele, esperando o momento em que ele diria "pegadinha!" ou que Dustin pularia de trás de uma planta rindo. Mas Kuro estava sério. Seus olhos castanhos estavam carregados de uma sinceridade que a desarmou completamente.
— Você está brincando, não está? — ela sussurrou, a voz falhando. — É algum desafio que os meninos te deram?
— O quê? Não! — Kuro esticou a mão sobre a mesa, cobrindo a mão parda de Tatsuyo com a sua. A pele dele era quente e áspera, um contraste reconfortante. — Tats, eu nunca brincaria com isso. Eu gosto de você. De verdade. Não só como a garota legal que anda de skate com a gente, mas... eu gosto de você, Tatsuyo Nakamura.
Tatsuyo sentiu as lágrimas pinicarem seus olhos, um misto de choque e uma alegria que ela tentava reprimir há meses.
— Mas... eu sou só eu — ela disse, olhando para as próprias roupas largas. — Eu não sou como a Max, ou a Eleven. Eu sou tímida, eu me escondo nessas roupas do meu irmão, eu nem sabia como soltar o cabelo até você me empurrar naquela água...
— E é exatamente por isso que eu quero você — interrompeu Kuro, apertando levemente a mão dela. — Eu gosto do seu jeito tímido. Eu gosto da sua força. Eu gosto até dessa jaqueta enorme que você usa. E eu adoraria ser o cara que vai te acompanhar naquele baile, se você me der essa chance.
Tatsuyo engoliu em seco, tentando encontrar sua voz.
— Você jura? — ela perguntou, a voz quase um suspiro. — Jura pela sua coleção de revistas que você não está me zoando?
Kuro soltou uma risada genuína, o primeiro sinal de seu eu habitual voltando à superfície.
— Eu juro por tudo o que é mais sagrado, Tats. Eu juro pela minha vida. Eu quero ir ao baile com você. Como meu par. Como minha... — ele hesitou na palavra "namorada", mas o sorriso dela o encorajou — ...como a pessoa mais especial para mim.
Tatsuyo abriu um sorriso radiante, o tipo de sorriso que raramente mostrava, mas que iluminava todo o seu rosto.
— Então... eu adoraria ir com você, Kuro.
Kuro sentiu como se um peso de cem quilos tivesse sido tirado de seus ombros. Ele soltou um suspiro de alívio tão alto que a garçonete no balcão olhou para eles.
— Sério? Você disse sim? — ele perguntou, querendo confirmar.
— Sim, seu bobo. Eu disse sim.
Kuro não resistiu. Ele se levantou da cabine, deu a volta na mesa e, antes que Tatsuyo pudesse reagir, ele a envolveu em um abraço apertado. Ela era menor que ele, e seu rosto ficou enterrado no peito musculoso de Kuro. O cheiro dele — uma mistura de sabonete e adrenalina — a envolveu.
— Você não tem ideia do quanto eu estava com medo de você me dar um soco — confessou ele, rindo contra o topo da cabeça dela.
— Eu ainda posso te dar um soco se você começar com as suas gracinhas no meio da pista de dança — ela brincou, retribuindo o abraço e sentindo-se, pela primeira vez, completamente segura.
Eles ficaram ali por mais algum tempo, conversando sobre o que vestiriam e como chegariam ao baile. A timidez de Tatsuyo ainda estava lá, mas agora havia algo mais: uma expectativa doce.
Enquanto voltavam para casa, pedalando sob o céu que começava a ganhar tons de rosa e violeta, Kuro gritou para o vento, celebrando sua vitória. Tatsuyo apenas ria, deixando seu cabelo preto voar livremente atrás dela. Ela sabia que o baile seria um desafio, que usar um vestido e estar sob os refletores a deixaria nervosa, mas olhar para o lado e ver Kuro Hatake — com seu cabelo branco rebelde e seu sorriso de lado — a fazia sentir que poderia enfrentar qualquer coisa.
Até mesmo a primavera em Hawkins.