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Amor

A Visão de Vanilla e o Rugido do Lobo

O ginásio da Hawkins High School havia sido transformado. Onde normalmente pairava o cheiro de suor e borracha de tênis, agora havia o aroma doce de ponche de frutas e o perfume barato de dezenas de adolescentes ansiosos. Luzes piscantes em tons de azul e prata pendiam do teto, e uma bola de espelhos lançava fragmentos de brilho sobre a pista de dança, onde alguns casais já se moviam ao som de *Careless Whisper*.

Kuro Hatake estava encostado na mesa de lanches, parecendo visivelmente desconfortável em um terno cinza-escuro que, apesar de bem ajustado ao seu corpo musculoso, parecia restringir seus movimentos habituais. Ele ajeitava a gravata a cada trinta segundos, enquanto Dustin, Lucas e Mike o cercavam, rindo abertamente da sua agitação.

— Cara, se você puxar esse colarinho mais uma vez, vai acabar se enforcando antes mesmo da primeira música lenta — zombou Dustin, ostentando seu icônico boné, que ele se recusara a tirar mesmo com o traje formal.

— Ela não vem, Kuro — provocou Lucas, dando um tapinha no ombro do amigo. — A Tatsuyo percebeu que você é um desastre e resolveu ficar em casa assistindo a reprises de *Knight Rider*.

— Calem a boca — resmungou Kuro, embora seus olhos castanhos não saíssem da porta de entrada. — Ela disse que vinha. O irmão dela ia passar na oficina antes de deixá-la aqui.

— Talvez ela tenha se enrolado na trança — brincou Mike, recebendo um olhar mortal de Kuro.

— A Tatsuyo não é de se atrasar — observou On, que estava deslumbrante em um vestido rosa claro, de mãos dadas com Mike. — Ela deve estar nervosa. É a primeira vez dela em um baile.

Kuro suspirou, sentindo o suor frio retornar. Ele tinha passado a semana imaginando como ela estaria. Teria ela feito a trança de sempre? Teria usado uma das jaquetas do irmão por cima de um vestido simples? Ele não se importava, desde que ela aparecesse. Mas a pressão dos amigos e o tempo passando estavam corroendo sua confiança habitual.

De repente, o burburinho perto da entrada do ginásio mudou de tom. As conversas paralelas diminuíram e várias cabeças se viraram na mesma direção. O grupo seguiu o olhar geral, e o copo de ponche na mão de Kuro parou no meio do caminho.

Tatsuyo Nakamura estava parada sob o arco de balões.

Ela parecia uma miragem. O cabelo preto, que ela raramente deixava livre, caía em ondas perfeitas até a cintura, brilhando sob as luzes da festa como seda sob o luar. Ela não usava as calças baggies ou as jaquetas largas do irmão. Em vez disso, vestia um vestido longo na cor branco vanilla, de alcinhas finas que destacavam seus ombros delicados e a pele parda radiante. O decote em V era elegante, e o corte do vestido, embora simples e sem volume na saia, abraçava sua silhueta de uma forma que ninguém no grupo — especialmente Kuro — jamais tinha processado. As costas nuas davam a ela um ar de maturidade que contrastava com a timidez estampada em seu rosto.

— Santo Deus... — murmurou Dustin, as batatas fritas esquecidas na mão. — Aquela é a Tats?

— Uau — disse Max, impressionada. — Ela realmente se superou.

Kuro não conseguia dizer uma palavra. Ele sentiu o coração martelar contra as costelas, um ritmo frenético que o deixou momentaneamente sem ar. Ela estava linda. Mais do que linda, ela parecia... real. Sem as camadas de roupas masculinas para se esconder, Tatsuyo era uma força da natureza.

Tatsuyo, por outro lado, sentia que poderia desmaiar a qualquer momento. Suas mãos, que geralmente controlavam um skate com maestria, tremiam levemente ao segurar uma pequena bolsa de mão. Ela olhou ao redor, sentindo-se exposta, como se cada par de olhos no ginásio estivesse julgando sua pele, seu cabelo, sua herança. Ela deu alguns passos hesitantes para dentro, procurando desesperadamente pelos amigos.

Kuro começou a se mover em direção a ela, mas foi interrompido por um grupo de jogadores de basquete que passou na sua frente, bloqueando sua visão por alguns segundos.

Nesse intervalo, três garotas do último ano, lideradas por Angela — uma loira cujo passatempo favorito era diminuir qualquer um que não se encaixasse em seu padrão de perfeição —, cercaram Tatsuyo perto da fonte de ponche. Elas tinham olhares predatórios e sorrisos de escárnio.

— Ora, ora, o que temos aqui? — começou Angela, girando uma mecha de cabelo no dedo. — A garota do skate resolveu brincar de boneca?

Tatsuyo parou, o corpo ficando rígido.

— Oi, Angela — respondeu ela em voz baixa, tentando passar por elas.

— Espera aí — disse outra garota, bloqueando o caminho. — Esse vestido... é de algum ritual da sua tribo? Ou você só roubou a cortina de alguém? Porque, honestamente, essa cor não combina nada com o seu... tom de pele.

Tatsuyo sentiu o rosto queimar. A insegurança que ela tentara enterrar ao se olhar no espelho naquela noite voltou com força total.

— E o cabelo? — continuou Angela, soltando uma risadinha estridente. — Você acha que soltar esse cabelo selvagem vai fazer o Kuro Hatake olhar para você de verdade? Ele só está com você por pena, querida. Um cara como o Kuro não ficaria com alguém que parece que acabou de sair de uma reserva ou de um ferro-velho.

— Deixem ela em paz — sussurrou Tatsuyo, os olhos começando a marejar.

— Por que? A verdade dói? — Angela se aproximou, a voz venenosa. — Você não pertence a este lugar, Nakamura. Volte para as suas roupas largas e para o seu canto escuro. O Kuro merece alguém que saiba ser uma garota de verdade, não uma... selvagem fantasiada.

Tatsuyo baixou a cabeça, sentindo-se pequena. Ela estava prestes a dar meia-volta e correr para a saída, para a segurança da escuridão de Hawkins, quando uma sombra alta e imponente se projetou sobre o grupo.

— Algum problema aqui, senhoritas?

A voz era profunda, fria e carregada de uma autoridade que fez as três garotas darem um passo para trás. Kuro estava parado logo atrás de Tatsuyo, sua mão pousando firmemente no ombro dela. Ele não estava sorrindo. Seus olhos castanhos, geralmente cheios de malícia e piadas, estavam escuros como uma tempestade.

— Kuro! — Angela mudou instantaneamente o tom, forçando um sorriso doce. — Não, nenhum problema. Estávamos apenas dando algumas dicas de moda para a sua... amiga. Ela parece um pouco perdida, não acha?

Kuro olhou para Angela como se ela fosse um inseto particularmente nojento. Ele deu um passo à frente, colocando-se entre Tatsuyo e as agressoras, protegendo a garota com seu corpo musculoso.

— Dicas de moda? — Kuro soltou uma risada seca, sem humor. — Engraçado. Eu estava olhando para vocês três e pensando como é possível alguém gastar tanto dinheiro em vestidos e ainda assim parecer tão... comum.

O sorriso de Angela vacilou.

— Como é?

— Você ouviu bem — continuou Kuro, dando um passo intimidador na direção dela. Ele era muito mais alto, e sua presença física parecia preencher o espaço. — Vocês estão aqui, tentando diminuir a Tatsuyo, porque sabem que, no momento em que ela entrou por aquela porta, ninguém mais olhou para vocês. Ela é a garota mais bonita deste ginásio, e não é por causa do vestido. É porque ela tem algo que vocês nunca vão ter: classe e alma.

— Kuro, você não pode estar falando sério — protestou a segunda garota. — Ela é só uma...

— Ela é a mulher que está comigo — interrompeu ele, a voz subindo de tom, atraindo a atenção de quem estava por perto. — E se eu ouvir mais uma palavra sobre a aparência dela, sobre a família dela ou sobre a origem dela, eu garanto que o resto do ano letivo de vocês vai ser um inferno. Eu não sou um cavalheiro, Angela. Eu não tenho problema nenhum em ser o "tarado" ou o "briguento" que todo mundo diz que eu sou se for para colocar gente pequena como vocês no lugar devido.

Angela abriu a boca para retrucar, mas o olhar de puro ódio nos olhos de Kuro a fez perder a coragem. Ela bufou, lançando um último olhar de desprezo, e saiu pisando duro, seguida pelas outras duas.

O silêncio caiu sobre o pequeno círculo por um momento. Kuro respirou fundo, tentando controlar a raiva que ainda fervia em seu peito. Ele se virou para Tatsuyo, e sua expressão suavizou instantaneamente.

— Tats... — ele começou, a voz agora baixa e gentil. — Você está bem?

Tatsuyo levantou os olhos. Uma lágrima solitária escorreu pelo seu rosto, mas ela a limpou rapidamente.

— Por que você fez isso? — ela perguntou, a voz trêmula. — Elas têm razão em uma coisa... eu não me encaixo aqui. Eu devia ter vindo de trança e calça jeans.

Kuro soltou um suspiro pesado e segurou o rosto dela com as duas mãos. A pele parda dela parecia brilhar contra o branco das mangas da camisa dele.

— Olhe para mim, Tatsuyo Nakamura — ordenou ele, fazendo-a focar em seus olhos. — Elas não têm razão sobre nada. Elas têm inveja. Inveja de que você é autêntica. Inveja de que você não precisa de uma tonelada de maquiagem para ser deslumbrante. E inveja de que você é a única pessoa que consegue me deixar nervoso desse jeito.

Tatsuyo piscou, surpresa.

— Você está nervoso?

— Eu estou aterrorizado — confessou Kuro, com um sorriso de canto. — Eu passei a noite achando que você ia desistir de mim. E quando você apareceu... eu juro, meu coração parou. Você está perfeita, Tats. Esse vestido, seu cabelo... você é a visão mais linda que eu já tive na vida.

Tatsuyo sentiu o calor subir pelo pescoço, mas desta vez não era de vergonha. Era uma sensação de pertencimento que ela nunca tinha sentido fora do seu pequeno grupo de amigos.

— Você também não está nada mal, Hatake — ela brincou, a voz recuperando a firmeza. — O terno te deixa com cara de alguém que não vai ser expulso da sala de aula hoje.

Kuro riu, a tensão finalmente se dissipando.

— É um sacrifício que eu faço por você. Agora, chega de drama. Eu prometi a mim mesmo que ia dançar com a garota mais incrível de Hawkins, e eu pretendo cumprir essa promessa.

Ele estendeu a mão para ela, um gesto clássico que parecia estranhamente natural vindo dele. Tatsuyo olhou para a mão dele e depois para o grupo de amigos ao longe, que observava tudo com polegares levantados e sorrisos encorajadores.

— Eu não sei dançar música lenta, Kuro — sussurrou ela, aceitando a mão dele.

— Não tem segredo — disse ele, puxando-a para mais perto enquanto se dirigiam à pista. — É só você colocar as mãos nos meus ombros e eu seguro a sua cintura. O resto a gente inventa.

Quando chegaram ao centro do ginásio, a música mudou para *Time After Time*. Kuro envolveu a cintura de Tatsuyo, sentindo o tecido macio do vestido e a pele quente das suas costas nuas. Tatsuyo apoiou as mãos nos ombros largos dele, sentindo os músculos firmes sob o tecido do terno.

Eles começaram a se mover lentamente. O cabelo de Tatsuyo roçava nos braços de Kuro, e o perfume dela — algo que lembrava baunilha e brisa do mar — o deixava tonto.

— Ei — disse ele, inclinando a cabeça para sussurrar no ouvido dela. — Esquece a Angela. Esquece todo mundo. Só tem a gente aqui.

Tatsuyo fechou os olhos, encostando a testa no ombro dele. Pela primeira vez em sua vida, ela não sentiu necessidade de se esconder sob camadas de roupas ou prender seu cabelo para não ser notada. Ela era Tatsuyo, descendente de guerreiros, skatista, amiga e, naquele momento, o mundo inteiro de Kuro Hatake.

— Obrigada por me defender, Kuro — disse ela baixinho.

— Eu sempre vou te defender, Tats — respondeu ele, apertando-a um pouco mais contra si. — Mas a verdade é que você não precisa. Você é muito mais forte do que pensa. Eu só sou o cara sortudo que ganha o direito de ficar do seu lado enquanto você mostra isso para o mundo.

Eles continuaram dançando, dois adolescentes de quinze anos que já tinham visto horrores inimagináveis, mas que, naquela noite, estavam apenas descobrindo a magia de um primeiro amor sob as luzes de um ginásio de escola. O cabelo preto de Tatsuyo fluía livremente, o vestido branco brilhava, e Kuro Hatake, o garoto que todos achavam ser apenas um tarado musculoso, olhava para ela como se tivesse encontrado o tesouro mais precioso do universo.

Naquela noite, Hawkins não era um lugar de monstros ou segredos sombrios. Era apenas o cenário onde Tatsuyo Nakamura finalmente entendeu que sua beleza e sua força não precisavam ser escondidas. Elas eram feitas para brilhar.

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