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Amor

Entre Páginas e Percepções

O zumbido constante das luzes fluorescentes do QG da SWAT geralmente era o único som que preenchia os corredores durante as trocas de turno, mas para Tatsuyo, o silêncio nunca era absoluto. Enquanto caminhava em direção à sala de descanso da equipe 20, ela conseguia ouvir o murmúrio distante de vozes que não pertenciam a ninguém ali. Eram sussurros indistintos, como uma rádio mal sintonizada, lembrando-a de que sua mente era um labirinto complexo.

Ela apertou contra o peito o livro de capa dura — uma edição densa sobre Ética no Jornalismo. Havia prometido voltar, e a lembrança do sorriso atrevido de Kuro Hatake fora a única coisa que a fizera ignorar os comentários ácidos de seu pai naquela manhã. Miller mal a olhara nos olhos antes de sair para o treino de tiro, resmungando sobre como ela "perdia tempo" tentando ser algo que sua condição nunca permitiria.

Ao chegar à porta da sala de convivência, ela hesitou. O som de risadas masculinas e o tilintar de canecas de café vinham de dentro.

— Eu estou falando, Deacon, se eu usar aquele gel de cabelo novo, até os suspeitos vão se render só pelo brilho! — A voz de Kuro ecoou, cheia de autoconfiança.

— Ou eles vão ficar cegos e processar a prefeitura — rebateu a voz de Chris, seguida pelo riso de Tan.

Tatsuyo respirou fundo, ajustou os óculos no rosto e deu dois toques tímidos na porta.

O silêncio caiu sobre a sala por um segundo antes de Kuro se virar na cadeira giratória. Quando seus olhos castanhos encontraram a figura parda e delicada na porta, seu rosto se iluminou de uma forma que fez o estômago de Tatsuyo dar um nó.

— Vejam só! A quarta propriedade do Estado acabou de chegar — anunciou Kuro, levantando-se com uma agilidade felina. Ele estava usando uma regata preta que deixava seus braços musculosos e as veias saltadas em evidência, um visual que gritava perigo e charme. — E ela trouxe o livro.

— Oi, Tatsuyo — disse Hondo, levantando-se com um sorriso acolhedor. — É bom ver você de novo. Fique à vontade.

— Oi... — ela murmurou, entrando na sala. — Eu não queria atrapalhar o descanso de vocês.

— Atrapalhar? Você é a melhor coisa que entrou por essa porta hoje, e olha que o Luca trouxe rosquinhas — Kuro se aproximou, parando a uma distância que permitia que ela sentisse o calor que emanava dele. Ele cheirava a sabão neutro e pólvora. — Então, é esse o monstro que você tem que ler?

Ele apontou para o livro. Tatsuyo assentiu, estendendo o volume para ele.

— É para a aula de legislação. É um pouco... denso.

Kuro pegou o livro, suas mãos grandes e calejadas roçando os dedos dela. O toque enviou uma faísca elétrica pelo braço de Tatsuyo, fazendo-a corar instantaneamente. Ele folheou as páginas com uma careta cômica.

— "A deontologia da informação e o interesse público"... Uau. Eu li três palavras e meu cérebro já pediu demissão. — Ele olhou para ela, fechando o livro, mas mantendo um dedo entre as páginas. — Como você consegue focar nisso com tanto barulho aqui dentro? E não estou falando só da gente.

Tatsuyo desviou o olhar para o chão, os dedos brincando com a alça da bolsa.

— Às vezes é difícil. As vozes... elas tentam ler junto comigo. Mas o jornalismo me ajuda a procurar o que é real. Fatos são âncoras, entende?

Kuro suavizou a expressão. Ele deu um passo para o lado, indicando o sofá de couro no canto da sala.

— Senta aqui. Eu prometi que queria ouvir você ler, não prometi?

— Você estava falando sério? — perguntou ela, surpresa. — Achei que fosse só... uma das suas piadas.

— Eu sou um palhaço, Tatsuyo, mas nunca brinco com promessas feitas a mulheres bonitas — ele piscou, a voz baixando um tom, tornando-se mais rouca. — E, honestamente, eu adoraria ouvir algo que não fosse o Street reclamando que eu comi o iogurte dele.

Street, que estava sentado na mesa ao lado, jogou uma bolinha de papel em Kuro.

— Você comeu mesmo, seu desgraçado!

Kuro ignorou o amigo, guiando Tatsuyo até o sofá. O restante da equipe 20, percebendo o momento, começou a se dispersar discretamente. Hondo fez um sinal para Deacon e Chris, e logo a sala estava mais vazia, embora Luca ainda estivesse na cozinha ao fundo, fingindo estar muito ocupado com a cafeteira.

Tatsuyo sentou-se, sentindo o peso do olhar de Kuro sobre ela. Ele se acomodou no chão, bem na frente dela, cruzando as pernas fortes e apoiando os cotovelos nos joelhos. Ele parecia um predador em repouso, mas seus olhos transmitiam uma curiosidade genuína.

— Pode começar, professora — disse ele, com um sorriso ladino.

Ela abriu o livro em um capítulo marcado. Sua voz começou trêmula, mas à medida que lia sobre a responsabilidade social do jornalista, ela ganhava confiança. A leitura era técnica, mas Tatsuyo lia com uma paixão que transformava as palavras secas em algo melódico.

Enquanto ela lia, Kuro a observava. Ele notou como os cílios dela eram longos e como ela mordia o lábio inferior quando encontrava uma palavra mais complexa. Ele também percebeu quando ela, por um breve momento, parou e olhou para o vazio, piscando rapidamente como se estivesse afastando um mosquito invisível. Ele sabia que eram as alucinações.

Sem interromper a leitura, Kuro estendeu a mão e a colocou suavemente sobre o joelho de Tatsuyo. O contato físico imediato a trouxe de volta. Ela olhou para ele, e ele apenas deu um aceno encorajador com a cabeça.

— Você tem uma voz incrível — sussurrou ele, quando ela terminou um parágrafo. — É como música.

— Obrigada — ela respondeu, fechando o livro levemente. — Meu pai diz que é um desperdício. Que eu nunca vou conseguir trabalhar em uma redação barulhenta ou cobrir uma coletiva de imprensa sem... ter um surto.

Kuro sentiu uma onda de raiva pelo Sargento Miller, mas a mascarou com seu habitual tom sarcástico.

— Seu pai entende de chutar portas e gritar com recrutas. Ele não entende nada de coragem. Coragem não é não ter medo, ou não ter vozes na cabeça. É fazer a droga da matéria mesmo quando o mundo parece estar derretendo. E, pelo que eu vi hoje, você é mais durona que metade do esquadrão 50.

Tatsuyo sorriu, um sorriso que desta vez chegou aos olhos.

— Você realmente sabe como fazer alguém se sentir bem, Kuro.

— É um dos meus muitos talentos — ele se inclinou para frente, diminuindo o espaço entre eles. — Eu também sou ótimo em massagem, culinária tailandesa e em escolher o ângulo certo para selfies sem camisa.

Tatsuyo soltou uma risada clara, o que fez o coração de Kuro dar um solavanco.

— Você é impossível!

— Sou persistente — corrigiu ele. — E falando em persistência... o que você acha de sairmos daqui? Tem uma cafeteria a duas quadras que faz um chocolate quente que, segundo dizem, cura até mau olhado.

A timidez de Tatsuyo voltou.

— Eu não sei... meu pai pode ver. Ele não gosta que eu circule muito por aqui.

— O Miller está ocupado limpando o fuzil dele e reclamando do orçamento do governo — Kuro se levantou e estendeu a mão para ela. — E se ele disser algo, ele vai ter que passar por mim. E eu sou muito mais rápido que ele.

Tatsuyo olhou para a mão estendida. A pele branca de Kuro, os dedos fortes que sabiam puxar um gatilho com precisão, mas que a tocavam com uma delicadeza inesperada. Ela colocou a mão na dele.

— Tudo bem. Mas só se você prometer não fazer piadas sujas enquanto eu estiver bebendo. Eu não quero cuspir chocolate quente em você.

— Ah, boneca, você está pedindo o impossível — ele riu, puxando-a para cima. — Mas vou tentar me comportar. Pelo menos até o primeiro gole.

Eles caminharam em direção à saída, passando pelo corredor principal. Por azar, ou destino, o Sargento Miller estava saindo do vestiário e cruzou o caminho deles. Ele parou, os olhos estreitando-se ao ver a mão de Kuro nas costas de Tatsuyo, guiando-a.

— Hatake! — a voz de Miller era um trovão. — O que pensa que está fazendo com a minha filha?

Tatsuyo encolheu os ombros, o medo começando a nublar sua visão. As vozes em sua mente começaram a sussurrar que ela estava em apuros, que ela era um fardo.

Kuro, no entanto, não recuou. Ele se posicionou ligeiramente à frente de Tatsuyo, protegendo-a com seu corpo maciço.

— Estamos indo tomar um café, Sargento — disse Kuro, o tom de voz calmo, mas com uma borda de aço que raramente mostrava. — A Tatsuyo estudou muito hoje e merece uma pausa.

— Ela não tem que "merecer" nada de você — Miller se aproximou, o rosto vermelho. — Ela tem uma condição. Ela precisa de supervisão, não de um marmanjo da equipe 20 tentando tirar proveito da confusão mental dela.

Tatsuyo sentiu as lágrimas picarem seus olhos. As palavras do pai doíam mais do que qualquer alucinação.

— Eu não estou tirando proveito de nada, Miller — Kuro deu um passo à frente, ficando cara a cara com o sargento. A diferença de altura era pequena, mas a intensidade de Kuro era esmagadora. — Eu vejo a Tatsuyo. A mulher inteligente, futura jornalista, que tem mais fibra do que você jamais terá. Se você não consegue ver além do diagnóstico dela, o problema é da sua visão, não da cabeça dela.

O silêncio no corredor era tenso. Outros policiais pararam para observar. Miller parecia prestes a explodir, mas antes que pudesse dizer algo, a voz de Hicks ecoou do alto da escada.

— Algum problema aqui, Miller?

O Comandante Hicks desceu os degraus, o olhar severo fixo no sargento do esquadrão 50.

— Nenhum, Comandante — rosnou Miller, lançando um último olhar de desprezo para Kuro e a filha antes de se afastar pisando fundo.

Kuro soltou um suspiro longo e se virou para Tatsuyo. Ela estava tremendo. Sem se importar com quem estava olhando, ele a envolveu em um abraço firme. Tatsuyo escondeu o rosto no peito dele, sentindo os batimentos cardíacos constantes de Kuro. Eram reais. Eram ritmados. Eram seguros.

— Ei — sussurrou ele no topo da cabeça dela. — Ele já foi. O rinoceronte voltou para a jaula.

Tatsuyo se afastou um pouco, limpando uma lágrima teimosa.

— Desculpe por isso. Ele... ele me faz sentir como se eu fosse quebrada.

Kuro segurou o rosto dela com as duas mãos, obrigando-a a olhar para ele.

— Escuta aqui. Todo mundo é um pouco quebrado, Tatsuyo. Eu sou um idiota que faz piada de tudo porque vi coisas em missões que não quero lembrar. O Street é um órfão com problemas de abandono. O Hondo carrega o peso do mundo nos ombros. Ter esquizofrenia não te faz menos real ou menos capaz. Só faz de você uma guerreira que luta batalhas que a gente nem consegue ver.

Tatsuyo sentiu um calor reconfortante no peito. Pela primeira vez, alguém não a via como uma paciente ou um problema a ser resolvido.

— Você é muito bom com as palavras quando quer, Hatake — ela disse, com a voz ainda um pouco embargada.

— É o charme do cabelo branco — ele sorriu, voltando ao seu estado normal. — Agora, vamos logo antes que eu morda alguém de verdade. Aquele chocolate quente está me chamando.

Eles saíram do prédio da SWAT sob o sol brilhante da tarde. Enquanto caminhavam, Kuro começou a contar uma história absurda sobre como Luca quase explodiu a cozinha tentando fazer um suflê, fazendo Tatsuyo rir novamente.

No café, eles se sentaram em uma mesa de canto, longe do barulho da rua. Kuro cumpriu a promessa e tentou ser um cavalheiro, embora não tenha resistido a comentar como a espuma do chocolate quente ficava "provocante" nos lábios dela.

— Então — disse Tatsuyo, mexendo sua bebida. — Por que eu? Você poderia ter qualquer garota em Los Angeles. Por que se dar ao trabalho de enfrentar meu pai e lidar com... bem, comigo?

Kuro olhou para ela seriamente por um momento. Ele esticou a mão sobre a mesa e cobriu a mão dela.

— Porque quando você entrou naquela sala pela primeira vez, você não parecia alguém que estava perdida. Você parecia alguém que estava procurando a verdade. E eu gosto de verdades, Tatsuyo. Especialmente as bonitas. Além disso... — ele deu um sorriso malicioso — ...eu sempre tive uma queda por jornalistas. Tem algo sobre ser interrogado por você que me parece muito interessante.

Tatsuyo riu, sentindo-se mais leve do que nunca.

— Você não tem jeito.

— Nenhum — admitiu ele. — Mas eu tenho planos. E o primeiro deles é garantir que você termine esse livro. E o segundo... bom, o segundo envolve você me deixar te levar para jantar em um lugar onde seu pai não tenha jurisdição.

Tatsuyo olhou para Kuro, para o cabelo branco repicado, para os olhos castanhos que pareciam ver através de todas as suas defesas, e sentiu que, talvez, as vozes em sua cabeça estivessem finalmente ficando em silêncio para dar lugar a algo novo.

— Eu gostaria disso — ela disse suavemente.

Kuro sorriu, e naquele momento, no meio do caos de Los Angeles e das complexidades de suas vidas, tudo parecia perfeitamente alinhado. Ele sabia que o caminho não seria fácil — Miller ainda seria um problema, e a saúde de Tatsuyo exigiria paciência e cuidado. Mas enquanto ele olhava para ela, Kuro sabia que não havia outro lugar onde preferiria estar.

— Ótimo — disse Kuro, levantando sua caneca. — Um brinde ao jornalismo, aos chocolates quentes e a mandar os sargentos rabugentos para o inferno.

Tatsuyo brindou com ele, sentindo que, pela primeira vez, ela não estava apenas sobrevivendo ao seu próprio mundo, mas começando a viver em um novo, onde um atirador de elite de cabelos brancos era o seu guia mais real e inesperado.

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