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Amor

Entre o Asfalto e as Estrelas

O vestiário da SWAT estava mergulhado naquela cacofonia pós-turno que Kuro Hatake tanto amava. O som de armários metálicos batendo, o vapor do chuveiro escapando pela porta entreaberta e a conversa fiada da equipe 20 eram o pano de fundo de sua rotina. Mas, naquela noite, Kuro não estava com pressa de ir para o seu apartamento e desabar no sofá. Ele estava diante do espelho, ajeitando o cabelo branco repicado com uma atenção que normalmente reservava apenas para a calibração de sua mira.

— Se você passar mais cinco minutos se encarando, o espelho vai começar a cobrar aluguel, Hatake — zombou Street, jogando uma toalha molhada na direção do amigo.

Kuro desviou com um movimento fluido, sem tirar os olhos do reflexo. Ele vestia uma calça baggie cinza-escura, que dava a ele um ar despojado, e uma camiseta de manga curta preta com uma estampa abstrata em tons de roxo. A peça era justa o suficiente para delinear seus músculos, mas solta o bastante para não parecer que ele estava tentando demais.

— Inveja é uma coisa feia, Street — rebateu Kuro, dando uma piscadela para o próprio reflexo. — Nem todo mundo nasceu com essa genética divina. Hoje eu tenho um compromisso de Estado.

— Compromisso de Estado? — Tan apareceu por trás de um armário, terminando de abotoar sua camisa. — Você vai sair com a filha do Miller, não vai? Cara, você tem desejo de morte ou o quê?

— O Miller é só um detalhe técnico — disse Kuro, pegando sua carteira e as chaves da moto. — A Tatsuyo é o evento principal.

Deacon, que estava sentado em um banco próximo trocando os sapatos, olhou para o mais jovem com uma expressão mais séria, embora paternal.

— Escuta, Kuro. A gente sabe que você é o mestre das piadinhas, mas a Tatsuyo... ela é diferente. Ela é sensível. E com o pai que tem, a última coisa que ela precisa é de alguém que não leve as coisas a sério.

Hondo, que passava em direção à sala de Hicks, parou por um momento e colocou a mão no ombro de Kuro.

— O Deacon tem razão. Seja você mesmo, porque você é um bom sujeito, mas saiba ler o ambiente. Com ela, o tempo é outro. Não tente ser o "Kuro da SWAT" o tempo todo.

Kuro sentiu o peso do conselho. Ele respeitava aqueles homens mais do que qualquer pessoa no mundo. Ele deu um sorriso mais contido, menos teatral.

— Eu sei, pessoal. Relaxem. Eu não vou estragar tudo. Prometo.

— E use proteção! — gritou Luca do fundo do vestiário, fazendo todos rirem, enquanto Kuro saía pelo corredor, balançando a cabeça.

O ponto de encontro era uma pequena praça iluminada por cordões de luzes de LED, cercada por food trucks e livrarias de rua no centro de Los Angeles. Era um lugar vibrante, mas não opressor. Kuro chegou dez minutos adiantado, sentindo uma ansiedade incomum queimar em seu estômago. Ele já tinha saído com dezenas de mulheres, mas nenhuma o fazia verificar se suas mãos estavam suadas a cada trinta segundos.

Então, ele a viu.

Tatsuyo caminhava com passos curtos, olhando ao redor como se estivesse absorvendo cada detalhe da noite. Ela estava linda em sua simplicidade. Vestia uma camiseta branca de manga curta, levemente soltinha, colocada para dentro de uma saia jeans curta de lavagem azul-escuro. Nos pés, um par de tênis brancos casuais. O cabelo preto, ondulado e brilhante, estava solto, moldando seu rosto pardo de uma forma que fazia Kuro perder o fôlego.

Ele caminhou até ela, tentando manter o gingado confiante, mas seu sorriso era genuíno.

— Você está... — Kuro começou, buscando a palavra certa — ...absolutamente perigosa, Tatsuyo. Se eu for preso por distração em via pública, a culpa é toda sua.

Tatsuyo sentiu as bochechas esquentarem. Ela apertou a alça de sua bolsa pequena, olhando para Kuro. O contraste da camiseta preta com o cabelo branco dele sempre a deixava um pouco atordoada.

— Você também não está nada mal, Kuro — disse ela, a voz tímida, mas com um brilho de diversão nos olhos pretos. — Achei que viria com aquela farda cheia de bolsos.

— E perder a chance de mostrar meus braços? — Ele flexionou o bíceps de brincadeira, fazendo-a rir. — Eu tenho uma reputação a zelar.

Eles começaram a caminhar lado a lado. Kuro manteve uma distância respeitosa, mas sempre perto o suficiente para que ela sentisse sua presença. Ele percebeu que, ocasionalmente, Tatsuyo inclinava a cabeça para o lado, como se estivesse ouvindo algo que não vinha do ambiente ao redor. Ele sabia o que era.

— Como está o rádio hoje? — perguntou ele, suavemente.

Tatsuyo parou por um segundo, surpresa com a naturalidade da pergunta. Ninguém nunca perguntava sobre suas alucinações auditivas daquela forma, sem medo ou julgamento.

— Um pouco barulhento — confessou ela, olhando para um food truck de tacos. — Tem um homem sussurrando sobre o preço da gasolina e uma música que eu não conheço tocando ao fundo. Mas a sua voz é mais alta.

Kuro sentiu um calor no peito que nenhuma piada poderia descrever.

— Então eu vou continuar falando — declarou ele. — Vou falar tanto que aquele cara da gasolina vai pedir demissão da sua cabeça.

Eles pararam em um carrinho de sorvete artesanal. Kuro insistiu em pagar, e eles escolheram sabores exóticos. Sentaram-se em um banco de madeira sob uma grande árvore cujas folhas filtravam a luz da lua.

— Então, futura Pulitzer — começou Kuro, após uma colherada de sorvete de pistache —, qual é a grande matéria que você quer escrever? O que faz os olhos da Tatsuyo brilharem além de me ver?

Tatsuyo riu, sentindo-se mais relaxada do que imaginava ser possível em um primeiro encontro.

— Eu quero escrever sobre as pessoas que ninguém vê — disse ela, a voz ganhando firmeza. — Los Angeles é cheia de fantasmas. Pessoas nas esquinas, veteranos esquecidos, imigrantes que constroem a cidade, mas não podem viver nela. Eu sinto que, por causa da minha esquizofrenia, eu vejo coisas que os outros ignoram. Quero transformar isso em algo bom. Em algo real para os outros.

Kuro a observava com uma admiração profunda.

— Você é incrível, sabe disso? — disse ele, sem o tom de flerte, apenas com sinceridade. — As pessoas passam a vida tentando esconder suas fraquezas. Você quer usar as suas para dar voz aos outros.

Tatsuyo baixou os olhos, mexendo no sorvete que começava a derreter.

— Meu pai acha que eu só vou conseguir escrever contos de fadas ou delírios. Ele diz que o jornalismo exige um "pé no chão" que eu não tenho.

— O Miller tem o pé no chão porque a cabeça dele é pesada demais com preconceito — rebateu Kuro. Ele se inclinou um pouco mais para perto, o cheiro de seu perfume amadeirado envolvendo Tatsuyo. — Você tem algo que ele nunca vai ter: empatia. E no jornalismo, ou na SWAT, isso é o que separa os bons dos medíocres.

Tatsuyo olhou para ele, e por um momento, o mundo ao redor pareceu silenciar. Não havia sussurros, não havia música fantasmagórica. Havia apenas Kuro.

— Por que você é tão legal comigo? — perguntou ela, quase em um sussurro. — Você é o cara popular da equipe 20, o Hatake que todo mundo conhece. Você poderia estar em um encontro muito menos... complicado.

Kuro soltou um riso curto e balançou a cabeça.

— Você acha que eu sou simples, Tatsuyo? Eu carrego uma arma e entro em prédios pegando fogo. Eu vejo o pior da humanidade quase todo plantão. O que eu tenho com você não é complicado. É refrescante. É a primeira vez em muito tempo que eu não sinto que preciso ser o "Kuro engraçadinho" para ser aceito. Eu só quero estar aqui. Com você.

Ele estendeu a mão e, com muita cautela, tocou a ponta dos dedos de Tatsuyo que estavam apoiados no banco. Ela não recuou. Pelo contrário, ela virou a mão e entrelaçou seus dedos nos dele. A mão de Kuro era quente, grande e áspera, um contraste perfeito com a pele macia e parda dela.

Eles ficaram ali por um longo tempo, apenas aproveitando a companhia um do outro. Kuro contava histórias engraçadas sobre os erros de Street em treinamento e sobre como Luca tratava o blindado Black Betty como se fosse uma namorada ciumenta. Tatsuyo, por sua vez, contou sobre os livros que amava e sobre como, às vezes, as cores das árvores pareciam mais vibrantes para ela do que para as outras pessoas.

O encontro seguiu um ritmo calmo, sem pressa. Kuro, apesar de seu lado "tarado" e suas piadas de duplo sentido habituais, conteve-se. Ele percebia quando Tatsuyo ficava sobrecarregada com muitos estímulos e mudava o assunto para algo mais tranquilo. Ele estava aprendendo o tempo dela, e descobriu que gostava daquela lentidão.

Quando a noite começou a esfriar e o movimento na praça diminuiu, Kuro se levantou e ofereceu a mão para ajudá-la.

— Eu adoraria dizer que a noite acaba com a gente dançando em um clube badalado, mas meu instinto de proteção diz que você já teve emoção suficiente por hoje — disse ele, sorrindo.

— Eu preferi assim — admitiu Tatsuyo. — Foi... perfeito.

Eles caminharam de volta para onde o carro de Tatsuyo estava estacionado. O silêncio entre eles era confortável, preenchido apenas pelo som de seus passos no asfalto.

Ao chegarem ao carro, Tatsuyo se virou para ele. Kuro estava parado à sua frente, a luz de um poste criando sombras dramáticas em seu físico musculoso. Ele parecia um guardião, mas seus olhos castanhos eram suaves.

— Então... — começou Tatsuyo, mordendo o lábio.

Kuro deu um passo à frente, e por um segundo, Tatsuyo achou que ele a beijaria. Ela sentiu o coração disparar, uma mistura de antecipação e medo. Mas Kuro apenas se inclinou e depositou um beijo casto e demorado em sua testa.

O gesto foi tão carregado de respeito e carinho que Tatsuyo sentiu as pernas fraquejarem por um motivo completamente diferente.

— No seu tempo, Tatsuyo — sussurrou ele, ainda perto do rosto dela. — Eu não vou a lugar nenhum.

Ela sorriu, sentindo-se protegida de uma forma que seu pai nunca a fizera sentir.

— Obrigada, Kuro. Por tudo.

— Me avise quando chegar em casa? — pediu ele. — Senão eu vou ter que mobilizar a equipe 20 para uma missão de busca e salvamento, e o Hondo vai me fazer limpar o quartel com uma escova de dentes.

Tatsuyo riu e entrou no carro. Ela acenou enquanto dava a partida, vendo pelo retrovisor a figura de Kuro parada na calçada, observando-a até que ela dobrasse a esquina.

Kuro caminhou de volta para sua moto, sentindo um sorriso bobo estampado no rosto. Ele pegou o celular e viu uma mensagem no grupo da equipe.

"Street: E aí, Hatake? Já foi expulso do encontro ou o Miller te caçou com um drone?"

Kuro digitou rapidamente: "Vão dormir, seus manés. Foi a melhor noite da minha vida."

Ele guardou o celular, subiu na moto e acelerou pelas ruas de Los Angeles. O vento batia em seu rosto, e ele não conseguia parar de pensar no toque da mão de Tatsuyo. Ele sabia que o mundo dela era complexo, cheio de sombras e sussurros que ele talvez nunca compreendesse totalmente, mas ele estava decidido a ser a luz e o som que valeriam a pena para ela.

Enquanto isso, em seu quarto, Tatsuyo se deitou e olhou para o teto. As vozes ainda estavam lá, mas estavam baixas, quase inaudíveis. A voz que ela mais lembrava era a de Kuro dizendo que ela era uma guerreira.

Ela pegou o celular e enviou a mensagem prometida: "Cheguei bem. E Kuro? Eu já estou ansiosa pela próxima leitura."

Do outro lado da cidade, Kuro viu a notificação brilhar em seu painel e sorriu. A caçada tinha acabado, mas a jornada estava apenas começando. E para Kuro Hatake, Tatsuyo era a única missão que ele nunca aceitaria falhar.

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