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Amor

Sinfonia de um Futuro Real

O sol da manhã de Los Angeles entrava pelas persianas do apartamento no centro da cidade, criando listras de luz dourada sobre o piso de madeira clara. O ambiente era uma mistura perfeita de dois mundos que, contra todas as probabilidades, haviam se fundido em um só. De um lado, uma estante transbordando de livros de jornalismo, ética e sociologia; do outro, equipamentos táticos organizados, pesos de academia e alguns discos de vinil de rock clássico.

Kuro Hatake estava na cozinha, vestindo apenas uma calça de moletom cinza que ficava baixa em seus quadris, revelando a linha do tanquinho que ele fazia questão de manter com rigor militar. Seu cabelo branco, agora um pouco mais comprido no topo, estava bagunçado pelo sono. Ele mexia uma espátula em uma frigideira com ovos e bacon, mas sua mente não estava na comida.

— Kuro? Você viu meu gravador? — A voz de Tatsuyo veio do corredor, acompanhada pelo som de passos rápidos.

Ela entrou na cozinha vestindo uma camisa social de Kuro que ficava enorme nela, funcionando como um vestido improvisado. A pele parda brilhava sob a luz matinal, e os cabelos pretos ondulados estavam presos em um coque apressado. Já fazia um ano e quatro meses que dividiam aquele espaço, e para Kuro, ver Tatsuyo caminhar pelo apartamento ainda era o ponto alto de todos os seus dias.

— Está em cima do toca-discos, boneca — respondeu Kuro, virando-se com um sorriso ladino. — Você o deixou lá ontem à noite enquanto revisava a entrevista com o vereador.

Tatsuyo suspirou de alívio, pegando o objeto e aproximando-se de Kuro. Ela o abraçou pela cintura, encostando o rosto em suas costas nuas e quentes.

— Minha cabeça está um pouco barulhenta hoje — sussurrou ela. — Muitas vozes falando sobre prazos de entrega e pautas atrasadas.

Kuro desligou o fogo imediatamente. Ele se virou nos braços dela, envolvendo-a em um abraço protetor. Ele sabia exatamente o que fazer. Colocou as mãos grandes e calejadas sobre as orelhas de Tatsuyo, abafando o som externo, e encostou a testa na dela.

— Foca na minha respiração, Tatsuyo — disse ele, a voz baixa e vibrante. — Esquece os prazos. Esquece o barulho. Eu estou aqui. Eu sou real. Sente o meu coração?

Tatsuyo fechou os olhos, respirando no ritmo dele. O pulsar constante do coração de Kuro era sua âncora. Aos poucos, o caos em sua mente começou a recuar, dando lugar à paz que só ele conseguia proporcionar.

— Melhor? — perguntou ele, dando um beijo suave na ponta do nariz dela.

— Muito melhor — respondeu ela, sorrindo. — O que eu faria sem o meu sargento particular?

— Provavelmente estaria perdida em algum arquivo da prefeitura — brincou ele, dando um tapa leve no quadril dela. — Agora vá se trocar. Temos um dia longo. Eu tenho plantão e você tem aquela matéria importante. Mas me encontre no Observatório Griffith às sete da noite. Sem atrasos.

— No Observatório? — Tatsuyo inclinou a cabeça, curiosa. — Por que lá?

— Porque eu quero ver as estrelas e fingir que sou um intelectual — mentiu ele descaradamente, piscando. — E porque eu sinto falta de te ver sob a luz da lua.

O dia no quartel da SWAT foi, para Kuro, uma tortura de ansiedade mascarada por piadas. Ele passou o turno de treinamento com a Equipe 20 sendo alvo das brincadeiras de Street e Tan.

— Hatake, você está checando o bolso da calça a cada cinco minutos — observou Street, enquanto limpavam os fuzis. — Ou você está com um problema de pele muito específico ou tem algo valioso aí dentro.

— Deixa o cara, Street — disse Deacon, passando por eles com um sorriso cúmplice. — Algumas missões exigem mais coragem do que invadir um armazém de cartel.

Hondo, que observava de longe, aproximou-se e colocou a mão no ombro de Kuro.

— Tudo pronto para hoje à noite?

— Pronto e aterrorizado, Hondo — admitiu Kuro, em um raro momento de seriedade. — O Miller ainda não fala comigo, mas a Tatsuyo... ela é a minha vida, cara.

— O Miller é um problema dele, não seu — afirmou Hondo. — Você fez por aquela garota o que ninguém mais fez. Vá lá e garanta o futuro de vocês.

Às sete da noite, o Observatório Griffith estava envolto em uma névoa suave que subia das colinas de Hollywood. Kuro estava lá, vestindo uma camisa polo azul-marinho que realçava seus olhos castanhos e o contraste de seu cabelo branco. Ele estava encostado no parapeito, observando as luzes da cidade lá embaixo, sentindo o peso da pequena caixa de veludo em seu bolso.

Tatsuyo apareceu pouco depois. Ela usava um vestido floral leve e um cardigã, parecendo uma visão saída de um dos seus livros de poesia. Quando o viu, ela caminhou em sua direção com uma expressão de estranhamento.

— O Observatório está quase vazio hoje, Kuro. Como você conseguiu isso? — perguntou ela, aproximando-se.

— Eu tenho meus contatos na polícia, lembra? — Ele a puxou para perto, envolvendo-a com o braço. — E talvez o Luca tenha ajudado a "convencer" o segurança a nos dar dez minutos de paz.

Eles ficaram em silêncio por um momento, observando a imensidão de Los Angeles.

— Sabe — começou Tatsuyo, a voz suave —, quando eu te conheci naquele corredor, eu achei que você era só mais um cara metido a engraçado da SWAT. Eu tinha medo de que você fugisse assim que percebesse que a minha mente não é um lugar calmo.

— E agora? — perguntou Kuro, virando-a para que ficasse de frente para ele.

— Agora eu sei que você é o único que não tem medo do escuro comigo — disse ela, tocando o rosto dele. — Você transformou o meu medo em algo que eu posso carregar.

Kuro sentiu seu coração martelar contra as costelas. Ele respirou fundo, a adrenalina correndo por suas veias como se estivesse prestes a saltar de um helicóptero.

— Tatsuyo, você sabe que eu não sou muito bom com discursos sérios. Eu prefiro piadas e... bem, você sabe do que eu gosto — ele sorriu, mas seus olhos estavam úmidos. — Mas este último ano morando com você foi a missão mais importante da minha vida. Eu aprendi que o silêncio pode ser bom se for compartilhado com você. Eu aprendi que o jornalismo é a coisa mais nobre do mundo porque você o torna nobre.

Ele se afastou um passo e, para a surpresa de Tatsuyo, ajoelhou-se sobre o cimento frio do observatório.

— Kuro... — ela levou as mãos à boca, os olhos arregalados.

— Tatsuyo Miller — começou ele, tirando a caixinha do bolso e abrindo-a para revelar um anel de ouro branco com uma safira azul profunda, da cor do céu noturno. — Eu quero ser a sua âncora para sempre. Eu quero ser o cara que afasta o barulho da sua cabeça e que te faz rir quando o mundo parece pesado demais. Eu quero acordar com você todos os dias e te ver escrever a história da nossa vida. Você aceita casar com esse atirador de elite tarado e teimoso?

O silêncio que se seguiu pareceu durar uma eternidade. Tatsuyo sentiu as lágrimas transbordarem. Naquele momento, não havia vozes, não havia esquizofrenia, não havia Miller. Havia apenas o homem de cabelo branco que a amava incondicionalmente.

— Sim! — exclamou ela, a voz saindo em um soluço de alegria. — Mil vezes sim, Kuro!

Ele se levantou rapidamente, deslizando o anel no dedo dela e levantando-a do chão em um abraço giratório. O riso de Kuro ecoou pelo terraço do observatório, um som de puro triunfo.

— Eu te amo, boneca — murmurou ele, antes de selar o compromisso com um beijo apaixonado, um beijo que prometia proteção, lealdade e um futuro onde ela nunca mais estaria sozinha.

Longe dali, escondidos atrás de uma das colunas do prédio, Street, Tan e Luca observavam a cena.

— Ele conseguiu — sussurrou Street, limpando uma lágrima imaginária. — O Hatake finalmente foi fisgado.

— Ele merece — disse Luca, sorrindo. — E ela também.

Kuro e Tatsuyo permaneceram abraçados, observando as estrelas. Para Tatsuyo, a realidade nunca tinha sido tão nítida. Para Kuro, a missão estava apenas começando, e ele nunca esteve tão pronto para o combate.

— Sabe o que isso significa, não é? — perguntou Kuro, com o tom brincalhão voltando.

— O quê? — perguntou ela, encostando a cabeça no ombro dele.

— Que agora eu tenho o direito legal de te irritar pelo resto da vida. E que o seu pai vai ter que me chamar de "filho" no jantar de Natal.

Tatsuyo riu, sentindo o peso reconfortante do anel em seu dedo.

— Boa sorte com isso, Kuro. Mas acho que, se você sobreviveu a este ano, você sobrevive a qualquer coisa.

— Com você ao meu lado? — Kuro a beijou na testa. — Eu sou invencível.

E sob o céu de Los Angeles, a sinfonia de suas vidas encontrou a nota perfeita, uma melodia que falava de superação, de amor e de uma realidade que, embora às vezes barulhenta, era a coisa mais linda que ambos já haviam conhecido.

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