Amor
O Peso da Verdade e o Fio da Navalha
O ar no ginásio secundário do QG da SWAT estava saturado com o cheiro de suor, borracha e o eco rítmico de pancadas surdas. Eram seis da manhã de uma terça-feira, um horário em que a maioria dos oficiais ainda estava na segunda caneca de café, mas o Sargento Miller, do Esquadrão 50, já estava descarregando sua frustração em um saco de pancadas pesado. Seus golpes eram curtos, potentes e carregados de uma raiva que parecia não ter fim.
Kuro Hatake entrou no recinto com sua habitual descontração, carregando uma bolsa de equipamentos e uma garrafa de isotônico. Ele esperava encontrar o ginásio vazio para o seu treino individual antes do turno da Equipe 20 começar, mas a presença de Miller fez seus instintos de combate entrarem em alerta máximo. Kuro sabia que o clima entre eles, que já era tenso desde o primeiro dia em que defendeu Tatsuyo no corredor, tinha atingido um ponto de ebulição.
— Hatake — rosnou Miller, sem parar de socar o couro desgastado. — Estava esperando por você.
Kuro largou a bolsa no banco de madeira e cruzou os braços, deixando os músculos do peito e do abdômen marcarem sob a regata tática. Ele não recuou.
— Se queria um parceiro de treino, Sargento, era só pedir. Mas acho que o senhor prefere bater em coisas que não revidam — respondeu Kuro, o tom de voz equilibrando-se entre a audácia e o sarcasmo.
Miller parou o saco de pancadas com as mãos enfaixadas e virou-se. Seus olhos estavam injetados, e a expressão era a de um homem que tinha acabado de descobrir uma traição imperdoável.
— Eu sei o que você está fazendo. Eu sei que você continua atrás da minha filha, mesmo depois de eu ter deixado claro que não quero um palhaço como você perto dela.
Kuro deu um passo à frente, diminuindo a distância.
— Eu não estou "atrás" de ninguém, Miller. Eu e a Tatsuyo estamos saindo. É uma escolha dela. Ela é uma mulher adulta, inteligente e capaz de decidir quem quer na vida dela, por mais que o senhor tente convencê-la do contrário.
Miller soltou uma risada seca, desprovida de qualquer humor.
— Inteligente? Capaz? Você não tem ideia do que é lidar com a esquizofrenia dela, Hatake. Você acha que é tudo flores e sorrisos tímidos. Ela é quebrada. Ela precisa de alguém que a mantenha na linha, não de um moleque que a incentive a viver fantasias de uma vida normal que ela nunca vai ter. Você é um perigo para a estabilidade dela.
Kuro sentiu a raiva borbulhar, mas manteve a voz controlada, fria como o aço de uma lâmina.
— O único perigo aqui é o senhor. O senhor a trata como um fardo, como um erro de contabilidade. O senhor reclama da faculdade dela, reclama da mente dela... O senhor não a vê. Mas eu vejo. Eu vejo a força dela toda vez que ela acorda e enfrenta um mundo que o senhor torna dez vezes mais difícil. E quer saber? Ela é muito mais estável do que o senhor pensa.
Miller avançou, parando a centímetros do rosto de Kuro. O sargento era mais velho e mais robusto, mas Kuro tinha a agilidade e a frieza da juventude treinada para o caos.
— Eu ouvi rumores, Hatake. Ouvi que vocês foram vistos saindo tarde do seu apartamento na sexta-feira. Eu avisei para não tocar nela. Eu avisei para não se aproveitar da vulnerabilidade da minha filha.
Kuro soltou um suspiro, um sorriso ladino e perigoso surgindo em seus lábios. Ele estava cansado de medir palavras com um homem que não respeitava a própria carne e sangue.
— Vulnerabilidade? — Kuro inclinou a cabeça. — Engraçado o senhor usar essa palavra. Na sexta-feira, não havia nada de vulnerável nela. Havia apenas uma mulher que sabia exatamente o que queria.
Miller estreitou os olhos, os punhos cerrados ao lado do corpo.
— O que você está dizendo, seu desgraçado?
— Estou dizendo que o senhor está atrasado na sua proteção possessiva — afirmou Kuro, a voz ecoando no ginásio vazio. — Nós transamos, Miller. Na sexta-feira. E foi a coisa mais real e honesta que já aconteceu na vida de nós dois.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, interrompido apenas pelo som da ventilação do prédio. Miller empalideceu por um segundo antes de o sangue subir ao rosto em uma onda de fúria cega. Ele avançou contra Kuro, agarrando-o pelo colarinho da regata e empurrando-o contra a parede de concreto.
— Você o quê?! — gritou Miller, a voz falhando pela raiva. — Você tocou nela? Você desonrou a minha filha sabendo da condição dela? Eu vou acabar com a sua carreira, Hatake! Eu vou te enterrar!
Kuro não tentou se soltar imediatamente. Ele olhou nos olhos de Miller com uma calma que beirava a insolência.
— Desonrar? O senhor vive no século dezenove? — Kuro segurou os pulsos de Miller e, com um movimento técnico de alavanca, soltou-se do aperto, empurrando o sargento para trás. — A Tatsuyo não é uma propriedade que o senhor guarda em um cofre. Ela é uma pessoa. E, pela primeira vez, ela se sentiu amada e desejada pelo que é, e não apesar do que tem.
— Você não a ama! — rebateu Miller, recuperando o equilíbrio. — Você só quer o troféu. A garota tímida que você pode manipular.
— O senhor realmente não a conhece, não é? — Kuro deu um passo à frente, sua postura agora puramente ofensiva. — Se o senhor a conhecesse, saberia que ela é quem me guia. Saberia que, na sexta-feira, ela foi a pessoa mais corajosa naquela sala. Ela me contou sobre os medos dela, sobre o silêncio que ela busca e que só encontra comigo. E eu dei a ela o que o senhor nunca deu: respeito.
Miller avançou novamente, desferindo um soco direto. Kuro esquivou-se com a precisão de quem vive em combate, o punho de Miller passando a milímetros de seu ouvido.
— Pare com isso, Miller! — ordenou Kuro. — Eu não quero lutar com o pai da mulher que eu amo, mas eu vou me defender.
— Você não vai chegar perto dela de novo — rosnou Miller, preparando-se para outro ataque. — Eu vou interná-la se for preciso, vou tirá-la daquela faculdade, mas você não vai destruir o que resta da sanidade dela com essa sua luxúria.
Ao ouvir a ameaça de internar Tatsuyo e tirar seu sonho da faculdade, algo em Kuro estalou. A brincadeira acabou. O sarcasmo sumiu. Restou apenas o operador da SWAT, o homem que protegia os inocentes a qualquer custo.
Kuro avançou com uma velocidade que Miller não conseguiu acompanhar. Ele bloqueou o braço do sargento e o prensou contra o saco de pancadas, usando o próprio peso para imobilizá-lo.
— Escute bem, Sargento — sibilou Kuro, o rosto a centímetros do de Miller. — Se o senhor tentar prejudicar a carreira dela, ou se o senhor ousar ameaçá-la com internação só para me atingir, eu juro por tudo o que é sagrado que eu destruo o senhor. Eu tenho o apoio da Equipe 20. O Hondo sabe, o Hicks sabe da nossa relação e eles nos apoiam porque veem o bem que fazemos um ao outro. O senhor está sozinho nessa cruzada de ódio.
Miller tentou se debater, mas Kuro era mais forte e estava movido por um propósito muito mais nobre.
— A Tatsuyo não é "maluca", Miller. Ela tem uma condição médica. E ela está lidando com isso melhor do que o senhor lida com o próprio ego — continuou Kuro. — Naquela noite, ela foi perfeitamente lúcida. Ela foi feliz. E se o senhor tentar tirar essa felicidade dela, o senhor não vai estar lidando apenas com o "engraçadinho" do esquadrão. Vai estar lidando com o homem que vai protegê-la até do próprio pai.
Kuro soltou Miller brusca e deliberadamente. O sargento cambaleou, respirando pesadamente, a raiva ainda presente, mas agora misturada com uma percepção amarga de derrota. Ele olhou para Kuro e viu algo que não esperava: não era luxúria, não era uma conquista passageira. Havia uma devoção feroz nos olhos castanhos do rapaz de cabelo branco.
— Você acha que pode salvá-la? — perguntou Miller, a voz agora rouca e cansada.
— Eu não preciso salvá-la — respondeu Kuro, pegando sua bolsa. — Eu só preciso estar ao lado dela enquanto ela salva a si mesma. Coisa que o senhor deveria ter feito há vinte anos.
Kuro caminhou em direção à porta, mas parou antes de sair.
— Hoje é terça, Miller. Nós estamos saindo há meses, e não vamos parar. Se o senhor quiser fazer parte da vida dela, aprenda a respeitá-la. Se não, fique fora do nosso caminho. Porque a próxima vez que o senhor levantar a voz para ela, ou para mim, não vai ser em um ginásio vazio. Vai ser na frente de todo o departamento.
Kuro saiu, deixando Miller sozinho com o som de sua própria respiração pesada e o saco de pancadas balançando lentamente.
Ao chegar ao vestiário da Equipe 20, Kuro encontrou Street e Tan conversando perto dos armários. Ele estava visivelmente alterado, o peito ainda subindo e descendo com adrenalina.
— Cara, você parece que acabou de sair de um tiroteio — comentou Street, observando a expressão séria de Kuro. — Aconteceu alguma coisa?
Kuro abriu seu armário e começou a trocar de roupa para o plantão.
— Miller — foi tudo o que ele disse.
Tan parou de arrumar seu cinturão tático.
— Ele descobriu?
— Eu contei a ele — disse Kuro, vestindo a camiseta tática. — Contei que estamos juntos. Contei tudo.
— Você contou "tudo" tudo? — perguntou Street, arregalando os olhos. — Hatake, você tem um desejo de morte suicida! O cara é um sargento do 50!
— Ele precisava ouvir a verdade — Kuro fechou o armário com força. — Ele estava ameaçando a faculdade dela, ameaçando interná-la. Eu não podia ficar quieto. Ele precisava saber que a Tatsuyo não é uma criança indefesa e que ela tem alguém que vai lutar por ela.
Hondo entrou no vestiário naquele momento, sentindo a tensão no ar. Ele olhou para Kuro, notando a marca vermelha no pescoço do rapaz, onde Miller o havia prensado contra a parede.
— Hatake, na minha sala. Agora — ordenou Hondo, o tom calmo, mas autoritário.
Kuro seguiu o líder da equipe. Dentro da sala, Hondo fechou a porta e cruzou os braços.
— Eu vi o Miller saindo do ginásio parecendo que ia explodir. O que aconteceu?
Kuro explicou a situação, sem omitir detalhes. Ele contou sobre o confronto, sobre a revelação da intimidade deles e sobre as ameaças de Miller contra Tatsuyo. Hondo ouviu tudo em silêncio, sua expressão permanecendo ilegível.
— Você sabe que isso complica as coisas, Kuro — disse Hondo, finalmente. — Miller pode abrir uma queixa formal, alegar conduta imprópria, embora vocês sejam de esquadrões diferentes e ela seja civil.
— Eu sei, Hondo. Mas eu não podia deixar ele continuar diminuindo ela. Ele a trata como se ela fosse um objeto quebrado. Ela é a mulher mais incrível que eu já conheci, e eu não vou deixar ninguém, nem o pai dela, tirar a confiança que ela está construindo.
Hondo suspirou e descruzou os braços, aproximando-se de Kuro.
— Eu respeito a sua lealdade. E a Tatsuyo é uma ótima moça, ela merece ser feliz. Mas você precisa ser inteligente. Se o Miller vier para cima de você profissionalmente, a equipe 20 vai estar atrás de você. Mas no que diz respeito à Tatsuyo... certifique-se de que ela está bem com isso. O Miller é o pai dela, e por mais que ele seja um idiota, isso dói.
— Eu vou falar com ela assim que o turno acabar — prometeu Kuro.
O restante do dia foi tenso. Kuro manteve o foco nas missões, mas sua mente sempre voltava para Tatsuyo. Ele temia que Miller tivesse ido falar com ela, temia que o sargento tivesse descarregado sua fúria na filha.
Quando o turno finalmente terminou, Kuro não perdeu tempo. Ele pegou sua moto e voou para a universidade. Ele encontrou Tatsuyo saindo da biblioteca, carregando uma pilha de livros de jornalismo. Ela parecia cansada, mas quando viu Kuro, seu rosto se iluminou com aquele sorriso que fazia todo o caos da vida dele valer a pena.
— Kuro! O que você está fazendo aqui? Achei que teria um turno dobrado hoje.
Ele desceu da moto e caminhou até ela, pegando os livros de suas mãos e colocando-os no banco da moto. Ele a envolveu em um abraço apertado, aspirando o perfume de baunilha que o acalmava.
— Eu precisava te ver — disse ele, a voz suave. — Eu tive um encontro com o seu pai hoje de manhã.
Tatsuyo se afastou um pouco, o medo cruzando seus olhos negros.
— O quê? Ele te machucou? Ele disse alguma coisa sobre... sobre nós?
Kuro segurou o rosto dela com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas.
— Ele tentou me intimidar, boneca. Mas eu não deixei. Eu contei a ele, Tatsuyo. Contei que estamos saindo a sério. E contei que... bem, contei sobre a nossa sexta-feira.
Tatsuyo arregalou os olhos, a respiração ficando curta.
— Você contou? Kuro... ele deve ter ficado furioso. Ele é tão conservador, tão... ele acha que eu sou incapaz de ter um relacionamento assim.
— Eu sei. E foi por isso que eu contei. Eu queria que ele soubesse que ele não tem mais poder sobre as suas escolhas. Eu queria que ele soubesse que você é uma mulher livre e que eu te amo exatamente como você é.
Tatsuyo sentiu as lágrimas começarem a cair. As vozes em sua cabeça tentaram sussurrar que isso era um desastre, que o pai dela nunca a perdoaria, mas a presença física de Kuro era como um escudo.
— Ele ameaçou me tirar da faculdade, não foi? — perguntou ela, a voz trêmula. — Ele sempre usa isso contra mim.
— Ele tentou. Mas eu deixei claro que, se ele fizer isso, ele vai ter que lidar comigo e com o Hicks. Ele não vai te tocar, Tatsuyo. Eu prometo.
Ela o abraçou com força, escondendo o rosto em seu peito.
— Obrigada por lutar por mim, Kuro. Às vezes eu sinto que sou a única lutando contra o que está na minha cabeça... ter você lutando o mundo lá fora por mim é... é tudo o que eu sempre quis.
Kuro a apertou mais forte, beijando o topo de sua cabeça.
— Você nunca mais vai lutar sozinha, Tatsuyo. Nem contra as vozes, nem contra o seu pai, nem contra ninguém. Eu sou seu parceiro, dentro e fora do campo.
Eles ficaram ali, no estacionamento da universidade, enquanto o sol se punha sobre Los Angeles. A batalha com Miller estava longe de terminar, e os desafios da condição de Tatsuyo continuariam a existir, mas algo tinha mudado. O segredo havia acabado. O medo, embora ainda presente, não era mais o mestre daquela relação.
Kuro Hatake, o atirador de elite de cabelo branco e piadas infames, tinha encontrado algo pelo qual valia a pena ser sério. E Tatsuyo, a futura jornalista que via o mundo em camadas de realidade e delírio, tinha encontrado a única verdade que importava: ela era amada, ela era livre e, pela primeira vez, o futuro parecia uma página em branco que ela mesma poderia escrever.
— Vamos para casa? — perguntou Kuro, afastando-se para olhar nos olhos dela.
— Vamos — respondeu ela, limpando as lágrimas e sorrindo. — Mas você prometeu me ajudar com a matéria sobre ética hoje.
Kuro riu, recuperando seu brilho atrevido.
— Ética? Boneca, depois de enfrentar o seu pai e sair vivo, eu acho que mereço uma aula prática de... outras coisas primeiro.
Tatsuyo deu um tapa leve no braço dele, rindo.
— Você não tem jeito, Kuro Hatake.
— Nenhum — admitiu ele, subindo na moto e estendendo a mão para ela. — E é por isso que você me ama.
Eles partiram, deixando para trás o peso do confronto e abraçando a incerteza do amanhã com a única certeza que possuíam: eles tinham um ao outro, e isso era mais do que suficiente para enfrentar qualquer tempestade que Miller ou a vida resolvessem enviar.