Amor
Entre o Ruído e o Silêncio
O corredor de serviço do L’Émeraude era um labirinto de concreto frio e luzes fluorescentes que piscavam ritmicamente, um contraste brutal com o luxo dourado dos salões de jogos. Kuro liderava o grupo, mantendo uma das mãos no coldre oculto e a outra levemente posicionada nas costas de Tatsuyo, guiando-a. Ela ainda usava a jaqueta dele, que parecia uma armadura pesada sobre seu corpo frágil.
Zoe vinha logo atrás, checando os cantos com a precisão de uma predadora, enquanto Charles fechava a retaguarda, mantendo o rádio desligado para evitar qualquer ruído que pudesse alertar os seguranças da "Presa de Ferro".
— Estamos quase na saída sul — sussurrou Charles, a voz ecoando levemente nas paredes nuas. — Se passarmos pela lavanderia, saímos direto no beco onde o SUV está estacionado. Ninguém vai notar que ela saiu conosco se formos rápidos.
Kuro sentiu Tatsuyo tensionar sob seu toque. Ela estava andando de um jeito estranho, os passos curtos e incertos, como se estivesse atravessando um campo minado invisível.
— Tatsuyo? — Kuro chamou suavemente, sem parar de andar. — Falta pouco, pequena. Só mais alguns metros.
Ela não respondeu. Seus olhos pretos, antes focados em Kuro, agora disparavam de um lado para o outro. As pupilas estavam tão dilatadas que quase engoliam a íris. Ela começou a murmurar, uma ladainha rápida e desconexa que fez os pelos dos braços de Kuro se arrepiarem.
— O estalo... o estalo nas lâmpadas... eles estão contando. Um, dois, quatro... eles pularam o três. O três é a morte. Kuro, o três é a morte.
— Não tem ninguém contando, Tatsuyo — disse Kuro, tentando manter a voz firme, embora o coração tivesse acelerado. — É só o barulho da eletricidade. Foca na minha voz, está bem?
Eles entraram na área da lavanderia. O vapor das máquinas industriais criava uma névoa quente e úmida, e o barulho rítmico das secadoras — *tum-tum, tum-tum* — preenchia o ambiente. Para uma pessoa comum, era apenas barulho de fundo. Para Tatsuyo, era o gatilho de um colapso.
Ela parou abruptamente no meio do salão.
— Estão gritando — ela disse, a voz subindo de tom, carregada de um terror absoluto. — Por que as máquinas estão gritando o meu nome?
— Tatsuyo, ninguém está gritando — Zoe tentou se aproximar, mas a menina recuou bruscamente, colidindo com uma pilha de lençóis brancos.
— Saiam! — Tatsuyo gritou, levando as mãos aos ouvidos com tanta força que as unhas cravaram na pele. — As sombras... elas saíram das paredes! Elas estão rastejando no teto! Kuro, elas estão vindo pegar os seus olhos!
Ela caiu de joelhos, o corpo tremendo em convulsões de pânico puro. O surto era violento. Sem medicação há meses, talvez anos, e submetida ao estresse extremo de uma fuga de espionagem, o frágil equilíbrio de sua mente havia se estilhaçado completamente.
— Droga — praguejou Charles, olhando para a porta de saída. — O barulho vai atrair os seguranças. Kuro, temos que movê-la agora!
Kuro se ajoelhou na frente dela, ignorando o perigo de ser descoberto.
— Tatsuyo, olha para mim! — Ele tentou segurar os pulsos dela para evitar que ela se machucasse, mas ela lutava com uma força maníaca, fruto da adrenalina do medo.
— Não me toca! Você é um deles! — As lágrimas lavavam o rosto pardo, e ela olhava para Kuro como se ele fosse um monstro horrendo. — Suas mãos estão cobertas de sangue negro! As vozes dizem que você vai me entregar para a aranha!
— Que aranha, Tatsuyo? Não tem aranha nenhuma! — Kuro exclamou, sentindo o desespero dela contaminar o ar. — Sou eu, o cara da bebida azul! Eu prometi te proteger!
— VOCÊ ESTÁ MENTINDO! — O grito dela ecoou pelas tubulações de metal.
Zoe sacou a arma, apontando para a entrada do corredor.
— Temos movimento. Dois seguranças vindo conferir o barulho. Charles, cobertura!
Charles posicionou-se atrás de um balcão de metal, enquanto Zoe se escondia atrás de uma das colunas. Kuro, porém, não saiu do lado de Tatsuyo. Ele sabia que, se a deixasse ali naquele estado, ela nunca mais voltaria à realidade.
— Tatsuyo, escuta — Kuro disse, baixando o tom, forçando-se a parecer calmo enquanto o caos se instalava ao redor. — Eu sei que você está vendo coisas. Eu sei que as vozes são altas e que elas parecem reais. Mas elas são mentirosas. Elas são parte da doença que aquele lugar te deu.
— Elas dóoooem! — ela uivou, curvando-se, a jaqueta de Kuro escorregando pelos ombros.
— Eu sei que dói. Mas eu sou a sua âncora. — Kuro segurou o rosto dela com as duas mãos, forçando-a a olhar diretamente nos olhos castanhos dele. — Esquece o teto. Esquece as máquinas. Foca só no castanho dos meus olhos. Consegue ver? Eles não têm sangue negro. Eles só têm preocupação por você.
Tatsuyo soluçou, o peito arfando. Por um segundo, a névoa de terror em seu olhar pareceu vacilar.
— Kuro...?
— Sou eu. Estamos saindo. Agora.
Nesse momento, a porta da lavanderia foi escancarada.
— Ei! O que está acontecendo aqui? — um dos seguranças da Presa de Ferro gritou, a mão indo para o rádio na cintura.
Ele não teve tempo de completar a frase. Zoe avançou como uma sombra, desferindo um golpe seco na traqueia do homem e seguindo com uma joelhada no abdômen. Charles, com um silenciador acoplado à pistola, disparou um dardo não-letal no segundo guarda, que desabou antes mesmo de entender o que estava acontecendo.
— Temos que ir, Kuro! Agora! — Charles sibilou. — Outros virão!
Kuro não esperou. Ele passou um braço por baixo dos joelhos de Tatsuyo e outro pelas costas dela, levantando-a no colo. Ela era leve, assustadoramente leve, como se fosse feita de vidro e mágoa.
— Não me deixa cair no abismo... — ela sussurrou, a voz agora fraca, a exaustão tomando o lugar do pânico agudo.
— Eu nunca vou te soltar — Kuro prometeu, começando a correr em direção à saída de emergência.
Eles irromperam no beco úmido. O ar da noite, embora carregado com o cheiro de lixo da cidade, parecia o oxigênio mais puro que já haviam respirado. O SUV preto estava estacionado a poucos metros, com o motor já ligado por um comando remoto.
Zoe abriu a porta traseira, e Kuro deslizou para dentro com Tatsuyo ainda em seus braços. Charles pulou no banco do motorista e arrancou, os pneus cantando no asfalto molhado enquanto deixavam o brilho sinistro do cassino L’Émeraude para trás.
Dentro do carro, o silêncio era interrompido apenas pela respiração pesada de todos. Tatsuyo estava encolhida em posição fetal no banco, com a cabeça apoiada no colo de Kuro. Ela ainda tremia, e seus lábios continuavam a se mover em sussurros sem sentido, mas o pânico histérico havia diminuído para um torpor depressivo.
Kuro passava a mão suavemente pelos cabelos pretos dela, tentando desembaraçar os fios com os dedos.
— Para onde vamos? — perguntou Zoe, limpando o suor da testa. — Se a levarmos para um hospital público, a gangue pode ter informantes lá. A mãe dela pode tentar reclamar a custódia.
— Sede da CIA — Charles respondeu, olhando pelo retrovisor. — Temos uma ala médica segura e psiquiatras de plantão que lidam com traumas de agentes de campo. É o único lugar onde ela estará fora do alcance da Presa de Ferro.
Kuro olhou para a jovem em seu colo. Ela parecia tão pequena dentro daquela jaqueta enorme.
— Ela vai ficar bem, Charles? — A voz de Kuro, geralmente cheia de piadas e sarcasmo, estava carregada de uma vulnerabilidade que seus parceiros raramente viam.
— Ela tem um longo caminho pela frente, Kuro — Charles respondeu seriamente. — Esquizofrenia não é algo que se cura com um curativo. Ela vai precisar de medicação constante, terapia e, acima de tudo, um ambiente sem medo.
— Ela vai ter isso — Kuro afirmou, o tom de voz endurecendo. — Eu vou garantir que ela tenha.
Tatsuyo abriu os olhos por um momento. A iluminação dos postes de luz passava rapidamente pelo vidro do carro, criando padrões de luz e sombra no rosto dela. Ela esticou a mão e tocou o rosto de Kuro, os dedos trêmulos traçando a linha da mandíbula dele.
— O homem de branco... — ela murmurou. — As vozes dizem que você é um anjo. Mas eu sei que não é. Anjos não usam jaquetas tão quentes.
Kuro soltou um riso soprado, sentindo um nó na garganta.
— Não sou um anjo, Tatsuyo. Sou só um cara que não gosta de ver pessoas boas sofrendo.
— Você prometeu... que eu estaria segura.
— E você está. Ninguém entra na sede da CIA sem passar por dez portas de aço e cinquenta caras armados. E nenhum deles é tão chato quanto eu. Você vai ter seu próprio quarto, comida de verdade e médicos que vão ajudar a silenciar essas vozes barulhentas.
Tatsuyo fechou os olhos, parecendo finalmente se permitir relaxar sob a proteção de Kuro.
— Eu quero dormir — ela disse baixinho. — Sem os sonhos de neon.
— Pode dormir — Kuro sussurrou, puxando a jaqueta para cobri-la melhor. — Eu vou estar aqui quando você acordar. E quando acordar de novo. Eu não vou a lugar nenhum.
Zoe olhou para Kuro pelo espelho, um pequeno sorriso surgindo em seus lábios. Ela sabia que a missão inicial era sobre drogas e gangues, mas agora, para a equipe, o sucesso da operação tinha um novo nome: Tatsuyo.
Enquanto o SUV avançava pelas ruas da cidade, deixando a podridão do cassino para trás, Kuro Hatake sabia que sua vida tinha mudado. Ele entrou naquele cassino como um agente cumprindo um dever, mas sairia dali como o guardião de uma alma quebrada que o mundo tentou descartar.
Ele olhou para a mão de Tatsuyo, que ainda segurava a manga de sua camisa com força, mesmo dormindo. Era um pedido mudo de socorro que ele pretendia atender todos os dias, até que ela pudesse caminhar sozinha, sem medo das sombras, e sem precisar de uma jaqueta alheia para se sentir protegida.
A guerra contra a gangue "Presa de Ferro" estava apenas começando, e Kuro sabia que os próximos dias seriam de interrogatórios, relatórios e perigo. Mas, por enquanto, no silêncio do carro em movimento, a única coisa que importava era a respiração leve da menina que finalmente, pela primeira vez em dezenove anos, podia dormir em paz.