Amor
O Santuário de Aço e Silêncio
O SUV preto atravessou os portões fortificados da sede regional da CIA com uma urgência contida. O som dos pneus sobre o cascalho fino da entrada de segurança foi o primeiro sinal de que o mundo caótico e sufocante do cassino L’Émeraude tinha ficado para trás. No entanto, para Tatsuyo, as fronteiras entre o inferno e a salvação eram invisíveis e aterrorizantes.
Kuro sentiu a jovem se encolher ainda mais contra seu peito assim que o motor foi desligado. O silêncio do estacionamento subterrâneo parecia, para ela, uma nova forma de ameaça.
— Chegamos, Tatsuyo — sussurrou Kuro, mantendo a voz no tom mais suave que conseguia projetar. — É aqui. O lugar seguro que eu te prometi.
— As luzes... elas são muito brancas — murmurou ela, a voz embargada, os olhos fixos nas lâmpadas de LED do teto da garagem. — Elas queimam os pensamentos. Kuro, eles vão ver o que tem dentro da minha cabeça?
— Ninguém consegue ver o que você não quiser mostrar — ele garantiu, ajudando-a a se sentar.
Tatsuyo agarrou as lapelas da jaqueta de Kuro, que ainda a envolvia como um casulo. Seus dedos pálidos e trêmulos estavam cravados no tecido com uma força desesperada. Quando a porta do carro foi aberta por Zoe, o ar condicionado estéril do prédio atingiu a pele de Tatsuyo, fazendo-a soltar um ganido baixo de susto.
— Eu não consigo andar — ela disse, o pânico voltando a nublar seus olhos pretos. — O chão... o chão parece feito de água. Eu vou afundar.
Kuro olhou para Charles e Zoe, que trocavam olhares preocupados. Ele não hesitou.
— Eu te levo. Confia em mim?
Ela não respondeu com palavras, apenas enterrou o rosto no pescoço dele, assentindo freneticamente. Kuro a pegou no colo novamente, sentindo como ela tentava se fundir ao seu corpo, buscando uma solidez que sua própria mente lhe negava no momento.
Eles avançaram pelo elevador privativo. A ascensão foi rápida, mas para Tatsuyo, cada andar que subiam parecia uma pressão a mais em seus ouvidos. Ela começou a balançar a cabeça, sussurrando palavras em uma língua que parecia uma mistura de dialetos ancestrais e fragmentos de frases desconexas.
Quando as portas se abriram no andar administrativo de segurança máxima, o grupo deu de cara com uma figura imponente que já os aguardava.
Henric, o comandante da unidade, estava parado no centro do corredor com os braços cruzados atrás das costas. Aos 45 anos, com o cabelo grisalho cortado rente e cicatrizes de missões que ele nunca mencionava, Henric era a personificação da disciplina. Seus olhos azuis gélidos varreram o grupo, parando finalmente na figura frágil e trêmula nos braços de Kuro.
— Relatório de situação, Hatake — a voz de Henric ecoou, profunda e autoritária.
Tatsuyo deu um solavanco nos braços de Kuro, soltando um grito abafado e escondendo o rosto completamente.
— Ele tem voz de trovão! — ela exclamou, a voz aguda de puro terror. — As sombras dizem que ele é o juiz! Ele vai me mandar de volta para a gaiola!
Kuro sentiu um aperto no peito e lançou um olhar de advertência para o comandante, algo que raramente alguém ousava fazer.
— Menos volume, senhor — pediu Kuro, o tom beirando o insubordinado, mas carregado de uma necessidade protetora. — Ela está em crise severa. Esquizofrenia paranoide, agravada por abuso físico e psicológico. Ela é a nossa testemunha-chave, mas, acima de tudo, ela é uma vítima que precisa de ajuda médica imediata.
Henric descruzou os braços, suavizando minimamente a postura, embora sua expressão permanecesse rígida.
— Então esta é a garota Nakamura? — Henric deu um passo à frente, e Tatsuyo reagiu tentando escalar o peito de Kuro, as unhas dele cravando-se nos ombros do agente.
— Afaste-se, por favor — interveio Zoe, colocando-se entre o comandante e Kuro. — Ela não está processando a realidade corretamente agora. Para ela, qualquer autoridade é uma ameaça.
— Eu entendo — disse Henric, baixando o tom de voz para um nível quase audível. — Hatake, leve-a para a ala médica quatro. Já avisei a Dra. Aris. Ela é especialista em traumas complexos. Charles, Zoe, na minha sala. Agora. Quero todos os detalhes do que aconteceu naquele cassino.
Kuro começou a se afastar, mas sentiu que Tatsuyo não relaxava. Ela estava rígida como uma estátua de gelo.
— Kuro... não me deixa com os homens de branco — ela implorou, a respiração saindo em espasmos. — Eles furam a alma. Eles colocam fios nos sonhos.
— Eu vou estar lá o tempo todo, Tatsuyo — Kuro prometeu, caminhando pelos corredores brancos e assépticos. — Ninguém vai colocar fio nenhum. A Dra. Aris é legal, ela tem cheiro de lavanda, não de cigarro e medo.
Eles chegaram à ala médica, um setor isolado onde o silêncio era absoluto. Uma mulher de meia-idade com óculos de aros finos e um semblante calmo os esperava. Ela apenas acenou para Kuro, indicando uma cama em um quarto privativo com luzes reguláveis e paredes acolchoadas de forma discreta.
Kuro tentou colocá-la na cama, mas Tatsuyo se recusou a soltá-lo. Seus dedos estavam tão firmes em sua camisa que os nós das mãos estavam brancos.
— Não, não, não! — ela começou a soluçar, um som dilacerante que ecoou pelo quarto. — Se você sair, o mundo acaba. As paredes vão fechar. Kuro, por favor!
— Eu não vou sair — ele disse, sentando-se na beira da cama com ela ainda em seu colo. — Dra. Aris, ela não vai cooperar se eu me afastar.
A médica assentiu, aproximando-se lentamente com uma bandeja pequena.
— Tudo bem, Kuro. Tatsuyo, meu nome é Elena. Eu sou médica. Eu sei que as vozes estão gritando muito alto agora, não estão?
Tatsuyo olhou para a médica por cima do ombro de Kuro, os olhos cheios de desconfiança.
— Elas dizem que você tem veneno nas mãos.
— Não é veneno — disse Elena, mantendo a voz em um ritmo hipnótico e calmo. — É algo para ajudar as vozes a irem descansar um pouco. Você deve estar muito cansada de ouvir tanto barulho, não está?
Tatsuyo hesitou. O cansaço era visível em cada linha de seu rosto pardo. As olheiras profundas e o tremor constante mostravam um corpo que estava no limite da exaustão humana.
— Dói... — ela sussurrou, voltando a olhar para Kuro. — Minha cabeça dói como se tivesse vidro quebrado dentro.
Kuro sentiu uma lágrima dela molhar sua camisa. Ele a apertou um pouco mais contra si, ignorando o desconforto de sua própria posição.
— Deixa ela te ajudar, Tatsuyo. Eu prometo, pela minha vida, que não vou sair deste quarto. Eu vou segurar a sua mão o tempo todo. Se alguém tentar fazer algo que você não queira, eu te tiro daqui na hora. Lembra que eu sou forte?
Ela olhou para os braços musculosos de Kuro, depois para o rosto dele, buscando qualquer sinal de mentira. Encontrou apenas uma sinceridade brutal e uma doçura que ela nunca tinha recebido de ninguém.
— Você jura? — ela perguntou, a voz quase sumindo.
— Juro. De dedinho e tudo — ele disse, tentando trazer um pouco de leveza, embora seus próprios olhos estivessem úmidos.
Lentamente, Tatsuyo estendeu o braço fino, marcado por hematomas antigos e novos. A Dra. Aris foi rápida e precisa, administrando um sedativo leve e um antipsicótico de ação rápida.
Minutos depois, a rigidez no corpo de Tatsuyo começou a ceder. Seus dedos, antes garras de desespero, relaxaram sobre a jaqueta de Kuro. Suas pálpebras ficaram pesadas, e o murmúrio incessante parou, substituído por uma respiração mais profunda e rítmica.
Kuro a deitou com cuidado no travesseiro, mas antes que pudesse retirar a mão, sentiu os dedos dela buscarem os seus, mesmo quase dormindo.
— Kuro... — ela murmurou, a voz arrastada pelo efeito do remédio.
— Estou aqui, pequena.
— O azul... — ela disse, um pequeno e quase imperceptível sorriso surgindo no canto dos lábios. — O azul daquela bebida era horrível... mas eu gostava quando você olhava para mim.
E então, ela adormeceu.
Kuro ficou ali, sentado na beira da cama, observando o peito dela subir e descer. A Dra. Aris se aproximou e colocou a mão no ombro do agente.
— Você fez um bom trabalho, Hatake. Ela estava em um estado de fragmentação psíquica completo. Se não fosse pela confiança que depositou em você, ela teria entrado em um catatonia ou coisa pior.
— Ela tem dezenove anos, doutora — Kuro disse, a voz rouca de emoção contida. — Dezenove anos e já viu mais escuridão do que eu em toda a minha carreira. A mãe dela a vendia. Aqueles animais no cassino a tratavam como um objeto descartável. E a mente dela... a mente dela se tornou o próprio carrasco dela.
— A esquizofrenia é uma doença cruel, mas com o tratamento certo e, principalmente, com estabilidade emocional, ela pode ter uma vida — Elena explicou. — Mas ela vai precisar de um ponto de referência. Alguém que ela sinta que é real quando tudo ao redor parecer falso.
— Esse alguém sou eu, não é? — Kuro perguntou, já sabendo a resposta.
— Por enquanto, você é o único mundo real que ela conhece.
Kuro suspirou, passando a mão pelos cabelos brancos repicados. Ele sabia que o protocolo da CIA exigia distanciamento emocional. Ele sabia que Henric esperava que ele entregasse a testemunha e voltasse para o campo para caçar o resto da gangue. Mas, ao olhar para Tatsuyo, vestida com sua jaqueta, parecendo finalmente em paz, ele soube que as regras tinham mudado.
A porta do quarto se abriu silenciosamente e Henric entrou. Ele não parecia mais o comandante implacável de minutos atrás. Ele observou a cena — o agente de elite segurando a mão da menina quebrada — e suspirou.
— Ela está estabilizada? — perguntou o comandante.
— Sim, senhor — Kuro respondeu, sem soltar a mão de Tatsuyo.
— A Dra. Aris me deu o relatório preliminar. O estado dela é delicado. A gangue "Presa de Ferro" percebeu que ela sumiu. Eles sabem que ela é o elo fraco que pode expor toda a rota de distribuição da metanfetamina e os nomes dos oficiais comprados no governo.
Kuro sentiu uma onda de raiva percorrer seu corpo.
— Eles não vão chegar perto dela.
— Eu sei que não vão — disse Henric, aproximando-se da cama. — Mas você precisa entender uma coisa, Hatake. Ela não é apenas um caso. Ela é uma pessoa que vai precisar de proteção vinte e quatro horas por dia, não só contra a gangue, mas contra si mesma. Você está disposto a isso?
— Eu prometi a ela — Kuro disse, olhando fixamente para o comandante. — Eu não quebro minhas promessas.
Henric assentiu, um breve brilho de respeito cruzando seus olhos azuis.
— Charles e Zoe estão cuidando da inteligência. Vamos rastrear a mãe dela e garantir que aquela mulher nunca mais chegue a um quilômetro de distância da filha. Enquanto isso, Tatsuyo Nakamura fica sob custódia protetiva nesta ala. E você... — Henric fez uma pausa — ...você está designado como o oficial de ligação dela. O que significa que você fica aqui até que ela esteja pronta para depor. E depois disso, veremos o que fazer.
— Obrigado, senhor.
Henric saiu do quarto tão silenciosamente quanto entrou. Kuro voltou sua atenção para Tatsuyo. Ele pegou uma mecha de seu cabelo preto e a colocou atrás da orelha dela, notando como a pele parda parecia mais suave agora que a tensão do pânico tinha se dissipado.
— Você ouviu, Tatsuyo? — ele sussurrou para a menina adormecida. — Ninguém mais vai te machucar. A jaqueta é sua, o lugar seguro é seu... e eu também sou seu, até você não precisar mais de mim.
Ele se acomodou na poltrona ao lado da cama, preparando-se para a longa vigília. O prédio da CIA, com todo o seu aço e segredos, era muitas vezes um lugar de morte e conspirações. Mas naquela noite, naquela pequena sala iluminada por uma luz suave, ele se tornou algo diferente.
Tornou-se um santuário.
E enquanto o mundo lá fora continuava a girar em sua órbita de violência e ganância, Kuro Hatake permaneceu imóvel, sendo a âncora de uma alma que finalmente tinha encontrado um porto seguro no meio da tempestade. Ele sabia que as vozes poderiam voltar, que as sombras poderiam tentar rastejar novamente pelas paredes da mente de Tatsuyo, mas agora, elas teriam que passar por ele primeiro. E Kuro não tinha a menor intenção de deixá-las vencer.