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Amor

O Peso do Sino e a Fúria do Aço

Um mês de poeira, suor e hematomas havia transformado o acampamento de Wu Zhong. Os camponeses desajeitados que mal sabiam marchar em linha reta agora empunhavam lanças com precisão cortante e avançavam em formação sem tropeçar nos próprios pés. As patrulhas voltavam diariamente das montanhas com relatórios vazios: nenhum sinal direto das tropas mongóis, apenas rastros distantes e aldeias abandonadas que mantinham a tensão no ar tão afiada quanto uma lâmina de aço.

Para Tatsuyo, no entanto, a verdadeira guerra acontecia dentro de sua própria armadura.

A cada amanhecer, antes que a primeira corneta soasse, ela acordava nas sombras da tenda coletiva para refazer as faixas de linho que esmagavam seus seios contra as costelas. A dor era uma companheira constante, uma queimadura surda que tirava seu ar a cada respiração profunda. Seus cabelos negros, longos e ondulados até a cintura, continuavam intactos, mas permaneciam implacavelmente puxados para trás em um coque alto e severo, preso com tiras de couro curtido. Sua pele parda havia ganhado um tom dourado pelo sol implacável da fronteira, e suas mãos, antes macias pelo trabalho doméstico, agora exibiam calos rígidos de quem passava doze horas por dia segurando o cabo de uma espada.

Ela havia sobrevivido. Mas manter o disfarce de Kai Yume cobrava um preço alto a cada segundo.

E havia Kuro.

O capitão parecia ter transformado a vida de Kai Yume em um passatempo particular. Se nos treinos matinais Kuro era o líder implacável e estratégico que exigia a perfeição de cada soldado, nas pausas e inspeções ele se tornava uma presença perturbadora. O homem de um metro e oitenta, com seus cabelos brancos repicados e olhos castanhos profundos, tinha uma predileção irritante por invadir o espaço pessoal de Tatsuyo. Ele encontrava desculpas para ajeitar a postura dela com as próprias mãos, sussurrar ordens desconcertantes perto demais do seu ouvido e lançar olhares que faziam a espinha de Tatsuyo queimar de uma forma que nada tinha a ver com medo de execução.

Naquela tarde, depois de cinco horas ininterruptas de combate corpo a corpo sob o sol a pino, os soldados estavam à beira da exaustão. Foi quando Kuro ordenou que todos se reunissem na clareira central do acampamento.

No meio do pátio de terra batida erguia-se um totem monumental. Era o tronco de um pinheiro ancestral desbastado, liso e reto como uma coluna palaciana, com quase quinze metros de altura. No topo, suspenso por uma corda de cânhamo, brilhava um sino de bronze maciço que tilintava suavemente com a brisa da tarde.

Kuro estava parado diante da base da tora, sem a couraça de ferro. Ele vestia apenas calças pretas largas e faixas de treino enroladas nos pulsos e antebraços. O peitoral largo e o abdômen esculpido, rijo e desenhado em gomos perfeitos, brilhavam com uma fina camada de suor. Ele exibia a própria forma com a naturalidade de quem conhecia a própria beleza e gostava de provocar. Cruzando os braços musculosos sobre o peito, ele encarou a tropa ofegante.

— Vocês aprenderam a marchar, aprenderam a golpear e aprenderam a sangrar sem chorar — declarou Kuro, sua voz grave ressoando clara por todo o acampamento. — Mas isso não é suficiente. Um guerreiro que só tem força bruta morre na primeira emboscada. Ele precisa de ímpeto. Precisa alcançar o que parece inalcançável.

Ele apontou com o queixo para o topo do totem.

— Aquele sino representa a vitória. O homem que conseguir subir até o topo e fazê-lo soar terá uma ração dupla de carne e folga das patrulhas noturnas por uma semana inteira. Quem será o primeiro?

Um murmúrio excitado correu pelas fileiras. Homens grandes e fortes deram um passo à frente, certos de que a tarefa seria simples.

O primeiro a tentar foi Chen, o brutamontes do primeiro dia. Ele correu em direção ao tronco, saltou e tentou fincar os pés na madeira. Mas o tronco era excessivamente liso, tratado com cera vegetal e completamente desprovido de reentrâncias. Chen subiu menos de um metro e meio antes de escorregar vergonhosamente, caindo de bunda na lama sob as gargalhadas dos companheiros.

— Próximo! — gritou Kuro, o canto da boca curvado num sorriso desdenhoso.

Soldado após soldado tentou a escalada. Homens ágeis saltavam e tentavam abraçar a madeira com pernas e braços, apenas para perder o atrito e desabar no chão. Guerreiros mais fortes tentavam usar a pura força muscular para se puxar para cima, mas o diâmetro do tronco era largo demais para permitir uma pegada firme. Depois de quase uma hora de tentativas frustradas, nenhum homem havia passado da marca dos três metros.

A poucos passos de Kuro, sentado sob a sombra de um dossel de seda amarela, o conselheiro imperial Chi-Fu bufava de impaciência.

O homem havia chegado ao acampamento há duas semanas, enviado diretamente da Cidade Proibida para fiscalizar o progresso da tropa e a gestão de recursos de Kuro. Magro, com um bigode ralo e caído e olhos de abutre protegidos por óculos de aros finos, Chi-Fu era a personificação da arrogância burocrática. Ele desprezava o cheiro de cavalo, desprezava a lama e, acima de tudo, parecia nutrir uma aversão quase obsessiva por Kai Yume.

Desde o dia em que chegara, Chi-Fu mantinha os olhos fixos naquele recruta mais baixo do que os outros. Ele não desconfiava nem por um momento que Kai fosse uma mulher — para sua mente limitada, a simples ideia de uma mulher em um acampamento imperial era inconcebível. Mas ele farejava algo que não se encaixava. Achava Kai frágil demais, reservado demais, desprovido da grosseria típica dos soldados. Para Chi-Fu, Kai Yume era uma fraude, um moleque insolente que certamente manchava a dignidade dos arquivos imperiais de sua família.

— Uma perda de tempo ridícula, capitão — chiou Chi-Fu, sacudindo seu leque de papel com irritação. — O senhor reuniu camponeses imprestáveis. Se este é o exército que deve proteger as fronteiras do Filho do Céu, estamos todos condenados!

Kuro nem sequer virou o rosto para olhar o conselheiro. Seus olhos castanhos varreram a multidão até encontrarem os olhos pretos de Tatsuyo, que observava a tora em silêncio.

— Kai — chamou o capitão, a voz carregada daquele tom familiar e provocador. — Você tem ficado muito quieto aí atrás. O jovem do sul que disse ter mãos rápidas não vai tentar? Ou suas mãos delicadas só servem para segurar tecidos finos?

Alguns soldados riram, atiçados pelo capitão.

Debaixo da túnica de Tatsuyo, Mushu remexeu-se freneticamente contra o tecido comprimido de suas costelas.

— Não vai não! — sussurrou o dragão, a voz abafada pelo linho. — Olha o tamanho daquele pau de sebo, Tatsuyo! Você vai quebrar o nariz! Deixa o branquelo gostosão rir sozinho, finge que tá com dor de barriga!

Tatsuyo cerrou os punhos. Ela odiava quando Kuro usava aquele tom zombeteiro com ela. Mais do que isso, odiava o olhar condescendente que Chi-Fu lançava em sua direção a cada segundo daquele dia. Ela deu um passo à frente, saindo da formação.

— Eu vou tentar, capitão — disse Tatsuyo, forçando sua voz mais rouca e firme.

Kuro ergueu uma sobrancelha alva, um brilho de genuína curiosidade cruzando suas feições. Ele deu dois passos para trás, abrindo espaço para ela. Ao passar por ele, Tatsuyo sentiu o calor do corpo do capitão e captou o cheiro forte de seu suor misturado com essência de cedro. Kuro inclinou-se de leve, os lábios quase roçando o topo da orelha dela enquanto murmurava:

— Mostre do que você é capaz, garoto. Se chegar lá em cima, prometo uma recompensa especial só para você.

O arrepio que desceu pela nuca de Tatsuyo quase a fez tropeçar. Aquele homem não tinha vergonha na cara.

Ela parou diante do tronco e respirou fundo, tentando ignorar a dor nas costelas. O topo parecia milhas distante. Ela tomou distância, correu com toda a velocidade que suas pernas permitiam e saltou contra o poste.

Suas botas atingiram a madeira; ela usou o impulso para dar dois passos verticais, esticando os braços para tentar envolver o diâmetro da tora. Por uma fração de segundo, pareceu que ela conseguiria travar o corpo. Mas o tronco era liso como gelo. Suas mãos não encontraram apoio, e a falta de atrito fez suas botas derraparem.

Tatsuyo escorregou violentamente, as mãos queimando contra a casca polida. Ela caiu no chão de joelhos, levantando uma nuvem de poeira e raspando a pele dos nós dos dedos.

Gargalhadas ecoaram pelo pátio.

— Tenta abraçar com mais força, tampinha! — gritou um dos homens do fundo.

Tatsuyo não olhou para trás. O calor da frustração subiu pelo seu pescoço. Ela se levantou em um salto, bateu a poeira das calças e encarou o poste novamente. Havia uma corda no topo segurando o sino; se ela conseguisse ganhar balanço lateral, talvez pudesse criar um ponto de apoio.

— Eu tento de novo — declarou ela, a respiração entrecortada.

— Kai, já chega — disse Kuro, o tom agora desprovido de zombaria, tornando-se mais austero. — A regra é uma tentativa por soldado.

— Deixe o menino tentar, capitão! — interrompeu a voz estridente de Chi-Fu. O conselheiro havia se levantado, segurando a barra de sua longa túnica de seda para não encardir na poeira do pátio. Seus lábios finos estavam torcidos em um sorriso malévolo. — É fascinante ver a arrogância ser punida pelo próprio peso da inutilidade. Vá em frente, Kai Yume. Mostre a todos nós como um verme tenta voar.

A humilhação ardeu como ácido nas veias de Tatsuyo. Seus olhos pretos faiscaram em direção a Chi-Fu, mas ela não respondeu ao conselheiro; virou-se novamente para o totem e correu.

Desta vez, ela saltou mais alto, lançando o peso do corpo para o lado para tentar travar os joelhos em volta da madeira. Ela conseguiu subir alguns palmos a mais do que na primeira tentativa. O ar escapou com força de seus pulmões quando ela abraçou a tora com unhas e dentes, os músculos dos ombros e das costas protestando sob o esforço extremo.

— Suba! — sussurrou ela para si mesma, sentindo o sino quase zombar dela lá em cima.

Mas o esforço foi em vão. O peso de seu corpo somado à armadura leve que ainda vestia cedeu à gravidade. O linho que apertava seu peito pareceu travar a passagem de ar por um instante crítico; ela perdeu a força nos braços e despencou de costas na lama.

O impacto contra o solo foi seco e doloroso. O ar sumiu de seu peito, deixando-a estirada na terra, encarando o céu cinzento enquanto tentava recuperar o fôlego.

Uma onda de vaias e risos explodiu.

Chi-Fu deu passos largos à frente, o leque fechado apontado para o rosto de Tatsuyo como se fosse a lâmina de uma adaga.

— Patético! Absolutamente vergonhoso! — gritou o conselheiro, a voz cheia de escárnio triunfante. — Olhem para isso! Um desperdício absoluto de rações imperiais e de aço! O filho de Nakamura não passa de um frangote pretensioso que não aguentaria um dia de marcha na neve! O seu nome na lista do imperador é uma ofensa aos verdadeiros guerreiros deste império! Você não é um soldado, Kai Yume. Você é uma desgraça para a sua família e uma piada para este regimento!

As palavras atingiram Tatsuyo no ponto mais profundo e doloroso de sua alma. Uma desgraça para a família. A frase ecoou em sua cabeça, trazendo a imagem de seu pai manco, segurando a convocação com mãos trêmulas, pronto para morrer por um imperador distante apenas para manter a honra da casa. Ela estava ali para impedir que ele morresse. Ela havia sangrado naquele chão durante um mês inteiro, aguentando dores atrozes e o medo constante da forca, tudo para manter seu pai vivo.

E ouvir aquele burocrata covarde, que passava os dias abanando um pedaço de papel na sombra, desonrar o nome dos Nakamura foi a gota d'água.

O filtro de prudência que mantinha Kai Yume quieto simplesmente quebrou.

Tatsuyo levantou-se da lama com uma ferocidade assustadora. Seus olhos pretos queimavam de ódio puro. Ela ignorou a dor aguda nas costelas e nas costas, deu dois passos firmes em direção a Chi-Fu e parou a menos de um palmo do rosto do conselheiro.

— Cala essa boca — sibilou ela, a voz saindo baixa, gutural e perigosamente venenosa.

O silêncio engoliu o pátio inteiro. Até o vento pareceu parar de soprar.

Chi-Fu recuou meio passo, chocado com a ousadia inacreditável daquele recruta franzino. Seus olhos esbugalharam-se por trás dos óculos.

— O... o que você disse, seu miserável?!

— Eu disse para calar a boca! — rugiu Tatsuyo, quebrando de vez qualquer postura servil. Ela deu mais um passo, forçando o homem mais velho a recuar ainda mais. — O que você sabe sobre ser um soldado? O que você sabe sobre honra familiar? Você passa o dia inteiro sentado sob essa tenda de seda, bebendo chá morno e limpando a poeira das suas unhas enquanto homens de verdade quebram os ossos na lama!

— Insolente! Traidor! — gaguejou Chi-Fu, o rosto empalidecendo de raiva e espanto. — Eu sou a voz do Imperador neste acampamento!

— A voz do imperador? — Tatsuyo soltou uma risada amarga e cortante, o peito subindo e descendo com violência sob as faixas apertadas. — O imperador governa com a espada e com a justiça! Você não é a voz dele, é apenas um papagaio covarde empoleirado no ombro de quem realmente faz o trabalho duro! Se acha tão fácil subir nesse tronco, se acha que somos todos uns inúteis, por que você mesmo não tira essa túnica de seda e tenta tocar a porcaria daquele sino?!

A multidão de soldados prendeu a respiração coletivamente. Alguns recrutas arregalaram os olhos em choque absoluto; outros precisaram cobrir a boca para conter uma risada histérica diante do absurdo da cena. Ninguém jamais havia falado daquela maneira com um conselheiro imperial. A pena para insubordinação contra a corte era a morte por decapitação.

Chi-Fu tremia dos pés à cabeça, os lábios roxos de puro ultraje.

— Capitão! — gritou o conselheiro, a voz afinando em um guincho histérico. — O senhor ouviu isso?! Este... este verme acabou de cometer traição contra a coroa! Eu exijo que ele seja chicoteado até perder a consciência! Eu exijo a execução deste insolente agora mesmo!

Antes que Chi-Fu pudesse continuar seu ataque, uma mão enorme e coberta de calos agarrou o ombro de Tatsuyo por trás com força de ferro, puxando-a bruscamente para longe do conselheiro.

O impacto a fez girar, e ela deu de cara com o peito nu e rígido de Kuro.

O capitão estava parado entre ela e Chi-Fu como uma montanha intransponível. A atmosfera relaxada e provocadora de minutos atrás havia desaparecido por completo, substituída por uma frieza gélida e implacável. Os olhos castanhos escuros de Kuro pareciam dois poços de tempestade, encarando Tatsuyo com uma intensidade tão esmagadora que fez o chão parecer tremer sob seus pés.

— Já chega! — a voz de Kuro não foi um grito, mas um trovão contido que cortou o ar como um machado de batalha.

Tatsuyo tentou abrir a boca para justificar sua raiva, mas Kuro deu um passo à frente, encurralando-a contra o tronco do totem. Ele inclinou o rosto para baixo, ficando a centímetros do dela. A proximidade era avassaladora; Tatsuyo pôde sentir o calor furioso que irradiava da pele dele, o cheiro de metal e suor masculino misturado ao arrepio do perigo iminente.

— Cale a boca, Kai Yume — rosnou Kuro, entredentes, os nós dos dedos de sua mão direita flexionando-se perigosamente ao lado do corpo. — Mais uma única palavra que sair dessa sua garganta, e serei eu mesmo quem vai amarrar você no pelourinho.

Tatsuyo engoliu em seco. A fúria ainda pulsava em suas têmporas, mas a autoridade absoluta de Kuro era palpável. O capitão estava a um fio de explodir.

Kuro segurou o queixo dela com os dedos de ferro, forçando a cabeça de Tatsuyo para cima, obrigando-a a encará-lo nos olhos sem desviar. A pressão era dolorosa, mas os olhos de Kuro não mostravam apenas fúria militar; havia uma chama estranha, faiscante e perigosa queimando nas profundezas daquele olhar castanho, como se ele estivesse furioso com a ousadia dela, mas ao mesmo tempo fascinado pelo fogo selvagem que aquele jovem soldado acabara de demonstrar.

— Você acha que porque tem uma língua afiada e coragem para desafiar a corte, você é especial? — Kuro falou baixo, sua voz áspera ressoando apenas para ela e para aqueles que estavam muito perto. — Você não é nada aqui dentro. Você é um soldado sob minhas ordens. Se o conselheiro mandar você beijar a lama, você beija e agradece pela lição. Você não questiona. Você não grita. Você não quebra a cadeia de comando!

Ele apertou um pouco mais os dedos no queixo dela antes de soltá-la com um empurrão brusco.

— Sua indisciplina é uma vergonha para este regimento. Você falhou no desafio, caiu como um saco de farinha e ainda teve a audácia de cuspir nos representantes do palácio. A sua sorte, Kai, é que eu preciso de cada par de braços quando a guerra de verdade começar. Porque se dependesse apenas da sua atitude patética de hoje, você não duraria até o pôr do sol.

Tatsuyo manteve os olhos cravados nos dele, o queixo ardendo onde a pele havia sido pressionada. A humilhação de levar uma bronca diante de toda a tropa era pior do que a queda do totem, mas ela mordeu o lábio inferior com tanta força que sentiu o gosto ferroso de sangue, recusando-se a abaixar a cabeça.

Kuro virou-se bruscamente para Chi-Fu, cruzando os braços sobre o peitoral esculpido e assumindo sua habitual postura inabalável.

— O soldado cometeu uma grave falta disciplinar, conselheiro — disse Kuro, em um tom formal e perfeitamente polido, embora houvesse uma rigidez gélida em sua voz que Chi-Fu não ousou ignorar. — No entanto, a justiça e o castigo dentro deste acampamento são de minha exclusiva competência. O senhor Kai Yume será punido de acordo com o código militar. Ele passará a noite inteira em guarda solitária no topo da colina norte, sem direito à ceia e sem cobertor. E amanhã, dobrará os turnos de treinamento.

Chi-Fu abriu a boca para protestar, claramente insatisfeito com uma punição que não envolvia açoites ou sangue, mas o olhar cortante que Kuro lhe lançou fez as palavras morrerem na garganta do burocrata.

— Isso é o suficiente para reparar a honra da corte, conselheiro? — perguntou Kuro, a sobrancelha alva erguida em desafio silencioso.

Chi-Fu bufou, ajeitou as mangas compridas com um safanão desajeitado e virou as costas.

— Que o faça cumprir, capitão. O imperador será informado sobre o estado deplorável da disciplina desta guarnição! — chiou o homem, afastando-se em passos rápidos em direção à sua tenda suntuosa.

Kuro esperou até que o conselheiro estivesse fora do alcance dos olhos antes de se virar novamente para a tropa.

— O treino está encerrado! — trovejou o capitão. — Voltem para as suas tarefas. Se eu vir mais alguém parado aqui olhando para este tronco como se fosse uma árvore sagrada, vou fazer toda a companhia carregar toras de pinho até a meia-noite! Dispersar!

Os soldados dispersaram-se em um instante, cochichando em voz baixa sobre o confronto inacreditável que tinham acabado de testemunhar. Ninguém queria estar por perto quando a raiva de Kuro finalmente transbordasse.

Tatsuyo permaneceu onde estava por mais alguns segundos, o corpo dolorido protestando contra cada movimento. Ela olhou para Kuro, que ainda a encarava com os braços cruzados, a respiração compassada fazendo seu tanquinho contrair-se ritmicamente contra a luz poente. Havia uma tensão espessa, quase elétrica, pairando entre os dois.

— Está esperando um convite, Kai? — perguntou Kuro com a voz rouca, os olhos percorrendo o corpo coberto de lama da jovem de maneira descarada, demorando-se nas curvas de sua cintura antes de subir para a boca manchada de sangue. — Pegue sua lança e marche para o posto da colina norte. Agora.

Tatsuyo bateu o punho fechado contra o peito em uma continência fria e ríspida.

— Sim, capitão.

Ela deu meia-volta e marchou em direção ao arsenal, sentindo o olhar pesado de Kuro queimando em suas costas a cada passo que dava na poeira do acampamento.

Debaixo de sua couraça, o pequeno dragão vermelho colocou a cabeça para fora com os olhos arregalados de pânico.

— Minha nossa senhora das cinzas eternas... — gemeu Mushu, tremendo dos chifres até a ponta da cauda. — Da próxima vez que você quiser comprar briga com a corte imperial, garota, me avisa antes! Eu quase soltei uma labareda de desespero dentro das suas calças! E aquele capitão... ele parecia pronto para te matar ou para te beijar ali mesmo na frente de todo mundo!

— Fica quieto, Mushu — respondeu Tatsuyo entre dentes, limpando o filete de sangue no canto do lábio com as costas da mão calejada.

Ela olhou para trás uma última vez. O totem de madeira continuava lá, erguendo-se impassível e inalcançável contra o céu crepuscular. O sino brilhava no topo, silencioso e distante.

Ela ainda tocaria aquele sino. Nem que precisasse arrancar as próprias unhas para chegar ao topo.

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