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Amor

Sangue, Suor e Bronze

O vento que descia das montanhas do norte cortava como lâminas de gelo. No topo da colina, Tatsuyo mantinha os pés cravados na terra batida, o corpo tremendo não apenas pelo frio que atravessava o tecido grosso de seu uniforme, mas pela fúria crua que ainda ardia em suas veias.

A cada lufada de vento, as palavras venenosas de Chi-Fu ecoavam em seus ouvidos: *Um desperdício de rações. Uma desgraça para a sua família. Um verme.*

E, pior do que o veneno do conselheiro, havia a lembrança dos olhos castanhos e penetrantes de Kuro, o toque firme de seus dedos de ferro em seu queixo e a bronca humilhante diante de todos os soldados. Kuro a tratara como um peso morto. Dissera que ela era fraca, que sua audácia era patética e que ela não duraria até o pôr do sol.

— Ah, cara... meus bigodes estão congelando. Acho que estou tendo uma síncope de réptil — resmungou Mushu, com o focinho trêmulo enfiado sob a gola da túnica dela. — Ei, Tatsuyo... quer dizer, Kai. Dá para relaxar esses ombros? Você tá parecendo uma estátua de sal. O capitão branquelo mandou a gente ficar de vigia, não virar um picolé militar.

Tatsuyo não respondeu. Seus olhos pretos estavam cravados lá embaixo, na clareira do acampamento que jazia mergulhada em um silêncio quase sepulcral.

As fogueiras já haviam se reduzido a brasas avermelhadas. A tropa inteira dormia, exausta pelos treinamentos implacáveis. No centro exato do pátio deserto, banhado pela luz prateada e fria da lua minguante, erguia-se o totem de pinho. Quinze metros de madeira polida e inalcançável. No cume, o sino de bronze parecia zombar de sua fraqueza.

— Eu não sou um verme — sussurrou ela, a voz rouca e baixa.

— Claro que não é, garota! Você é uma guerreira! Bom, uma guerreira meio baixinha e cheia de atitude suicida, mas ainda uma guerreira — disse Mushu, tentando animá-la. — Agora, por favor, vamos achar um canto abrigado antes que eu vire lagarto defumado de gelo.

Tatsuyo fincou a lança no chão da colina, deixando-a cravada como uma sentinela solitária para enganar qualquer ronda distante. Em seguida, desatou a capa curta e a jogou sobre a haste.

— O que você tá fazendo? — perguntou o dragão, arregalando os olhos dourados. — Você não pode sair do posto! Aquele capitão com abdômen de pedra vai te esfolar vivo se te pegar fora da colina!

— Ele disse que eu não duraria até o amanhecer — disse Tatsuyo, os maxilares tão apertados que os dentes rangiam. — Ele disse que eu sou uma vergonha.

— E você liga para o que aquele exibido sem camisa fala?!

— Ligo — respondeu ela, os olhos queimando com uma determinação feroz. — Porque se eu aceitar que sou fraca aqui, meu pai morre lá fora. Eu vou subir naquela tora, Mushu.

Sem esperar resposta, ela começou a descer a encosta com passos silenciosos e rápidos, movendo-se pelas sombras como um espectro. A dor nas costelas, comprimidas sem piedade pelas faixas de linho, era aguda a cada respiração funda, mas Tatsuyo usou aquela dor como combustível.

Quando alcançou o pátio central, o acampamento parecia um cemitério sob o luar. Nenhum guarda estava à vista; a segurança daquela noite fora relaxada após a partida furiosa do conselheiro.

Tatsuyo parou diante do imenso poste de madeira. De perto, ele parecia ainda mais monstruoso. A superfície tratada com cera vegetal brilhava com uma umidade gélida.

— Você é louca varrida — murmurou Mushu, escorregando para fora da armadura e pousando em um caixote de provisões próximo. — Completamente insana. Os ancestrais me mandaram para cuidar de você, não para ver você se estatelar na terra como uma jaca podre!

Tatsuyo não deu ouvidos. Ela cuspiu nas próprias palmas calejadas, limpou o suor frio da testa e recuou três passos.

Ela correu e saltou.

O impacto de suas botas contra a madeira ecoou suavemente na noite. Ela tentou fincar os dedos, abraçar a largura da tora com as pernas, mas a cera e o orvalho transformavam a superfície em sabão. Ela mal conseguiu alcançar a marca de dois metros antes de perder o atrito.

Seu corpo despencou. Tatsuyo caiu de lado na terra batida, o ombro esquerdo absorvendo o impacto com um estalo seco de dor.

Ela prendeu a respiração para não gritar.

— Viu só?! — sibilou Mushu, abanando as garras em desespero. — Vamos voltar! Seus ossos não foram feitos para alpinismo em poste de pinho!

Tatsuyo levantou-se em silêncio. Bateu a poeira das calças, sentindo a pele do ombro latejar sob a túnica.

Ela tentou de novo.

Desta vez, usou um ângulo diferente, impulsionando-se com mais força vertical. Seus dedos arranharam a madeira, raspando as pontas até que as unhas cedessem sob a pressão. Ela escorregou mais uma vez, o peito batendo com violência contra o tronco antes de suas costas atingirem o chão com estrondo.

O ar sumiu de seus pulmões. A faixa que prendia seus seios pareceu esmagar seu esterno como uma prensa de ferro. Tatsuyo rolou de bruços, tossindo fracamente na poeira, os olhos marejando pela falta de oxigênio.

— Chega, Tatsuyo... — a voz de Mushu perdeu o tom zombeteiro, tornando-se genuinamente preocupada ao ver o sangue escorrer dos nós dos dedos da jovem. — Você vai se matar.

Tatsuyo apoiou as palmas no chão. A pele das mãos estava em carne viva, manchada de poeira e sangue escuro. Seus cabelos negros, presos no coque alto, tinham algumas mechas soltas grudadas no suor frio de seu rosto pardo. Ela ergueu a cabeça, encarando a escuridão do tronco que se elevava contra a abóbada estrelada.

*Você é uma desgraça para a sua família.*

*Você não é nada aqui dentro.*

Ela cerrou os dentes com tanta força que o gosto metálico de sangue inundou sua boca.

— Eu não vou desistir — murmurou ela, as palavras saindo entrecortadas.

Ela se levantou.

E tentou pela terceira vez. E pela quarta. E pela décima.

A noite avançava, fria e impiedosa, enquanto um balé de quedas e ossos moídos se desenrolava nas sombras do pátio. Tatsuyo caiu de costas, de joelhos, de lado. A madeira cobriu-se de manchas escuras de seu próprio sangue onde seus dedos tentavam agarrar a casca polida. Seus joelhos sangravam através do tecido rasgado das calças. As costelas pulsavam com uma dor alucinante a cada movimento brusco, e o cansaço começou a pesar em seus membros como chumbo fundido.

Eram quase quatro horas da madrugada quando ela desabou pela vigésima vez. A queda de mais de quatro metros a fez bater a cabeça na terra, deixando sua visão turva por longos segundos.

Ela ficou imóvel, encarando as estrelas que começavam a empalidecer no horizonte. O corpo inteiro tremia. Cada músculo parecia prestes a rasgar. O desespero tentou sussurrar em sua mente que Chi-Fu estava certo. Que Kuro estava certo. Que uma mulher de um metro e sessenta e três não pertencia àquele lugar de ferro e barbárie.

— Tatsuyo... — Mushu aproximou-se cautelosamente, os olhos caídos de tristeza ao ver o estado lamentável de sua protegida. — Já deu. Por favor. O sol vai nascer logo. Se eles te pegarem aqui assim...

Tatsuyo piscou devagar, afastando a névoa de sua mente. Seus olhos caíram sobre as faixas de couro amarradas em seus antebraços e nas botas. Depois, olhou para a largura do poste.

Força bruta. Todos aqueles homens gigantescos haviam tentado usar apenas os músculos dos braços e o peso do corpo para escalar. Mas o tronco não permitia pegada com as mãos vazias. Era largo demais, liso demais.

Ela não podia subir como um homem forte subia. Ela precisava usar a inteligência.

Tatsuyo sentou-se devagar, respirando com dificuldade. Desfez as correias de couro grosso que protegiam seus pulsos e as longas tiras de linho que sobravam da bainha de suas calças. Ela as amarrou firmemente em torno dos tornozelos e entrelaçou uma das faixas nas mãos, criando um laço largo e resistente.

Mushu franziu a testa, observando a engenhoca improvisada.

— O que você vai fazer com isso?

Tatsuyo apoiou-se no tronco para ficar de pé. Suas pernas tremiam violentamente, mas sua coluna endireitou-se com uma dignidade assustadora.

— Vou fazer o peso do meu corpo trabalhar a meu favor — disse ela, a voz fria como o amanhecer que se aproximava.

Ela passou o laço de couro ao redor do tronco largo e segurou as pontas com as duas mãos ensanguentadas. Saltou, cravando as solas das botas envoltas em tecido contra a madeira. O atrito das tiras esticadas contra o tronco criou um ponto de sustentação artificial.

Ela não escorregou.

Um suspiro trêmulo escapou de seus lábios. Seus músculos queimaram quando ela flexionou as pernas, empurrando o corpo para cima enquanto deslizava a corda de couro pelo tronco. Meio metro. Um metro. Dois metros.

Desta vez, a subida não era veloz, mas implacável.

Cada centímetro exigia uma quantidade sobre-humana de esforço. O couro cortava as palmas esfoladas de suas mãos, misturando sangue novo com o antigo. O ar entrava rasgando em sua garganta seca. Quando atingiu a marca dos sete metros — onde homem algum havia chegado —, uma das correias de linho em sua bota arrebentou sob a fricção extrema.

O corpo de Tatsuyo vacilou no vazio.

Ela despencou meio metro antes de suas mãos se fecharem com força desesperada em volta da tira de couro superior. O puxão quase deslocou seus ombros; um gemido de dor pura escapou de sua garganta, e seus pés balançaram no ar, sem apoio.

Lá embaixo, Mushu prendeu a respiração, tapando os olhos com as garras.

Tatsuyo fechou os olhos. A dor era uma tempestade violenta, mas a imagem do rosto de seu pai, calmo e honrado, brilhou com clareza cristalina em sua mente. Ela não voltaria para casa como uma covarde. Ela não deixaria o nome dos Nakamura ser cuspido na lama por homens arrogantes.

Com um grito rouco e visceral que ecoou abafado na penumbra, ela contraiu o abdômen com todas as fibras de sua alma, erguendo os joelhos machucados até encontrar novamente a madeira. As botas encontraram apoio. O atrito segurou.

Ela continuou a subir.

Centímetro por centímetro. Oito metros. Dez metros. Doze metros.

A escuridão da noite começou a se dissolver em tons de lavanda, índigo e ouro pálido no horizonte oriental. O vento matinal soprou com força, chicoteando as mechas soltas de seus cabelos negros ao redor de seu rosto machucado. Seus braços tremiam de exaustão espástica; sua respiração era um chiado agônico.

Mas quando estendeu a mão direita, cega de cansaço, seus dedos ensanguentados não encontraram casca de madeira.

Encontraram o frio e sólido bronze do sino.

Tatsuyo puxou o resto de seu corpo sobre a plataforma estreita do cume com o último resquício de energia que lhe restava. Ela deslizou as pernas pelo topo da madeira, sentando-se a quinze metros de altura, exatamente onde a corda prendia o sino ancestral.

O mundo parecia estendido a seus pés. O sol da manhã despontava sobre a muralha distante, tingindo a névoa do acampamento de um vermelho glorioso e incandescente.

Tatsuyo respirou o ar puro da aurora. Uma sensação avassaladora de triunfo lavou a dor de seu corpo. Ela olhou para as mãos em carne viva, depois para o badalo maciço de ferro que repousava dentro da campânula de bronze.

Ela segurou o ferro com as duas mãos trêmulas e o puxou para trás com toda a força que ainda pulsava em seu peito.

*DONG!*

O som explodiu como um trovão divino, partindo o silêncio da manhã ao meio. A reverberação profunda do bronze ecoou pelas montanhas, fazendo a terra inteira de Wu Zhong estremecer.

*DONG! DONG! DONG!*

Em questão de segundos, o acampamento virou um caos absoluto.

Gritos de alarme rasgaram as tendas. Homens tropeçavam uns nos outros, crentes de que a cavalaria inimiga havia rompido as defesas e invadido a guarnição. Recrutas corriam em roupas de baixo, descalços, empunhando lanças e adagas em pânico cego.

— Invasão! Invasores no pátio! — gritavam vozes desordenadas.

A lona da tenda de comando abriu-se com violência. Kuro irrompeu para fora com a velocidade de um leopardo, as duas espadas gêmeas desembainhadas e prontas para a matança.

O capitão estava sem armadura e sem camisa, vestindo apenas calças pretas de combate presas frouxamente na cintura. Os músculos rígidos de seu abdômen esculpido flexionavam-se com violência a cada respiração alerta, e seus cabelos brancos e repicados estavam desalinhados pelo sono interrompido. Seus olhos castanhos escuros varriam o pátio com uma ferocidade letal, prontos para decapitar o primeiro soldado invasor que cruzasse seu caminho.

— Posição defensiva! — rugiu Kuro, a voz cortando o pânico da multidão. — Onde está a brecha?!

Mais atrás, tropeçando nas próprias vestes de dormir e segurando uma touca de seda amarela torta na cabeça, Chi-Fu emergiu histérico, tremendo como uma vara verde.

— Socorro! Piedade! Os bárbaros chegaram! Capitão, proteja a corte! — guinchava o conselheiro, escondendo-se atrás de um soldado qualquer.

Mas não havia invasores. Não havia tochas mongóis. Não havia flechas chovendo sobre as tendas.

Havia apenas o repique rítmico, firme e orgulhoso do sino no alto da clareira.

*DONG!*

Um dos soldados parou de correr, franzindo a testa e olhando para cima. Em seguida, outro. E outro.

Aos poucos, o barulho de passos e gritos foi cessando, dando lugar a um murmúrio estupefato que se espalhou como fogo em palha seca. Centenas de pares de olhos voltaram-se para o cume do pinheiro ancestral.

Lá em cima, recortado contra a luz dourada do nascer do sol, estava Kai Yume.

O jovem recruta estava sentado no topo do totem monumental, com as pernas balançando no vazio a quinze metros de altura. Suas roupas estavam rasgadas, manchadas de lama e de sangue seco. As mãos, cruas e cobertas de ferimentos, seguravam a corda do badalo com uma postura quase relaxada. A luz matinal desenhava o contorno de seu rosto pardo, destacando os olhos pretos que olhavam para a multidão lá embaixo com uma serenidade fria, altiva e inabalável.

O silêncio que se seguiu foi absoluto. Ninguém ousava respirar.

Chen arregalou os olhos a ponto de quase saltarem das órbitas, a boca aberta em choque patético. Outros soldados veteranos entreolhavam-se, incapazes de acreditar que o rapaz franzino que todos haviam ridicularizado horas antes estava agora sentado no lugar que nenhum deles fora capaz de alcançar.

Chi-Fu congelou no lugar, a voz morrendo na garganta. Os óculos finos escorregaram pelo seu nariz enquanto ele fitava o topo do poste com uma expressão de horror humilhado.

Kuro permaneceu imóvel. As lâminas gêmeas em suas mãos baixaram ligeiramente, quase esquecidas ao lado do corpo musculoso.

O capitão ergueu a cabeça, os olhos castanhos cravando-se diretamente na figura de Kai Yume contra o sol. O vento gélido da manhã soprava forte, mas o calor que subiu pelo pescoço de Kuro foi instantâneo e avassalador.

Ele observou o sangue que manchava as pernas e as mãos do recruta. Viu o rastro escuro de esforço e dor que cobria o tronco de madeira de ponta a ponta. Compreendeu, em um instante estarrecedor, que aquele garoto havia passado a noite inteira caindo, quebrando os ossos e sangrando sozinho no escuro, apenas para cuspir o triunfo na cara de todos eles.

Um meio sorriso involuntário, lento e descarado, começou a desenhar-se nos lábios de Kuro. O brilho perigoso em seu olhar castanho intensificou-se, tingido por um fascínio tão profundo que beirava a luxúria. Aquele moleque não era apenas obstinado; ele era selvagem. Havia fogo de verdade queimando por trás daqueles olhos pretos e daquela pele parda.

Lá em cima, Tatsuyo soltou o badalo do sino. O último eco de bronze extinguiu-se no ar límpido da montanha.

Ela inclinou a cabeça ligeiramente para baixo, sustentando o olhar estarrecido de toda a tropa sem piscar. Quando seus olhos encontraram os de Kuro, ela ergueu o queixo pontudo e ensanguentado, quebrando o silêncio com sua voz firme, rouca e carregada de escárnio:

— Bom dia, capitão. O sino soou. Onde está a minha ração dupla?

Abaixo, no meio da multidão muda, um sorriso largo e abertamente pecaminoso iluminou o rosto de Kuro. O capitão embainhou as espadas lentamente, sem desviar os olhos do soldado que acabara de desafiar o céu.

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