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Amor

Sob o Manto da Alvorada

O ar da madrugada nas montanhas de Tung Shao mantinha a lâmina afiada do gelo, mas dentro da tenda médica o calor ainda era denso, quase sagrado.

Tatsuyo despertou aos poucos, sentindo o peso reconfortante e firme de um braço musculoso envolvendo sua cintura. As costas dela estavam coladas ao peito largo de Kuro, encaixadas com uma precisão que parecia natural demais para duas pessoas que, até o dia anterior, fingiam ser apenas capitão e soldado. Cada respiração lenta e compassada do homem enviava ondas de calor contra a pele parda de sua nuca, onde mechas soltas de seus longos cabelos negros repousavam desordenadas.

Por breves segundos, ela fechou os olhos pretos e desejou que o tempo parasse. Não havia o estrondo do tambor de guerra, nem a fúria das lâminas mongóis. Havia apenas a batida firme do coração de Kuro sob suas omoplatas e o silêncio compartilhado após uma noite que mudara sua existência de maneira irrevogável.

No entanto, o mundo exterior não esperaria.

Ao longe, o som grave e metálico de uma corneta imperial cortou o nevoeiro da cordilheira. O toque de alvorada. Em seguida, os primeiros ecos de botas pesadas marchando sobre a terra e o ranger de carroças de provisões anunciaram o despertar do acampamento. As tropas imperiais sobreviventes estavam se mobilizando para marchar com urgência absoluta em direção à Cidade Imperial; Shan Yu, mesmo ferido e sangrando, avançava pelas rotas ocultas para desferir o golpe fatal contra o trono e o próprio imperador.

Tatsuyo moveu-se com cuidado, tentando não despertar o homem ao seu lado. Uma fisgada aguda no flanco direito fez com que ela prendesse a respiração; as suturas ainda estavam frescas, embora o unguento tivesse aplacado a queimação mais cruel.

Kuro soltou um murmúrio rouco e preguiçoso, os braços apertando-a um pouco mais contra si antes de relaxar.

Desvencilhando-se lentamente do calor dos cobertores, Tatsuyo sentou-se na borda do colchão de palha. A luz cinzenta da manhã filtrava-se pelas frestas da lona, desenhando os contornos de seu corpo despido. Perto de um dos caixotes, o saco de linho onde Mushu passara a noite continuava amarrado, soltando apenas um ronco abafado e indignado de quem decidira hibernar por pura birra ancestral.

Ela respirou fundo, alcançando as longas tiras de linho grosso que jaziam no chão. Eram as mesmas faixas ásperas que usara durante semanas para esmagar impiedosamente os seios até transformar o próprio peito em uma tábua de carne comprimida e dolorida. Com os dedos trêmulos e o coração acelerado pela iminência do retorno à disciplina militar, Tatsuyo começou a posicionar o pano rígido sob os braços, preparando-se para puxar com toda a força e sufocar novamente a mulher sob o disfarce de Kai Yume.

— Nem pense em fazer isso.

A voz de Kuro soou grave, rouca pelo sono, mas carregada de uma autoridade que a fez congelar no lugar.

Antes que Tatsuyo pudesse dar a primeira volta no linho, mãos fortes e quentes cobriram as suas. Kuro havia se erguido sem fazer ruído. Ele estava sentado atrás dela na esteira, com o abdômen impecavelmente definido à mostra e os cabelos brancos repicados caindo rebeldes sobre a testa clara. Os olhos castanhos escuros fitavam as tiras de pano com uma aversão quase palpável.

— Eu preciso prender, Kuro — sussurrou ela, tentando puxar a faixa, a voz tingida pela ansiedade do tempo que corria. — O batalhão está de pé. Se os homens me virem assim, se Chi-Fu desconfiar de qualquer detalhe...

— Se você puxar esse pano com essa força, vai romper os pontos do seu flanco em meia légua de cavalgada — cortou ele, segurando com firmeza os pulsos delicados da jovem e puxando as mãos dela para longe do peito. — Olhe para isso. Sua carne mal começou a fechar. Você vai sangrar até a morte por baixo da armadura só para provar um ponto de honra?

— Não é por honra! — Tatsuyo virou o rosto para ele, os olhos pretos suplicantes e cheios de uma urgência desesperada. — É pela sobrevivência! Eu sou Kai Yume lá fora. Se alguém notar as curvas, se virem o menor volume sob a túnica, não haverá capitão no mundo capaz de me salvar do cadafalso por alta traição! Eu aguento a dor, Kuro. Eu aguentei até agora.

Kuro encarou-a por um longo instante. O olhar castanho perdeu a severidade costumeira de comandante e suavizou-se em algo infinitamente mais protetor, misturado com aquela atração despudorada que ele nunca se esforçava para disfarçar. Seus dedos desceram lentamente dos pulsos de Tatsuyo, acariciando os antebraços pardos até pousarem com cuidado nas costelas da jovem, logo abaixo dos curativos limpos.

— Você não vai mais esmagar o seu corpo — disse ele em tom baixo, quase como uma promessa sagrada. — Eu vi o suficiente ontem à noite para saber que essas faixas de ferro disfarçadas de pano são uma tortura desnecessária. E, além do mais... seria um crime hediondo contra os deuses sufocar algo tão belo.

Tatsuyo sentiu o calor subir pelas bochechas, mordendo o lábio inferior.

— Você não tem vergonha nenhuma, não é? — murmurou ela, balançando a cabeça.

— Nenhuma — respondeu Kuro com um meio sorriso descarado nos lábios desenhados. — Especialmente não quando se trata de você.

O capitão afastou as tiras pesadas de linho rústico e esticou o braço até uma bolsa de couro militar que trouxera de sua própria tenda antes da batalha. De dentro dela, Kuro retirou uma peça de tecido diferente: uma faixa de seda crua, forrada com algodão macio e fechada por pequenos cordões de cetim, a vestimenta íntima tradicional que as mulheres nobres usavam para proteger e apoiar o busto com conforto.

Tatsuyo arregalou os olhos pretos ao reconhecer a peça.

— Onde você conseguiu isso?

— Enviei um cavaleiro de confiança até o comboio de bagagens dos oficiais ao amanhecer — explicou Kuro, desenrolando o tecido suave com uma naturalidade desconcertante. — Chi-Fu e os cortesãos viajam com todo tipo de luxo para suas concubinas e servas. Foi fácil confiscar sob o pretexto de material médico para os feridos graves.

Ele posicionou-se de joelhos diante dela na esteira, com o porte musculoso de um metro e oitenta bloqueando qualquer visão que viesse da fresta da lona.

— Fique parada — ordenou ele, a voz descendo para um sussurro aveludado. — Deixe que eu cuido disso.

Tatsuyo hesitou por uma fração de segundo, mas relaxou a postura, permitindo que o homem tomasse a iniciativa.

Kuro passou a fita macia pelas costas dela com mãos incrivelmente gentis, contrastando com a força brutal que ele demonstrara nas encostas contra os bárbaros. Ele cobriu suavemente os seios de Tatsuyo, ajustando a seda sobre a pele parda sem apertar além do necessário. A respiração do capitão tornou-se pesada ao sentir a maciez da carne sob seus dedos; ele não pôde evitar que o polegar roçasse deliberadamente sobre o bico sensível através do tecido, fazendo a jovem soltar um arquejo involuntário e fechar os olhos.

— Kuro... — advertiu ela, o peito subindo e descendo com rapidez.

— Apenas me certificando de que está bem ajustado — mentiu ele com a mais pura petulância, dando um nó firme e seguro nas costas da jovem, garantindo que o curativo do flanco permanecesse totalmente livre de pressão direta.

Ele recuou um palmo, admirando o resultado com olhos brilhantes. Tatsuyo estava protegida, confortável e ilesa de qualquer aperto excessivo que pudesse reabrir o golpe de Shan Yu.

Em seguida, ela levou as mãos à cabeça, buscando o grampo de ferro e a fita de couro para recolher a massa de cabelos escuros que caíam até a cintura em ondas desalinhadas. Mas a mão de Kuro a interrompeu mais uma vez, envolvendo seus dedos no ar.

— Deixe solto — disse ele.

Tatsuyo franziu a testa, confusa.

— O quê? Nenhum soldado da infantaria marcha com o cabelo solto desse jeito. É a primeira coisa que vai denunciar que não estou com o coque regulamentar de guerreiro!

— Confie em mim — respondeu o capitão, levantando-se e caminhando até um cabide de ferro improvisado.

Ele apanhou uma túnica preta de montaria, simples e folgada, ajudando Tatsuyo a vesti-la com extremo cuidado para não repuxar as costelas suturadas. As calças de lã grossa foram ajustadas com faixas laterais macias, sem o cinto pesado de ferro que costumava cortar sua respiração. Seus cabelos negros permaneceram livres, derramando-se em uma cortina escura sobre os ombros e pelas costas abaixo.

Foi então que Kuro pegou a última peça: uma capa colossal feita de couro de búfalo forrado com lã pesada e pele de urso cinzento. Era uma vestimenta cerimonial de alta patente, projetada para suportar nevascas extremas nos postos mais remotos do império.

Ele abriu a capa e envolveu os ombros de Tatsuyo.

O peso da peça desceu sobre o corpo de um metro e sessenta e três como uma fortaleza móvel. O couro grosso e rígido apagou imediatamente qualquer traço da anatomia feminina sob o tecido; não havia curvas, nem cintura, nem a linha dos quadris. Tatsuyo transformou-se em uma silhueta sólida, indistinta e imponente, exatamente como se esperaria de um guerreiro de elite gravemente ferido em combate.

Kuro deu um passo à frente e puxou o capuz profundo de couro sobre a cabeça dela.

A aba forrada de pele caiu até a linha de seu nariz, mergulhando o rosto de Tatsuyo em sombras impenetráveis. Os longos cabelos negros desapareceram por completo dentro das dobras generosas do manto, protegidos da vista de qualquer olhar curioso. Sob a penumbra do capuz, apenas seus lábios e o brilho firme de seus olhos pretos permaneciam visíveis para quem estivesse a menos de um palmo de distância.

Kuro tocou a borda do capuz com a ponta dos dedos, inclinando-se para encarar a escuridão onde os olhos dela faiscavam.

— Ninguém vai questionar o recruta que cravou uma lâmina no peito do comandante invasor — explicou Kuro, a voz firme e estrategicamente impecável. — Direi aos soldados e a Chi-Fu que você sofreu queimaduras de gelo e lacerações profundas no crânio e no tronco. Que o vento das montanhas reabrirá as feridas se o seu manto for retirado. Você não precisará falar com ninguém. Marchará ao meu lado, sob a minha escolta pessoal.

Tatsuyo ergueu o queixo sob o capuz, absorvendo a brilhante simplicidade do plano.

— E para o resto da China... — murmurou ela —, eu continuo sendo Kai Yume.

— Até cruzarmos os portões da capital — confirmou Kuro, aproximando o rosto a ponto de sentir a respiração dela sob o couro. — Quando chegarmos ao palácio e salvarmos o imperador, a verdade virá à tona nos nossos termos. Mas, até lá, você é o meu guerreiro mais valioso. E o único que sabe o que se esconde sob esta armadura.

Ele avançou a distância que restava e beijou os lábios dela com firmeza possessiva, saboreando a maciez da boca de Tatsuyo antes que a guerra exigisse novamente suas presenças no mundo dos homens. Tatsuyo retribuiu o beijo com paixão contida, segurando a gola da couraça de Kuro com dedos firmes.

Um pigarro ruidoso e dramaticamente asmático quebrou o momento.

No canto da tenda, o saco de linho tombara de lado. Uma cabeça vermelha e pontuda com bigodes dourados e compridos esgueirava-se pela abertura que finalmente conseguira rasgar com os dentes minúsculos. Mushu cuspiu uma bola minúscula de fiapos de lã e olhou para os dois com os olhos amarelos arregalados de puro cinismo.

— Já terminaram o teatro matrimonial? — resmungou o dragão, sacudindo as escamas empoeiradas e mancando teatralmente até o caixote. — Porque se eu tiver que assistir a mais uma cena dessa pouca vergonha antes do desjejum, vou me voluntariar para a infantaria inimiga só para ter um pouco de paz espiritual!

Tatsuyo soltou uma risada abafada sob as sombras do capuz pesado, ajustando as dobras do manto de couro ao redor do corpo.

Kuro virou-se devagar, encarando o pequeno espírito protetor com aquela habitual sobrancelha erguida e uma expressão que misturava divertimento e ameaça militar.

— Guardião — chamou o capitão em tom solene —, para dentro do bolso interno da sela. Se você fizer barulho na frente do conselheiro imperial, eu transformo você em cinzeiro cerimonial.

— Você não se atreveria, seu albino insolente! — chiou Mushu, mas enfiou-se rapidamente sob a barra da capa de Tatsuyo, escalando habilmente até se aninhar de forma invisível nas dobras quentes de couro perto de seu pescoço. — Tatsuyo, esse homem não tem respeito pela hierarquia mística. Mas admito... a capa escondeu bem esse seu rostinho de donzela. Pelo menos nisso ele prestou para alguma coisa.

Kuro estendeu a mão enluvada em direção à abertura da tenda, segurando a pesada cortina de lona.

— Está pronta, soldado? — perguntou ele, o tom voltando a ser o do lendário comandante do exército de Wu Zhong, mas com os olhos castanhos queimando com um juramento secreto que pertencia apenas aos dois.

Tatsuyo endireitou a coluna com determinação inabalável, deixando o calor do manto e a segurança da proteção daquele homem sustentarem seus passos. Sob o couro escuro, a guerreira e a mulher coexistiam em perfeita harmonia.

— Sempre pronta, capitão — respondeu ela, a voz saindo firme sob a penumbra do capuz.

Kuro puxou a lona para o lado, abrindo caminho para o vento gélido da manhã e para o destino que os aguardava nos portões da Cidade Imperial.

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