← Voltar ao resumo

Amor

O Sussurro das Marés e o Brilho das Estrelas

A manhã em Awa’atlu nasceu em tons de rosa e laranja, refletindo-se nas águas calmas que cercavam as maruis. Para Kuro, a adaptação ao estilo de vida dos Metkayina estava sendo um desafio, não pela dificuldade física — já que seu corpo de Avatar era forte e ágil —, mas pela constante vigilância a que era submetido.

Enquanto Neteyam e Lo’ak tentavam desesperadamente aprender a respirar com os pulmões, Kuro tinha os olhos fixos em um ponto específico da praia. Tatsuyo estava lá, como sempre, ajoelhada na beira da água, conversando com um grupo de pequenos Ilus recém-nascidos.

— Você vai acabar batendo a cara no coral se não parar de olhar para ela — provocou Lo’ak, emergindo da água com os cabelos encharcados.

— Eu não estou olhando — mentiu Kuro, ajeitando o cabelo branco que insistia em cair sobre os olhos. — Estou estudando a fauna local. É científico.

— Sei. A "fauna" tem nome, é a futura Tsahìk e o irmão dela está vindo para cá com um olhar de quem quer te atravessar com uma lança — disse Neteyam, apontando com o queixo para Aonung, que se aproximava com Rotxo.

Kuro deu de ombros, mas sentiu um frio na espinha quando viu, ao longe, a figura imponente de Ronal observando tudo do alto de uma plataforma. A Tsahìk dos Metkayina não escondia seu desdém pelos "povo do céu" que agora habitavam suas praias. Para ela, Kuro era uma abominação ainda maior que os outros: um espírito humano em um corpo Na'vi, uma mistura que ela considerava um insulto a Eywa.

Do outro lado, perto das redes de pesca, Neytiri também observava. Ela mantinha uma distância cautelosa de Ronal. O ódio mútuo entre as duas matriarcas era quase palpável no ar. Neytiri nunca aceitara totalmente Kuro. Embora Jake o tivesse acolhido como um filho após a transferência de consciência, para ela, ele sempre carregaria o cheiro do metal e da destruição dos humanos. Ver Kuro se aproximar da filha de Ronal era, para Neytiri, um desastre diplomático e pessoal esperando para acontecer.

Ignorando as tensões políticas, Kuro caminhou até a beira da água. Tatsuyo o viu e abriu um sorriso que parecia iluminar toda a enseada.

— Kuro! — exclamou ela, levantando-se e correndo em sua direção. A água espirrava ao redor de suas pernas cianas. — Você veio ver os bebês? Eles estão contando histórias sobre o fundo do mar.

— Histórias, é? — Kuro sorriu, sentindo aquela audácia característica borbulhar em seu peito. — E o que eles dizem sobre um Na'vi de cabelo branco que não sabe nadar direito?

Tatsuyo soltou uma risadinha cristalina, cobrindo a boca com a mão.

— Eles dizem que você é corajoso, mas que seus pés de cinco dedos são engraçados. Eles acham que você é um peixe que se esqueceu de como usar as barbatanas.

— Eles são muito atrevidos para peixes tão pequenos — brincou Kuro, aproximando-se mais do que o protocolo permitia.

Nesse momento, Tsireya se aproximou, carregando algumas cestas de frutas. Ela olhou para a irmã caçula com um carinho quase maternal.

— Tatsuyo, meu bebê, você não deveria estar ajudando a mãe com as ervas medicinais? — perguntou Tsireya, limpando um pouco de areia do rosto da irmã.

— A mãe disse que as ervas precisam descansar sob o sol antes de serem moídas, Reya — respondeu Tatsuyo com sua inocência habitual. — Então eu vim dar bom dia para Eywa no mar.

— Você é muito pura para este mundo, Tatsu — disse Tsireya, lançando um olhar de aviso para Kuro. — E você, Kuro, não deveria estar com meu irmão?

— Seu irmão não é exatamente a companhia que eu procuro quando quero ter um dia agradável, Tsireya — respondeu ele, piscando para ela.

A conversa foi interrompida por uma sombra que se projetou sobre eles. Ronal havia descido de sua plataforma. Sua presença era esmagadora, e o silêncio caiu sobre os jovens imediatamente.

— Tatsuyo — a voz de Ronal era como o trovão antes da tempestade. — Afaste-se dele.

— Mas, mãe, o Kuro estava me contando sobre as estrelas... — começou a menina, com os olhos grandes e suplicantes.

— As estrelas do povo do céu são frias e vazias, como eles — sentenciou Ronal, lançando um olhar de puro nojo para as mãos de cinco dedos de Kuro. — Você é a futura Tsahìk. Não deve poluir seu espírito com as memórias de um demônio que veste a nossa pele.

Kuro sentiu o sangue ferver. Ele deu um passo à frente, apesar do sinal frenético que Neteyam fazia ao fundo para ele recuar.

— Eu não sou um demônio, Tsahìk — disse Kuro, a voz firme. — Eu nasci humano, é verdade. Mas Eywa me deu este corpo. Se ela me aceitou, por que a senhora não pode?

Ronal estreitou os olhos, a crista de suas costas parecendo se eriçar.

— Eywa permite que o vento sopre a poeira, mas isso não significa que a poeira pertença ao oceano.

— O que está acontecendo aqui? — A voz de Neytiri surgiu, cortante como uma faca. Ela se aproximou, ficando ao lado de Kuro, não por carinho, mas por orgulho de seu clã. — Ronal, meus filhos e os que viajam conosco estão sob a proteção do Olo'eyktan.

— Seus "filhos" trazem o caos — rebateu Ronal, encarando Neytiri. — E este aqui... — ela apontou para Kuro — ...é um erro que deveria ter ficado no laboratório dos seus amigos humanos.

Neytiri rosnou, um som baixo e perigoso que vinha do fundo da garganta.

— Ele luta como um Omatikaya. Ele sangra azul como nós. Se você tem um problema com ele, tem um problema comigo.

Tatsuyo, vendo a tensão entre as duas mulheres, sentiu os olhos encherem de lágrimas. Ela não entendia por que havia tanto ódio. Para ela, tudo em Pandora estava conectado por fios invisíveis de luz.

— Por favor... — pediu a menina, a voz trêmula. — O mar está ficando agitado porque vocês estão bravas. As flores de coral estão se fechando.

A inocência de Tatsuyo era a única coisa capaz de desarmar Ronal momentaneamente. A mãe suspirou, pegando a filha pelo pulso com firmeza, mas sem machucar.

— Venha, Tatsuyo. Você tem muito a aprender antes que esses estranhos destruam nossa paz.

Enquanto era levada, Tatsuyo olhou para trás. Kuro ainda estava lá, parado na areia, com o vento agitando seu cabelo branco. Ela soltou um pequeno sinal de mão, um gesto que ele a vira fazer para os peixes — um sinal de amizade e promessa.

Neytiri virou-se para Kuro assim que as Metkayina se afastaram.

— Você é um idiota — sibilou ela. — Já não temos problemas suficientes? Por que você tem que perseguir a filha de Tonowari?

— Eu não estou perseguindo ninguém, Neytiri — respondeu Kuro, cruzando os braços. — Ela é a única pessoa neste lugar que não olha para mim como se eu fosse um monstro.

— Porque ela é uma criança! — exclamou Neytiri. — Ela não entende o que você é. Ela não viu o que o seu povo fez com a nossa casa.

— Eu não sou "meu povo", Neytiri! — gritou Kuro, a frustração finalmente transbordando. — Eu morri naquela maca de hospital para renascer aqui. Eu escolhi Pandora. Quando é que você vai parar de me punir por algo que eu abandonei?

Neytiri não respondeu. Ela apenas lançou um olhar frio e se afastou, deixando Kuro sozinho com seus pensamentos e o som das ondas.

Mais tarde naquela noite, quando a bioluminescência de Awa’atlu transformava a vila em um cenário de sonhos, Kuro escapou de sua marui. Ele sabia que era perigoso, mas a curiosidade e o desejo de ver Tatsuyo eram mais fortes.

Ele a encontrou perto da Árvore das Almas submersa, em um afloramento rochoso onde a água era rasa e brilhava com um azul elétrico. Ela estava sentada, observando as estrelas.

— Você veio — disse ela, sem se virar. — Eu sabia que o menino das nuvens viria.

— Como sabia? — perguntou ele, sentando-se ao lado dela.

— As ondas me contaram. Elas trazem o som do seu coração. Ele bate muito rápido quando você está perto de mim.

Kuro riu, sentindo-se vulnerável pela primeira vez em muito tempo.

— É, elas não mentiram.

— Minha mãe diz que você é perigoso — Tatsuyo virou-se para ele, os olhos brilhando na escuridão. — Mas eu não vejo perigo. Eu vejo... solidão. Você se sente como um peixe fora d'água, Kuro?

A profundidade da pergunta o pegou de surpresa. Tatsuyo podia ser jovem e inocente, mas sua conexão espiritual lhe dava uma sabedoria que ultrapassava seus quinze anos.

— Às vezes — confessou ele. — Sinto que não pertenço a lugar nenhum. Nem à terra, nem à floresta, e certamente não ao mar.

Tatsuyo estendeu a mão e tocou o peito dele, bem sobre o coração.

— Você pertence a Eywa. E Eywa está em todo lugar. Se você está aqui agora, é porque o mar queria que você estivesse.

Kuro cobriu a mão dela com a sua. A diferença entre a pele ciana dela e o azul escuro dele era gritante sob a luz da lua, mas o calor era o mesmo.

— Você é especial, Tatsu. Não deixe que eles tirem essa sua luz. Nem sua mãe, nem a minha... bom, a Neytiri.

— A "mãe da floresta" é brava — Tatsuyo comentou, fazendo uma careta engraçada. — Ela olha para mim como se eu fosse uma fruta que ela não sabe se é doce ou venenosa.

— Ela só está tentando proteger o que restou da família dela — explicou Kuro. — E a sua mãe está tentando proteger o futuro do clã. Nós somos... o problema no meio disso tudo.

— Eu não gosto da palavra problema — Tatsuyo bocejou, encostando a cabeça no ombro de Kuro. — Prefiro "encontro".

Eles ficaram ali por um longo tempo, em silêncio, observando o movimento das águas. Kuro sentia uma paz que não experimentava desde que chegara às ilhas. A presença de Tatsuyo era como um bálsamo. Ele sabia que Aonung o mataria se os encontrasse, e que Ronal e Neytiri provavelmente teriam um colapso, mas ali, naquele momento, nada disso importava.

— Kuro? — chamou ela baixinho.

— Sim?

— Me conte uma história das estrelas? De onde você veio?

Kuro olhou para o céu, para os pontos de luz que um dia foram sua casa e que agora pareciam tão distantes quanto um sonho esquecido.

— Bem... lá em cima, as pessoas esqueceram de ouvir a terra. Eles construíram montanhas de metal e luzes que nunca se apagam. Mas eles perderam o silêncio. Eles perderam o que você tem aqui.

— Parece um lugar triste — murmurou ela.

— Era. Por isso eu vim para cá. Para encontrar o silêncio. E acho que acabei encontrando algo muito mais bonito.

Tatsuyo sorriu, fechando os olhos.

— Durma, menino das nuvens. As ondas vão cuidar de nós.

Kuro não dormiu. Ele ficou vigiando o sono da futura Tsahìk, sabendo que a manhã traria novos conflitos, novos treinos e a eterna desconfiança dos adultos. Mas enquanto a mão de Tatsuyo estivesse entrelaçada na sua, ele sentia que poderia aprender a nadar, a voar e a enfrentar qualquer tempestade que o oceano de Pandora decidisse lançar em seu caminho.

Longe dali, escondida entre as sombras das árvores de mangue, Tsireya observava os dois. Ela tinha um sorriso triste nos lábios. Ela sabia que sua "bebê" estava crescendo e que o amor, especialmente um amor proibido como aquele, era a força mais poderosa e perigosa de Pandora.

— Que Eywa os proteja — sussurrou a jovem Metkayina para o vento. — Porque as mães certamente não o farão.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.