← Voltar ao resumo

Amor

O Batismo do Mar e o Brilho de Ilu

A luz da manhã em Awa’atlu não apenas iluminava; ela parecia atravessar as águas, transformando o fundo do oceano em um vitral vivo de turquesa e esmeralda. Para os Omatikaya, no entanto, aquela beleza era um campo de batalha. Neteyam, Lo’ak e Kiri tentavam desesperadamente controlar sua respiração, enquanto Kuro, com seus ombros largos e cabelos brancos espetados, parecia mais preocupado em não perder Tatsuyo de vista.

— Lembrem-se: o mar não é algo que você luta contra — explicou Tsireya, movendo as mãos graciosamente para demonstrar o ritmo das ondas. — O mar é algo que você convida para dentro de si.

— É mais fácil falar do que fazer quando você sente que seus pulmões vão explodir — resmungou Lo’ak, cuspindo água salgada.

Aonung soltou uma risada anasalada, montado em seu Ilu com uma arrogância natural.

— Talvez seja porque vocês têm essas caudas de macaco que não servem para nada aqui.

— Aonung, pare com isso! — repreendeu Tsireya, antes de se virar para o grupo com um sorriso doce. — Hoje vamos levá-los até a Árvore das Almas submersa. É o lugar mais sagrado da nossa enseada. Tatsuyo, você leva a Kiri e o Kuro no seu Ilu.

Tatsuyo, que estava distraída tentando fazer cócegas em um pequeno peixe que passava, deu um pulinho de alegria. Seus cabelos ondulados brilhavam como seda molhada.

— Sim, Reya! — Ela nadou até seu Ilu, uma criatura esguia e dócil que parecia responder ao menor dos seus pensamentos. — Venham, Kiri! Kuro! Meu Ilu é muito rápido, ele gosta do cheiro das nuvens que o Kuro traz!

— Cheiro de nuvens? — Kiri riu, subindo na montaria com a agilidade que lhe era peculiar. — Acho que ele só cheira a suor e teimosia, Tatsu.

Kuro subiu logo atrás, posicionando-se de forma que pudesse segurar a cintura de Tatsuyo para se equilibrar, embora sua mão de cinco dedos parecesse hesitar por um segundo antes de tocar a pele ciana e macia da menina.

— Segurem firme! — Tatsuyo exclamou, sua voz subindo uma oitava de pura excitação. — Vamos, bebê! — disse ela para a criatura, embora Tsireya frequentemente usasse esse mesmo apelido para se referir à própria Tatsuyo.

Com um impulso poderoso, os Ilus mergulharam.

A transição da superfície para o fundo foi um choque de sentidos. Para Kuro, o mundo subitamente ficou silencioso, exceto pelo pulsar rítmico do oceano. Ele viu Neteyam lutando para acompanhar Aonung, enquanto Lo’ak parecia mais interessado em impressionar Tsireya do que em realmente aprender a técnica. Mas sua atenção logo voltou para a menina à sua frente.

Tatsuyo nadava com uma fluidez que desafiava a lógica. Ela não parecia estar montada em um animal; ela parecia ser parte dele. Kiri, ao lado deles, fechou os olhos, conectando-se à rede espiritual de Pandora que ela sentia tão intensamente, mas Kuro estava focado na realidade física: o calor das costas de Tatsuyo contra seu peito e a maneira como ela ria debaixo d'água, soltando pequenas bolhas de prata que subiam como pérolas.

Eles desceram mais fundo, onde a luz do sol se tornava azulada e etérea. À frente, uma estrutura magnífica começou a surgir. Não era uma árvore de madeira e folhas, mas de luz e conexões neurais. Os ramos da Árvore das Almas submersa balançavam lentamente na correnteza, como fios de fibra óptica orgânica, brilhando em um rosa fosforescente e roxo profundo.

Tatsuyo guiou o Ilu para uma parada suave perto das raízes luminosas. Ela fez um sinal para que eles descessem. Debaixo d'água, a comunicação era feita por gestos e pela conexão espiritual.

Kuro sentiu a pressão em seus ouvidos, mas a visão era tão avassaladora que ele quase esqueceu de respirar. Tatsuyo nadou até ele e pegou sua mão de cinco dedos, guiando-o em direção aos filamentos brilhantes. Kiri já estava em transe, tocando as luzes com uma expressão de êxtase puro.

Tatsuyo olhou nos olhos de Kuro. Através da máscara de água, seus olhos pareciam ainda maiores, cheios de uma pureza que o fazia se sentir, pela primeira vez, verdadeiramente limpo de seu passado humano. Ela apontou para a própria trança e depois para a árvore, incentivando-o a fazer o Tsaheylu.

Kuro hesitou. Ele raramente se conectava com as árvores sagradas; a voz de Eywa às vezes era alta demais para alguém que ainda se sentia um intruso. Mas Tatsuyo insistiu, aproximando sua própria trança da dele, unindo suas conexões antes mesmo de tocarem a árvore.

O impacto foi imediato.

Kuro não viu apenas a história dos Metkayina; ele sentiu a alegria de Tatsuyo. Ele sentiu o amor dela pelas criaturas pequenas, sua confusão diante da raiva dos adultos e, mais surpreendentemente, uma curiosidade vibrante e doce em relação a ele. Para ela, Kuro não era um "avatar" ou um "humano transformado". Ele era uma música nova em um instrumento antigo.

Quando eles se desconectaram e voltaram à superfície minutos depois, emergindo com arquejos profundos em busca de ar, o silêncio durou longos segundos.

— Isso foi... — Neteyam começou, limpando a água dos olhos — ...diferente de tudo na floresta.

— É como se o mar estivesse vivo e estivesse nos contando segredos — disse Kiri, ainda parecendo distante.

Tatsuyo nadou até a borda de uma rocha baixa e subiu, sentando-se com as pernas balançando na água. Ela olhou para Kuro, que ainda estava no mar, observando-a.

— Você ouviu, Kuro? — perguntou ela, a voz doce voltando ao normal. — A árvore disse que você tem raízes agora. Elas são pequenas, mas estão crescendo na areia.

Kuro nadou até ela, apoiando os braços na rocha entre as pernas da menina.

— Eu ouvi algo sim, Tatsu. Mas acho que ouvi mais o que estava no seu coração do que na árvore.

Tatsuyo inclinou a cabeça, as orelhas movendo-se levemente.

— Meu coração faz muito barulho? — perguntou ela, genuinamente preocupada. — A mamãe diz que as Tsahìks devem ser silenciosas como a lua.

— Não mude nada — disse Kuro, sua voz ficando mais grave e carregada de uma intensidade que fez Aonung, a alguns metros de distância, estreitar os olhos. — O barulho que ele faz é a coisa mais bonita que eu já ouvi neste planeta.

— Ei! — Aonung gritou, aproximando seu Ilu e jogando água na direção de Kuro. — Já chega de poesia. Temos que voltar antes que o eclipse comece. E você, "cinco dedos", afaste-se da minha irmã.

Tatsuyo riu, jogando água de volta no irmão.

— Não seja bobo, Aonung! O Kuro só está aprendendo a ser um Metkayina. Ele precisa de uma guia, e Eywa disse que eu sou a melhor nisso.

Tsireya se aproximou de Lo’ak, sorrindo para a interação.

— Ela tem razão, irmão. Deixe que eles se conheçam. Tatsuyo tem um dom de ver o que nós, às vezes, ignoramos.

— Ela é um bebê, Tsireya! — protestou Aonung. — Ela não entende as intenções desse... desse tipo de gente.

Kuro deu um sorriso de canto, aquele olhar audacioso voltando ao seu rosto.

— Minhas intenções são muito simples, Aonung. Eu só quero ver o que mais essa "guia" tem para me mostrar. E se isso te incomoda, talvez você devesse passar menos tempo me vigiando e mais tempo aprendendo a nadar tão bem quanto sua irmã.

O clima esquentou instantaneamente. Aonung fez menção de pular do Ilu, mas Neteyam se posicionou entre os dois, flutuando na água com uma calma autoritária.

— Já chega — ordenou o primogênito de Jake Sully. — Viemos aqui para aprender e para honrar o convite de Tonowari. Não vamos estragar o dia com brigas inúteis.

Tatsuyo, sentindo a tensão, deslizou de volta para a água e nadou até Kuro, segurando seu braço.

— Não briguem — pediu ela, com aqueles olhos grandes que desarmavam qualquer guerreiro. — O mar fica escuro quando o ódio cresce. Vamos apostar uma corrida até a vila! Quem chegar por último vai ter que ajudar a limpar as redes de pesca do meu pai!

Sem esperar por uma resposta, ela mergulhou, desaparecendo como um flash de luz azul sob as ondas.

— Tatsu! Espere! — gritou Tsireya, rindo e mergulhando logo atrás.

Lo’ak e Kiri não perderam tempo, seguidos por um Neteyam que tentava manter a ordem enquanto Aonung e Rotxo disparavam na frente, determinados a não perder para os "estrangeiros".

Kuro ficou parado por um segundo, observando o rastro de bolhas que Tatsuyo deixara para trás. Ele olhou para suas mãos de cinco dedos, depois para o horizonte onde o sol começava a baixar.

— Ela é a futura Tsahìk — murmurou ele para si mesmo, um sorriso predatório e ao mesmo tempo admirado surgindo em seus lábios. — E eu sou apenas um erro da natureza. Isso vai ser muito divertido.

Ele mergulhou com força, seus músculos de Avatar impulsionando-o através da água salgada. Ele não era tão rápido quanto os Metkayina, nem tão gracioso quanto Tatsuyo, mas ele tinha uma determinação que nenhum deles conhecia. Ele seguiu o brilho da pele ciana dela, guiado pelo som daquela risada que agora parecia ser a única bússola de que ele precisava em todo o vasto oceano de Pandora.

Ao longe, perto da vila, Tonowari e Ronal observavam o retorno dos jovens. Ronal tinha os braços cruzados sobre o peito, sua expressão severa.

— Veja como ela brinca com ele, Tonowari — disse a Tsahìk, a voz cheia de presságio. — Ela é pura luz, e ele é uma sombra vestida de azul.

— As sombras também fazem parte do mundo, Ronal — respondeu o Olo'eyktan calmamente. — E às vezes, é a sombra que nos permite ver a força da luz. Deixe-os. Eywa tem um caminho para cada um, mesmo para aqueles que vieram das estrelas.

Ronal não respondeu, mas seus olhos nunca deixaram a figura de Kuro, que emergia da água logo atrás de sua filha caçula, como um caçador que, sem perceber, estava prestes a se tornar a presa de algo muito mais profundo do que o mar.

Entrar com Telegram

Confirme o login no bot.