Amor
O Beijo da Maré e o Fogo das Estrelas
Dois meses haviam se passado desde que os Omatikaya buscaram refúgio nas águas cristalinas dos Metkayina. Para Kuro, esse tempo foi uma eternidade de descobertas. Ele aprendera a montar um Skimwing com a força bruta de um guerreiro e a paciência de um caçador, mas sua maior lição não veio das feras marinhas, e sim da menina que parecia feita de espuma e luz solar.
Tatsuyo não era mais apenas a "futura Tsahìk" aos olhos dele. Ela era o seu equilíbrio. Enquanto o mundo de Kuro era feito de arestas, cabelos brancos rebeldes e a audácia de quem já morreu uma vez, o mundo de Tatsuyo era uma sinfonia de toques suaves e conexão espiritual.
Naquela noite, a vila de Awa’atlu estava em silêncio. O eclipse cobria Pandora, e a bioluminescência da flora marinha atingia seu ápice, pintando tudo em tons de neon vibrante. Kuro caminhava pela orla, seus pés de cinco dedos deixando marcas profundas na areia úmida. Ele sabia onde encontrá-la. Tatsuyo sempre ia para a Enseada dos Espíritos quando a lua se escondia, um lugar onde as falésias formavam uma concha natural, protegida dos olhares vigilantes de Aonung e da severidade de Ronal.
Ele a viu de longe. Ela estava na beira da água, mas não estava rezando. Ela apenas observava os minúsculos seres brilhantes que dançavam ao redor de seus tornozelos.
— Você está ficando boa em se esconder — disse Kuro, aproximando-se com a leveza que aprendera na floresta.
Tatsuyo se virou, e o sorriso que iluminou seu rosto foi mais forte que qualquer brilho marinho.
— Eu não me escondo de você, Kuro. Eu espero por você. As ondas me disseram que você vinha com o coração pesado hoje.
Kuro sentou-se ao lado dela, suspirando. A tensão entre Jake e Tonowari sobre os preparativos para uma possível guerra estava drenando suas energias. Mas ali, com ela, o peso parecia dissipar.
— Suas ondas falam demais, Tatsu — brincou ele, mas seus olhos amarelos brilhavam com uma intensidade nova.
— Elas não mentem — respondeu ela, aproximando-se. Ela tocou o ombro dele, sentindo os músculos tensos. — Você carrega o mundo nas costas, menino das nuvens. Por que não o deixa afundar um pouco? O mar pode segurá-lo para você.
Kuro olhou para ela, fascinado pela inocência que ainda residia naqueles olhos, apesar de tudo o que ela estava aprendendo sobre ser uma líder espiritual.
— Às vezes eu tenho medo de que, se eu afundar, eu nunca mais consiga voltar para a superfície.
Tatsuyo inclinou a cabeça, os cabelos ondulados caindo sobre o peito adornado com pequenas pérolas.
— Eu nadaria até o fundo para te buscar. Eu sempre busco o que é precioso.
O ar entre eles mudou. Não era mais a brincadeira de dois jovens se conhecendo, mas algo mais denso, uma gravidade que puxava um para o outro. Kuro estendeu a mão e, com uma delicadeza que ele raramente mostrava a qualquer outra pessoa, contornou o rosto ciana dela.
— Você sabe o que é um beijo, Tatsu? — perguntou ele, a voz quase um sussurro.
Tatsuyo piscou, confusa.
— Beijo? É algo que o povo da floresta faz para curar feridas?
Kuro soltou uma risada curta, mas sem vestígio de deboche.
— De certa forma, sim. É uma forma de dizer "eu vejo você" sem usar palavras. É o que as pessoas que se gostam muito fazem.
Tatsuyo ficou em silêncio por um momento, processando a informação. Ela olhou para os lábios de Kuro e depois voltou para os olhos dele.
— Então eu quero — disse ela com uma simplicidade desarmante. — Eu vejo você, Kuro. Mais do que qualquer um em Awa’atlu vê.
Kuro hesitou. Ela era pura, a protegida de Eywa, e ele era... ele. Mas a maneira como ela o olhava, sem medo, sem julgamento, quebrou sua última resistência. Ele se inclinou lentamente. Quando seus lábios finalmente tocaram os dela, foi como se o oceano e a floresta colidissem.
Tatsuyo soltou um pequeno suspiro de surpresa. Era uma sensação estranha, o toque suave e quente, o gosto de sal e algo doce que pertencia apenas a ele. Instintivamente, ela fechou os olhos e agarrou os ombros de Kuro, puxando-o para mais perto. O beijo começou tímido, uma exploração de almas curiosas, mas logo se tornou mais profundo, guiado pelo desejo que ambos vinham reprimindo há meses.
— Isso... é muito bom — murmurou Tatsuyo contra os lábios dele, a respiração ofegante. — É como se o meu Tsaheylu estivesse queimando, mas sem tocar em nada.
— É o fogo, Tatsu — disse Kuro, afastando-se apenas alguns centímetros para olhar para ela. — É o fogo que os humanos trouxeram, mas que Eywa transformou em algo que não destrói.
Ele a conduziu para a areia macia, sob a proteção das rochas. A bioluminescência ao redor deles parecia pulsar no ritmo de seus corações. Kuro começou a desamarrar as joias de conchas que ela usava, seus movimentos lentos e reverentes.
— Tem certeza? — perguntou ele, a voz rouca. — Se fizermos isso, não haverá volta. Eu serei seu, e você será minha, perante Eywa e o mar.
Tatsuyo tocou o peito dele, sentindo a batida frenética do coração de Kuro sob a pele azul escura.
— Minha mãe diz que Eywa me pediu para ser a próxima Tsahìk para guiar nosso povo — disse ela, os olhos brilhando com uma determinação madura que ele nunca vira. — Mas eu sinto que Eywa me deu você para que eu não me perdesse no caminho. Eu não tenho medo, Kuro. O mar aceita tudo o que é verdadeiro.
Kuro a beijou novamente, desta vez com uma fome que o fez esquecer todas as suas inseguranças. Suas mãos percorreram as curvas dela, admirando a força e a graça daquela guerreira espiritual. Quando ele se uniu a ela, Tatsuyo soltou um grito baixo, não de dor, mas de uma descoberta avassaladora.
Era uma conexão que ia além do físico. Por ser um Avatar e ela uma Na'vi com uma ligação espiritual tão profunda, a energia entre eles era quase visível. Faíscas de luz pareciam saltar de suas peles onde se tocavam. Kuro sentiu cada emoção dela — a surpresa inicial, a entrega total e a doçura infinita que ela nutria por ele.
Tatsuyo, por sua vez, sentiu a tempestade que era Kuro. Ela sentiu a dor de sua vida passada, a solidão de ser um estranho em dois mundos e, finalmente, a paz que ele encontrava apenas em seus braços. Ela o envolveu com suas pernas, puxando-o para dentro de seu mundo, batizando-o nas águas de sua própria essência.
— Kuro... — ela chamou seu nome como se fosse uma prece, enquanto as ondas quebravam suavemente na entrada da enseada, selando o momento.
Eles se moveram juntos em um ritmo que parecia ditado pelas marés. Não havia pressa, apenas a necessidade de se tornarem um só. Para Kuro, aquela era a sua verdadeira transferência de alma. Não em uma máquina humana, mas ali, no chão de Pandora, nos braços da mulher que o amava.
Quando o êxtase finalmente os alcançou, foi como se uma estrela tivesse explodido dentro da enseada. Eles ficaram abraçados por muito tempo, as respirações se acalmando enquanto o eclipse começava a passar, revelando a luz suave de Polifemo no céu.
Tatsuyo estava deitada no peito de Kuro, desenhando círculos invisíveis em sua pele.
— Agora eu entendo — disse ela baixinho.
— Entende o quê? — perguntou ele, beijando o topo da cabeça dela.
— Por que as flores se abrem para o sol. Elas não têm escolha. Elas precisam da luz para saberem quem são. Você é a minha luz, Kuro.
Kuro sentiu um nó na garganta. Ele, que sempre se considerou uma sombra, alguém destinado a lutar e talvez morrer sem deixar rastros, agora era a luz de alguém.
— E você é o meu oceano, Tatsu. Você me deu um lugar para descansar.
Eles sabiam que o dia seguinte traria perigos. Sabiam que Ronal ficaria furiosa se descobrisse e que Aonung provavelmente tentaria matá-lo. Mas enquanto as estrelas brilhavam acima deles, Kuro e Tatsuyo sabiam que pertenciam um ao outro. O "menino das nuvens" e a "flor de coral" haviam criado algo novo, uma união que nem o fogo nem a água poderiam destruir.
— O que faremos agora? — perguntou Tatsuyo, levantando o rosto para olhá-lo.
Kuro sorriu, o brilho atrevido voltando aos seus olhos, mas agora temperado com um amor profundo.
— Agora, nós enfrentamos o mundo. Mas primeiro... — ele a puxou para outro beijo — ...eu acho que você precisa de mais algumas "lições" sobre como o povo da floresta demonstra afeto.
Tatsuyo riu, a inocência voltando em sua forma mais radiante.
— Eu sou uma aluna muito dedicada, Kuro.
E sob o céu de Pandora, o amor proibido floresceu, tão forte e resiliente quanto os corais que resistiam às tempestades mais violentas do mar de Awa’atlu.