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AMOR APESAR DE TUDO

O Segredo do Urso de Pelúcia

A mansão de Jack era um monumento ao poder, um labirinto de mármore e aço onde decisões de vida e morte eram tomadas entre um gole de uísque e outro. Mas, para Kyo, aquele lugar estava começando a se transformar em algo diferente. Nas semanas que se seguiram ao jantar com as famílias da máfia, a tensão de manter a fachada de "rainha do império" começou a cobrar seu preço. Por trás dos vestidos de seda e do olhar gélido que lançava aos inimigos de Jack, havia uma parte dela que clamava por algo que o mundo do crime jamais poderia oferecer: segurança, pureza e a liberdade de não ser adulta.

Jack notou a mudança. Ele era um homem que lia as pessoas como se fossem livros abertos, e Kyo era sua obra favorita. Ele percebeu que, em certos momentos, quando ela pensava que estava sozinha, sua postura mudava. O olhar afiado desaparecia, substituído por uma inocência desconcertante. Ela cantarolava músicas de ninar baixinho e escondia pequenos objetos — um giz de cera, uma fita colorida — nas gavetas de sua escrivaninha de carvalho.

Certa tarde, Jack voltou mais cedo de uma reunião em que havia selado o destino de um cartel rival. O silêncio da ala leste da mansão foi quebrado por um som que ele nunca esperaria ouvir ali: o som de uma risada infantil, pura e despretensiosa.

Ele caminhou silenciosamente até o quarto de Kyo. A porta estava entreaberta. O que ele viu o fez parar, o coração batendo em um ritmo que nenhuma ameaça de morte jamais conseguiu provocar.

Kyo estava sentada no tapete persa, cercada por ursos de pelúcia que ela devia ter comprado escondida. Ela usava uma camiseta de Jack, que ficava enorme nela, e prendia o cabelo em duas maria-chiquinhas desalinhadas. Ela falava com um dos ursos, a voz agora fina, doce, desprovida de qualquer malícia.

— O senhor Urso tem que comer tudo, senão não vai crescer forte como o Jack — dizia ela, fingindo alimentar o brinquedo com uma colher de plástico. — O Jack é grande e protege a gente, mas ele é bravo às vezes. A gente tem que ser bonzinho, tá?

Jack sentiu um nó na garganta. Ele sabia o que era aquilo. Em suas décadas de vida e no submundo, ele ouvira falar de mecanismos de defesa, de pessoas que retrocediam a uma idade mental mais jovem para lidar com traumas ou pressões extremas. Infantilismo. Kyo, a mulher que enfrentara Moretti, era também uma criança de cinco anos que só queria ser cuidada.

Ele empurrou a porta devagar. Kyo deu um pulo, os olhos arregalados de puro terror. A cor sumiu de seu rosto e ela tentou esconder o urso atrás das costas, tremendo visivelmente.

— Jack! Eu... eu só estava... — A voz dela falhou, oscilando entre a mulher e a criança.

Jack entrou no quarto e fechou a porta atrás de si. Ele não parecia o mafioso impiedoso agora; seus olhos estavam úmidos de uma compreensão profunda. Ele se aproximou lentamente e se ajoelhou no tapete, ficando na altura dela.

— Por que não me contou, pequena? — perguntou ele, a voz tão suave que parecia um sussurro.

Kyo começou a chorar, soluços convulsivos que sacudiam seu corpo pequeno.

— Você vai me odiar... você queria uma rainha, uma mulher forte... e eu sou estragada, Jack! Eu sou um bebê... eu não consigo evitar! — As palavras saíam atropeladas, carregadas de uma vergonha que o partia ao meio.

Jack estendeu os braços e, sem dizer nada, a puxou para o seu colo. Kyo se encolheu contra o peito dele, agarrando sua camisa como se sua vida dependesse disso.

— Shhh... calma. Eu não quero uma rainha se isso significa que você tem que sofrer em silêncio — disse ele, beijando o topo da cabeça dela. — Eu quero você. Todas as suas versões. Se você precisa ser pequena para se sentir segura, então este será o seu refúgio. Ninguém vai entrar aqui. Ninguém vai saber.

Kyo olhou para ele, as lágrimas ainda escorrendo.

— Você não está bravo?

— Nunca — afirmou Jack, limpando o rosto dela com o polegar. — Na verdade, eu acho que gosto da ideia de ter alguém para cuidar de verdade. O mundo lá fora é sujo, Kyo. Se você pode manter essa pureza aqui dentro, eu farei de tudo para protegê-la.

Naquela tarde, o maior mafioso do mundo não falou de negócios. Ele sentou-se no chão e, sob a orientação de uma Kyo agora radiante e tímida, participou de um chá imaginário. Ele aprendeu os nomes de todos os ursos e descobriu que Kyo adorava quando ele fazia vozes diferentes para os brinquedos.

No entanto, a dualidade de Kyo criava uma tensão erótica e emocional que Jack nunca experimentara. Ele a desejava como a mulher ardente que ela era, mas sentia um instinto protetor avassalador pela criança que ela se tornava.

— Jack — chamou ela, puxando a manga de seu terno —, a Kyo pequena quer um abraço bem forte.

Ele a envolveu em seus braços, sentindo o calor do corpo dela. Mas, conforme o tempo passava, o abraço mudou de natureza. O olhar de Kyo começou a escurecer, a névoa do infantilismo dissipando-se para dar lugar à mulher que conhecia o toque de seu marido. Era como se a aceitação de Jack tivesse liberado uma barreira, permitindo que as duas identidades coexistissem.

— Você me aceitou — sussurrou ela, a voz voltando ao tom sedutor e maduro. — Você não faz ideia do que isso faz comigo.

Jack a deitou no tapete, sobrepondo seu corpo ao dela. A transição foi eletrizante.

— Eu aceito tudo o que você é, Kyo. Mas agora, eu preciso da minha esposa.

Ele a beijou com uma urgência renovada, uma paixão que queimava mais forte por causa da vulnerabilidade partilhada. Jack despiu a camiseta larga que ela usava, revelando o corpo de dezoito anos que ele tanto cobiçava. Ele a possuiu ali mesmo, entre os ursos de pelúcia e o chá de brinquedo, em um ato que misturava uma possessividade feroz com uma ternura infinita.

— Você é minha — rosnou ele contra a pele do pescoço dela. — Minha menina, minha mulher, minha vida.

— Sim... — gemia Kyo, cravando as unhas nas costas dele, sentindo-se mais completa do que jamais fora. — Só sua, Jack. Sempre.

A relação deles atingiu um novo patamar de complexidade. Jack comprou os melhores brinquedos, as roupas mais macias e transformou uma parte secreta da mansão em um paraíso para a "pequena Kyo". Mas, ao mesmo tempo, ele a treinava para ser implacável nas reuniões de negócios.

Semanas depois, durante uma conferência de vídeo com fornecedores russos, Kyo estava ao lado de Jack, impecável em um terno vermelho, negociando termos que fariam homens feitos tremerem. Ela era a imagem da sofisticação e do perigo.

— Se os prazos não forem cumpridos — disse ela friamente para a tela —, o senhor Jack não enviará apenas um aviso. Ele enviará uma equipe de limpeza. Fui clara?

Os russos assentiram prontamente, intimidados. Assim que a chamada terminou, Kyo soltou um longo suspiro e seus ombros relaxaram. Ela olhou para Jack com olhos brilhantes.

— Eu fui bem, papai Jack? — perguntou ela, a regressão vindo de forma natural e rápida.

Jack sorriu, levantando-se e indo até ela. Ele a pegou no colo, como se ela não pesasse nada.

— Você foi perfeita, meu anjo. Agora, o que você quer fazer?

— Quero sorvete de morango e quero que você me conte uma história — disse ela, escondendo o rosto no pescoço dele.

— Então é isso que você terá — prometeu ele.

Enquanto caminhava pelos corredores da mansão, Jack percebeu que sua vida, antes focada apenas em números e sangue, agora tinha uma cor vibrante. Ele tinha cinquenta e dois anos, mas ao lado de Kyo, ele sentia que o tempo não importava. Ele era o protetor de uma criança divina e o amante de uma mulher fatal.

Mas o mundo da máfia não é feito de finais felizes permanentes. O segredo de Kyo era sua maior força, mas também sua maior fraqueza. E Jack sabia que, se alguém descobrisse a verdade, usariam isso para tentar destruí-lo.

— Jack? — chamou ela, enquanto ele a colocava na cama grande e macia.

— Sim, pequena?

— Você nunca vai me deixar, né? Mesmo se eu for chata e chorar?

Jack sentou-se ao lado dela e pegou sua mão pequena.

— Kyo, eu construí um império sobre cadáveres e traição. Eu vi o pior que a humanidade tem a oferecer. E então eu encontrei você. Você é a única coisa pura que eu possuo. Eu queimaria o mundo inteiro antes de deixar uma única lágrima de tristeza cair dos seus olhos.

Ele a beijou na testa, um gesto de devoção pura. Mas conforme a noite caía, o desejo voltava a borbulhar. Kyo se aconchegou a ele, sua mão subindo pelo peito dele, o olhar mudando novamente de infantil para predatório.

— Jack... a pequena Kyo vai dormir agora — sussurrou ela, sua voz tornando-se profunda e rouca. — Mas a sua esposa... ela quer que você a faça gritar o seu nome até o amanhecer.

Jack sentiu o sangue ferver. Ele a puxou para baixo de si, as sombras do quarto escondendo a luxúria que se seguia.

— Com prazer, Kyo. Com todo o prazer do mundo.

O contraste era a essência deles. Ouro e sangue, inocência e pecado, o mafioso e a menina. Naquele casamento arranjado, eles encontraram algo que nenhum dinheiro poderia comprar: a liberdade de serem exatamente quem eram, em todas as suas facetas mais obscuras e doces. E enquanto Jack a tomava com uma força que fazia as paredes da mansão parecerem frágeis, ele sabia que não importava o quanto o mundo tentasse separá-los, eles eram agora uma única alma, dividida entre o poder do império e a doçura de um urso de pelúcia.