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Amor de infância...

Território Marcado e o Sabor do Caos

O corredor da universidade estava lotado, um formigueiro de estudantes apressados, cheiro de café barato e o eco constante de conversas paralelas. No centro desse turbilhão, Faye Peraya caminhava com a confiança de quem sabia que todos os olhos estavam voltados para ela. Seus cabelos vermelhos eram como um sinal de alerta, uma chama vibrante que atraía olhares de admiração e desejo.

— Faye! Eu juro, você sumiu no fim de semana — disse Lux, uma garota loira do curso de Relações Internacionais, aproximando-se com um sorriso que beirava o predatório.

Faye parou, ajustando a alça da mochila no ombro. Ela lançou um olhar de soslaio para o lado, sentindo a presença sombria e constante de Engfa Waraha a poucos passos de distância. Engfa estava encostada em um armário, os braços cruzados sobre o peito, os óculos levemente baixos no nariz e aquela expressão de tédio mortal que escondia uma tempestade de impulsividade.

— Eu estava ocupada, Lux — Faye respondeu, sua voz carregada daquele sarcasmo habitual que parecia um convite, mesmo quando era um aviso. — Coisas de família. Ou quase isso.

— Sei... — Lux deu um passo à frente, diminuindo a distância. Ela estendeu a mão e tocou levemente o braço de Faye, os dedos deslizando pelo tecido da jaqueta. — Senti sua falta na festa de sexta. O lugar fica tão sem graça sem você para causar um pouco de caos. Poderíamos marcar algo só nós duas, o que acha?

Faye soltou um riso seco, pronta para dar uma resposta atravessada, mas não teve tempo.

O movimento foi um borrão. Engfa se desencostou do armário com uma agilidade que só anos de muay-thai proporcionavam. Antes que Lux pudesse processar o que estava acontecendo, Engfa já estava ali, invadindo o espaço pessoal de Faye de forma possessiva.

Engfa não disse uma palavra para Lux. Ela sequer olhou para a garota loira. Em vez disso, segurou o rosto de Faye com uma das mãos — a mão que ainda tinha as juntas levemente marcadas pelas brigas de rua — e a beijou. Não foi um beijo suave ou romântico; foi uma reivindicação. Um beijo profundo, carregado de língua e de uma agressividade controlada, feito especificamente para que todos no corredor soubessem quem pertencia a quem.

Lux recuou, chocada, o rosto ficando vermelho de constrangimento e raiva. Alguns estudantes pararam para olhar, sussurrando, mas Engfa não se importava. Ela só se afastou quando sentiu que o ponto havia sido provado, deixando os lábios de Faye levemente inchados e brilhantes.

— O que foi? — Engfa perguntou, finalmente olhando para Lux com um sarcasmo gélido. — Perdeu alguma coisa aqui?

Lux balbuciou algo ininteligível, lançou um olhar magoado para Faye e saiu apressada pelo corredor.

Faye soltou uma gargalhada alta, limpando o canto da boca com o polegar.

— Uau, P’Fa. Isso foi... intenso, até para os seus padrões de possessividade.

— Ela estava tocando em você — Engfa rosnou, ajustando os óculos e voltando a caminhar em direção ao prédio de Artes, onde Charlotte deveria estar terminando a primeira aula. — E o jeito que ela olhava... me deu vontade de quebrar algo.

— Admita, Fa — Faye disse, apressando o passo para ficar ao lado da amiga, provocando-a com um brilho travesso nos olhos. — Você ficou com ciúmes da Lux. Ela é só uma amiga, uma conhecida de festas. Não precisa marcar território como um bicho toda vez que alguém respira perto de mim.

Engfa parou abruptamente no meio do caminho, virando-se para Faye. O corte no canto de sua boca se repuxou em um sorriso perigoso.

— Amiga? Ela estava flertando descaradamente. Se eu não tivesse intervindo, ela estaria pedindo seu número em dois minutos.

— E se estivesse? — Faye deu de ombros, divertindo-se com a irritação da outra. — Eu sei lidar com isso. Você sabe que meu foco é outro.

— Talvez eu devesse contar para a Charlotte sobre esse "flerte" — Engfa retrucou, a voz carregada de ironia. — Sabe como a nossa coelhinha é sensível. Ela ia ficar tão triste em saber que a Faye dela está deixando outras garotas se aproximarem tanto...

O sorriso de Faye vacilou por um segundo. A menção a Charlotte sempre mudava o peso da conversa. Elas eram obcecadas por Charlotte, e a ideia de causar qualquer desconforto ou insegurança na mais nova era o único freio que Faye respeitava.

— Não precisa apelar para o baixo calão, Engfa — Faye disse, revirando os olhos, embora um sorriso cúmplice ainda estivesse lá. — Eu me afasto da Lux. Vou dar um gelo nela, se é isso que você quer. Não precisamos envolver a Char nisso. Ela já tem preocupações demais com as provas de anatomia.

Engfa assentiu, satisfeita.

— Ótimo. Porque se eu vir ela perto de você de novo, não vai ser um beijo que vai resolver.

— Você é um terror, sabia? — Faye se aproximou, sua voz baixando para um tom mais íntimo. — Mas eu gosto quando você fica assim... protetora.

Elas continuaram andando, a tensão entre as duas mudando de possessividade para um desejo latente que sempre existia quando Charlotte não estava por perto para equilibrar a balança. Ao passarem por um corredor mais vazio, perto dos banheiros do bloco C, Faye agarrou o pulso de Engfa e a puxou para dentro.

O banheiro estava vazio, o cheiro de desinfetante e cerâmica fria preenchendo o ar. Faye empurrou Engfa contra a porta, trancando-a com um clique sonoro.

— O que você está fazendo? — Engfa perguntou, embora sua mão já estivesse descendo para a cintura de Faye.

— Você começou o show lá fora, agora eu termino aqui dentro — Faye sussurrou, prensando o corpo contra o de Engfa. — Você me beijou na frente de todo mundo para marcar território. Agora é a minha vez de lembrar você de quem eu sou.

Faye atacou os lábios de Engfa com uma fome que combinava com a energia caótica que ela sempre carregava. Engfa respondeu na mesma moeda, as mãos apertando as coxas de Faye e a suspendendo contra a porta. O som dos beijos e da respiração ofegante preenchia o cubículo. Era uma dança de poder que elas conheciam bem; relativa entre elas, mas ambas submissas à ideia de Charlotte.

— A gente... a gente vai se atrasar para buscar a Char — Engfa murmurou entre um beijo e outro, embora não fizesse esforço algum para se soltar.

— Temos dez minutos — Faye respondeu, descendo os beijos para o pescoço de Engfa, encontrando aquele ponto sensível que a fazia estremecer. — Dez minutos para eu tirar esse gosto de ciúmes da sua boca.

Engfa soltou um gemido baixo, a cabeça pendendo para trás.

— Você é idiota, Faye.

— Sou a sua idiota favorita. E da Charlotte também.

Elas se perderam naquele emaranhado de línguas e toques possessivos por algum tempo. Para elas, o sexo e o afeto eram formas de descarregar a adrenalina que acumulavam protegendo Charlotte do resto do mundo. Era como se, ao se tocarem, elas estivessem reforçando o pacto que fizeram na infância: elas eram o exército, e Charlotte era o tesouro.

Quando finalmente se separaram, ambas estavam com as roupas desalinhadas e os cabelos bagunçados. Engfa limpou os óculos na barra da camisa, enquanto Faye retocava o batom, olhando-se no espelho riscado do banheiro.

— Pronto? — Faye perguntou, a voz de volta ao tom sarcástico. — A fera está domada?

— Por enquanto — Engfa respondeu, ajeitando a jaqueta. — Vamos logo. A Charlotte odeia esperar e eu não quero nenhum urubu cercando ela na saída da aula.

— Concordo — disse Faye, abrindo a porta e saindo primeiro. — Se alguém ousou oferecer um café para ela enquanto estávamos aqui, eu vou precisar de um novo par de sapatos, porque vou chutar alguém.

Elas caminharam até o prédio de Artes, a dinâmica de "guarda-costas" totalmente reestabelecida. Quando avistaram Charlotte saindo pelo portão principal, segurando alguns livros contra o peito e olhando ao redor com aqueles olhos doces e curiosos, o mundo pareceu desacelerar para as duas.

Charlotte as viu e abriu um sorriso radiante, acenando.

— P’Fa! P’Faye! — Ela correu até elas, o cabelo castanho-claro balançando levemente.

Engfa foi a primeira a alcançá-la, envolvendo-a em um abraço por trás, como sempre fazia. Ela enterrou o nariz no cabelo de Charlotte, sentindo o perfume familiar que acalmava todos os seus instintos violentos.

— Como foi a aula, coelhinha? — Engfa perguntou, a voz suavizando instantaneamente.

— Foi boa! Mas o professor passou um trabalho enorme em grupo — Charlotte disse, fazendo um biquinho adorável. — Alguns meninos da minha sala queriam que eu entrasse no grupo deles, disseram que podiam fazer a maior parte da pesquisa para mim.

O corpo de Engfa ficou tenso imediatamente. Faye, que estava chegando perto, estreitou os olhos vermelhos.

— E o que você respondeu, Char? — Faye perguntou, aproximando-se para beijar a bochecha de Charlotte, seu olhar percorrendo os estudantes que saíam atrás dela, procurando pelos "meninos" mencionados.

— Eu disse que já tenho meu próprio grupo — Charlotte riu, inclinando a cabeça para trás para olhar para Engfa. — Disse que minhas melhores amigas são muito inteligentes e que elas não me deixariam fazer trabalho com estranhos.

Engfa relaxou o aperto, um sorriso de satisfação surgindo em seu rosto.

— Muito bem. Você não precisa de outros grupos. Nós ajudamos você com tudo.

— Na verdade, a Engfa faz a pesquisa e eu compro a pizza — Faye brincou, pegando os livros das mãos de Charlotte para carregá-los. — Vamos para casa? O Phalo deve estar sentindo sua falta. E eu comprei aqueles doces que você gosta.

— E os morangos? — Charlotte perguntou, segurando a mão de Engfa enquanto caminhavam para o estacionamento.

— Nunca esqueceríamos os seus morangos — Engfa garantiu, lançando um olhar de aviso para um grupo de rapazes que olhou por tempo demais para Charlotte.

Enquanto caminhavam em direção ao carro de Engfa, o trio parecia uma pintura de contrastes: a agressividade contida de Engfa, o caos vibrante de Faye e a doçura radiante de Charlotte. Para quem as via de longe, eram apenas três amigas inseparáveis. Mas, para quem ousasse cruzar o limite invisível que Engfa e Faye haviam traçado ao redor de Charlotte, o aviso era claro.

Charlotte era o sol delas. E elas eram as sombras que engoliriam qualquer um que tentasse apagar aquele brilho.

Ao chegarem ao carro, Engfa abriu a porta para Charlotte com uma gentileza que reservava apenas a ela. Faye sentou-se na frente, já ligando o rádio e escolhendo uma música animada.

— P’Fa — Charlotte chamou, antes de Engfa fechar a porta.

— Oi, coelhinha?

— Seus lábios estão um pouco mais vermelhos que o normal — Charlotte comentou com um sorriso inocente, mas com um brilho de inteligência nos olhos. — E a Faye está com o batom borrado. Vocês estavam brigando de novo?

Engfa e Faye trocaram um olhar rápido.

— Estávamos apenas... resolvendo uma divergência de opiniões sobre território — Faye respondeu, piscando para Charlotte pelo retrovisor.

— Entendi — Charlotte disse, acomodando-se no banco. — Contanto que ninguém tenha quebrado o braço de ninguém hoje, eu aceito essa explicação.

Engfa riu, fechando a porta e dando a volta para o banco do motorista. O dia estava apenas começando, e enquanto elas tivessem Charlotte entre elas, o resto do mundo poderia queimar. Elas seriam as chamas e o escudo, para sempre.